Tributo a John Wheeler

Toda uma geração de homens brilhantes está indo embora deste mundo. Se considerarmos o dito popular de que “ninguém é insubstituível” a conclusão é que o planeta continuará girando como sempre.

O problema é que, de muitas maneiras, eles sempre farão falta.

Em meados de março passado Arthur Clarke foi embora. Neste último domingo foi a vez de John Wheeler.

Críticos mais radicais podem dizer que uma das colaborações que ele deu a este mundo foi o desenvolvimento da bomba de hidrogênio, arma de destruição em massa.

A verdade, no entanto, é que Wheeler construiu um pequeno Sol.

Talvez a maior parte das pessoas conheça John Archibald Wheeler como o homem que batizou os buracos negros com esse nome exótico.

 Atos banais podem catapultar uma pessoa às alturas, ainda que o movimento de queda costume ser tão rápido quanto o de ascensão.

A história de Wheeler, no entanto, nascido em 9 de julho de 1911 na Flórida, não tem nada de banal, bem ao contrário.

Ele ainda era um jovem professor, no ano em que se iniciou a Segunda Guerra Mundial, quando o grande Nils Bohr, seu mentor intelectual, desembarcou dos Estados Unidos com a notícia de que cientistas alemães haviam fissionado átomos de urânio.

Ao fim de poucas semanas de trabalho ele e Bohr decifraram o processo por trás dessa conquista que mudou o percurso da história, como evidenciaram as bombas atômicas que, apenas seis anos depois, caíram sobre Hiroshima e Nagasaki.

Wheeler foi mentor de gerações de físicos teóricos, gente do porte de Richard Feynman, combinando com a habilidade de um mágico, metáforas e equações.

Feynman, que entre outras realizações intelectuais anunciou o nano-universo, numa palestra memorável quando confundiu boa parte de seus ouvintes – é possível transcrever todo o conteúdo da enciclopédia britânica na cabeça de um alfinete – em algum momento disse que seu antigo professor, na opinião de alguns críticos, enlouqueceu com a idade.

Mas a verdade, assegurou Feynman, é que “Wheeler sempre foi um maluco”.

Com alguma freqüência, em programas de TV ou debates pretensamente consistentes, observadores falam de “falsa ciência” e de “falsos cientistas”, como se o diagnóstico em casos desse tipo pudesse ser feito de uma única espiada.

Wheeler, na precoce opinião de gente desse tipo, em mais de uma oportunidade pode ter corrido o risco de ser interpretado assim.

Claro que a densidade de seus trabalhos lhe deram reconhecimento merecido, tanto que foi referido como “o último dos titãs” num artigo escrito por Dennis Overbye – autor de Corações Solitários do Cosmo – que recolheu a expressão de Max Tegmark, cosmólogo do Massachusetts Institute of Technology (MIT).

Um brasileiro, Jayme Tiomno, conforme registrou a Folha de S. Paulo na edição de terça-feira (15/04) participou de um dos importantes trabalhos científicos de Wheeler, envolvendo o que os físicos chamam de decaimento beta, fenômeno envolvido com a radioatividade.

Aos 87 anos Tiomno manifestou tristeza pela partida de Wheeler.

Sentimento sem dúvida partilhado com todos aqueles que têm o privilégio e o prazer de se maravilhar com a genialidade humana.

Habilidade com que Wheeler fascinou muitas gerações. 

O antecipador

Desde este 18 de março, quando a luminosidade de verão ainda rebatia pela tarde quente de Brasília (17h30 local), mas já era madrugada com céu coberto de estrelas e temperaturas amenas sobre o antigo Ceilão, agora conhecido como Sri Lanka (1h30), este e outros mundos não são mais o que foram durante muito tempo.

Arthur Charles Clarke está morto.

Esse poderia ser o começo de uma história de pura ficção.

Eventualmente uma brincadeira de gosto duvidoso de Isaac Asimov, um dos escritores com que Clarke partilhou não apenas uma era dourada da ficção científica, mas também generosas doses de humor.

Mas, na realidade, ninguém pode durar para sempre, mesmo que seja um homem capaz de viajar no tempo. Cada um tem seu limite e o de Arthur Clarke, ao menos para nós do Hemisfério Sul, chegou neste melancólico fim de verão.

Independente do que digam os economistas, ou da performance da crise cíclica que agora arma o bote de uma enorme serpente de destruição, o mundo foi subitamente empobrecido pela ausência de um gênio que, entre outras previsões, enxergou o fim do domínio do dinheiro e do trabalho ultrajante e alienado como recurso de sobrevivência.

Clarke, ao cabo de seus 90 anos, não agradou indistintamente e nem poderia. Ele mesmo, em uma de suas surpreendentes considerações, reconheceu essa impossibilidade: “ficção científica faz pensar e essa é a razão de não ser apreciada por muita gente”.

Por aqui, fiel a nossa herança senhorial, ainda temos apreço por certo romance social, sucesso de público nas repetitivas e odiosas novelas das 7, 8, ou 9 da noite.

Arthur Clarke combateu até quando teve forças uma debilitante síndrome pós-pólio desde a década de 60 o que, nos últimos anos, fez com que se confinasse a uma cadeira de rodas, afastado de mergulhos no mar, onde reconfigurou sua visão do Universo, estimulado pela alteração gravitacional.

Mergulhe com equipamentos numa região de águas transparentes – como Fernando de Noronha, em alto mar – e você mesmo irá experimentar a sensação que fascinou Arthur Clarke no início dos anos 1950.

O que se pode falar de Arthur Clarke que seus leitores já não conheçam?

Talvez que, fundamentalmente, teve a coragem de não temer o que aterrorizaria a maioria dos homens práticos, pragmáticos, calculistas e desprovidos de qualquer criação que não seja suas pequenas legislações para controlar o mundo à sua volta.

Arthur Charles Clarke há muito se comprometeu com o destino da humanidade e por isso muitas vezes aventurou-se para territórios além de Marte, como aconteceu em Encontro com Rama, ou junto a uma lua de Júpiter, no ainda enigmático 2001: Uma Odisséia no Espaço, o maior clássico da ficção científica no cinema de todos os tempos.

Partiu como todos faremos um dia, mas deixou um legado incomum.

Reafirmou ao longo da vida que o destino do homem está em suas mãos e exatamente por isso o futuro pode ser tão bem interpretado quanto o passado.

Provisões para o futuro

Criação de banco internacional de sementes, no interior do Círculo Polar Ártico, materializa temor quanto a riscos de catástrofe natural ou de origem humana

Há muito tempo os astrônomos saíram de trás das oculares. Eles investigam o Universo a partir de terminais de computadores que analisam os dados coletados. Edwin Powell Hubble (1889-1953) talvez seja um dos últimos a ter sua imagem associada diretamente ao corpo de um telescópio.

Com sir Martin Rees, cosmólogo, professor da Cambridge University e astrônomo real, isso nunca aconteceu. Ele não é um observador, mas um teórico e se ocupa da paciente tarefa de montar peças de um quebra-cabeça que os observadores recolhem para criar um quadro inteligível, um cenário capaz de indicar o ponto em que estamos num vertiginoso deslocamento pelo espaço-tempo.

Em fins de 2003 Martin Rees, que não é um catastrofista, publicou um livro emblemático, Our final hour, no qual estima em 50% as chances de a civilização humana ser extinta ainda neste século.

Previsões exóticas feitas por cientistas de prestígio e que jamais se concretizaram não chegam a ser novidade na história da ciência. Basta um único exemplo para comprovar esse ponto de vista: os métodos propostos para contatar uma possível civilização em Marte, entre a segunda metade do século 19 e o início do século passado. Houve quem recomendasse, por exemplo, o cultivo de plantas de diferentes tonalidades nas grandes estepes da Rússia sugerindo o teorema de Pitágoras, coisa que deveria ser facilmente interpretada pelos marcianos. A idéia foi de Karl F. Gauss.

Exotismo?

Claro, mas nem tanto. Considere esta outra hipótese: cavar enormes valetas, preenchê-las com querosene e, com Marte visível no céu, atear fogo ao combustível de forma que sinalizasse a presença de vida inteligente por aqui. A sugestão foi do astrônomo austríaco Joseph von Littrow.

Mas não é tudo. No início do século passado foi criado um prêmio de 100 mil francos franceses para quem estabelecesse contato com qualquer civilização fora da Terra, com uma única exceção. Marte estava fora de premiação, já que o contato com habitantes desse planeta foi considerado fácil demais para tanto dinheiro.

O relato de Martin Rees, no entanto, tem consistência mais sólida que a mais sombria das previsões anteriores. Ele trabalha com recursos teóricos e práticos de última geração, coisas que permitem a manipulação de um volume de informação inédito na história da civilização. Isso significa dizer que, enquanto os astrônomos – do século 19 e meados do século 20 – enfrentaram dificuldades para decifrar a natureza das nebulosas – para muitos deles elas integrariam nossa própria galáxia, em vez de “universos-ilhas” como Kant as batizara –, Martin Rees e seus colegas teóricos são capazes de prodígios. Podem descrever com precisão de detalhes o nascimento do espaço e da matéria, quando o próprio tempo também nascia de uma singularidade.

Em seu Our final hour Martin Rees constrói cenários que remetem à ficção científica, mas um dia podem ser a própria realidade, quando a realidade de hoje seria lembrada como ficção.

Entre seus temores Martin Rees inclui eventos naturais, caso de supererupções vulcânicas – algo capaz de tornar opaca a atmosfera e com isso impedir a passagem da luz do Sol, inviabilizando a fotossíntese e nos levando de volta à longa noite do Cretáceo que eliminou os dinossauros. Além disso, há o risco de impacto de asteróides, sem falar de desastres provocados por humanos, caso de vírus desenvolvidos geneticamente para fins militares, terrorismo nuclear, conflitos nucleares e eventualmente a intervenção indesejável de máquinas inteligentes.

Para quem considera tudo isso uma montanha de inconsistência, a inauguração – em 26 de fevereiro passado – de um banco mundial de sementes, no interior do Círculo Polar Ártico, em território norueguês, pode soar como um frio chamado à realidade.

O arquipélago norueguês de Svalbard abriga o projeto mais ousado de preservação de vida vegetal, com estocagem prevista de 2 bilhões de sementes de todas as espécies vegetais cultivadas pela humanidade. Acondicionadas com técnicas de segurança máxima, essas sementes – que em caso de catástrofe poderão novamente fecundar a Terra ou um eventual outro planeta – estão protegidas mesmo de hecatombes nucleares.

“É o último refúgio das lavouras do mundo”, avalia Cary Fowler, diretor da Global Crop Diversity Trust, organização criada por um órgão de agricultura das Nações Unidas – FAO – que coordena o projeto em parceria com a Noruega.

As primeiras sementes do refúgio foram depositadas na manhã de 26 de fevereiro no Banco Internacional de Sementes – nome do abrigo – pelo premiê norueguês Jens Stoltenberg, acompanhado da ambientalista e Prêmio Nobel da Paz, a queniana Wangari Maathai.

O abrigo já recebeu um total de 100 milhões de sementes oferecidas por uma centena de países.

A escolha do sítio para alojar o Banco Internacional de Sementes não foi casual. Além de clima e geologia favoráveis a um empreendimento dessa natureza, o arquipélago de Svalbard está estrategicamente localizado para assegurar a integridade de seu tesouro vivo.

A versão vegetal da Arca de Noé, como a imprensa apelidou o projeto, está instalada no interior de uma escavação de 125 metros de comprimento e outros 70 metros de profundidade, prevista para ser mantida a uma temperatura de -200C. O abrigo foi construído ao longo dos últimos 11 meses antes de sua inauguração numa das montanhas de Longyearbyen – uma das cidades do arquipélago. Está selada com portas de aço, câmaras e detectores de movimento e será remotamente monitorada da Suécia.

As mudanças climáticas confirmadas como ocorrência irrefutável foram justificativas iniciais para o projeto, mas não as únicas. Quase meia centena de países já tiveram seus bancos de sementes des-truídos por guerras e/ou acidentes naturais, caso de inundações e tufões. Como se não bastasse, boa parte dos demais bancos está ameaçada por irregularidades nas verbas para sua manutenção.

A transferência de sementes para o banco gelado na Noruega está sendo viabilizada por um acordo entre o governo norueguês – proprietário do banco, país doador e proprietário do material estocado – e outros governos. Sementes transgênicas não poderão integrar esse patrimônio formado apenas por material selecionado pela Natureza, ainda que com a colaboração humana, ao longo de mais de 12 mil anos de práticas agrícolas.

A construção do Banco Internacional de Sementes, algo que nossos avós tenderiam a interpretar como ficção, custou US$ 9 milhões, bancados pela Noruega.

À medida que a era espacial se consolida têm surgido propostas da comunidade científica para estocagem de dados estratégicos na Lua, onde eventualmente podem ficar a salvo de um desastre natural ou de origem antrópica capaz de afetar profundamente a Terra. As naves Pioneer 10 e 11, e as igualmente gêmeas Voyager 1 e 2, que agora vagam pelas bordas do Sistema Solar, levam para o espaço sons como vozes humanas e de animais, incluindo o canto de baleias. Entre os sons humanos, Chuck Berry canta Johnny B. Goode.

Para quem acredita que Martin Rees passou dos limites, talvez valha a pena acrescentar que isso ainda não foi tudo. A propósito de tentativas de contato com eventuais inteligências extraterrestres – utilizando mensagens transmitidas por radiotelescópios, como fez pioneiramente o radioastrônomo americano Frank Drake, em meados dos anos 60 –, ele tem outra recomendação cautelosa: “Nunca dar o endereço de casa para desconhecidos”.

Ossos do ofício

Não é por acaso que interpretação de textos integra exames vestibulares. O pressuposto dos examinadores é que um candidato a entrar para a universidade tenha capacidade intelectual para acessar e reter criticamente o conteúdo de um texto.

Exames envolvendo interpretação de textos geralmente são de múltipla escolha, o que lamentavelmente nos priva de parte das pérolas recolhidas nos vestibulares.

Quem escreve – tanto textos que entram nos vestibulares quanto fora deles -- está sujeito a interpretações enviesadas.

São o que os cronistas chamam de “ossos do ofício”. Nada capaz de comprometer o humor, mas apenas inspirar a crônica seguinte, numa sina que lembra Sísifo. Aquele que levava uma pedra até o cume da montanha, de onde ela rolava e exigia que se fizesse tudo de novo.

Os gregos sabiam das coisas daí o fascínio que tiveram pela tragédia.

Essa introdução para dizer que na quinta-feira passada (21/02) pousou no terminal de fax da Duetto, que edita Scientific American Brasil, uma carta assinada por um médico mineiro – ao menos é o que ele sugere ao declinar CRM, acompanhado de endereço e telefone para eventuais averiguações.

Elisabeto Ribeiro Gonçalves – conferi o nome mais de uma vez na carta e é este mesmo – diz estranhar uma colocação que, na interpretação dele, eu teria feito em editorial (Ponto de Vista) que escrevi para a edição especial de relatividade que está nas bancas -- envolvendo ciência e religião (nas palavras dele eu teria “colocado ciência e religião num mesmo saco”).

Em seguida, com a velocidade de um daqueles discos de 78 RPM que girava na vitrola que meu bisavô Carmine trouxe das montanhas de Salerno -- o nome dele também era esquisito por aqui, mas ele nunca se importou com isso – Elisabeto dispara: “mas que valores religiosos são esses? O dogma? A mentira? A impostura? A imposição autoritária da verdade? A autoridade da revelação? O controle das sociedades por meio do medo, com a promessa de vida e de recompensas além-túmulo?”

Confesso que passei por uma experiência incomum de ler o que teria escrito, sem nunca escrever o que estava lendo.

Ainda mais que, e isto também herdei do velho Carmine, tenho raízes libertárias e em casa sempre escutei a velha ladainha – uma adaptação de Diderot feita por anarquistas: “o último padre enforcado nas tripas do último militar”.

Claro que nada tenho contra padres ou militares. Cada um ganha a vida como pode e nesses ou em quaisquer outros grupos profissionais encontramos tanto gente que “paga a pena” como outros que não valem “tostão furado”, como avaliava meu bisavô.

Para ir mais diretamente ao assunto, o que escrevi -- e isso pode ser comprovado por qualquer leitor disposto a conferir o editorial de relatividade – é outra coisa bem diferente do que o Elisabeto entendeu.

Reproduzo os dois primeiros parágrafos que inclui o trecho sob consideração:

“A ciência não é um luxo, é necessidade. Quando essa idéia estiver difundida o bastante para ser aceita pelas sociedades humanas como um legado tão legítimo e profundo quanto valores religiosos, haverá razões para confiança no futuro. Caso contrário estaremos sempre à mercê da sorte”.

Antes de destrinchar um pouco o texto devo reconhecer pelo menos uma característica pessoal: tendo a avaliar sempre positivamente a capacidade intelectual de meus interlocutores e não me arrependo disso. Mas eventualmente, tomando de empréstimo a liberdade dos cronistas, devo dizer que realmente “quebro a cara”, ou seja, me decepciono. Ossos do ofício.

De qualquer maneira “para ser aceita pelas sociedades humanas como um legado tão legítimo e profundo quanto valores religiosos” é uma idéia que remete a características de uma sociedade pré-científica, o que inclui boa parte do Planeta.

E sociedade pré-científica – para não gerar novos desencontros -- é aquela cujos membros vivenciam uma experiência de divindade enquanto razão profunda para justificar a manifestação do que chamamos realidade.

Claro que a partir desta idéia – nem um pouco simplista – é possível produzir uma edição inteira ou muito mais que isso. Mas o espaço de que dispomos num editorial é exíguo e por isso levamos em conta a capacidade de interpretação de um leitor.

Elizabeto se queixa de que “como assinante e leitor causou-me profundo mal-estar o Ponto de Vista no exemplar [na edição] nº 24, assinado pelo Sr. Capozzoli” e pergunta: “Há como reparar esse estrago?”

Deixo à apreciação de outros leitores a resposta pretendida pelo Elizabeto.

Quanto a mim e meu bisavô Carmine, que foi feliz com o nome que tinha, devo dizer que sim. Basta um curso introdutório de boa leitura.

Ou para terminar com Voltaire: “Uma única palavra fora do lugar estraga o pensamento mais bonito”.

O Sputnik e a era espacial

O que as pessoas aprenderam a chamar de “era espacial” nasceu há exatamente 50 anos. Em 4 de outubro de 1957 a então União Soviética lançou o primeiro objeto humano em órbita da Terra, o Sputnik.

Você pode-se perguntar o que isso tem a ver com sua vida.

A resposta é: tudo.

Uma quantidade indescritível de objetos que vão de telefones (celulares ou fixos) a fornos de microondas descende de inovações produzidas pela era espacial.

O Sputnik foi o primeiro passo para o que se pode chamar de libertação humana do confinamento gravitacional. Antes do Sputnik, nada lançado pelo homem havia sido entronizado em órbita da Terra.

Além disso, o Sputnik foi uma espécie de anunciador do que viria logo depois: o vôo tripulado de Yuri Gagarin (1934-1968), o primeiro cosmonauta da Terra. Foi ele quem disse, depois de uma volta em torno do planeta, a famosa frase: “a Terra é azul”.

Que a Terra é azul o físicos já sabiam, por um efeito chamado de “espalhamento da luz”.  Mas ninguém, até que Gagarin voasse, havia observado este azul do espaço.

Gagarin fez seu vôo solitário em 12 de abril de 1961.

O passo seguinte foi a corrida para a Lua.

As pessoas dizem que a conquista da Lua não passou de uma queda de braços entre a então União Soviética e os Estados Unidos.

Não deixa de ser verdade, o que não significa que seja toda a verdade.

De um ponto de vista histórico, este foi o caminho que os humanos escolheram para deflagrar a era espacial.

Satélites de comunicação, sensoriamento remoto, previsão do tempo.

Nossas vidas não fazem mais sentido sem esses objetos espaciais. E todos eles começaram a nascer com o pequeno Sputnik.

Em 1957, depois em 1961 e em julho de 1969, quando Armstrong e Aldrin desceram na Lua, havíamos atingido o futuro.

Depois disso houve um recuo.

As naves de reentrada na atmosfera com seus cascos calcinados expostas nos museus, ao lado de réplicas da pequena Sputnik.

Entre o futuro e o retorno ao passado, cães e macacos foram enviados ao espaço. Sem meios de recusar a aventura, nem de compreender a dimensão de suas viagens.

Mais recentemente, a partir dos anos 90, se intensificou a descoberta de planetas extra-solares. Neste momento buscamos entre as estrelas um mundo como a Terra.

Nosso desejo mais íntimo – ainda que alguma frieza científica mascare um pouco a expectativa – é de encontrarmos outras criaturas inteligentes.

Eles seriam humanos, seres desgarrados no espaço de quem nos separamos há muito, ou nós seremos para sempre os únicos humanos?

Que perguntas faríamos a um eventual ET?

Você acredita em algum deus, ou esta crença não passa de um estágio de nossa civilização?

Você esteve sozinho até agora, antes de nos encontrar?

Somos apenas nós, ou existem muitos outros entre as estrelas?

Essas são outras questões legadas pelo Sputnik, a pequena esfera metálica que, pela primeira vez, nos levou ao espaço com seu repetido e ingênuo “bip” “bip” como sinal.

A humanidade comemora neste 4 de outubro os primeiros 50 anos do Sputnik. Muitos outros 50 anos se sucederão, até que a data original de seu lançamento se torne um ponto distante na história. Quase um mito.

Neste momento analisamos os impactos mais imediatos do Sputnik. Nos futuros 50 anos de comemoração desta data eles deverão ser cada vez mais complexos.

Até um ponto que, hoje, não temos condições de enxergar.

O meteorito (“venenoso”) do Peru

 

Um meteorito que caiu no Peru no sábado, 15 de setembro, está contribuindo para piorar a má imagem que essas pedras que caem do céu têm junto à população com menor acesso à informação de ciência.


Segundo os relatos disponíveis, o bólido abriu uma cratera de 30 metros de diâmetro por seis de profundidade e assustou os moradores do povoado de Carancas, a aproximadamente 1.300 km ao sul de Lima, junto à fronteira com a Bolívia.


Testemunhas da queda se referiram a uma bola de fogo e a um estrondo seguido do impacto que abriu a cratera.


Pedras que caem do céu remontam a histórias antigas.
 

O famoso químico francês, Antoine-Laurent Lavoisier (1743-1794), por exemplo, disse que “pedras que caem do céu simplesmente não existem”, antes que um conterrâneo dele demonstrasse que existem e são tão real como o dia que nasce.


‘Estrelas-cadentes”, por exemplo, são pedriscos, normalmente do porte de um grão de arroz, que caem do céu todo o tempo, ainda que só sejam visíveis à noite.


O Bendengó, ou Bendegó, o mais famoso meteorito brasileiro, pesa mais de 5 toneladas e está exposto no Museu Nacional, no Rio de Janeiro. E um asteróide de uns 10 km de diâmetro que se chocou com a Terra há 65 milhões de anos é responsabilizado pela extinção dos dinossauros.


Todos eles são pedras caídas do céu.


O bólido que caiu no Peru chegou acompanhado de uma bola de fogo – devido ao atrito com a atmosfera que o tornou incandescente – e produziu o ruído típico de um corpo atravessando a atmosfera em alta velocidade.


Uma “estrela-cadente”, mesmo pequena, (um grão de arroz) pode produzir uma espécie de “sussurro” numa noite calma, longe da iluminação e especialmente do ruído urbano. Um pedregulho cósmico pode “assoviar” e um bloco maior produzir uma explosão.


Meteorito é o nome que se dá a um corpo que sobreviveu ao atrito com a atmosfera e atingiu a superfície da Terra ou de um outro mundo, como a Lua ou Marte. Recentemente os jipes americanos em Marte localizaram um meteorito na superfície do Planeta Vermelho. Pode até ser um meteorito originário da Terra, resultado de um impacto que o lançou ao espaço onde permaneceu por milhões de anos, até pousar em Marte.


No espaço, esses corpos recebem o nome de meteoróide. O risco luminoso que deixam durante a travessia da atmosfera é conhecido tecnicamente como meteoro.


Mas, de um modo geral, há uma enorme confusão entre meteoróide, meteorito e meteoros. Com freqüência usa-se o termo “meteoro”, quando deveria ser “meteorito”.


Essas pedras que despencam do céu já foram mais numerosas no passado do Sistema Solar. São uma espécie de entulho cósmico, material que sobrou da formação do Sol e dos planetas e luas.


Se você quiser uma evidência clara deles, observe a superfície da Lua com um pequeno telescópio. A enorme quantidade de crateras na ocular de seu telescópio revela o impacto de bólidos cósmicos. Essas marcas não se apagam da Lua, por falta de atmosfera, ventos e chuva, ao contrário do que acontece na Terra.


Vento e chuva, entre outros processos, apagaram boa parte das cicatrizes deixadas na Terra por asteróides e seus parentes mais exibidos, os cometas.


Em seguida à queda no Peru, apareceram notícias de pessoas que se sentiram mal – na maior parte, aparentemente, crianças e idosos – ficaram enjoadas e apresentaram vômito, como resultado da queda do meteorito.


Verdade ou “ignorância do povo”, como justificou no passado Lavoisier?


Claro que pode estar havendo algum exagero. Mas pessoas que se aproximaram da cratera podem perfeitamente ter respirado gases tóxicos liberados pelo meteorito e que provocaram enjôos e vômitos.


Especialmente idosos e crianças, por serem mais frágeis a esses efeitos.


Ao penetrar na atmosfera o bólido se aqueceu – lembre-se que acontece a mesma coisa com os ônibus espaciais e por isso mesmo eles têm proteção térmica especial para a reentrada.

Quando impactou o solo no Peru, este aquecimento pela travessia atmosférica – provavelmente seguido de alguma fusão pelo choque – pode ter liberado gases em seu interior, daí a reação das pessoas.


Mas pedras que caem do céu são um fenômeno natural e não devem assustar ninguém. Até porque, boa parte da água que existe na Terra pode ter sido trazida para cá por cometas – os parentes mais exibidos dos asteróides.


E se você imaginar que 60% da massa de seu corpo é formado por água, poderá concluir que parte de seu corpo já foi cometa (água de cometa) no passado.


Surpreendente, claro. Mas nada assustador.

Marte e a Lua Cheia

Imagine você que, da noite para o dia, o maciço do Pico do Jaraguá, o ponto mais alto da cidade de São Paulo (1.135 metros) amanheça na Praça da Sé, centro da cidade, a 30 km de distância de sua localização, a noroeste da metrópole.

Absurdo, não?

Pois o mesmo absurdo está por trás de uma versão que periodicamente circula online prevendo que em determinada data – desta vez o 27 de agosto – Marte estará no céu com o tamanho aparente da Lua Cheia.

As pessoas não só acreditam como chegam a combinar encontros para observar esse pretenso fenômeno.

De onde saiu tamanha tolice, por que essas versões ganham consistência e conquistam rapidamente a confiança das pessoas?

A origem disso tudo pode ser uma brincadeira de mau gosto ou um desses surtos que se propagam com a velocidade de um vírus.

De manifestação restrita, subitamente, pelas facilidades das comunicações, se transforma em realidade coletiva.

Marte, por sua órbita elíptica em torno do Sol – descoberta feita pelo astrônomo alemão Johannes Kepler (1572-1630), utilizando dados coletados pelo dinamarquês Tycho Brahe (1546-1601) – de fato tem aproximação máxima a cada dois anos com a Terra, que também tem órbita elíptica.

À época das aproximações a observação de Marte fica facilitada e isto foi válido especialmente no passado, levando-se em conta as limitações dos telescópios e a inexistência de naves espaciais, como as que sobrevoam ou estão investigando Marte de sua superfície.

Mas as aproximações não significam que Marte chegue ao tamanho de uma Lua Cheia. Para isso Marte deveria sair de sua órbita aproximar-se da Terra.

Aí está o disparate do pretenso fenômeno.

Que forças deslocariam Marte de sua órbita e qual o impacto disso no Sistema Solar interior?

Uma comparação possível é a do deslocamento do Pico do Jaraguá para o centro da cidade de São Paulo.

Mesmo quem não tem o menor conhecimento de astronomia, geologia ou o que quer que seja compreende que se trata de um completo absurdo.

Mensagens como esta quase sempre vêm acompanhada de uma advertência. A de que o pretenso fenômeno só voltará a ocorrer em milhares de anos.

Não se deixe impressionar por esta escala de tempo mesmo quando tratar-se de um fenômeno procedente. Ocorrências celestes podem repetir-se apenas em larga escala de tempo e não há nada de errado nisso.

Na verdade, rigorosamente, nada se repete. Quando algo como um eclipse total do Sol ocorre – e isto ocorre periodicamente – é preciso compreender que os contextos diferem entre si.

Isto também vale para o coditiano.

Lembram-se da frase atribuída ao filósofo grego Heráclito (540 a.C 480 a.C) (“ninguém sobe a mesma montanha duas vezes”)?

É isto que ele queria dizer. A segunda vez que você sobe a montanha ela já não é a mesma. Algum grão de areia, de sua primeira escalada, foi retirado pelos seus pés e transformou a montanha.

Planetas podem migrar possivelmente entre sistemas solares.

O astrônomo Rodney Gomes, do Observatório Nacional (ON) no Rio é co-autor de um trabalho interessantíssimo nesta área.

Mas isto, absolutamente, não tem qualquer relação com a idéia de que Marte chegará ao tamanho aparente da Lua Cheia nesta próxima ou em qualquer outra data.

Até porque, este ano, a máxima aproximação entre Terra e Marte será em 17 de dezembro – aproximadamente 88,3 milhões de quilômetros – e não agora, em 27 de agosto.

De volta para casa
 
Pouco mais de dois anos depois de ter deixado Scientific American Brasil para me dedicar ao projeto de Astronomy Brasil me vejo de volta ao projeto inicial.

Essas considerações não são, evidentemente, para falar de meu percurso pessoal, menos que uma gota d’água na vastidão do oceano. Mas para retomar contato com os leitores da revista. Os mais antigos, com quem compartilhei o período inicial de Sciam, e os que se somaram desde então.

Na verdade, só agora me dei conta de que fiz um retorno por etapas, o que não deixa de ser surpreendente. Ao menos para mim. Quantas vezes passamos por experiências desse tipo sem nos darmos conta?

Quando retornei à Duetto, com Astronomy Brasil já no sexto número, em setembro passado, recebi de seu diretor-geral, Alfredo Nastari, convite para escrever uma coluna, “Telescópio”, sobre astronomia. 

Foi o que fiz desde então, com a satisfação de dar minha pequena contribuição para ampliação e consolidação deste projeto de que participei desde o início, dividindo tarefas e soluções com Ana Claudia Ferrari, agora diretora-adjunta para a área de conhecimento da Duetto.

Scientific American é uma revista estratégica num país como o Brasil, com tradição recente de ciência e não inteiramente livre de certo ranço positivista. Caso contrário, como explicar o “ordem e progresso” da bandeira nacional?

Em que sentido é uma publicação estratégica?

Entre outras razões, pela capacidade de provocação de que é capaz.

Provocação, no sentido comum, tem conotação pejorativa. No sentido considerado aqui, vem da raiz latina que significa “pro-vocare”, ou seja, fazer falar. Isto implica, evidentemente, em fazer pensar, pois quem fala deve pensar o que diz, sob pena de não ser levado a sério.

Um dos desafios do jornalismo como um todo, e do jornalismo científico em particular, é fazer jornalismo interpretativo, ou seja, contextualização histórica dos acontecimentos.

Não basta um “furo”, a notícia publicada por um único veículo sobre determinado acontecimento. Não só porque isto é cada vez mais raro como, também, no dia seguinte, todos vão dar a mesma notícia.

O fundamental, especialmente no jornalismo científico, ao contextualizar os acontecimentos, é inseri-los num processo para que os leitores, a sociedade como um todo, seja capaz de se dar conta de todas suas  implicações.

Jornalista e autores de forma geral, independentemente da área em que atuem, devem saber que, quando escrevem sobre determinado assunto, têm, entre seus leitores, ao menos uma pessoa que conhece aquilo melhor que ela. Tendo em conta essa situação, devemos escrever com perspectiva de inteligibilidade possível, ou seja, com a determinação de ser o mais claro possível levando em conta a diversidade dos leitores.

Este, sem dúvida, é um dos méritos de Scientific American.

Claro que sou mais que suspeito para falar disso. Entre as pilhas de revistas que mantenho em meu escritório estão exemplares de Scientific American com o projeto gráfico clássico que, coincidentemente (ou não) está de volta.

Ao longo destes anos temos recebido cartas de jovens leitores relatando que a leitura de Scientific American foi fundamental para a escolha profissional que fizeram na vida. Leio isto sempre com uma ponta de preocupação, mas, devo confessar, também com uma pitada de satisfação. O que de melhor se pode oferecer a alguém além de boa formação?

Aqui, damos o melhor de nós, com o desejo de ajudar num processo de conscientização que vai além da escolha da profissão. Participamos de uma caminhada capaz de sensibilizar para a dimensão cósmica da humanidade.

Esta é a única possibilidade de uma autocrítica capaz de nos conduzir a uma reconstrução.

De tudo aquilo que deve ser repensado e reconstruído.

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