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Código florestal estadual e os riscos que ele traz

Por Ulisses Capozzoli

A preocupação manifestada por ambientalistas quanto à lei ambiental aprovada nesta semana pela assembleia legislativa de São Paulo faz todo sentido, levando em conta condições intimamente associadas à estocagem de água indispensável para abastecimento de mananciais e alimentação de fontes como, rios, riachos e ribeirões.

O que está sendo chamado de Código Florestal Paulista, para diferenciá-lo das normas federais, foi aprovado na quarta-feira passada (11/12) e, na interpretação de pesquisadores ambientais, deve comprometer ainda mais a cobertura vegetal especialmente às margens de fontes, fluxos d’água e represas.

Teoricamente, a compensação pela redução de cobertura vegetal em determinadas áreas seria feita por adensamento de outras.

Ocorre, no entanto que, se isso satisfaz soluções legais, ˗˗ articuladas a partir de consensos e interpretações para mediar interesses ˗˗ não significa que funcionem na Natureza.

No dia seguinte à aprovação do código na assembleia, o governador do Estado, Geraldo Alckmin, defendeu as propostas e argumentou que a proteção de matas no sul de Minas Gerais, fundamentais para assegurar o abastecimento de Cantareira, por exemplo, é estratégico e justificaria o expediente de compensações.

Que a proteção de rios que vertem do sul de Minas Gerais para as bacias do Piracicaba-Alto Tietê são fundamentais para o abastecimento da cidade de São Paulo e de uma ampla porção do estado é indiscutível.

Mas essa não é a essência da discussão.

Até porque uma iniciativa não exclui a outra.

Equivale a dizer que preservar a cobertura vegetal em torno de nascentes e fluxos d’água do Sul de Minas Gerais, que abastecem São Paulo, não implica em fragilizar ambientes dentro das fronteiras paulistas e intimamente associadas à produção e oferta de recursos hídricos.

A crise de água potável que afeta o estado de São Paulo neste momento tem sido justificada, pelo tortuoso discurso político, como um desarranjo natural: a pior estiagem dos últimos 84 anos. Uma ocorrência fora do controle humano.

Um argumento como este pode satisfazer interlocutores pouco exigentes, dispostos aos argumentos da lógica fácil. Mas não basta para um raciocínio necessariamente mais amplo, sob pena de complicações adicionais numa situação que, por si só, já é complexa e altamente preocupante. 

Impactos previsíveis

Que o aquecimento global por gases de efeito estufa está produzindo alterações climáticas na Terra é uma situação que só um venusiano, que esteja chegando agora ao planeta, poderia alegar que desconhece. Mas que mudanças climáticas implicam, claramente, em redistribuição do regime de chuvas até mesmo nosso hipotético venusiano compreenderia sem dificuldades.

A questão, por trás de uma situação como essa, é que as administrações públicas conduzem o barco como faziam nossos antepassados, no século 18, quando se acreditava que o Sol pudesse ser habitado. A ciência continua restrita a certo exotismo, parte do noticiário da mídia e de um fazer acadêmico distante do real.

Nada que impacte a administração de uma cidade, estado ou País.

Daí o possível desconhecimento e o visível descaso com as previsões envolvendo mudanças climáticas.

Em países como os Estados Unidos, mesmo pequenas cidades vêm adotando cautelas e procedimentos para amenizar alterações climáticas relacionadas tanto à falta como excesso de chuvas ou outros fenômenos da Natureza.

Por aqui, no entanto, o assunto passa ao largo das preocupações.

Tanto assim que desmoronamento de terras em áreas de risco, alagamento de regiões previsíveis, incêndios em reservas estratégicas e outras ocorrências indesejáveis continuam como se fossem a vontade de Deus.

Se for acatado pelo governador, o conteúdo votado pela assembleia legislativa será um retrocesso do ponto de vista ambiental e uma ameaça o conjunto da sociedade. Uma bomba relógio prevista para explodir no futuro imediato.

Uma das mudanças indesejáveis previstas pelo código estadual é a redução do entorno de 50 metros das nascentes de rios para apenas 15 metros. O entorno mais amplo está previsto no Código Florestal federal.

Quanto à margem de rios, a mata ciliar tende a ter não mais que 5 metros de largura.

Matas ciliares, desde a truculência ambiental do regime militar, foram vistas como algo dispensável, um luxo de países ricos, ao longo da margem de rios.

Estudos de baixa qualidade técnica e ambiental chegaram a sugerir que matas ciliares sugariam água desses cursos, um efeito deletério para justificar sua eliminação.

Proteção subestimada

As matas ciliares, no entanto, como os cílios que protegem os olhos de humanos e outros animais, são indispensáveis.

No caso dos rios, têm, entre suas funções, proteção das margens, segurança contra assoreamento de leitos, alimentação de peixes e embelezamento paisagístico.

Para a burocracia de gabinete, no entanto, essas são condições dispensáveis. Como uma faixa adicional de terras, pretendem oferecer a produtores rurais um hipotético benefício, manobra típica dos chamados “homens práticos”.

A verdade, no entanto, e que, quando os rios reclamarem com violência as áreas que lhes pertencem por força da Natureza, os produtores rurais serão os primeiros afetados. As águas turbulentas levarão seus implementos, arrastarão o húmus de suas terras, invadirão suas moradias e os abrigos de seus animais.

Quando isso acontecer, os homens de gabinete responsabilizarão mais uma vez a imprevisibilidade da Natureza, os “acidentes naturais” e lavarão suas mãos com a tranquilidade de um hipócrita personagem bíblico.

A exportação dos reflorestamentos de São Paulo para outras áreas, o argumento de compensação ambiental votado pela assembleia, esconde uma carta na manga que observadores menos atentos não conseguirão enxergar.

É mais barato fazer isso fora de São Paulo e esta é a estratégia camuflada num discurso aparentemente coerente, prático e responsável. Mas que, na essência, é irresponsável, atrasado e contrário aos procedimentos da Natureza.

O projeto aprovado pela assembleia é de autoria do deputado Barros Munhoz (PSDB) e resultou de uma longa costura de interesses, em que cada ponto foi meticulosamente analisado.

Considerado à luz do aquecimento global, das mudanças climáticas e da crise atual de água potável, na cidade e estado de São Paulo ˗˗ fato, não possibilidade remota ˗˗ tem tudo para ser um movimento retrógrado, uma solução imediatista, não um procedimento que leve em conta o estado do conhecimento científico quanto à fascinante complexidade da Natureza. 

Nossos filhos e netos lamentarão por nós.

 

Mas aí pode ser tarde demais.



Escrito por blogdasciam às 15h20
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As dez conquistas astronômicas de 2014

Por Ulisses Capozzoli

Ainda que não se tenha encontrado um mundo sósia da Terra e nem feito contato com uma provável civilização alienígena entre as estrelas, a comunidade astronômica internacional comemora as conquistas feitas ao longo de 2014, que se esgota em menos de quatro semanas.

A principal revista internacional de divulgação astronômica, a americana Astronomy, traz, na edição de janeiro, as dez principais conquistas do ano e a primeira delas é a detecção de poeira liberada pela explosão de estrelas massivas, as supernovas.

Ao fertilizar o espaço interestelar com matéria pesada (praticamente toda a tabela periódica) a partir do hidrogênio, as supernovas geram matéria prima para a formação de estrelas de segunda geração, como o Sol, menores, potencialmente acompanhadas de colares planetários, que estão se formando ou vão se formar e, neste sentido, mundos para o eventual abrigo da vida.

Uma dessas fontes é a supernova 1987ª, na Grande Nuvem de Magalhães e a segunda, na Supernova 2010jl, na galáxia UGC 5189ª.

A segunda das dez descobertas é a identificação de placas tectônicas numa das Luas de Galileu (Europa) em torno de Júpiter.

Em Europa há o mesmo processo de subducção que ocorre na Terra e, aqui, produz tanto sismos, quanto atividade vulcânica e formação orogênica, ou seja, criação de montanhas.

Placas tectônicas da lua Europa

Observações em Europa revelam o mergulho de placas, uma sob a outra, como ocorre com a placa de Nazca, sob o Pacífico, que se desloca sob a placa Sul Americana, a balsa rochosa que abriga todo o território brasileiro.

O mergulho de Nazca sob a Sul Americana deu origem aos Andes que ainda continua crescendo, à medida que Nazca eleva a borda ocidental da placa Sul Americana.

Na terceira posição está o corpo eventualmente mais distante do Sol, em todo o Sistema Solar: o 2012VP, integrante do Cinturão de Kuiper, um anel de escombros que envolve o reino do Sol, a caminho da área de ação de outras estrelas próximas.

Em seguida vem a comemoração de medidas com precisão de 1% de galáxias remotas e por isso mesmo também distantes no tempo. Comparativamente a precisão equivale à medida entre Dallas e Austin, no Texas, de 300 km, com precisão de 3 km.

Na quinta posição aparece a detecção de ondas gravitacionais a partir de um observatório no polo geográfico sul que, se confirmadas por estudos que ainda estão sendo feitos, devem trazer avanços significativos na física, com perspectiva de abrir um caminho teórico para a sonhada unificação da gravidade e mecânica quântica.

Uma segunda lua do Sistema Solar, Enceladus, em Saturno, não deixou de surpreender ao revelar a existência de um oceano profundo abaixo de uma camada superficial rígida, mas formada por gelo.

O oceano de Enceladus já era suspeito há tempos mas, desta vez, observações feitas pela missão Cassini, em órbita do planeta dos anéis, reforça essa ideia.

Vida alienígena

Um oceano em Enceladus permite especulações sobre a possibilidade de formas de vida como as que existem em determinadas regiões polares da Terra e mesmo no interior de um lago selado pelo gelo, na Antártida, recentemente perfurado por pesquisadores russos.

O comemorado encontro da Nave Rosetta com o cometa 67PChuryumov-Gerasimenko, que fez descer na superfície do astro uma sonda (Philae) é a sétima conquista do ano na avaliação da Astronomy.

A sonda está em modo hibernação por não estar recebendo radiação solar que alimenta suas baterias solares. Mas ela já enviou uma enorme quantidade de dados para a Terra e espera-se que volte a operar à medida que se aproxima do Sol para fazer seu periélio, a máxima aproximação de sua órbita elíptica.

Na oitava posição aparece o buraco negro que se oculta no interior da galáxia M82 e que tem massa intermediária, estimada em 400 massas solares. No coração da Via Láctea, a galáxia que abriga o Sistema Solar, um buraco negro também se esconde e é muito mais massivo, com milhões de massas solares.

Neutrinos de fontes celestes

A nona comemoração, como a quinta, também vem de um experimento no pólo sul, no interior do continente antártico.

Um detector de neutrinos, partículas com quase nenhuma interação ‒ tanto que podem atravessar todo o corpo da Terra sem serem detidos ‒ foram identificados como originários de fontes celestes.

Relativamente próximo da Terra ‒ oito minutos luz de distância ‒ o Sol também é uma fonte de neutrinos, conhecidas como “partículas fantasmas” por sua baixa interação com a matéria.

Neutrinos atuam na fase final da explosão de supernovas e o papel que desempenham foi desvendado pelo físico brasileiro Mario Schenberg em parceria com o físico russo naturalizado americano George Gamow, batizado de Processo Urca, por analogia à velocidade com que se perdia dinheiro no antigo cassino da Urca, no Rio de Janeiro.

Já a décima posição é representada pela detecção de vapor d’água da superfície do asteróide Ceres ‒ o maior dessa família de astros, identificado, em 1801, pelo astrônomo italiano Giuseppe Piazzi, a partir do Observatório de Palermo, na Sicília, sul da Itália.

Ao contrário de corpos localizados no Cinturão de Kuiper, além da órbita de Netuno (a órbita elíptica de Plutão faz com que, temporariamente, ele penetre a órbita de Netuno) Ceres integra o cinturão de asteróides entre Marte e Júpiter.



Escrito por blogdasciam às 16h31
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A sobrevivência dos rios

Por Ulisses Capozzoli

Desde que a Organização das Nações Unidas (ONU) organizou uma conferência internacional pioneira sobre meio-ambiente ˗˗ em junho de 1972, em Estocolmo, na Suécia ˗˗ muita água passou sob as pontes que atravessam os rios da Terra.

Mas um volume enorme ainda deve fazer esse movimento antes que se tenha uma esperança mais palpável de que a proteção ambiental possa ter sensibilizado a sociedade humana para a necessidade de se preservar condições que, em essência, são indispensáveis à vida.

E isso, no único planeta conhecido, até agora, em toda a Galáxia, em que esse processo se manifesta com amplitude e diversidade impressionantes.

No encontro pioneiro em Estocolmo, os brasileiros ficaram constrangidos e envergonhados com a posição oficial exposta pelo então ministro do planejamento do governo militar, João Paulo dos Reis Velloso.

Em alto e bom som, o ministro trombeteou que o Brasil tinha rios à vontade para serem poluídos.

O que justificou uma posição que hoje entupiria as mídias sociais e eventualmente poderia colocar um ministro no olho da rua, por tamanho disparate?

Em 1972, a interpretação que os generais-presidentes tinham das preocupações ambientais derivava para a geopolítica de maneira estrábica.

Eles desconfiavam ˗˗ como desconfiavam de tudo e de todos ˗˗ que as preocupações ambientais eram uma estratégia maquiavélica de os países desenvolvidos para impedir o avanço das nações retardatárias.

O governo militar já havia se antecipado numa cruzada por iniciativas que hoje também seriam repelidas, como um programa de triste memória conhecido como Pro várzea.

Na versão original, essa iniciativa estimulou a retificação de inúmeros trechos de rios e ribeirões, sob o pretexto de impedir cheias periódicas e assim assegurar o uso de terras da calha fluvial para atividades econômicas ao longo de todo o ano.

Foi a ameaça de morte para inúmeros rios e ribeirões. Eles perderam suas curvas e com elas suas matas ciliares, suas belezas selvagens e seus remansos, onde cresciam as saborosas traíras (Hoplias malabaricus) e muitas outras espécies com preferência por águas calmas.

Retificados, com dragas mecânicas que expeliam fumaça como um animal raivoso, rios e ribeirões foram transformados, no curto período de meses, em regatões por onde as águas passaram a correr nervosas, apressadas em chegar das nascentes à foz, esvaziadas da geração da vida que cultivaram por séculos e milênios.

Com a redemocratização política, promessas apareceram e esperanças renasceram no horizonte em relação ao respeito sagrado às águas, reverência que recua à infância do homem e se estende aos fluxos que vertem por todos os rios do mundo.

E são particularmente pródigas no Brasil.

A mancha escura nas águas que apareceu na altura da cidade de Salto, no entanto, ˗˗ às margens do Rio Tietê, a 114 km de São Paulo, nesta semana ˗˗ traz de volta preocupações que nunca desapareceram, mas pareciam restritas a casos mais isolados.

No Tietê, porém, um dos rios mais importantes do Estado de São Paulo, entre outras razões porque é o fluxo que desliza pela capital, uma das megalópoles da Terra, ocorrências deste tipo não são incomuns. O que muda é a maneira como os desastres se anunciam.

Levantamentos feitos até agora não foram capazes de identificar a composição da mancha escura, ainda que ela tenha provocado uma mortandade de peixes, o bastante para demonstrar seu poder letal.

O envenenamento de um rio é o suicídio de uma sociedade.

Talvez nós, brasileiros, com território amplo e pródigo em água, ainda não tenhamos tido oportunidade de refletir sobre essa paradoxal obviedade.

Afinal, de onde se originam as lágrimas que vertem de nossos olhos, na alegria e na dor? Que origem tem o suor que brota de nossos corpos, numa tarde quente de verão? Com que o corpo de cada um de nós elabora o sangue que circula por nossas artérias e veias? De onde vem a água de nosso xixi?

Na maior parte dos casos vem das águas de um rio e isso é o bastante para dizer que a vida de cada um de nós depende da vida de um rio, ainda que isso possa parecer um discurso selvagem, remoto, como a dependência que tivemos dos cavalos para nos deslocarmos mais rapidamente que em uma caminhada a pé.

Talvez uma parcela das pessoas não esteja preocupada com isso, e, assim, dispostas a deixar “na mão de ecologistas”, responsabilidades que, aos olhos delas, parecem exageradas, talvez artificiais, ou ideologizadas.

Aos governos, em todas as instâncias ˗˗ municipal, estadual e federal ˗˗ cabe a responsabilidade de, não se arvorarem em serem os únicos responsáveis pela possível e necessária recuperação de rios, regatos, fontes e ribeirões.

Talvez a tarefa deles seja sensibilizar, com base em conteúdos de educação, o conjunto da sociedade para que possamos reaprender o respeito que nossos ancestrais cultivaram pelas águas puras que encontravam em uma infinidade de fluxos e eles vertiam dos mais diferentes pontos dos campos e das cidades.

Talvez, com a crise atual de abastecimento de água potável, tenhamos a oportunidade de um programa de educação pela vida, tomando por base o respeito e tributo sagrado às águas.

Cada garrafa plástica que for colocada num cesto de lixo e encaminhada para reaproveitamento será uma peça a menos entupindo as calhas de um curso d’água.

Claro, Pode parecer vergonhosamente simples. Mas isso não quer dizer que seja absolutamente dispensável.



Escrito por blogdasciam às 14h14
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O futuro anunciado pela missão Rosetta

Por Ulisses Capozzoli

O pouso da sonda Philae, na superfície do cometa 67P, na quarta-feira passada, define um antes e um depois, na história da astronáutica e, por extensão, da exploração espacial robótica.

A Philae, como o noticiário da mídia repetiu à exaustão, desde o pouso, é uma sonda liberada pela nave espacial europeia Rosetta, que homenageia a pedra angular da decifração dos hieróglifos egípcios.

Essa elucidação revelou para a história a dimensão e profundidade de uma cultura que, por intermédio da Grécia, está na base de praticamente tudo o que se pensa no Ocidente.

Do relativamente pouco que se conhece do primeiro filósofo grego, Tales de Mileto (624-543 a.C.), por exemplo, sabe-se que ele despendeu um período da vida em contato com sábios egípcios.

Como primeira sonda a pousar para uma longa exploração na superfície de um cometa, uma montanha ambulante vagando pelo Sistema Solar, submetida às leis da gravitação universal, a Philae já tem uma dimensão histórica.

É verdade que ela pode ter problemas a curto prazo, pelo fato de estar presa ao que seria uma espécie de penhasco, no corpo irregular do 67P, e isso possa comprometer tanto sua estabilidade como o abastecimento de energia solar.

A energia solar, em missões que não se destinam ao espaço profundo, é fundamental para o abastecimento de naves e sondas de investigação científica.  As missões a mundos ou regiões distantes tem como usina de força reatores nucleares e não antenas de captação de energia solar.

É o caso da missão New Horizons que, no próximo ano, chega a Plutão, seu alvo cósmico e, em parceria com o trabalho da missão Rosetta, tem como desafio decifrar os enigmas de um anel de escombros que envolve o Sistema Solar, o Cinturão de Kuiper.

Escombros de formação

O Cinturão de Kuiper, batizado em homenagem ao astrônomo holandês Gerard Peter Kuiper (1905-1973) quem previu sua existência, é o responsável pelo destronamento de Plutão, identificado no céu em 1930 pelo astrônomo amador americano Clyde Tombaugh (1908- 1997).

Isso ocorreu porque observações mais recentes, com uso de técnicas embutidas em telescópios mais avançados, permitiram saber que Plutão é apenas um dos corpos além da órbita netuniana, de tamanhos variados, que caracterizam o Cinturão de Kuiper.

O cometa periódico de nome complicado para os padrões ocidentais, Churyumov-Gerasimenko, abreviado para 67P, é, originalmente, um objeto do Cinturão Kuiper que, por efeitos gravitacionais complexos, foi atirado para o interior do Sistema Solar.

O 67P tem período orbital de 6,5 anos, o que significa dizer que, nesse período de tempo, tem tanto uma aproximação máxima do Sol (periélio) quanto um maior afastamento (afélio) em uma rota elíptica, o que sugere a forma de um anel achatado.

O próximo periélio do 67P ocorrerá em 13 de agosto de 2015. Isso quer dizer que, neste exato momento, ele se desloca em direção ao Sol.

A análise detalhada feita pela sonda Philae ˗˗ do porte de uma geladeira doméstica, no corpo do cometa ˗˗ combinada com observações e dados que serão enviados pela missão New Horizons levarão a uma reescrita da história do Sistema Solar.

As possibilidades, neste caso, são muitas e, ainda que possa parecer ficção científica à primeira vista, incluem, por exemplo a possibilidade de um quinto planeta, além de Júpiter, Saturno, Urano e Netuno, ter existido no Sistema Solar e ejetado para o espaço profundo, num violento jogo de bilhar cósmico.

Por que a humanidade despende recursos preciosos e enorme esforço intelectual para tentar desvendar, por exemplo, a história do Sistema Solar?

A resposta para uma pergunta como essa é, de certa maneira, desconcertantemente simples: porque somos humanos e talvez o que caracterize mais profundamente uma criatura humana é a insistência de fazer perguntas e repeti-las, a cada resposta.

Visão à distância

Espíritos práticos ˗˗ classificação simpática para gente que, em geral, tem dificuldade em enxergar a meio metro de distância do nariz, e tenta camuflar essa incapacidade com raciocínios tortuosos e bem pouco interessantes ˗˗ podem se perguntar para que interessa conhecer, por exemplo, a história do Sistema Solar. 

Para essa miopia intelectual seguramente é interessante lembrar questionamentos da pré-história da descoberta da eletricidade, quando os ancestrais dos homens de espírito prático também se perguntaram, com os ares de ceticismo de sempre: “mas, afinal, para que serviria isso?”

Para mentes abertas, que cultivam a dúvida, em lugar das certezas imutáveis, também vale a pergunta sobre o significado do conhecimento da história do Sistema Solar.

Mas, neste caso, a resposta é outra, tão bela quanto promissora.

Talvez, num futuro não tão distante, quando, numa espécie de versão científica da Arca de Noé estivermos nos preparando para uma mudança de mundos, buscando outro planeta, na órbita de um outro Sol, esse conhecimento poderá ser fundamental para a sobrevivência da humanidade.

Não uma humanidade distante, algo elusiva e sem nenhuma relação com cada um de nós.

Mas a humanidade formada por nossos próprios descendentes, carregando os genes e a curiosidade que hoje constroem nossos corpos e estimulam nossa imaginação.

Mesmo num caso aparentemente tão remoto como esse ainda estaríamos, de certa maneira, sendo um tanto objetivos e pragmáticos.

Ao homem, desde sempre, são necessários os sonhos, os projetos e as viagens e nada indica que, no futuro, as coisas possam não ser mais assim. 

 



Escrito por blogdasciam às 17h24
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Acidente atrasa viagens à Lua

Por Ulisses Capozzoli

 

O acidente com a nave aeroespacial suborbital SpaceShipTwo, que explodiu logo depois de se desprender de sua nave-mãe, a WhiteKnightTwo ˗˗ na tarde do 31 de outubro passado, em voo teste na California ˗˗, pode ter impacto na ocupação da Lua, ainda que esses dois fatos possam parecer distantes e sem qualquer relação, à primeira vista.

 A nave, desenvolvida para explorar o turismo suborbital, um voo balístico em que atinge uma altitude máxima ˗˗ em torno de 100 km, e volta a mergulhar rumo à superfície da Terra ˗˗ integra a primeira geração de naves para desmistificação do voo espacial, ainda que seu alcance se restrinja ao espaço suborbital, o que significa dizer, incapaz de levá-la à órbita da Terra como ocorria, por exemplo, com os aposentados ônibus espaciais.

 Por trás do argumento que abre esse artigo está a pergunta de um sem número de pessoas: se a Lua foi conquistada nos anos 60, e até 1972 recebeu uma viagem tripulada, por que uma nova geração de astronautas não põe os pés no satélite da Terra?

 A resposta a essa questão produziria mais que um livro e recuaria às profundezas do tempo, desde que o primeiro homem, evidentemente uma pura abstração, observou a moeda prateada da Lua escalando o céu e se perguntou quando um humano poderia tocá-la com as mãos.

 Essa proeza tomou forma dos vertiginosos anos 60, mais especificamente em 20 de julho de 1969, quando a tripulação da Apollo 11, formada por três astronautas, levou dois deles a pousar na Lua, enquanto um terceiro permanecia em órbita lunar, na nave de resgate que traria a equipe toda de volta à Terra.

 A pré-história do espaço

Mas o voo triunfal da Apollo 11 não teria existido se, em 12 abril de 1961, um astronauta, ou cosmonauta, como foi chamado na União Soviética, com a cara redonda e o sorriso fácil de um quase adolescente, não tivesse entrado em órbita da Terra e voado em meio ao que pareceu a boa parte de seus contemporâneos, viajado entre as estrelas.

Iuri Gagárin (1934-1968) quem anunciou do espaço que “a Terra é azul” metaforicamente abriu as viagens tripuladas para a Lua e, no futuro próximo, para Marte ainda neste século. Talvez num futuro apenas um pouco mais distante, eventualmente no século 22, para as bordas do Sistema Solar ou mesmo para um mundo em órbita de uma estrela vizinha.

 Mas, por que desistimos da Lua?

 A conquista da Lua, e este é um fato inequívoco, foi um feito de toda a humanidade, ainda que, circunstancialmente, tenha representado uma queda de braço entre a então União Soviética, líder do mundo socialista, e os Estados Unidos, líder do bloco capitalista.

 A principal razão de a conquista da Lua ser um feito de toda a humanidade está relacionada ao fato de a ciência ˗˗ corpo de conhecimento que inclui, por exemplo a astronáutica, a lei dos gases, dos movimentos e a gravitação universal, entre outros ˗˗ ser uma realização humana e não uma conquista uniliteral de qualquer nação.

 Circunstancialmente, no entanto, a conquista da Lua foi uma dura batalha para a demonstração da potencialidade de cada um dos hemisférios em que a Terra esteve dividida, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, quando duas bombas atômicas pulverizaram os corpos de pessoas, árvores, animais e mesmo de construções, em Hiroshima e Nagasaki, no Japão.

 Catástrofes inevitáveis

Os Estados Unidos sofreram vários revezes ˗˗ entre eles o incêndio que destruiu em terra e matou seus ocupantes ˗˗ da primeira unidade da nave Apollo I e levou a uma supersticiosa remuneração da série que conduziria várias tripulações à Lua.

Com os louros sobre a cabeça, os Estados Unidos convenceram o mundo de sua pretensa superioridade científica e industrial, obscurecendo as conquistas soviéticas que começaram com o voo do primeiro satélite artificial da Terra, o Sputnik I, em 4 de outubro de 1957 e, em seguida, o voo de Gagárin, além da viagem de uma primeira mulher ao espaço em torno da Terra.

 

Esgotada a exploração política, no entanto, não houve razões econômicas ou mesmo científicas para novas viagens à Lua, ainda que, ainda hoje, pairem dúvidas, por exemplo, sobre a origem do satélite natural da Terra. Sua massa comparativamente elevada, faz com que, em astronomia planetária, o sistema Terra-Lua seja interpretado como um surpreendente caso de planeta binário.

O que deve estimular novas viagens da Lua é justamente a poderosa e crescente indústria do turismo, incluindo o incipiente turismo espacial e, neste nicho, o papel de naves de voo suborbital. Depois disso virão as viagens lunares, inicialmente em órbita lunar e depois com pouso na superfície.

E naves como a SpaceShipTwo se encaixam como peças de um quebra-cabeça nesse movimento de avanço progressivo.

Alguém pode argumentar que o clube dos países espaciais foi ampliado pela China e Índia ˗˗ que enviou recentemente uma nave para Marte ˗˗ o que é verdade.

Mas não toda a verdade.

O que deve impulsionar mesmo o retorno da Lua são os lucros, a exemplo do que ocorre com bancos, hospitais e hotéis e bancas de jornais, cafés e sorveterias, entre um número quase infinito de empreendimentos na Terra.

Neste caso, naves como a SpaceShipTwo são uma espécie de precursores das caravelas, as embarcações que, ao longo do século 16, revolucionaram a arte da navegação com seus calados baixos e o chamado pano latino, que permitiu a navegação à bolina, ou seja, contra a direção dos ventos dominantes, entre outras características.

A destruição da SpaceShipTwo e a morte de um de seus dois pilotos ˗˗ o segundo deles saltou de paraquedas e se recupera de graves ferimentos em um hospital ˗˗ deve levar os desenvolvedores da nave e a empresa fabricante e revisões detalhadas para que um novo acidente não se repita.

E pode, também, deixar um pouco mais claro para a maioria dos que sonham com um voo, ainda que suborbital ˗˗ de onde se pode observar por uns cinco minutos a curvatura da Terra contra o abismo escuro do espaço-tempo ˗˗ sobre os riscos de uma viagem como essa.

A Terra vista de longe

E mesmo que esses novos exploradores endinheirados ˗˗ uma viagem dessas custa bem mais que uma contrapartida qualquer na superfície da Terra, levando em conta o curto período de duração ˗˗ não se preocupem com a própria vida, os governos devem impor limites de segurança de voo também para a esfera suborbital.

Acidentes como o da SpaceShipTwo, no entanto, são praticamente inevitáveis sob a lei dos grandes números. Isso significa dizer que, da mesma forma que ocorre com aviões, em meio a uma quase completa totalidade de voos bem sucedidos, um ou outro pode não chegar ao destino. Pode, por exemplo, desaparecer sem explicações na vastidão do Pacífico, como ocorreu com um voo da Malasyan Airlines.

O fato é que, em termos pragmáticos, apenas o turismo pode levar grupos humanos de volta à Lua. Isso significa que, se num primeiro momento eles ficarão precariamente abrigados em instalações polares, como ocorreu com a conquista e ocupação dos polos extremos da Terra, num segundo momento serão construídos hotéis e toda uma rede complexa, ainda que banal, para atendimento de viajantes.

Em nada eles lembrarão o que foram, num dia do passado, cosmonautas como o soviético Iuri Gagárin, ou astronautas como o americano Neil Armstrong, quem primeiro pisou o satélite natural da Terra.

Mas quem se importará com o passado?

Filhos ou netos das gerações que agora vivem na Terra, num dia do futuro observarão, da face visível da Lua, o disco azul da Terra contra o escuro profundo do espaço.

Eles certamente se emocionarão com a Terra em fase cheia ˗˗ exatamente como as fases da Lua ˗˗ inundando o espaço próximo com a luminosidade azul produzida por sua densa atmosfera.

Instalados em hotéis na face visível da Lua, nossos descendentes observação, com a ajuda de pequenos telescópios, as cidades iluminadas da Terra, acompanharão as centenas de tempestades que a cada dia desabam da atmosfera do planeta. Alguns deles poderão ser perguntar, sem encontrar respostas, como foi possível que toda a história da espécie humana tenha se reduzido, até aquele momento, ao globo azul flutuando  no espaço como um balão de gás, desses usados em festas de aniversário.



Escrito por blogdasciam às 18h21
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Redescoberta do Sistema Solar

 Por Ulisses Capozzoli

 Duas missões que já estão voando no espaço e chegam a seus alvos em janeiro e junho do próximo ano devem ampliar o conhecimento sobre a origem e evolução do Sistema Solar.

A primeira delas envolve a nave europeia Rosetta que, em 20 de janeiro, tem um encontro marcado com um cometa, o 67P/Churyumov-Gerasimenko (67P).

Se não ocorrerem imprevistos, a Rosetta, que já orbita o cometa desde 6 de agosto passado, deverá lançar uma sonda, a Philae, para atracar-se à superfície do astro e investigar seu comportamento à medida que se aproxima do Sol, na órbita elíptica dos cometas periódicos.

Lançada por um foguete Ariane, da base de Kouru, na Guiana Francesa, em 2 de março de 2004, a Rosetta é uma nave produtiva. Ela já investigou asteroides e fez uma visita a Marte, enquanto aguardava a aproximação do 67P/Churyumov-Gerasimenko para cumprir seu objetivo principal.

Em 2007 ela visitou Marte e da órbita desse planeta enviou imagens e outros dados para a Terra. Em setembro do ano seguinte sobrevoou o asteroide 2867 Steins e, em julho de 2010, investigou o 21 Lutelia.

Depois de passar 31 meses hibernando como um urso espacial, a Rosetta foi despertada pelo controle do voo, em Darmstadt, na Alemanha, em 20 de janeiro passado. Essa hibernação é importante para economia de combustível que garante as manobras que a nave deve executar para cumprir seus objetivos.

A Rosetta é uma homenagem à Pedra da Rosetta, descoberta em 1799 e que permitiu ao linguista francês Jean-François Champollion (1790-1832) decifrar os hieróglifos egípcios, com enorme impacto na investigação dessa antiga civilização que influenciou os gregos antigos e por isso mesmo está nos fundamentos da cultura do Ocidente.

Já o lander, a sonda da missão que pousará no cometa, é uma referência a ilha de Filas, no Rio Nilo, onde foi encontrado um obelisco que também forneceu dados para a que os hieróglifos pudessem ser decifrados.

 A New Horizons

A segunda missão, a New Horizons, da agência espacial americana, Nasa, deixou a Terra depois da Rosetta, em 19 de janeiro de 2006, para visitar Plutão e os componentes do Cinturão Kuiper, escombros da formação do Sistema Solar situados além da órbita de Netuno.

Referir-se a Netuno para precisar a localização do Cinturão Kuiper é algo frequente em astronomia planetária pois a órbita acentuadamente elíptica de Plutão faz com que, periodicamente ele invada a órbita de Netuno e faça desse mundo o mais distante em relação ao Sol.

Quando as duas naves foram lançadas, Plutão ainda era considerado um planeta, situação de que desfrutava desde que descoberto pelo astrônomo americano Clyde Tombaugh, em 1930, ao final de um exaustivo trabalho de manipulação fotográfica para localizá-lo contra o chamado “fundo fixo” de estrelas.

Pouco depois do lançamento da New Horizons, mais especificamente em 24 de agosto de 2006, no entanto, durante um encontro de membros da União Astronômica Internacional (UAI) Plutão foi rebaixado à condição de planeta-anão, categoria de que é parte também o asteroide Ceres, identificado em 1º de janeiro de 1801 pelo astrônomo italiano Giuseppe Piazzi, a partir do observatório de Palermo, na Sicília, sul da Itália.

Ao contrário de Plutão, no entanto, localizado na zona orbital que se confunde com o Cinturão Kuiper, Ceres se localiza no cinturão de asteroides entre as órbitas de Marte e Júpiter, bem mais próximo da Terra.

O que faz com que corpos localizados a diferentes distâncias do Sol, caso de Plutão e o cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko, sejam abordados num experimento estreitamente associados, por intermédio das missões Rosetta e New Horizons?

Os cientistas planetários apostam muitas fichas em que o cometa teve como origem essa região de escombros que envolve o Sistema Solar como uma primeira definição do que seria, convencionalmente, as fronteiras do Sistema Solar.

Região desconhecida

Depois do Cinturão Kuiper, onde muitos asteróides de porte significativos foram descobertos ao longo das duas últimas décadas, está localizada Nuvem Oort, um berçário de cometas que, eventualmente, por influência gravitacional de estrelas vizinhas podem mergulhar para o interior do Sistema Solar, numa única visita ou tomando forma de um cometa periódico, dependendo da órbita que desenhem no espaço.

Já antes da Nuvem Oort a influência do Sol mostra certa debilidade pela interação com a atividade de estrelas mais próximas, definindo a heliosfera.

As perguntas que os astrônomos planetários esperam responder com os dados enviados pelas duas missões podem praticamente redesenhar a configuração do Sistema Solar que vão desde a troca de posição de planetas a até a possibilidade de que um mundo que já integrou o Sistema Solar possa ter sido ejetado gravitacionalmente para o espaço profundo como resultado de um lance mais vigoroso de um bilhar cósmico.

Um artigo abordando o histórico e as perspectivas das duas missões, a Rosetta e New Horizons, integra a edição de dezembro de Scientific American Brasil, neste momento em fase de edição.

 



Escrito por blogdasciam às 14h54
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Libertação Animal

Por Ulisses Capozzoli

Tudo indica que a iniciativa de um grupo ambientalista de libertar uma centena de chinchilas ‒ num criadouro em Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo ‒ tende a ser cada vez mais frequente em relação a animais criados para retirada de peles ou mesmo experimentos de laboratório.

As chinchilas foram retiradas, domingo último, do criadouro Master Chinchila que, segundo a Frente de Libertação Animal (FLA), responsável pela ação, tem como um dos proprietários o argentino Carlos Perez, de 70 anos, presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Chinchila Lanígera (Achila).

Chinchila é um nome genérico para roedores da família Chinchillidae, nativa dos Andes sul americanos, com pelagem sofisticada e por isso mesmo apreciada para a produção de casacos sofisticados, com preços que chegam a R$ 70 mil.

A refinada pelagem da chinchila é pelo menos 30 vezes mais suave que o cabelo humano e sua alta densidade (20 mil pelos por cm²)  uma proteção ideal contra pulgas, entre outros parasitas que afetam animais na natureza.

Chinchilas são animais ativos e precisam de exercício constante e, como são curiosas e exploradoras, devem ser criadas soltas, em casa, ou em locais fechados, mas amplos. Elas são extremamente sociáveis e não suportam vida solitária.

No sítio em que eram criadas, em Itapecerica da Serra, no entanto, segundo relatos de membros da FLA, estavam confinadas em gaiolas de pequeno porte, superpostas, umas às outras, a elevadas temperaturas e com aeração inteiramente inadequada.

Os membros da FLA assumem uma atitude libertária e dizem que não podem esperar pela burocrática morosidade da lei, no caso da proteção animal.

Foi pela mesma razão que um grupo ambientalista libertou, em outubro do ano passado, cães Beagles, em São Roque, destinados a experimentos científicos, o que hoje divide também a comunidade de pesquisadores.

Muitos deles argumentam que boa parte das pesquisas já pode ser feita sem uso de cobaias animais, ainda que, em certos casos, isso ainda não seja possível.

Na indústria de cosméticos, no entanto, em que cobaias animais eram comuns, as práticas estão mudando rapidamente por exigência tanto de uma nova compreensão do ambientalismo, de que a proteção animal é parte, quanto do próprio mercado consumidor.

Libertação animal

Os defensores dos animais têm se inspirado na obra do filósofo australiano, Peter Singer, autor do livro Libertação animal, para iniciativas determinadas a por fim a tratamentos brutos e por isso mesmo indevidos a animais, como ocorre com as chinchilas, para a retirada de peles voltadas para a produção de artigos de luxo para humanos.

Pelo menos 200 chinchilas devem ter suas pelas arrancadas para a produção de um único casaco de peles.

A Assembléia Legislativa de São Paulo aprovou, em 17 de setembro passado, projeto de lei do deputado Feliciano Filho (PEN) para proibir a criação e manutenção de animais para a retirada de peles, que tem a resistência de Carlos Perez, do criadouro invadido.

Segundo ele argumentou em entrevista à Folha de S. Paulo, “30 mil chinchilas vão morrer por causa dessa lei”.

O projeto, agora, depende da posição do governador Geraldo Alckmin (PSDB) que tem até o próximo dia 28 para aprovação ou veto.

Perez entende que se o projeto do deputado Feliciano Filho for aprovado, a atividade de criação de chinchila “acabou”.

Já o governo estadual tem justificado que o projeto de lei está “sendo apreciado pelas áreas técnicas” das secretarias da Casa Civil e do Meio Ambiente.

O Brasil é um dos maiores produtores e já ocupa a segunda posição mundial como exportador de pele de chinchilas, superado apenas pela Argentina, segundo dados da Agência de Noticias de Direitos Animais (Anda).

Essa atividade foi introduzida aqui pelo próprio Perez, há mais de 30 anos. Agora a empresa dele disporia de 1.100 fêmeas e 214 machos reprodutores registrados.

 A empresa de Perez chega a abater cerca de 200 chinchilas diariamente, o bastante para a produção de três casacos de pele desses animais.

Os primórdios da exploração espacial foi uma época de uso intensivo de cobaias animais, ainda que essa seja uma parcela da historia camuflada no relato das conquistas.

Antes que Iuri Gagárin fizesse seu voo pioneiro, em abril de 1961, por exemplo, uma cadelinha de rua, da raça Laika, chamada “Crespinha”, foi encerrada numa nave e enviada para o espaço, com dados monitorados pelo controle do voo para acompanhar a reação do organismo de um mamífero nas condições inóspitas do espaço.

Crespinha teve uma morte lenta e sufocante e seu pequeno corpo foi carbonizado quando a nave que a transportava reentrou na atmosfera terrestre e foi destruída sob a forma de um meteoro.

O especialista russo responsável pelo envio dela ao espaço declarou, há alguns anos, que em hipótese alguma repetiria a iniciativa que teve no início dos anos 60.

Em seu livro, Libertação Animal, Singer argumenta que o histórico e sistemático desrespeito que temos para com os animais deriva do especismo, a idéia que parte dos humanos cultiva, de sermos uma espécie com direito de explorar todas as outras em nosso exclusivo benefício, conceito que, felizmente, está mudando rapidamente.

Um fato parece absolutamente claro: se não formos capazes de respeitar os animais, como respeitaremos a nós mesmos?

Até porque também somos animais, ainda que nos acreditemos racionais, mesmo que, muitas vezes,  isso possa ser profundamente questionável.



Escrito por blogdasciam às 18h13
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Flash no céu assusta população no Nordeste

Por Ulisses Capozzoli

Moradores de Pernambuco e outros estados do nordeste presenciaram, por volta das 22h20 da quarta-feira passada, um clarão rápido e intenso no céu que assustou ou surpreendeu muita gente. O efeito disso foi um quase congestionamento nas redes sociais.

O que teria acontecido?

No passado recente a explicação inevitavelmente incluiria discos-voadores ou outras explicações fantásticas. A divulgação crescente de ciência junto à sociedade, mesmo com deficiências significativas que permanecem, já ajuda na interpretação de fenômenos como de ocorrências naturais.

A partir dos relatos feitos, tudo indica que o brilho foi produzido por um corpo, um meteoróide, que mergulhou na atmosfera da Terra e produziu o brilho intenso, ainda que rápido, que em astronomia se chama meteoro.

Qual a natureza desse corpo?

Ele pode ser tanto remanescente do material que formou o Sistema Solar (poderia até ser originário de fora do Sistema Solar, ainda que essa hipótese seja mais remota) como restos de foguetes e satélites em órbita da Terra, ou seja: lixo espacial.

Durante a guerra fria, experimentos envolvendo destruição de satélites em órbita aumentaram o lixo orbital que se iniciou com a era espacial: estágios de foguetes desativados e, posteriormente, ferramentas e outros objetos deixados por astronautas flutuando em torno da Terra a uma velocidade em torno de 26 mil km/hora.

Se o meteoróide for natural, ou seja, não colocado em órbita por iniciativa humana, ainda pode ser tanto um pequeno bloco errante ˗˗ caso de um corpo desprendido da Lua, Marte ou mesmo Vênus, entre outras luas do Sistema Solar, por um impacto que pode ter ocorrido há milhares ou milhões.

Há uma boa possibilidade de que tenha sido um meteoróide componente da chuva de meteoros Orionídeos, que tem esse nome porque parece provir (por mero efeito de perspectiva) do interior da constelação de Órion que, naquele momento, começava a escalar o céu, no horizonte Leste.

As chuvas Orionídeos se estendem de 16 a 26 de outubro, com pico de intensidade entre os dias 20/21 de outubro e são produzidas por material liberado pelo famoso cometa Halley com órbita de 76 anos em torno do Sol.

Orionídeos têm média histórica de 25 meteoros/hora e mergulham na atmosfera terrestre à velocidade de 66 km/s. Isso equivale a dizer que, entre uma pulsação e outra do coração humano, os restos do Halley percorrem uma distância de 66 km.

Mas por que essas chuvas ocorrem periodicamente, em determinadas datas e tem, por exemplo, um pico de intensidade, ou seja, um momento em que se mostram particularmente ativas?

Na verdade, existem várias chuvas anuais de meteoros, associadas a determinados cometas. Mas o céu também pode ser riscado por um meteróide solitário, que produz um brilho luminoso (o meteoro) não necessariamente associado a um cometa.

Restos de cometas

As chuvas anuais, no entanto, têm essas origens e isso ocorre porque a cada aproximação que os chamados cometas periódicos fazem do Sol, em suas órbitas elípticas, sofrem aquecimento e isso dá início a uma reação química dos gases que formam esses astros. Essa reação pode produzir pequenos jatos de gases que atuam como pequenos foguetes. O fato é que, nesse processo, os cometas perdem massa sob a forma de uma esteira de detritos que deixam ao longo da órbita que percorrem em torno do Sol.

Cometas são “bolas de gelo sujo”, na clássica intepretação dada a esses astros pelo astrônomo americano Fred Whipple (1906- 2004). Assim, o desprendimento do material congelado também libera, ao longo da rota do cometa, poeira e corpos que podem ter porte um pouco maior que grãos de arroz ou milho.

No conjunto, esse material forma uma esteira de detritos que intercepta a órbita da Terra em torno do Sol. Então, quando a Terra cruza o rastro de lixo cometário, esse material mergulha e reage fisicamente com a atmosfera, produzindo os rastros luminosos, os meteoros. Se sobrevivem ao atrito e pousam na superfície da Terra esse material é chamado de meteorito.

Então, nesse caso, temos três situações frequentemente confundidas com o nome genérico de meteoro.

No primeiro caso, um corpo no espaço (meteoróide) que pode penetrar a atmosfera e produzir um rastro luminoso (meteoro) e que, se sobreviver ao atrito intenso com a atmosfera e pousar na superfície da Terra é um meteorito.

Meteoroides costumam ser destruídos em altitudes entre 80 a 100 km da superfície da Terra e “queimam” à medida que interagem com camadas atmosféricas mais densas, à medida que se aproximam da superfície do planeta.

O meteoróide, também chamado de bólido, que produziu a iluminação da noite no nordeste do Brasil não tinha massa significativa pois, neste caso, teria dado origem a uma onda de choque, percebida sob a forma de explosão. Foi o que aconteceu recentemente, com o meteorito que caiu na Rússia, estimado em 10 mil toneladas.

Provavelmente o bólido da quarta-feira no Nordeste teria algo como, no máximo, o porte de uma bola de futebol e seria de natureza rochosa e não metálica, como é o caso do mais famoso meteorito brasileiro, o Bendengó, ou Bendegó, exposto no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, e que já teve a visita de cientistas famosos, como Albert Einstein.



Escrito por blogdasciam às 16h24
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A epidemia de Ebola na África

Por Ulisses Capozzoli

A epidemia de ebola está fora de controle na Libéria, Serra Leoa e Guiné, na África Ocidental, com risco de espalhar por países vizinhos e produzir mortes que podem repetir a tragédia da Peste Negra, que varreu a Europa na baixa Idade Média.

A Peste Negra deixou um saldo impreciso de mortes, estimado entre 25 milhões e 70 milhões de pessoas.

Peste Negra é a designação popular para a pandemia de peste bubônica, infecção pulmonar produzida pela bactéria Yersinia pestis, transmitida aos humanos pela picada de pulgas, contaminadas pelo hospedeiro Rattus rattus, roedor conhecido no Brasil por nomes que variam de rato caseiro, rato de telhado e, na região nordeste, por gabiru.

Comparada ao Ebola, no entanto, mesmo a Peste Negra não era tão desafiadora.

Evidentemente que a disseminação da Peste ocorreu em um período em que antibióticos eram descobertas confinadas ao futuro.

Agora, no entanto, mesmo o sofisticado desenvolvimento ˗˗ tanto de diagnóstico, quanto de medicamentos e de infraestrutura ˗˗ fazem da epidemia africana páreo para os piores momentos do passado.

Ocorre, como mostram os pesquisadores Luciana C. C. Leite e Paolo M. de A. Zanotto, em artigo para a edição de novembro de Scientific American Brasil ˗˗ em fase final de conclusão neste momento ˗˗ que o vírus Ebola é um agente infeccioso sofisticado, do ponto de vista de propagação, com alta letalidade e transmissibilidade por semanas, mesmo depois da recuperação de pacientes sobreviventes.

Surtos anteriores de Ebola, que já se manifestaram na África, ocorreram em vilas e localidades isoladas, o que, de certa maneira, conteve naturalmente sua expansão. Neste momento, no entanto, ele se manifesta em grandes cidades, entre elas as capitais da Libéria, Serra Leoa e Guiné.

A escolha de imagens para a edição do artigo para Scientific American Brasil foi uma experiência incomum, nos últimos dias: corpos estirados pelas ruas, piras funerários improvisadas para cremação de mortos, famílias isoladas precariamente em instalações improvisadas, filas de mulheres em prece impotente, enquanto meninas, na luta diária pela sobrevivência, vendem sabonetes em bacias levadas à cabeça.

Inevitável a sensação de aperto na garganta e de impotência frente à dimensão da tragédia.

Dívida simbólica

A África, o berço da humanidade, segundo Darwin, é, também, há muito, o berço do abissal sofrimento humano, amplificado, de maneira dramática, pela eclosão da escravidão negra, em particular a partir do século 16.

Sem ajuda internacional a África sozinha será impotente em controlar a epidemia que, por enquanto, faz milhares de vítimas, ninguém sabe dizer exatamente quantos ˗˗ ainda que se fale de aproximadamente 7.500 mortos nestes três países.

O Brasil doou, até agora, perto de US$ 400 mil em ajuda financeira, mas essa é uma quantia praticamente simbólica e deve ser reforçada.

Até mesmo como compensação simbólica ˗˗ no sentido da preservação da vida e da dignidade humana ­ ˗˗ pelo tráfico despudorado que, durante séculos, sob as condições mais desumanas, fez de navios negreiros os barcos de cargas mais degradadas a cruzar o Atlântico.

A ajuda do Brasil ao combate de Ebola na África, no entanto, é também uma forma estratégica de defesa sanitária do território nacional.

Enquanto esse texto está sendo produzido, autoridades sanitárias, em Cascavel, no Paraná, investigam se uma pessoa que chegou da Guiné, com sintomas típicos do Ebola, é de fato um contaminado.

Se for o caso, exigirá isolamento e uma série de outros procedimentos para evitar que o Ebola comece a fazer vítimas também do lado ocidental do Atlântico.

Os Estados Unidos, mesmo com infraestrutura de saúde e de outros serviços de segurança mais sofisticados que o Brasil, já teve sua primeira vítima do Ebola: Eric Duncan, um liberiano que após amargar anos de desassistência em seu país, conseguir visitar o filho que emigrou, para acompanhar sua formatura na escola.

Duncan, que procurou socorro médico por iniciativa própria e foi mandado de volta para casa morreu em Dallas, no Texas e sua história acendeu a luz amarela de prevenção nos Estados Unidos.

Também a Espanha já tem uma tripla e dramática experiência com o Ebola: dois religiosos e a enfermeira que cuidou deles. Mesmo o cão que acompanhava essa agente de saúde, apesar dos protestos públicos, acabou sacrificado como providência para evitar que o Ebola se instale na Europa.

O que cada um de nós pode fazer para amenizar a sorte das vítimas do Ebola na África e evitar que pessoas ainda não contaminadas venham a ser vítimas da doença?

Talvez o mais indicado seja fazer contato com a organização Médicos Sem Fronteiras (MSF)  (www.msf.org.br) e oferecer a ajuda que julgar possível: mesmo uma pequena doação, em número significativo, pode fazer a diferença para milhares ou milhões de pessoas do lado de lá do Atlântico. 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por blogdasciam às 17h31
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Plutão voltar a ser um planeta

Por Ulisses Capozzoli


Oito anos depois de ser destronado da condição de planeta, Plutão, o mundo mais distante do Sol ˗˗ ainda que sua órbita acentuadamente elíptica faça com que periodicamente ele invada o interior da órbita de Netuno ˗˗ pode retomar seu antigo status.

Ao menos é o que pretende o Harvard-Smithsonian Center for Astrophysics (CfA), entidade que nasceu em 1973 de uma parceria entre a Smithsonian Institution e a Harvard University com sede em Cambridge, no estado de Massachusetts, no nordeste dos Estados Unidos.

Quem anunciou a disposição de trazer Plutão de volta ao colar planetário, em lugar de relegá-lo à condição de planeta-anão, o que significa colocá-lo no grupo de objetos transnetunianos, foi a responsável pelas relações públicas do CfA, Christine Pulliam.

Desde a mudança, ocorrida em 2006, durante uma reunião da União Astronômica Internacional (IAU, na sigla em inglês) em Praga, na Eslováquia, essa iniciativa não foi completamente digerida pela comunidade astronômica. Em especial pela comunidade astronômica americana.

As razões por trás dessa resistência são basicamente duas, ainda que não se restrinjam a esse número.

Uma delas está relacionada a certo prestígio nacional. Foi um astrônomo amador americano, Clyde Tombaugh (1906-1997), quem identificou num processo manual, a posição de Plutão, em 1930, ao final de uma longa peregrinação pelo céu.

A segunda resistência vem da equipe americana ligada à missão New Horizons que chega a Plutão em 2015 e é a primeira a visitar esse mundo gelado e distante, até agora apenas investigado com a ajuda de telescópios de superfície ou orbitais.

Mas há outros argumentos, entre eles o apresentado pelo astrônomo planetário e historiador da ciência, Owen Gingerich, que presidiu o comitê de definições de planetas da IAU.

Conceito cultural

Gingerich argumenta que “planeta é uma palavra culturalmente definida que muda com o tempo”, para defender a condição planetária de Plutão que precisa de 248 anos para completar uma volta em torno do Sol.

Isso significa que um ano de Plutão equivale a 248 anos terrestres.

Com Caronte, sua lua principal e pelo menos mais quatro satélites naturais descobertos mais recentemente ˗˗ Nix e Hidra, identificadas pelo Telescópio Espacial Hubble, em maio de 2005 e Cérbero e Estige, identificados em 2011 e 2012 ˗˗ gira em torno de seu eixo com inclinação de 120 graus, contra os aproximadamente 23,5 graus da Terra.

“Como a IAU considerou Plutão na condição de planeta durante tanto tempo e então decidiu rebaixá-lo à categoria de planeta-anão em 2006?” questiona Gingerich, para quem o que ocorreu foi uma manobra caracterizada por “abuso de linguagem” na tentativa de definir o que é um planeta.

Gareth Williams, diretor associado do Minor Planet Center, discorda de Gingerich e apóia o destronamento de Plutão com base em argumentos de que planetas são “corpos esféricos que orbitam o Sol e limparam seu caminho”.

Já Dimitar Sasselov, astrônomo de origem búlgara e diretor da Harvard Origins of Life Initiative, argumenta que “um planeta é a menor massa de matéria esférica que se forma ao redor de estrelas ou restos estelares” definição que, no entender dele, devolve o status retirado há oito anos de Plutão.

A forma esférica de corpos celestes resulta de sua massa, que produz um campo gravitacional capaz de fazer com que cada ponto em sua superfície esteja à mesma distância do centro.

Ainda que a rotação desses corpos deforme ligeiramente essa esfera e possa fazer dela um oblóide, como ocorre com a Terra, ou seja, uma esfera ligeiramente achatada no equador, devido às forças centrífugas de um corpo em rotação.

A história do Lowell Observatory

Devolver a Plutão sua condição de planeta talvez conforte os mais saudosistas sem, com isso, comprometer a terminologia científica. Até porque a limpeza orbital a que muitos deles se referem não ocorreu de forma completa em relação à Terra, por exemplo.

Além disso, Plutão foi identificado a partir do Lowell Observatory, em Flagstaff, no Arizona, criado por Percival Lowell (1855-1916), um dos entusiastas da vida inteligente em Marte.

Lowell foi um determinado defensor da ideia deturpada de uma consideração feita originalmente pelo astrônomo italiano Giovanni Schiaparelli (1835-1910) sobre canais artificiais na superfície marciana.

No Lowell Observatory esteve, na condição de diretor, outro astrônomo injustiçado pela história da ciência: Vesto Merlin Slipher (1875-1969) o verdadeiro autor da ideia da expansão do Universo, comumente atribuída a Edwin Powell Hubble (1989-1953).

Na verdade, Hubble se deu conta dessa possibilidade numa palestra feita por Slipher em que esteve presente e, em fins dos anos 20, fotografou o que foi chamado de “fuga das galáxias”, na companhia de Milton Humason (1891-1972).

Humason foi um antigo tropeiro que transportou cargas para a construção do Observatório de Mount Palomar, convertido por talento e prática em um “fotógrafo das estrelas”. 



Escrito por blogdasciam às 12h48
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Índia comemora chegada a Marte

Por Ulisses Capozzoli


A Índia anunciou, nesta quarta-feira, o sucesso de sua primeira missão a Marte, com objetivo de vasculhar a atmosfera do planeta em busca de possíveis formas de vida.

Que a Índia tenha sido capaz de enviar uma missão com sucesso ao planeta vizinho da Terra não chega a surpreender.

A surpresa, neste caso, é o baixíssimo custo da missão: US$ 74 milhões.

Para efeito de comparação a missão mais recente da Agência Espacial Americana, Nasa, que chegou a Marte na última segunda-feira custou dez vezes mais.

A sonda Mangalyaan (veículo de Marte) já enviou as primeiras imagens do planeta e com isso infla o orgulho das autoridades do país.

A mídia local está comemorando a missão interpretada como “realização histórica” e o jornal Hindu divulgou que a Mangalyaan já enviou cerca de dez fotos que mostram crateras na superfície vermelha de Marte.

O governo diz que as “fotos são de boa qualidade”, ainda que as cópias distribuídas não deem exatamente essa impressão.

De qualquer maneira, essa é a primeira vez que uma missão atinge seu objetivo numa viagem inaugural. Mas, aqui, várias considerações devem ser levadas em conta. Entre elas o fato de, apesar de estar debutando no espaço, a Índia, evidentemente, ter se beneficiado de dados e experiência de outros países para ter sucesso imediato.

A missão robótica levou dez meses para cruzar o espaço que separa Terra e Marte, em torno do Sol, em torno de 200 milhões de km.

Considerando o Sol como referência, a distância Terra/Marte, nos momentos de maior aproximação, é menor que 70 milhões de km.

Para “interceptar” Marte no espaço, girando em torno do Sol, no entanto, uma missão como essa deve percorrer um caminho mais longo.

Até agora, apenas a antiga União Soviética, Estados Unidos e União
Européia haviam enviado uma missão a Marte.

Começaram juntos

O fato significativo é que os programas tanto da Índia, quanto da China e do Brasil começaram no mesmo ano: 1961, estimulados pelo voo do primeiro cosmonauta, o soviético Iuri Gagárin (1934-1968).

Quanto dinheiro foi gasto no programa espacial brasileiro, é uma conta que, até agora, ninguém sabe fazer. Mas não foi pouco.

E, ainda assim, não conseguimos viabilizar nem mesmo um veículo lançador de satélites e esse deve ser motivo para alguma reflexão sobre investimento de recursos públicos, não por um governo, mas por vários governos, incluindo o governo militar.

Burocracia, inoperância e desencontros à parte, o programa espacial brasileiro foi sensivelmente afetado pela decisão dos militares, durante o regime autoritário, de construir uma bomba atômica e desenvolver um míssil capaz de transportá-la para alvos então determinados.

O projeto da bomba atômica foi abandonado no governo Collor com o lançamento de uma simbólica pá de cal num poço para experimentos, cavado na rocha viva, na Serra do Cachimbo, nas profundezas do Brasil Central.

E essa talvez seja uma das poucas memórias positivas daqueles tempos desencontrados.

A situação do programa espacial ficou particularmente complicada com a guerra no Golfo Pérsico, quando o governo brasileiro vendeu mísseis e outros armamentos, como tanques, granada e munição, ao então dirigente iraquiano Saddam Hussein.

Os países do chamado clube espacial vetaram a transferência de tecnologias sensíveis ao Brasil e com isso o programa espacial ficou severamente afetado.

Outro ponto negativo foi o fato de a área militar não ter conseguido viabilizar lançadores mais modestos e que deveriam culminar num foguete capaz de levar em órbita alta (36 mil km) um satélite de comunicações em órbita geoestacionária (um ponto aparentemente fixo sobre a Terra).

A explosão de um foguete na rampa de lançamento no Centro de Lançamento de Alcântara, no Maranhão, em 22 de agosto de 2003, foi outro fracasso que minou autoconfiança e comprometeu cronogramas.

O que o Brasil fez, com comemorações, ingênuas de um lado e suspeitas de outro, foi enviar um astronauta ao espaço.

Brilho efêmero

O astronauta brasileiro teve o brilho de um vagalume e se apagou em seguida. Não por demérito do astronauta em si, o tenente-coronel da FAB, Marcos Pontes, que voou numa missão paga à Rússia, em março de 2006.

A ideia de um astronauta brasileiro apareceu no governo de Fernando Henrique Cardoso para dar ares de modernidade ao país.

Mas país nenhum do mundo desenvolveu um único astronauta e a razão para isso é elementar: se no dia do voo ele tivesse, por exemplo, uma disenteria, a missão estaria condenada.

Daí a necessidade de uma equipe de astronautas, como ocorreu na União Soviética, já  com o voo de Gagárin, em abril de 1961.

Pelo menos US$ 30 milhões, em valores não atualizados, foram gastos exclusivamente com o astronauta, que viajou até a Estação Espacial Internacional durante o governo Lula.

O que ocorreu, neste caso, foi apenas mais um episódio de uma queda de braços que volta a se repetir nestas eleições presidenciais: FHC articulou a ideia de um (único) astronauta.

Como o dinheiro já havia sido majoritariamente gasto nos treinamentos do candidato, na Nasa, Lula decidiu mandá-lo para o espaço para não ser rotulado de, digamos, “anticientífico” ainda que os experimentos de Pontes não tenham ido além das clássicas experiências de fazer brotar feijão em algodão embebido em água, usuais no ciclo básico, já à época em que Gagárin circunavegou a Terra.

Além da Índia, que comemora o êxito de sua missão em Marte, a China desenvolveu um complexo programa espacial que incluiu sondas enviadas para a Lua e a colocação em órbita de uma estação espacial chinesa.

Ou seja, dos três países que começaram sua missão espacial no mesmo ano em que Gagárin fascinou o mundo, China e Índia foram em frente e comemoram suas conquistas.

O Brasil continua no solo. As desculpas para justificar a razão de não termos ido em frente são as mais amplas e variadas que se pode imaginar, incluindo razões de natureza geopolítica.

Esse ritmo marca, de alguma maneira, a evolução da ciência no Brasil.



Escrito por blogdasciam às 17h36
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Primavera começa na noite de segunda-feira

Por Ulisses Capozzoli 

Exatamente às 23h29 (horário de Brasília) da próxima segunda-feira teremos o equinócio de primavera, quando o Sol ˗˗ em seu deslocamento aparente em relação ao equador ˗˗ deixa o hemisfério norte e inicia o mergulho no sul até o deslocamento máximo nesse sentido, definido pelo solstício de verão, em 21 de dezembro.

Deslocamento aparente do Sol refere-se a um movimento  que, como o próprio nome diz, é apenas aparente, pois é produzido por duas situações básicas: a inclinação do eixo de rotação da Terra, de aproximadamente 23,5 graus e o deslocamento (translação) da Terra em torno do Sol.

Os limites desses deslocamentos aparentes são definidos pelos trópicos de Câncer, ao norte, e Capricórnio, ao Sul.

Por que a Terra tem essa inclinação de seu eixo de rotação, enquanto em outros planetas essa referência é tão mais acentuada? Vênus, por exemplo, praticamente gira de cabeça para baixo.

Respostas a perguntas como essa, aparentemente simples, não são tão simples assim, ainda que se possa especular que, por exemplo, o choque de um corpo com a Terra no passado remoto foi o responsável por isso.

A esse impacto também é atribuída a origem da Lua. O corpo impactante, do porte de Marte, teria arrancado uma porção da Terra que voltou a se coalescer no espaço e formou a Lua.

E o surpreendente é que, desde então, a Lua tem atuado tanto como um estabilizador do movimento da Terra ˗˗ uma espécie de âncora cósmica ˗˗ e também como um escudo.

Parte de bólidos vindos do espaço profundo e que teria como destino a Terra foi barrada pelo escudo lunar e isso pode ter mudado a história da vida no planeta.

Mas a própria inclinação do eixo de rotação terrestre, produzindo as estações do ano, também influenciou profundamente o desenvolvimento da vida no planeta. E isso foi significativo no processo de espalhamento da população humana desde épocas muito distantes.

As estações do ano transformam radicalmente a superfície do planeta, cobrindo de gelo e neve determinadas áreas durante o inverno, enquanto a outra fica livre dessas formações e, à medida que as estações se alternam, essas situações se alternam.

Animais, como ursos, hibernam durante os longos invernos do norte (não há ursos na Antártida, entre outras razões pelos efeitos do isolamento do continente, ao contrário do que ocorre no Ártico).

A influência no deslocamento de populações humanas deve ter ocorrido a partir de populações de caçadores-coletores, antes da fundação da agricultura, há 12 mil anos, no chamado Crescente Fértil que inclui áreas do Oriente Médio.

A escassez de chuvas no inverno, e a abundância delas, com pastagens verdes e nutritivas, levou a ainda leva animais a migrações, como ocorre na África. E atrás dos rebanhos de gnus e outros animais seguiram grupos humanos de caçadores.

Isso tudo significa que, sem a inclinação do eixo de rotação da Terra, a história da vida no planeta seria inteiramente distinta da que conhecemos hoje.

Referências como essa devem estimular a reflexão quanto a uma série de outras situações, entre elas o período de evolução de estrelas com a massa do Sol, que condicionam a vida como conhecemos.

 

A maior parte das pessoas, no entanto, aparentemente vive apressada e desvinculada das relações com a Natureza o suficiente para sequer desconfiar de como, o que parece apenas um detalhe, pode ser profundamente significativo para a vida.



Escrito por blogdasciam às 14h18
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Surpresas de uma chuva de meteoros

 Por Ulisses Capozzoli

 

Se você gosta de observar o céu, mesmo a olho nu, mas não tem programação, nem uma ideia clara do que observar, aqui vai uma dica. E com algum tempo de avanço, exatamente para você poder se preparar.

Em 17 de novembro próximo ocorre o pico de intensidade da chuva de meteoros Leonídeos, conhecida por esse nome porque parece emergir do interior da constelação zodiacal do Leão.

Leonídeos é a chuva de meteoros ˗˗ essas chuvas são popularmente conhecidas como “estrelas cadentes” ˗˗ mais importante do ponto de vista da astronomia meteorítica. Entre outras razões porque foi a primeira observada cientificamente. E quem fez isso não foi um astrônomo, mas o geógrafo, naturalista e explorador alemão Alexander von Humboldt (1769-1859).

Foi ele quem se deu conta, ao menos para os registros científicos, que essa chuva produzida por material liberado no espaço pelo cometa Temple-Tuttle, provém do interior da constelação do Leão.

Na realidade, as coisas são ligeiramente diferentes.

 Leonídeos e outras chuvas não emergem exatamente de um ponto do céu, agora chamado radiante. A sensação de que isso ocorre deve-se a um efeito de perspectiva para um observador na superfície da Terra.

O que ocorre de fato é que as chuvas de meteoros são produzidas por meteoroides, corpos que circulam pelo espaço e que podem ter, do porte de um grão de arroz ou menos, até vários quilômetros de diâmetro. Ainda que um corpo de grande porte neste caso seja, frequentemente, referido como asteroide.

Como um cometa libera material no espaço?

Cometas, na definição do astrônomo americano Fred Whipple (1906-2004) não passam de “bolas de gelo sujo”. Assim, cada vez que se aproximam do Sol em suas órbitas elípticas (como um anel achatado) se aquecem e experimentam reações químicas em seu interior.

As reações químicas, por estímulo térmico do Sol, produzem efeitos interessantes no corpo de um cometa.

Um desses efeitos é a formação de jatos de gases, atuando como se fossem pequenos foguetes, que podem, por exemplo, influir na rotação do cometa.

Sujeira dos cometas

As reações também liberam partículas sólidas, que podem ser blocos maiores ou os grãos de poeira cósmica do porte de um grão de arroz, por exemplo. É esse material que entra na atmosfera da Terra à velocidade (chamada velocidade cósmica) de 72 km/s e, reagindo com os gases atmosféricos, deixa rastros luminosos a elevações em torno de80 km/s, os chamados meteoros.

Então, para dissiparmos uma confusão muito frequente, temos três termos para distinguir uma coisa da outra e que, quase sempre, são confundidas:

Meteoro é a luz produzida por um meteoróide que entra na atmosfera da Terra. Se o meteoroide, após produzir um meteoro (o risco luminoso), sobrevive ao atrito e pousa na superfície, então temos um meteorito.

As pessoas se perguntam se um dia desses vamos ser atingidos por um bólido vindo do espaço profundo em alta velocidade.

A resposta é que isso acontece o tempo todo. A diferença está no porte desses bólidos. Em vez de um corpo do tamanho de um ônibus médio, como o que caiu recentemente na Rússia, somos atingidos por objetos menores: coisas que variam de um pedregulho aos, mais frequentes, grãos de areia cósmica.

As estimativas são de que, a cada ano, pelo menos 100 mil toneladas de material pousam na Terra vindo do espaço profundo. E não incluem apenas meteoróide.

Cometas, que normalmente abrigam reservatórios congelados de água, também podem liberar blocos que mergulham na atmosfera, onde são vaporizados. E isso significa que, a cada dia, recebemos um pouco mais de água na Terra.

Ocorre que a Terra também perde água para o espaço.

Como isso ocorre?

Certos tipos de nuvens, de elevadas altitudes, sofrem bombardeio intenso de radiação ultravioleta do Sol. Com isso, moléculas de água são fotodissociadas, ou seja, tem suas ligações atômicas entre dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio (H20) quebradas. Com isso temos os dois átomos de hidrogênio e um único de oxigênio liberados em suas formas atômicas.

Como oxigênio é mais pesado, mergulha em direção à superfície da Terra, por atração gravitacional. Já o hidrogênio, levíssimo, voa para o espaço e forma uma cabeleira que se estende até as proximidades da órbita da Lua.

Perdas compensadas

Então, a água que chega, trazida por cometas, de alguma maneira compensa a água perdida por fotodissociação em nuvens de elevada altitude.

Água é algo abundante no Universo. E mais que isso: a água se formou muito precocemente no Universo.

Como isso aconteceu?

Aconteceu quando as estrelas, depois de produzir oxigênio (a partir de hidrogênio) na chamada síntese dos elementos químicos, liberaram em meio a uma enorme explosão de supernova todo esse material no espaço.

O que a Natureza faz, por atrações físico-químicas, é compor átomos de hidrogênio e oxigênio e formar água. Enorme quantidade de água, elemento fundamental para a vida como é conhecida na Terra.

Agora, duas outras considerações que podem influenciar você na observação de Leonídeos.

Antes disso, talvez seja interessante dizer que, para observar essa chuva, basta sair da iluminação urbana. Forrar o chão com uma lona ou plástico para se proteger da picada de insetos e deitar com os olhos voltados para a posição nordeste.

Antes mesmo que o Leão fique muito elevado no céu você verá os meteoros associados a essa chuva.

Leve uma câmara fotográfica e deixe o diafragma aberto em direção ao radiante da chuva. Toda vez que um ou mais meteoros passarem, mude para a próxima gravação.

Com o diafragma aberto você gravará o movimento das estrelas produzidos, na verdade, pela rotação da Terra. Em meio ao rastro das estrelas você terá um ou mais meteoros.

A última vez em que Leonídeos se manifestaram com abundância foi em 1999, logo em seguida ao periélio (passagem próxima ao Sol) do cometa Tempel-Tuttle. O cometa, agora, está se aproximando do seu afélio (o máximo distanciamento do Sol) de onde inicia mais um retorno para o periélio.

E, agora, a revelação que adiamos, algumas linhas atrás, com suas considerações:

A primeira é que a quase totalidade de água da Terra foi trazida para cá por cometas que se chocaram com o planeta.

A segunda leva em conta que aproximadamente 60% da massa do corpo humano é formada por água.

A essa altura você já deve ter chegado à conclusão de que a maior parte do seu corpo já foi cometa no passado. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por blogdasciam às 16h51
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Uma nova visão do céu

Nova medida de superaglomerado galáctico amplia em 100 vezes volume dessa estrutura cósmica

 Por Ulisses Capozzoli     


O novo mapeamento cósmico referente ao superaglomerado galáctico de que faz parte a Via Láctea, a estrutura que abriga o Sistema Solar em um de seus braços (braço de Órion), surpreende, tanto pela capacidade humana de mensuração do Universo quanto pelo abismo de espaço-tempo em que estamos encerrados.

O trabalho, originalmente publicado na revista científica Nature (grupo de que Scientific American é parte) está reproduzido neste site acompanhado de animação para que os leitores tenham ideia do que se trata.

O super aglomerado galáctico a que a Via Láctea pertence, e que até então era conhecido como Super Aglomerado de Virgem, segundo essas novas medidas, tem volume 100 vezes superior ao que se pensava. Ao se darem conta dessa dimensão, os cosmólogos envolvidos com o trabalho, liderados por Brent Tully, da University of Honolulu, batizaram a estrutura de “Laniakea”, palavra havaiana para “paraíso incomensurável”.

Assim, Laniakea é a segunda instância de grandeza envolvendo a Via Láctea que tem sua estrutura de perfil observada no céu, especialmente em noites sem luz da Lua, como um fluxo luminoso de luz branca conhecido como Caminho de Santiago ou simplesmente Via Láctea.

A visão noturna do perfil da Via Láctea faz com que ela lembre um gigantesco ovo frito, observado de perfil.

A primeira instância é o chamado Grupo Local, um conjunto de galáxias com centro de gravidade comum que reúne aproximadamente 40 dessas estruturas, incluindo galáxias satélites da Via Láctea, como as Nuvens de Magalhães, visíveis nas proximidades do Cruzeiro do Sul e nossa vizinha mais próxima, Andrômeda, a 2,3 milhões de anos-luz.

Essa distância significa que, a luz de Andrômeda que pode ser visível mesmo a olho nu, em condições muito favoráveis, e mais facilmente observada com um telescópio de pequeno porte, deixou o corpo dessa galáxia a 2,3 milhões de anos e desde então viaja pelo espaço que separa essas duas estruturas vizinhas no espaço-tempo.

No caso da Via Láctea, o Sistema Solar se encontra a aproximadamente 30 mil anos-luz do núcleo galáctico, o meio da gema em nosso hipotético ovo frito, e a 20 mil anos-luz da borda galáctica, a extremidade do ovo considerado.

Densidade do núcleo

No centro galáctico a densidade estelar é maior e os processos astrofísicos mais acelerados.

Pode ser apenas sorte, mas provavelmente deve-se a razões mais restritas, o fato de estarmos localizados no braço de Órion, região menos turbulenta do ponto de vista de evolução estelar, com menor concentração de gás que a região central.

A densidade estelar, que acelera processos interativos, faz com que a morte ou fusão de estrelas disparem fluxos poderosamente destruidores de energia, entre eles radiação gama, a mais ponte fonte de radiação eletromagnética.

O reconhecimento de galáxias como aglomerados de vaga-lumes cósmicos ˗ as estrelas que formam essas estruturas ­˗ deslocando-se umas em relação às outras pela expansão do espaço, demorou milênios para ser feita. Agora, no entanto, tanto a disponibilidade instrumental para observação, quanto o avanço teórico que permite especulações impossíveis no passado, fazem desses avanços resultados impressionantes.

Na Antiguidade Grega, o astrônomo-matemático Aristarco de Samos (310 a 230 a.C.) que defendia a órbita da Terra em torno do Sol e sua rotação em torno de um eixo imaginário concebeu um universo tão vasto quanto o considerado nos anos 30 do século passado, quando a cosmologia deixou a filosofia e se integrou ao corpo da ciência pelos trabalhos do astrônomo americano Edwin P. Hubble (1889-1953).

Por ideias avançadas para a época, Aristarco foi acusado de impiedade pelo filósofo estóico Cleante de Assos (330 a 230 a. C.).

O estoicismo, escola filosófica fundada por Zenão de Cítio (333 a 233 a.C) defendia a ideia de que emoções destrutivas decorrem de erros de julgamento e que um sábio, no sentido de alguém com “perfeição moral e intelectual”, estaria a salvo desses desvios.

Em 1755 o filósofo alemão Emmanuel Kant (1724-1804), em História geral da Natureza e teoria do céu, concebeu a estrutura galáctica e a chamou de “universo-ilha”. Mas foi preciso esperar pelo desenvolvimento de telescópios mais eficientes para distinguir galáxias de nebulosas, no segundo caso, remanescentes de explosões estelares do tipo supernova.

Então, nos anos 30, com as medidas de afastamentos galácticos pela expansão cósmica ˗ descoberta teórica quase sempre atribuída a Hubble, mas na verdade concepção teórica do astrônomo também americano Vesto Slipher (1875-1969), que Hubble ouviu em uma conferência ˗ essas estruturas começaram a ser melhores conhecidas e classificadas.

A surpreendente fuga das galáxias

A observação e medida da chamada “fuga das galáxias” deu origem à cosmologia como parte do corpo da ciência e não mais da filosofia.

A forma e medidas da Via Láctea foram possíveis a partir da descoberta, durante a Segunda Guerra Mundial, da emissão de energia pelo hidrogênio eletricamente neutro pelo astrônomo holandês Hendrik Christoffel van de Hulst (1918-2000). Com essa emissão, ela foi mapeada com recursos da radioastronomia.

A mais recente “atualização da Via Láctea”, há pouco mais de uma década, mostrou que além de espiral, ela é também barrada (com uma barrada estelar no núcleo), o que faz dela uma espiral barrada.

A reinterpretação, agora, de que ela integra algo como um hiperaglomerado, a Laniakea, amplia o conhecimento e concepção que os cosmólogos obtém do Universo.

Essas medidas (ver animação) mostram que hiperaglomerados fluem para centros gravitacionais específicos, separando diferentes regiões do espaço como rios que, com nascentes próximas, correm com suas águas para direções distintas, em ilhas e continentes da Terra.



Escrito por blogdasciam às 18h01
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O limite dos oceanos

 Por Ulisses Capozzoli

O trabalho de dois climatologistas chineses, publicados na revista científica americana Science, explica o que pareceu uma pausa no processo de aquecimento global e levou, temporariamente, observadores céticos quanto a essa mudança, a um contrataque, em especial devido a contribuição humana com uso de combustíveis fósseis.

Segundo Xianyao Chen e Ka-Kit Tung, ambos da Universisty of Washington,  o Oceano Atlântico absorveu um calor excedente e dragou essas temperaturas mais elevadas para áreas mais profundas de sua bacia.

A pausa no processo contínuo de aquecimento ocorreu entre 1999/2012.

No período anterior, 1985/1998, a elevação de temperaturas vinha num crescendo.

A climatologia é uma área complexa da ciência e isso é o bastante para desestimular versões que, à primeira vista, parecem óbvias como a descoberta, no século 19, pelo físico-químico e Prêmio Nobel sueco Svant Arrhenius (1859-1927), de que o dióxido de carbono (ou gás carbônico) é um aprisionador de calor atmosférico.

 Assim, se aumentar a concentração desse (e de outros gases de efeito estufa) o resultado seria, inevitalmente, um aquecimento do envoltório de gases que envolvem a Terra, compondo a atmosfera.

A questão aqui é que outros processos poderiam compensar ou ao menos amenizar esse fenômeno, como a formação de uma capa mais perene e espessa de nuvens ˗ resultado da evaporação ˗ e isso refletiria como um espelho parcela da radiação solar que, antes disso, atingia a superfície do planeta.

Ainda assim, no entanto, não conviria “varrer para baixo do tapete”, o fato de que a concentração de gás carbônico na atmosfera passou de 280 ppm (partes por milhão) à época da previsão de Arrhernius para 400 ppm  em 9 de maio do ano passado.

Essa constatação (400 ppm) foi feita do topo do vulcão extinto de Mauna Loa, no Pacífico, um amostrador científico ideal por sua localização distante de centros urbano-industriais capazes de contaminar as medidas.

A discussão em torno do aquecimento global com mudanças climáticas por efeito antrópico é uma evidência clara de que a ciência, como qualquer outra atividade humana, é permeada por efeitos político-ideológicos que, à primeira vista, seriam incompatíveis com a metodologia científica.

Otimismo precoce

O trabalho da dupla de cientistas chineses, num primeiro momento, pode sugerir certo alívio, com a idéia de que as grandes massas de água oceânicas absorvem o calor excedente aprisionado na atmosfera e com isso um equilíbrio desejável é mantido.

Ocorre que o processo é bem mais complexo que isso, o que faz crescer os níveis de preocupação quanto ao futuro imediato do perfil climático da Terra com influência em toda forma de vida.

Para começar, a absorvação de excedentes de gás carbônico implica em acidificação dos oceanos e comprometimento profundo das formas de vida que eles abrigam.

Além disso, não se sabe até quando os oceanos do mundo podem absorver gás carbônico sem sofrerem um processo parecido ao que os físicos chamam de “mudança de fase”. Quando a água muda da forma sólida do gelo para a líquida, ou mesmo gasosa.

Processos como a defaunação, o desaparecimento de animais de ambientes que parecem sadios, tem relação com mudanças climáticas a partir do aquecimento global?

Ainda não se tem resposta para esta pergunta.

O que se sabe, para além da defaunação, é que o planeta passa por uma aceleradíssima perda de biodiversidade. E se o especismo (idéia de que a espécie humana é o principal legado da vida, com direito a explorar todas as outras) não for capaz de se sensibilizar com essa situação, é preciso lembrar que a teia de relações fará com que, a certo estágio desse processo, os humanos sintam o peso dessa nova realidade.

Como isso pode se manifestar?

A mudança climática deve impactar o regime de chuvas em escala global e a distribuição de água potável, pelo ciclo hidrológico, afeta tanto o abastecimento hídrico para consumo humano como para atividades agropecuárias e industriais.

As torneiras secas durante certas horas da noite em boa parte da megalópole de São Paulo é um exemplo de que essas cenas são parte da realidade atual e não ficção distante.

Os céticos do aquecimento global com mudanças climáticas, que inicialmente envolveu o setor ligado aos combustíveis fósseis e um  pensamento politicamente conservador (em alguns casos, reacionários) negou o processo desde o início sem embasamento científico. Aqui prevaleceu apenas a opinião desses críticos.

Pode-se argumentar que os defensores do aquecimento global com mudança climática a partir de contribuições antrópicas também não dispunham ˗ ao menos de início e pode-se dizer, neste exato momento ˗ mas há uma diferença radical entre esses dois grupos.

A admissão do aquecimento como resultado de atividades humanas (o que não nega a participação de efeitos naturais em um ou outro sentido, já que esses fenômenos não cessaram e nem cessariam abruptamente), no entanto, acena com a possibilidade de mudança de atitudes e isso é fundamental de um ponto de vista tanto pessoal como social.

Ponto de não retorno

Há quem duvide, em função da complexidade do clima referido inicialmente, que mesmo uma mudança radical, um corte completo na emissão de gases de efeito estufa por atividades humanas não seria capaz de deter o aquecimento com mudanças climáticas.

A razão por trás disso é uma certa inércia.

Um navio que se dirige sem controle rumo ao cais, mesmo que tenha seus propulsores desligados, ainda viajará certa distância antes de ser paralisado pelo atrito com a massa de água sobre o que desliza.

A inércia que governa nosso barco virtual pode fazer com que ele destrua o cais e se destrua sem que nada possa evitar a tragédia.

Isso significa que, de um ponto de vista climático, teríamos chegado a um ponto sem retorno?

Essa é outra pergunta para a que também não se tem resposta.

Na dúvida, a sociedade humana não deveria adotar medidas preventinas e acauteladoras?

Respostas mais cínicas podem dizer que, de certa maneira, isso nunca ocorreu e nem ocorrerá, no que podem estar corretas.

Mas, em escala planetária e por razões que dizem respeito à qualidade de vida, ou mesmo à sobrevivência de cada um, uma ameaça dessa natureza é inédita na historia da civilização. O que significa que não foi respondida antes.

A função da ciência e da cultura em geral (evidentemente que a ciência é parte da produção cultural e não algo à parte, como se ouve dizer mesmo em ambientes onde essa maneria de pensar não passa de limitação intelectual) é alimentar um substrato mental, uma concepção sobre o que o mundo é, a partir de olhos humanos.

Então, se a função da ciência é um refazer constante do substral mental social, e a divulgação de ciência um mecanismo indispensável neste processo, é de se esperar que a ciência possa sensibilizar os humanos para as perspectivas do futuro a partir de toda aventura, enquanto espécie, que vivenciamos desde o passado mais remoto.

Neste sentido, o aquecimento global com mudanças climáticas diz respeito a uma civilização (a única que conhecemos até agora) em um dos possíveis numerosos mundos habitados, no corpo da Galáxia, ou no bojo de muitas das bilhões de galáxias que dançam ao compasso da gravidade no salão cósmico.

Em princípio, ainda que possa parecer exagero, tudo está em aberto.

Este pode ser tanto mais um desafio ˗ entre os infinitos já enfrentados pelo Homo sapiens, desde que elevou-se sobre duas pernas, construiu ferramentas, desenvolveu a linguagem e forjou a cultura para que pudesse se desonvolver ˗ como o começo de um fim.

Isso tudo pode, também, parecer pura ficção.

Ocorre que, neste momento, aparentemente realidade e ficção se confundem como em nenhum outro momento da historia humana.

 

 



Escrito por blogdasciam às 15h58
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