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Libertação Animal

Por Ulisses Capozzoli

Tudo indica que a iniciativa de um grupo ambientalista de libertar uma centena de chinchilas ‒ num criadouro em Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo ‒ tende a ser cada vez mais frequente em relação a animais criados para retirada de peles ou mesmo experimentos de laboratório.

As chinchilas foram retiradas, domingo último, do criadouro Master Chinchila que, segundo a Frente de Libertação Animal (FLA), responsável pela ação, tem como um dos proprietários o argentino Carlos Perez, de 70 anos, presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Chinchila Lanígera (Achila).

Chinchila é um nome genérico para roedores da família Chinchillidae, nativa dos Andes sul americanos, com pelagem sofisticada e por isso mesmo apreciada para a produção de casacos sofisticados, com preços que chegam a R$ 70 mil.

A refinada pelagem da chinchila é pelo menos 30 vezes mais suave que o cabelo humano e sua alta densidade (20 mil pelos por cm²)  uma proteção ideal contra pulgas, entre outros parasitas que afetam animais na natureza.

Chinchilas são animais ativos e precisam de exercício constante e, como são curiosas e exploradoras, devem ser criadas soltas, em casa, ou em locais fechados, mas amplos. Elas são extremamente sociáveis e não suportam vida solitária.

No sítio em que eram criadas, em Itapecerica da Serra, no entanto, segundo relatos de membros da FLA, estavam confinadas em gaiolas de pequeno porte, superpostas, umas às outras, a elevadas temperaturas e com aeração inteiramente inadequada.

Os membros da FLA assumem uma atitude libertária e dizem que não podem esperar pela burocrática morosidade da lei, no caso da proteção animal.

Foi pela mesma razão que um grupo ambientalista libertou, em outubro do ano passado, cães Beagles, em São Roque, destinados a experimentos científicos, o que hoje divide também a comunidade de pesquisadores.

Muitos deles argumentam que boa parte das pesquisas já pode ser feita sem uso de cobaias animais, ainda que, em certos casos, isso ainda não seja possível.

Na indústria de cosméticos, no entanto, em que cobaias animais eram comuns, as práticas estão mudando rapidamente por exigência tanto de uma nova compreensão do ambientalismo, de que a proteção animal é parte, quanto do próprio mercado consumidor.

Libertação animal

Os defensores dos animais têm se inspirado na obra do filósofo australiano, Peter Singer, autor do livro Libertação animal, para iniciativas determinadas a por fim a tratamentos brutos e por isso mesmo indevidos a animais, como ocorre com as chinchilas, para a retirada de peles voltadas para a produção de artigos de luxo para humanos.

Pelo menos 200 chinchilas devem ter suas pelas arrancadas para a produção de um único casaco de peles.

A Assembléia Legislativa de São Paulo aprovou, em 17 de setembro passado, projeto de lei do deputado Feliciano Filho (PEN) para proibir a criação e manutenção de animais para a retirada de peles, que tem a resistência de Carlos Perez, do criadouro invadido.

Segundo ele argumentou em entrevista à Folha de S. Paulo, “30 mil chinchilas vão morrer por causa dessa lei”.

O projeto, agora, depende da posição do governador Geraldo Alckmin (PSDB) que tem até o próximo dia 28 para aprovação ou veto.

Perez entende que se o projeto do deputado Feliciano Filho for aprovado, a atividade de criação de chinchila “acabou”.

Já o governo estadual tem justificado que o projeto de lei está “sendo apreciado pelas áreas técnicas” das secretarias da Casa Civil e do Meio Ambiente.

O Brasil é um dos maiores produtores e já ocupa a segunda posição mundial como exportador de pele de chinchilas, superado apenas pela Argentina, segundo dados da Agência de Noticias de Direitos Animais (Anda).

Essa atividade foi introduzida aqui pelo próprio Perez, há mais de 30 anos. Agora a empresa dele disporia de 1.100 fêmeas e 214 machos reprodutores registrados.

 A empresa de Perez chega a abater cerca de 200 chinchilas diariamente, o bastante para a produção de três casacos de pele desses animais.

Os primórdios da exploração espacial foi uma época de uso intensivo de cobaias animais, ainda que essa seja uma parcela da historia camuflada no relato das conquistas.

Antes que Iuri Gagárin fizesse seu voo pioneiro, em abril de 1961, por exemplo, uma cadelinha de rua, da raça Laika, chamada “Crespinha”, foi encerrada numa nave e enviada para o espaço, com dados monitorados pelo controle do voo para acompanhar a reação do organismo de um mamífero nas condições inóspitas do espaço.

Crespinha teve uma morte lenta e sufocante e seu pequeno corpo foi carbonizado quando a nave que a transportava reentrou na atmosfera terrestre e foi destruída sob a forma de um meteoro.

O especialista russo responsável pelo envio dela ao espaço declarou, há alguns anos, que em hipótese alguma repetiria a iniciativa que teve no início dos anos 60.

Em seu livro, Libertação Animal, Singer argumenta que o histórico e sistemático desrespeito que temos para com os animais deriva do especismo, a idéia que parte dos humanos cultiva, de sermos uma espécie com direito de explorar todas as outras em nosso exclusivo benefício, conceito que, felizmente, está mudando rapidamente.

Um fato parece absolutamente claro: se não formos capazes de respeitar os animais, como respeitaremos a nós mesmos?

Até porque também somos animais, ainda que nos acreditemos racionais, mesmo que, muitas vezes,  isso possa ser profundamente questionável.



Escrito por blogdasciam às 18h13
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Flash no céu assusta população no Nordeste

Por Ulisses Capozzoli

Moradores de Pernambuco e outros estados do nordeste presenciaram, por volta das 22h20 da quarta-feira passada, um clarão rápido e intenso no céu que assustou ou surpreendeu muita gente. O efeito disso foi um quase congestionamento nas redes sociais.

O que teria acontecido?

No passado recente a explicação inevitavelmente incluiria discos-voadores ou outras explicações fantásticas. A divulgação crescente de ciência junto à sociedade, mesmo com deficiências significativas que permanecem, já ajuda na interpretação de fenômenos como de ocorrências naturais.

A partir dos relatos feitos, tudo indica que o brilho foi produzido por um corpo, um meteoróide, que mergulhou na atmosfera da Terra e produziu o brilho intenso, ainda que rápido, que em astronomia se chama meteoro.

Qual a natureza desse corpo?

Ele pode ser tanto remanescente do material que formou o Sistema Solar (poderia até ser originário de fora do Sistema Solar, ainda que essa hipótese seja mais remota) como restos de foguetes e satélites em órbita da Terra, ou seja: lixo espacial.

Durante a guerra fria, experimentos envolvendo destruição de satélites em órbita aumentaram o lixo orbital que se iniciou com a era espacial: estágios de foguetes desativados e, posteriormente, ferramentas e outros objetos deixados por astronautas flutuando em torno da Terra a uma velocidade em torno de 26 mil km/hora.

Se o meteoróide for natural, ou seja, não colocado em órbita por iniciativa humana, ainda pode ser tanto um pequeno bloco errante ˗˗ caso de um corpo desprendido da Lua, Marte ou mesmo Vênus, entre outras luas do Sistema Solar, por um impacto que pode ter ocorrido há milhares ou milhões.

Há uma boa possibilidade de que tenha sido um meteoróide componente da chuva de meteoros Orionídeos, que tem esse nome porque parece provir (por mero efeito de perspectiva) do interior da constelação de Órion que, naquele momento, começava a escalar o céu, no horizonte Leste.

As chuvas Orionídeos se estendem de 16 a 26 de outubro, com pico de intensidade entre os dias 20/21 de outubro e são produzidas por material liberado pelo famoso cometa Halley com órbita de 76 anos em torno do Sol.

Orionídeos têm média histórica de 25 meteoros/hora e mergulham na atmosfera terrestre à velocidade de 66 km/s. Isso equivale a dizer que, entre uma pulsação e outra do coração humano, os restos do Halley percorrem uma distância de 66 km.

Mas por que essas chuvas ocorrem periodicamente, em determinadas datas e tem, por exemplo, um pico de intensidade, ou seja, um momento em que se mostram particularmente ativas?

Na verdade, existem várias chuvas anuais de meteoros, associadas a determinados cometas. Mas o céu também pode ser riscado por um meteróide solitário, que produz um brilho luminoso (o meteoro) não necessariamente associado a um cometa.

Restos de cometas

As chuvas anuais, no entanto, têm essas origens e isso ocorre porque a cada aproximação que os chamados cometas periódicos fazem do Sol, em suas órbitas elípticas, sofrem aquecimento e isso dá início a uma reação química dos gases que formam esses astros. Essa reação pode produzir pequenos jatos de gases que atuam como pequenos foguetes. O fato é que, nesse processo, os cometas perdem massa sob a forma de uma esteira de detritos que deixam ao longo da órbita que percorrem em torno do Sol.

Cometas são “bolas de gelo sujo”, na clássica intepretação dada a esses astros pelo astrônomo americano Fred Whipple (1906- 2004). Assim, o desprendimento do material congelado também libera, ao longo da rota do cometa, poeira e corpos que podem ter porte um pouco maior que grãos de arroz ou milho.

No conjunto, esse material forma uma esteira de detritos que intercepta a órbita da Terra em torno do Sol. Então, quando a Terra cruza o rastro de lixo cometário, esse material mergulha e reage fisicamente com a atmosfera, produzindo os rastros luminosos, os meteoros. Se sobrevivem ao atrito e pousam na superfície da Terra esse material é chamado de meteorito.

Então, nesse caso, temos três situações frequentemente confundidas com o nome genérico de meteoro.

No primeiro caso, um corpo no espaço (meteoróide) que pode penetrar a atmosfera e produzir um rastro luminoso (meteoro) e que, se sobreviver ao atrito intenso com a atmosfera e pousar na superfície da Terra é um meteorito.

Meteoroides costumam ser destruídos em altitudes entre 80 a 100 km da superfície da Terra e “queimam” à medida que interagem com camadas atmosféricas mais densas, à medida que se aproximam da superfície do planeta.

O meteoróide, também chamado de bólido, que produziu a iluminação da noite no nordeste do Brasil não tinha massa significativa pois, neste caso, teria dado origem a uma onda de choque, percebida sob a forma de explosão. Foi o que aconteceu recentemente, com o meteorito que caiu na Rússia, estimado em 10 mil toneladas.

Provavelmente o bólido da quarta-feira no Nordeste teria algo como, no máximo, o porte de uma bola de futebol e seria de natureza rochosa e não metálica, como é o caso do mais famoso meteorito brasileiro, o Bendengó, ou Bendegó, exposto no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, e que já teve a visita de cientistas famosos, como Albert Einstein.



Escrito por blogdasciam às 16h24
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A epidemia de Ebola na África

Por Ulisses Capozzoli

A epidemia de ebola está fora de controle na Libéria, Serra Leoa e Guiné, na África Ocidental, com risco de espalhar por países vizinhos e produzir mortes que podem repetir a tragédia da Peste Negra, que varreu a Europa na baixa Idade Média.

A Peste Negra deixou um saldo impreciso de mortes, estimado entre 25 milhões e 70 milhões de pessoas.

Peste Negra é a designação popular para a pandemia de peste bubônica, infecção pulmonar produzida pela bactéria Yersinia pestis, transmitida aos humanos pela picada de pulgas, contaminadas pelo hospedeiro Rattus rattus, roedor conhecido no Brasil por nomes que variam de rato caseiro, rato de telhado e, na região nordeste, por gabiru.

Comparada ao Ebola, no entanto, mesmo a Peste Negra não era tão desafiadora.

Evidentemente que a disseminação da Peste ocorreu em um período em que antibióticos eram descobertas confinadas ao futuro.

Agora, no entanto, mesmo o sofisticado desenvolvimento ˗˗ tanto de diagnóstico, quanto de medicamentos e de infraestrutura ˗˗ fazem da epidemia africana páreo para os piores momentos do passado.

Ocorre, como mostram os pesquisadores Luciana C. C. Leite e Paolo M. de A. Zanotto, em artigo para a edição de novembro de Scientific American Brasil ˗˗ em fase final de conclusão neste momento ˗˗ que o vírus Ebola é um agente infeccioso sofisticado, do ponto de vista de propagação, com alta letalidade e transmissibilidade por semanas, mesmo depois da recuperação de pacientes sobreviventes.

Surtos anteriores de Ebola, que já se manifestaram na África, ocorreram em vilas e localidades isoladas, o que, de certa maneira, conteve naturalmente sua expansão. Neste momento, no entanto, ele se manifesta em grandes cidades, entre elas as capitais da Libéria, Serra Leoa e Guiné.

A escolha de imagens para a edição do artigo para Scientific American Brasil foi uma experiência incomum, nos últimos dias: corpos estirados pelas ruas, piras funerários improvisadas para cremação de mortos, famílias isoladas precariamente em instalações improvisadas, filas de mulheres em prece impotente, enquanto meninas, na luta diária pela sobrevivência, vendem sabonetes em bacias levadas à cabeça.

Inevitável a sensação de aperto na garganta e de impotência frente à dimensão da tragédia.

Dívida simbólica

A África, o berço da humanidade, segundo Darwin, é, também, há muito, o berço do abissal sofrimento humano, amplificado, de maneira dramática, pela eclosão da escravidão negra, em particular a partir do século 16.

Sem ajuda internacional a África sozinha será impotente em controlar a epidemia que, por enquanto, faz milhares de vítimas, ninguém sabe dizer exatamente quantos ˗˗ ainda que se fale de aproximadamente 7.500 mortos nestes três países.

O Brasil doou, até agora, perto de US$ 400 mil em ajuda financeira, mas essa é uma quantia praticamente simbólica e deve ser reforçada.

Até mesmo como compensação simbólica ˗˗ no sentido da preservação da vida e da dignidade humana ­ ˗˗ pelo tráfico despudorado que, durante séculos, sob as condições mais desumanas, fez de navios negreiros os barcos de cargas mais degradadas a cruzar o Atlântico.

A ajuda do Brasil ao combate de Ebola na África, no entanto, é também uma forma estratégica de defesa sanitária do território nacional.

Enquanto esse texto está sendo produzido, autoridades sanitárias, em Cascavel, no Paraná, investigam se uma pessoa que chegou da Guiné, com sintomas típicos do Ebola, é de fato um contaminado.

Se for o caso, exigirá isolamento e uma série de outros procedimentos para evitar que o Ebola comece a fazer vítimas também do lado ocidental do Atlântico.

Os Estados Unidos, mesmo com infraestrutura de saúde e de outros serviços de segurança mais sofisticados que o Brasil, já teve sua primeira vítima do Ebola: Eric Duncan, um liberiano que após amargar anos de desassistência em seu país, conseguir visitar o filho que emigrou, para acompanhar sua formatura na escola.

Duncan, que procurou socorro médico por iniciativa própria e foi mandado de volta para casa morreu em Dallas, no Texas e sua história acendeu a luz amarela de prevenção nos Estados Unidos.

Também a Espanha já tem uma tripla e dramática experiência com o Ebola: dois religiosos e a enfermeira que cuidou deles. Mesmo o cão que acompanhava essa agente de saúde, apesar dos protestos públicos, acabou sacrificado como providência para evitar que o Ebola se instale na Europa.

O que cada um de nós pode fazer para amenizar a sorte das vítimas do Ebola na África e evitar que pessoas ainda não contaminadas venham a ser vítimas da doença?

Talvez o mais indicado seja fazer contato com a organização Médicos Sem Fronteiras (MSF)  (www.msf.org.br) e oferecer a ajuda que julgar possível: mesmo uma pequena doação, em número significativo, pode fazer a diferença para milhares ou milhões de pessoas do lado de lá do Atlântico. 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por blogdasciam às 17h31
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Plutão voltar a ser um planeta

Por Ulisses Capozzoli


Oito anos depois de ser destronado da condição de planeta, Plutão, o mundo mais distante do Sol ˗˗ ainda que sua órbita acentuadamente elíptica faça com que periodicamente ele invada o interior da órbita de Netuno ˗˗ pode retomar seu antigo status.

Ao menos é o que pretende o Harvard-Smithsonian Center for Astrophysics (CfA), entidade que nasceu em 1973 de uma parceria entre a Smithsonian Institution e a Harvard University com sede em Cambridge, no estado de Massachusetts, no nordeste dos Estados Unidos.

Quem anunciou a disposição de trazer Plutão de volta ao colar planetário, em lugar de relegá-lo à condição de planeta-anão, o que significa colocá-lo no grupo de objetos transnetunianos, foi a responsável pelas relações públicas do CfA, Christine Pulliam.

Desde a mudança, ocorrida em 2006, durante uma reunião da União Astronômica Internacional (IAU, na sigla em inglês) em Praga, na Eslováquia, essa iniciativa não foi completamente digerida pela comunidade astronômica. Em especial pela comunidade astronômica americana.

As razões por trás dessa resistência são basicamente duas, ainda que não se restrinjam a esse número.

Uma delas está relacionada a certo prestígio nacional. Foi um astrônomo amador americano, Clyde Tombaugh (1906-1997), quem identificou num processo manual, a posição de Plutão, em 1930, ao final de uma longa peregrinação pelo céu.

A segunda resistência vem da equipe americana ligada à missão New Horizons que chega a Plutão em 2015 e é a primeira a visitar esse mundo gelado e distante, até agora apenas investigado com a ajuda de telescópios de superfície ou orbitais.

Mas há outros argumentos, entre eles o apresentado pelo astrônomo planetário e historiador da ciência, Owen Gingerich, que presidiu o comitê de definições de planetas da IAU.

Conceito cultural

Gingerich argumenta que “planeta é uma palavra culturalmente definida que muda com o tempo”, para defender a condição planetária de Plutão que precisa de 248 anos para completar uma volta em torno do Sol.

Isso significa que um ano de Plutão equivale a 248 anos terrestres.

Com Caronte, sua lua principal e pelo menos mais quatro satélites naturais descobertos mais recentemente ˗˗ Nix e Hidra, identificadas pelo Telescópio Espacial Hubble, em maio de 2005 e Cérbero e Estige, identificados em 2011 e 2012 ˗˗ gira em torno de seu eixo com inclinação de 120 graus, contra os aproximadamente 23,5 graus da Terra.

“Como a IAU considerou Plutão na condição de planeta durante tanto tempo e então decidiu rebaixá-lo à categoria de planeta-anão em 2006?” questiona Gingerich, para quem o que ocorreu foi uma manobra caracterizada por “abuso de linguagem” na tentativa de definir o que é um planeta.

Gareth Williams, diretor associado do Minor Planet Center, discorda de Gingerich e apóia o destronamento de Plutão com base em argumentos de que planetas são “corpos esféricos que orbitam o Sol e limparam seu caminho”.

Já Dimitar Sasselov, astrônomo de origem búlgara e diretor da Harvard Origins of Life Initiative, argumenta que “um planeta é a menor massa de matéria esférica que se forma ao redor de estrelas ou restos estelares” definição que, no entender dele, devolve o status retirado há oito anos de Plutão.

A forma esférica de corpos celestes resulta de sua massa, que produz um campo gravitacional capaz de fazer com que cada ponto em sua superfície esteja à mesma distância do centro.

Ainda que a rotação desses corpos deforme ligeiramente essa esfera e possa fazer dela um oblóide, como ocorre com a Terra, ou seja, uma esfera ligeiramente achatada no equador, devido às forças centrífugas de um corpo em rotação.

A história do Lowell Observatory

Devolver a Plutão sua condição de planeta talvez conforte os mais saudosistas sem, com isso, comprometer a terminologia científica. Até porque a limpeza orbital a que muitos deles se referem não ocorreu de forma completa em relação à Terra, por exemplo.

Além disso, Plutão foi identificado a partir do Lowell Observatory, em Flagstaff, no Arizona, criado por Percival Lowell (1855-1916), um dos entusiastas da vida inteligente em Marte.

Lowell foi um determinado defensor da ideia deturpada de uma consideração feita originalmente pelo astrônomo italiano Giovanni Schiaparelli (1835-1910) sobre canais artificiais na superfície marciana.

No Lowell Observatory esteve, na condição de diretor, outro astrônomo injustiçado pela história da ciência: Vesto Merlin Slipher (1875-1969) o verdadeiro autor da ideia da expansão do Universo, comumente atribuída a Edwin Powell Hubble (1989-1953).

Na verdade, Hubble se deu conta dessa possibilidade numa palestra feita por Slipher em que esteve presente e, em fins dos anos 20, fotografou o que foi chamado de “fuga das galáxias”, na companhia de Milton Humason (1891-1972).

Humason foi um antigo tropeiro que transportou cargas para a construção do Observatório de Mount Palomar, convertido por talento e prática em um “fotógrafo das estrelas”. 



Escrito por blogdasciam às 12h48
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Índia comemora chegada a Marte

Por Ulisses Capozzoli


A Índia anunciou, nesta quarta-feira, o sucesso de sua primeira missão a Marte, com objetivo de vasculhar a atmosfera do planeta em busca de possíveis formas de vida.

Que a Índia tenha sido capaz de enviar uma missão com sucesso ao planeta vizinho da Terra não chega a surpreender.

A surpresa, neste caso, é o baixíssimo custo da missão: US$ 74 milhões.

Para efeito de comparação a missão mais recente da Agência Espacial Americana, Nasa, que chegou a Marte na última segunda-feira custou dez vezes mais.

A sonda Mangalyaan (veículo de Marte) já enviou as primeiras imagens do planeta e com isso infla o orgulho das autoridades do país.

A mídia local está comemorando a missão interpretada como “realização histórica” e o jornal Hindu divulgou que a Mangalyaan já enviou cerca de dez fotos que mostram crateras na superfície vermelha de Marte.

O governo diz que as “fotos são de boa qualidade”, ainda que as cópias distribuídas não deem exatamente essa impressão.

De qualquer maneira, essa é a primeira vez que uma missão atinge seu objetivo numa viagem inaugural. Mas, aqui, várias considerações devem ser levadas em conta. Entre elas o fato de, apesar de estar debutando no espaço, a Índia, evidentemente, ter se beneficiado de dados e experiência de outros países para ter sucesso imediato.

A missão robótica levou dez meses para cruzar o espaço que separa Terra e Marte, em torno do Sol, em torno de 200 milhões de km.

Considerando o Sol como referência, a distância Terra/Marte, nos momentos de maior aproximação, é menor que 70 milhões de km.

Para “interceptar” Marte no espaço, girando em torno do Sol, no entanto, uma missão como essa deve percorrer um caminho mais longo.

Até agora, apenas a antiga União Soviética, Estados Unidos e União
Européia haviam enviado uma missão a Marte.

Começaram juntos

O fato significativo é que os programas tanto da Índia, quanto da China e do Brasil começaram no mesmo ano: 1961, estimulados pelo voo do primeiro cosmonauta, o soviético Iuri Gagárin (1934-1968).

Quanto dinheiro foi gasto no programa espacial brasileiro, é uma conta que, até agora, ninguém sabe fazer. Mas não foi pouco.

E, ainda assim, não conseguimos viabilizar nem mesmo um veículo lançador de satélites e esse deve ser motivo para alguma reflexão sobre investimento de recursos públicos, não por um governo, mas por vários governos, incluindo o governo militar.

Burocracia, inoperância e desencontros à parte, o programa espacial brasileiro foi sensivelmente afetado pela decisão dos militares, durante o regime autoritário, de construir uma bomba atômica e desenvolver um míssil capaz de transportá-la para alvos então determinados.

O projeto da bomba atômica foi abandonado no governo Collor com o lançamento de uma simbólica pá de cal num poço para experimentos, cavado na rocha viva, na Serra do Cachimbo, nas profundezas do Brasil Central.

E essa talvez seja uma das poucas memórias positivas daqueles tempos desencontrados.

A situação do programa espacial ficou particularmente complicada com a guerra no Golfo Pérsico, quando o governo brasileiro vendeu mísseis e outros armamentos, como tanques, granada e munição, ao então dirigente iraquiano Saddam Hussein.

Os países do chamado clube espacial vetaram a transferência de tecnologias sensíveis ao Brasil e com isso o programa espacial ficou severamente afetado.

Outro ponto negativo foi o fato de a área militar não ter conseguido viabilizar lançadores mais modestos e que deveriam culminar num foguete capaz de levar em órbita alta (36 mil km) um satélite de comunicações em órbita geoestacionária (um ponto aparentemente fixo sobre a Terra).

A explosão de um foguete na rampa de lançamento no Centro de Lançamento de Alcântara, no Maranhão, em 22 de agosto de 2003, foi outro fracasso que minou autoconfiança e comprometeu cronogramas.

O que o Brasil fez, com comemorações, ingênuas de um lado e suspeitas de outro, foi enviar um astronauta ao espaço.

Brilho efêmero

O astronauta brasileiro teve o brilho de um vagalume e se apagou em seguida. Não por demérito do astronauta em si, o tenente-coronel da FAB, Marcos Pontes, que voou numa missão paga à Rússia, em março de 2006.

A ideia de um astronauta brasileiro apareceu no governo de Fernando Henrique Cardoso para dar ares de modernidade ao país.

Mas país nenhum do mundo desenvolveu um único astronauta e a razão para isso é elementar: se no dia do voo ele tivesse, por exemplo, uma disenteria, a missão estaria condenada.

Daí a necessidade de uma equipe de astronautas, como ocorreu na União Soviética, já  com o voo de Gagárin, em abril de 1961.

Pelo menos US$ 30 milhões, em valores não atualizados, foram gastos exclusivamente com o astronauta, que viajou até a Estação Espacial Internacional durante o governo Lula.

O que ocorreu, neste caso, foi apenas mais um episódio de uma queda de braços que volta a se repetir nestas eleições presidenciais: FHC articulou a ideia de um (único) astronauta.

Como o dinheiro já havia sido majoritariamente gasto nos treinamentos do candidato, na Nasa, Lula decidiu mandá-lo para o espaço para não ser rotulado de, digamos, “anticientífico” ainda que os experimentos de Pontes não tenham ido além das clássicas experiências de fazer brotar feijão em algodão embebido em água, usuais no ciclo básico, já à época em que Gagárin circunavegou a Terra.

Além da Índia, que comemora o êxito de sua missão em Marte, a China desenvolveu um complexo programa espacial que incluiu sondas enviadas para a Lua e a colocação em órbita de uma estação espacial chinesa.

Ou seja, dos três países que começaram sua missão espacial no mesmo ano em que Gagárin fascinou o mundo, China e Índia foram em frente e comemoram suas conquistas.

O Brasil continua no solo. As desculpas para justificar a razão de não termos ido em frente são as mais amplas e variadas que se pode imaginar, incluindo razões de natureza geopolítica.

Esse ritmo marca, de alguma maneira, a evolução da ciência no Brasil.



Escrito por blogdasciam às 17h36
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Primavera começa na noite de segunda-feira

Por Ulisses Capozzoli 

Exatamente às 23h29 (horário de Brasília) da próxima segunda-feira teremos o equinócio de primavera, quando o Sol ˗˗ em seu deslocamento aparente em relação ao equador ˗˗ deixa o hemisfério norte e inicia o mergulho no sul até o deslocamento máximo nesse sentido, definido pelo solstício de verão, em 21 de dezembro.

Deslocamento aparente do Sol refere-se a um movimento  que, como o próprio nome diz, é apenas aparente, pois é produzido por duas situações básicas: a inclinação do eixo de rotação da Terra, de aproximadamente 23,5 graus e o deslocamento (translação) da Terra em torno do Sol.

Os limites desses deslocamentos aparentes são definidos pelos trópicos de Câncer, ao norte, e Capricórnio, ao Sul.

Por que a Terra tem essa inclinação de seu eixo de rotação, enquanto em outros planetas essa referência é tão mais acentuada? Vênus, por exemplo, praticamente gira de cabeça para baixo.

Respostas a perguntas como essa, aparentemente simples, não são tão simples assim, ainda que se possa especular que, por exemplo, o choque de um corpo com a Terra no passado remoto foi o responsável por isso.

A esse impacto também é atribuída a origem da Lua. O corpo impactante, do porte de Marte, teria arrancado uma porção da Terra que voltou a se coalescer no espaço e formou a Lua.

E o surpreendente é que, desde então, a Lua tem atuado tanto como um estabilizador do movimento da Terra ˗˗ uma espécie de âncora cósmica ˗˗ e também como um escudo.

Parte de bólidos vindos do espaço profundo e que teria como destino a Terra foi barrada pelo escudo lunar e isso pode ter mudado a história da vida no planeta.

Mas a própria inclinação do eixo de rotação terrestre, produzindo as estações do ano, também influenciou profundamente o desenvolvimento da vida no planeta. E isso foi significativo no processo de espalhamento da população humana desde épocas muito distantes.

As estações do ano transformam radicalmente a superfície do planeta, cobrindo de gelo e neve determinadas áreas durante o inverno, enquanto a outra fica livre dessas formações e, à medida que as estações se alternam, essas situações se alternam.

Animais, como ursos, hibernam durante os longos invernos do norte (não há ursos na Antártida, entre outras razões pelos efeitos do isolamento do continente, ao contrário do que ocorre no Ártico).

A influência no deslocamento de populações humanas deve ter ocorrido a partir de populações de caçadores-coletores, antes da fundação da agricultura, há 12 mil anos, no chamado Crescente Fértil que inclui áreas do Oriente Médio.

A escassez de chuvas no inverno, e a abundância delas, com pastagens verdes e nutritivas, levou a ainda leva animais a migrações, como ocorre na África. E atrás dos rebanhos de gnus e outros animais seguiram grupos humanos de caçadores.

Isso tudo significa que, sem a inclinação do eixo de rotação da Terra, a história da vida no planeta seria inteiramente distinta da que conhecemos hoje.

Referências como essa devem estimular a reflexão quanto a uma série de outras situações, entre elas o período de evolução de estrelas com a massa do Sol, que condicionam a vida como conhecemos.

 

A maior parte das pessoas, no entanto, aparentemente vive apressada e desvinculada das relações com a Natureza o suficiente para sequer desconfiar de como, o que parece apenas um detalhe, pode ser profundamente significativo para a vida.



Escrito por blogdasciam às 14h18
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Surpresas de uma chuva de meteoros

 Por Ulisses Capozzoli

 

Se você gosta de observar o céu, mesmo a olho nu, mas não tem programação, nem uma ideia clara do que observar, aqui vai uma dica. E com algum tempo de avanço, exatamente para você poder se preparar.

Em 17 de novembro próximo ocorre o pico de intensidade da chuva de meteoros Leonídeos, conhecida por esse nome porque parece emergir do interior da constelação zodiacal do Leão.

Leonídeos é a chuva de meteoros ˗˗ essas chuvas são popularmente conhecidas como “estrelas cadentes” ˗˗ mais importante do ponto de vista da astronomia meteorítica. Entre outras razões porque foi a primeira observada cientificamente. E quem fez isso não foi um astrônomo, mas o geógrafo, naturalista e explorador alemão Alexander von Humboldt (1769-1859).

Foi ele quem se deu conta, ao menos para os registros científicos, que essa chuva produzida por material liberado no espaço pelo cometa Temple-Tuttle, provém do interior da constelação do Leão.

Na realidade, as coisas são ligeiramente diferentes.

 Leonídeos e outras chuvas não emergem exatamente de um ponto do céu, agora chamado radiante. A sensação de que isso ocorre deve-se a um efeito de perspectiva para um observador na superfície da Terra.

O que ocorre de fato é que as chuvas de meteoros são produzidas por meteoroides, corpos que circulam pelo espaço e que podem ter, do porte de um grão de arroz ou menos, até vários quilômetros de diâmetro. Ainda que um corpo de grande porte neste caso seja, frequentemente, referido como asteroide.

Como um cometa libera material no espaço?

Cometas, na definição do astrônomo americano Fred Whipple (1906-2004) não passam de “bolas de gelo sujo”. Assim, cada vez que se aproximam do Sol em suas órbitas elípticas (como um anel achatado) se aquecem e experimentam reações químicas em seu interior.

As reações químicas, por estímulo térmico do Sol, produzem efeitos interessantes no corpo de um cometa.

Um desses efeitos é a formação de jatos de gases, atuando como se fossem pequenos foguetes, que podem, por exemplo, influir na rotação do cometa.

Sujeira dos cometas

As reações também liberam partículas sólidas, que podem ser blocos maiores ou os grãos de poeira cósmica do porte de um grão de arroz, por exemplo. É esse material que entra na atmosfera da Terra à velocidade (chamada velocidade cósmica) de 72 km/s e, reagindo com os gases atmosféricos, deixa rastros luminosos a elevações em torno de80 km/s, os chamados meteoros.

Então, para dissiparmos uma confusão muito frequente, temos três termos para distinguir uma coisa da outra e que, quase sempre, são confundidas:

Meteoro é a luz produzida por um meteoróide que entra na atmosfera da Terra. Se o meteoroide, após produzir um meteoro (o risco luminoso), sobrevive ao atrito e pousa na superfície, então temos um meteorito.

As pessoas se perguntam se um dia desses vamos ser atingidos por um bólido vindo do espaço profundo em alta velocidade.

A resposta é que isso acontece o tempo todo. A diferença está no porte desses bólidos. Em vez de um corpo do tamanho de um ônibus médio, como o que caiu recentemente na Rússia, somos atingidos por objetos menores: coisas que variam de um pedregulho aos, mais frequentes, grãos de areia cósmica.

As estimativas são de que, a cada ano, pelo menos 100 mil toneladas de material pousam na Terra vindo do espaço profundo. E não incluem apenas meteoróide.

Cometas, que normalmente abrigam reservatórios congelados de água, também podem liberar blocos que mergulham na atmosfera, onde são vaporizados. E isso significa que, a cada dia, recebemos um pouco mais de água na Terra.

Ocorre que a Terra também perde água para o espaço.

Como isso ocorre?

Certos tipos de nuvens, de elevadas altitudes, sofrem bombardeio intenso de radiação ultravioleta do Sol. Com isso, moléculas de água são fotodissociadas, ou seja, tem suas ligações atômicas entre dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio (H20) quebradas. Com isso temos os dois átomos de hidrogênio e um único de oxigênio liberados em suas formas atômicas.

Como oxigênio é mais pesado, mergulha em direção à superfície da Terra, por atração gravitacional. Já o hidrogênio, levíssimo, voa para o espaço e forma uma cabeleira que se estende até as proximidades da órbita da Lua.

Perdas compensadas

Então, a água que chega, trazida por cometas, de alguma maneira compensa a água perdida por fotodissociação em nuvens de elevada altitude.

Água é algo abundante no Universo. E mais que isso: a água se formou muito precocemente no Universo.

Como isso aconteceu?

Aconteceu quando as estrelas, depois de produzir oxigênio (a partir de hidrogênio) na chamada síntese dos elementos químicos, liberaram em meio a uma enorme explosão de supernova todo esse material no espaço.

O que a Natureza faz, por atrações físico-químicas, é compor átomos de hidrogênio e oxigênio e formar água. Enorme quantidade de água, elemento fundamental para a vida como é conhecida na Terra.

Agora, duas outras considerações que podem influenciar você na observação de Leonídeos.

Antes disso, talvez seja interessante dizer que, para observar essa chuva, basta sair da iluminação urbana. Forrar o chão com uma lona ou plástico para se proteger da picada de insetos e deitar com os olhos voltados para a posição nordeste.

Antes mesmo que o Leão fique muito elevado no céu você verá os meteoros associados a essa chuva.

Leve uma câmara fotográfica e deixe o diafragma aberto em direção ao radiante da chuva. Toda vez que um ou mais meteoros passarem, mude para a próxima gravação.

Com o diafragma aberto você gravará o movimento das estrelas produzidos, na verdade, pela rotação da Terra. Em meio ao rastro das estrelas você terá um ou mais meteoros.

A última vez em que Leonídeos se manifestaram com abundância foi em 1999, logo em seguida ao periélio (passagem próxima ao Sol) do cometa Tempel-Tuttle. O cometa, agora, está se aproximando do seu afélio (o máximo distanciamento do Sol) de onde inicia mais um retorno para o periélio.

E, agora, a revelação que adiamos, algumas linhas atrás, com suas considerações:

A primeira é que a quase totalidade de água da Terra foi trazida para cá por cometas que se chocaram com o planeta.

A segunda leva em conta que aproximadamente 60% da massa do corpo humano é formada por água.

A essa altura você já deve ter chegado à conclusão de que a maior parte do seu corpo já foi cometa no passado. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por blogdasciam às 16h51
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Uma nova visão do céu

Nova medida de superaglomerado galáctico amplia em 100 vezes volume dessa estrutura cósmica

 Por Ulisses Capozzoli     


O novo mapeamento cósmico referente ao superaglomerado galáctico de que faz parte a Via Láctea, a estrutura que abriga o Sistema Solar em um de seus braços (braço de Órion), surpreende, tanto pela capacidade humana de mensuração do Universo quanto pelo abismo de espaço-tempo em que estamos encerrados.

O trabalho, originalmente publicado na revista científica Nature (grupo de que Scientific American é parte) está reproduzido neste site acompanhado de animação para que os leitores tenham ideia do que se trata.

O super aglomerado galáctico a que a Via Láctea pertence, e que até então era conhecido como Super Aglomerado de Virgem, segundo essas novas medidas, tem volume 100 vezes superior ao que se pensava. Ao se darem conta dessa dimensão, os cosmólogos envolvidos com o trabalho, liderados por Brent Tully, da University of Honolulu, batizaram a estrutura de “Laniakea”, palavra havaiana para “paraíso incomensurável”.

Assim, Laniakea é a segunda instância de grandeza envolvendo a Via Láctea que tem sua estrutura de perfil observada no céu, especialmente em noites sem luz da Lua, como um fluxo luminoso de luz branca conhecido como Caminho de Santiago ou simplesmente Via Láctea.

A visão noturna do perfil da Via Láctea faz com que ela lembre um gigantesco ovo frito, observado de perfil.

A primeira instância é o chamado Grupo Local, um conjunto de galáxias com centro de gravidade comum que reúne aproximadamente 40 dessas estruturas, incluindo galáxias satélites da Via Láctea, como as Nuvens de Magalhães, visíveis nas proximidades do Cruzeiro do Sul e nossa vizinha mais próxima, Andrômeda, a 2,3 milhões de anos-luz.

Essa distância significa que, a luz de Andrômeda que pode ser visível mesmo a olho nu, em condições muito favoráveis, e mais facilmente observada com um telescópio de pequeno porte, deixou o corpo dessa galáxia a 2,3 milhões de anos e desde então viaja pelo espaço que separa essas duas estruturas vizinhas no espaço-tempo.

No caso da Via Láctea, o Sistema Solar se encontra a aproximadamente 30 mil anos-luz do núcleo galáctico, o meio da gema em nosso hipotético ovo frito, e a 20 mil anos-luz da borda galáctica, a extremidade do ovo considerado.

Densidade do núcleo

No centro galáctico a densidade estelar é maior e os processos astrofísicos mais acelerados.

Pode ser apenas sorte, mas provavelmente deve-se a razões mais restritas, o fato de estarmos localizados no braço de Órion, região menos turbulenta do ponto de vista de evolução estelar, com menor concentração de gás que a região central.

A densidade estelar, que acelera processos interativos, faz com que a morte ou fusão de estrelas disparem fluxos poderosamente destruidores de energia, entre eles radiação gama, a mais ponte fonte de radiação eletromagnética.

O reconhecimento de galáxias como aglomerados de vaga-lumes cósmicos ˗ as estrelas que formam essas estruturas ­˗ deslocando-se umas em relação às outras pela expansão do espaço, demorou milênios para ser feita. Agora, no entanto, tanto a disponibilidade instrumental para observação, quanto o avanço teórico que permite especulações impossíveis no passado, fazem desses avanços resultados impressionantes.

Na Antiguidade Grega, o astrônomo-matemático Aristarco de Samos (310 a 230 a.C.) que defendia a órbita da Terra em torno do Sol e sua rotação em torno de um eixo imaginário concebeu um universo tão vasto quanto o considerado nos anos 30 do século passado, quando a cosmologia deixou a filosofia e se integrou ao corpo da ciência pelos trabalhos do astrônomo americano Edwin P. Hubble (1889-1953).

Por ideias avançadas para a época, Aristarco foi acusado de impiedade pelo filósofo estóico Cleante de Assos (330 a 230 a. C.).

O estoicismo, escola filosófica fundada por Zenão de Cítio (333 a 233 a.C) defendia a ideia de que emoções destrutivas decorrem de erros de julgamento e que um sábio, no sentido de alguém com “perfeição moral e intelectual”, estaria a salvo desses desvios.

Em 1755 o filósofo alemão Emmanuel Kant (1724-1804), em História geral da Natureza e teoria do céu, concebeu a estrutura galáctica e a chamou de “universo-ilha”. Mas foi preciso esperar pelo desenvolvimento de telescópios mais eficientes para distinguir galáxias de nebulosas, no segundo caso, remanescentes de explosões estelares do tipo supernova.

Então, nos anos 30, com as medidas de afastamentos galácticos pela expansão cósmica ˗ descoberta teórica quase sempre atribuída a Hubble, mas na verdade concepção teórica do astrônomo também americano Vesto Slipher (1875-1969), que Hubble ouviu em uma conferência ˗ essas estruturas começaram a ser melhores conhecidas e classificadas.

A surpreendente fuga das galáxias

A observação e medida da chamada “fuga das galáxias” deu origem à cosmologia como parte do corpo da ciência e não mais da filosofia.

A forma e medidas da Via Láctea foram possíveis a partir da descoberta, durante a Segunda Guerra Mundial, da emissão de energia pelo hidrogênio eletricamente neutro pelo astrônomo holandês Hendrik Christoffel van de Hulst (1918-2000). Com essa emissão, ela foi mapeada com recursos da radioastronomia.

A mais recente “atualização da Via Láctea”, há pouco mais de uma década, mostrou que além de espiral, ela é também barrada (com uma barrada estelar no núcleo), o que faz dela uma espiral barrada.

A reinterpretação, agora, de que ela integra algo como um hiperaglomerado, a Laniakea, amplia o conhecimento e concepção que os cosmólogos obtém do Universo.

Essas medidas (ver animação) mostram que hiperaglomerados fluem para centros gravitacionais específicos, separando diferentes regiões do espaço como rios que, com nascentes próximas, correm com suas águas para direções distintas, em ilhas e continentes da Terra.



Escrito por blogdasciam às 18h01
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O limite dos oceanos

 Por Ulisses Capozzoli

O trabalho de dois climatologistas chineses, publicados na revista científica americana Science, explica o que pareceu uma pausa no processo de aquecimento global e levou, temporariamente, observadores céticos quanto a essa mudança, a um contrataque, em especial devido a contribuição humana com uso de combustíveis fósseis.

Segundo Xianyao Chen e Ka-Kit Tung, ambos da Universisty of Washington,  o Oceano Atlântico absorveu um calor excedente e dragou essas temperaturas mais elevadas para áreas mais profundas de sua bacia.

A pausa no processo contínuo de aquecimento ocorreu entre 1999/2012.

No período anterior, 1985/1998, a elevação de temperaturas vinha num crescendo.

A climatologia é uma área complexa da ciência e isso é o bastante para desestimular versões que, à primeira vista, parecem óbvias como a descoberta, no século 19, pelo físico-químico e Prêmio Nobel sueco Svant Arrhenius (1859-1927), de que o dióxido de carbono (ou gás carbônico) é um aprisionador de calor atmosférico.

 Assim, se aumentar a concentração desse (e de outros gases de efeito estufa) o resultado seria, inevitalmente, um aquecimento do envoltório de gases que envolvem a Terra, compondo a atmosfera.

A questão aqui é que outros processos poderiam compensar ou ao menos amenizar esse fenômeno, como a formação de uma capa mais perene e espessa de nuvens ˗ resultado da evaporação ˗ e isso refletiria como um espelho parcela da radiação solar que, antes disso, atingia a superfície do planeta.

Ainda assim, no entanto, não conviria “varrer para baixo do tapete”, o fato de que a concentração de gás carbônico na atmosfera passou de 280 ppm (partes por milhão) à época da previsão de Arrhernius para 400 ppm  em 9 de maio do ano passado.

Essa constatação (400 ppm) foi feita do topo do vulcão extinto de Mauna Loa, no Pacífico, um amostrador científico ideal por sua localização distante de centros urbano-industriais capazes de contaminar as medidas.

A discussão em torno do aquecimento global com mudanças climáticas por efeito antrópico é uma evidência clara de que a ciência, como qualquer outra atividade humana, é permeada por efeitos político-ideológicos que, à primeira vista, seriam incompatíveis com a metodologia científica.

Otimismo precoce

O trabalho da dupla de cientistas chineses, num primeiro momento, pode sugerir certo alívio, com a idéia de que as grandes massas de água oceânicas absorvem o calor excedente aprisionado na atmosfera e com isso um equilíbrio desejável é mantido.

Ocorre que o processo é bem mais complexo que isso, o que faz crescer os níveis de preocupação quanto ao futuro imediato do perfil climático da Terra com influência em toda forma de vida.

Para começar, a absorvação de excedentes de gás carbônico implica em acidificação dos oceanos e comprometimento profundo das formas de vida que eles abrigam.

Além disso, não se sabe até quando os oceanos do mundo podem absorver gás carbônico sem sofrerem um processo parecido ao que os físicos chamam de “mudança de fase”. Quando a água muda da forma sólida do gelo para a líquida, ou mesmo gasosa.

Processos como a defaunação, o desaparecimento de animais de ambientes que parecem sadios, tem relação com mudanças climáticas a partir do aquecimento global?

Ainda não se tem resposta para esta pergunta.

O que se sabe, para além da defaunação, é que o planeta passa por uma aceleradíssima perda de biodiversidade. E se o especismo (idéia de que a espécie humana é o principal legado da vida, com direito a explorar todas as outras) não for capaz de se sensibilizar com essa situação, é preciso lembrar que a teia de relações fará com que, a certo estágio desse processo, os humanos sintam o peso dessa nova realidade.

Como isso pode se manifestar?

A mudança climática deve impactar o regime de chuvas em escala global e a distribuição de água potável, pelo ciclo hidrológico, afeta tanto o abastecimento hídrico para consumo humano como para atividades agropecuárias e industriais.

As torneiras secas durante certas horas da noite em boa parte da megalópole de São Paulo é um exemplo de que essas cenas são parte da realidade atual e não ficção distante.

Os céticos do aquecimento global com mudanças climáticas, que inicialmente envolveu o setor ligado aos combustíveis fósseis e um  pensamento politicamente conservador (em alguns casos, reacionários) negou o processo desde o início sem embasamento científico. Aqui prevaleceu apenas a opinião desses críticos.

Pode-se argumentar que os defensores do aquecimento global com mudança climática a partir de contribuições antrópicas também não dispunham ˗ ao menos de início e pode-se dizer, neste exato momento ˗ mas há uma diferença radical entre esses dois grupos.

A admissão do aquecimento como resultado de atividades humanas (o que não nega a participação de efeitos naturais em um ou outro sentido, já que esses fenômenos não cessaram e nem cessariam abruptamente), no entanto, acena com a possibilidade de mudança de atitudes e isso é fundamental de um ponto de vista tanto pessoal como social.

Ponto de não retorno

Há quem duvide, em função da complexidade do clima referido inicialmente, que mesmo uma mudança radical, um corte completo na emissão de gases de efeito estufa por atividades humanas não seria capaz de deter o aquecimento com mudanças climáticas.

A razão por trás disso é uma certa inércia.

Um navio que se dirige sem controle rumo ao cais, mesmo que tenha seus propulsores desligados, ainda viajará certa distância antes de ser paralisado pelo atrito com a massa de água sobre o que desliza.

A inércia que governa nosso barco virtual pode fazer com que ele destrua o cais e se destrua sem que nada possa evitar a tragédia.

Isso significa que, de um ponto de vista climático, teríamos chegado a um ponto sem retorno?

Essa é outra pergunta para a que também não se tem resposta.

Na dúvida, a sociedade humana não deveria adotar medidas preventinas e acauteladoras?

Respostas mais cínicas podem dizer que, de certa maneira, isso nunca ocorreu e nem ocorrerá, no que podem estar corretas.

Mas, em escala planetária e por razões que dizem respeito à qualidade de vida, ou mesmo à sobrevivência de cada um, uma ameaça dessa natureza é inédita na historia da civilização. O que significa que não foi respondida antes.

A função da ciência e da cultura em geral (evidentemente que a ciência é parte da produção cultural e não algo à parte, como se ouve dizer mesmo em ambientes onde essa maneria de pensar não passa de limitação intelectual) é alimentar um substrato mental, uma concepção sobre o que o mundo é, a partir de olhos humanos.

Então, se a função da ciência é um refazer constante do substral mental social, e a divulgação de ciência um mecanismo indispensável neste processo, é de se esperar que a ciência possa sensibilizar os humanos para as perspectivas do futuro a partir de toda aventura, enquanto espécie, que vivenciamos desde o passado mais remoto.

Neste sentido, o aquecimento global com mudanças climáticas diz respeito a uma civilização (a única que conhecemos até agora) em um dos possíveis numerosos mundos habitados, no corpo da Galáxia, ou no bojo de muitas das bilhões de galáxias que dançam ao compasso da gravidade no salão cósmico.

Em princípio, ainda que possa parecer exagero, tudo está em aberto.

Este pode ser tanto mais um desafio ˗ entre os infinitos já enfrentados pelo Homo sapiens, desde que elevou-se sobre duas pernas, construiu ferramentas, desenvolveu a linguagem e forjou a cultura para que pudesse se desonvolver ˗ como o começo de um fim.

Isso tudo pode, também, parecer pura ficção.

Ocorre que, neste momento, aparentemente realidade e ficção se confundem como em nenhum outro momento da historia humana.

 

 



Escrito por blogdasciam às 15h58
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 Ameaça improvável

   Por Ulisses Capozzoli


Ao que tudo indica, quando não temos problemas, damos um jeito de encontrar algum.

E dessa saga trágica não escapam nem mesmo pesquisadores científicos.

Astrônomos da University of Tennesee, no sul dos Estados Unidos, estão estimando que, em 16 de março de 2880, um bólido cósmico, o 1950 DA, terá uma chance em 300 de se chocar com a Terra.

Essa relação, uma em 300, é altamente temerária em se tratando da probabilidade de choque com um cometa ou asteróide, caso do 1950 DA.

Mas em 2880, ou seja, em 866 anos  no futuro?

Pura besteira.

Se o bólido não alterasse sua rota, por efeitos gravitacionais de planetas gigantes como Júpiter, ou por uma inevitável interferência humana, até seria razoável levar em conta essa probabilidade.

Mas, em 866 anos no futuro, trata-se de uma completa impossibilidade.

Prever o estágio da sociedade humana em um período tão longo de tempo, ao menos para os padrões da vida humana (35 gerações), é praticamente impossível, dada a escala de mudanças estimuladas pela ciência e tecnologia.

Ainda assim, em 2880, há muito teremos colonizado os mundos mais favoráveis do Sistema Solar, eventualmente com uso de engenharia planetária, capaz de mudar completamente as condições inóspitas que agora prevalecem em Vênus.

Além da ocupação do Sistema Solar, seguramente teremos enviado um ou mais navios cósmico para mundos em torno de estrelas mais próximas, dotados de condições favoráveis à formação de colônias humanas.

Essas viagens demorarão séculos e gerações inteiras, com vida média talvez em torno de 150 anos, percorrerão o aparente vazio entre as estrelas antes de chegar a um destino onde fundarão, não uma cidade, mas um novo mundo.

Memória de navegadores

É possível que um ou mais desses navios cósmicos homenageiem nomes de barcos como os que compuseram a frota de Colombo em sua primeira viagem à América: o “Santa Maria”, “Pinta”e “Niña”.

Outros talvez farão homenagem a Pedro Nunes e D. João de Castro, os mais notáveis cosmógrafos portugueses do início do século 16, indispensáveis às viagens de descobrimentos empreendidas por Portugal que, ao contrário do que ainda se acredita, nunca teve uma instituição chamada Escola de Sagres.

É possível até mesmo que uma reprodução do que pode ter sido o rosto de Colombo seja colocada na ponte de navegação de um desses navios cósmicos e que, em momentos mais críticos da viagem, a tripulação que não esteja hibernando consulte-o simbolicamente como fez o capitão da nave que interceptou Rama, a cosmonave que parecia disposta a invadir a Terra no desconcertabte romance de Arthur C. Clarke, Encontro com rama.

Em 2880 também teremos estabelecido colônias espaciais, mundos construídos por mãos humanas, orbitando o Sol a distâncias convenientes para se abastecer de energia farta e ambientes apropriados para a continuidade da vida.

Essas cidades terão suas próprias fazendas de alimentos e esses cultivos estarão livres das pragas que hoje castigam os cultivos na Terra e tornam imprevisíveis e dura a vida de verdadeiros fazendeiros e pequenos agricultores.

Por essa época futura, há muito teremos nos apoderado de cometas e asteróides para retirar deles materiais como água e minerais (teremos desenvolvido novos materiais que em nada lembrarão as velhas carcaças de foguetes, aviões ou automóveis que um dia fascinaram os habitantes da Terra, antes que tivessem se lançado no espaço profundo).

Com os avanços em astronáutica, novas fontes de energia (eventualmente com a exploração energética de buracos negros e outras possibilidades, entre elas o completo domínio da fusão que permitirá a construção de pequenos sóis artificiais) a ameaça de um corpo como o 1950 DA colidir com a Terra será visto com humor e tolerância com a visão ingênua dos antigos moradores do que então será conhecido como Planeta-Mãe: a nossa velha e belíssima Terra.

Agora, no entanto, em meio à insegurança econômica, instabilidade emocional provocada por uma mudança vertiginosa no estilo de vida, impotência frente a guerras e conflitos que formam riachos de sangue humano, enxergar ameaças no futuro distante talvez não passe de mera projeção dos horrores do presente.



Escrito por blogdasciam às 16h35
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 Os equívocos com índios isolados

Por Ulisses Capozzoli

Um dos temas que mais geram desencontros e desentendimentos na mídia está relacionado a povos indígenas, em especial os grupos isolados.

Jornalistas sem nenhuma base em antropologia e história, com freqüência traduzem a idéia de índios isolados como etnias ou nações inteiras que fugiram ao contato com a sociedade exterior (que quase sempre eles se referem como “a civilização”) desde que Cabral e sua esquadra aportaram por aqui, para cumprir a formalização do descobrimento.

Na verdade, os grupos isolados fazem parte de povos que tiveram contato com os “brancos”, com traumas que os levaram a se refugiar nas profundezas da floresta, recusando sistematicamente novos encontros.

A lógica fácil da desinformação rebate que “isso aconteceu há muito tempo”, na pressuposição de que esse “muito tempo” teria feito com que esses povos se esquecessem da violência sofrida. Com isso, tentam desacreditar a presença do trauma.

A falta de bases elementares em antropologia, no entanto, faz com que não considerem que os povos indígenas são ágrafos, ou seja, não escrevem e, portanto, não registram a historia em sua forma clássica. Tudo que um índio sabe do passado do povo a que pertence é relatado por seus ancestrais de forma oral. 

Qual a diferença entre os dois processos, o relato escrito e o oral?

A diferença é radical.

Um relato como o que atingiu os Cinta-Largas em meados dos anos 60, por exemplo, conhecido como o “Crime do Paralelo 11”, quando feito por um ancião, comove profundamente os jovens, que vão às lágrimas.

Brutalidade insana

A brutalidade desse crime foi tamanha que se apossa de qualquer um que tome consciência dele através de um livro ou de cópias do processo que condenou um fazendeiro do Mato Grosso e seus capangas, responsáveis pela eliminação inteira de uma aldeia Cinta-Larga.

Um relato oral, no entanto, como os contos de fadas que ouvimos na infância, na escola ou feito por nossas avós, emociona como se tivesse acabado de ocorrer.

E essa é a diferença radical.

A narrativa oral presentifica os acontecimentos, como se cada um deles tivesse a idade de no máximo uns poucos dias.

E isso os “brancos” não são capazes de compreender. E boa parte dos jornalistas menos ainda.

Nesse conjunto de desencontros, termos como “brancos” são outra aberração.

A nominação de “brancos” como não índios tem origem em faroestes, em boa parte figurados por John Wayne e relativos a americanos ou ingleses, em sua maioria, loiros, de olhos azuis e pele branca.

No Brasil, não somos exatamente brancos. Somos pardos, mulatos, negros e até mesmo brancos, mas não no sentido anglo-saxão.

Quando indígenas, já em contato com a sociedade exterior − como os moradores do Parque Indígena do Xingu, por exemplo, − se referem a não-índios como “brancos”, usam essa palavra no sentido de “estrangeiro” ou ”não-índio”.

Um negro, por exemplo, pode ser chamado de “branco” por um indígena que foi ensinado a usar essa expressão sem ter, evidentemente, noção de sua origem em filmes de faroeste.

Contato recente

Nesta semana, a Fundação Nacional do Índio (Funai) liberou dados do contato de membros de um desses grupos isolados com antropólogos, sertanistas e funcionários do órgão no Acre, fronteira com o Peru.

O noticiário em horário nobre da televisão costuma fazer de casos como este um espetáculo à parte.

A verdade é que o Brasil tem um número não exatamente conhecido de grupos isolados. As informações sobre esses povos chegam por intermédio de povos indígenas em contato com a sociedade exterior (a chamada “civilização”, como se povos indígenas fossem desprovidos de cultura, o que significa que são vistos como pouco mais que animais).

Outra forma de obter evidências de isolados ocorre por fazendeiros, madeireiros e garimpeiros, quase sempre como saldo de encontros violentos, capazes de produzir mortos ou danos afetivos e culturais que jamais serão sequer conhecidos.

Há ainda o caso de sobrevôos de áreas que podem revelar a localização de grupos isolados, normalmente reduzidos.

O que seguramente é importante esclarecer é que os grupos isolados, até recentemente estimados em pelo menos 40, se localizam praticamente na Amazônia que, não por acaso, representa 50% do território nacional.

Em consequência disso, o Brasil é um dos pouquíssimos países do mundo que ainda tem sertanistas, como foram os irmãos Villas-Boas, e essa é uma prova emocionante de nosso patrimônio antropológico.

De um modo geral, os ufanistas da unidade nacional − neste contexto uma amarração equivocada do que seja uma nação – bradam que a língua, o português, é a prova incontestável dessa condição, a unidade nacional.

O português que se fala no Rio Grande do Sul e Rio Grande do Norte, no entanto, é quase como se fosse outra língua, tal a frequência e intensidade dos regionalismos.

O Brasil, no entanto, dispõe de pelo menos duas centenas de línguas, se considerada a diversidade de povos indígenas.

E o dramático, neste caso: pelo menos metade delas em risco de desaparecimento rápido, pelo esgotamento do que, no passado, foram nações inteiras.

Grupos remanescentes de povos indígenas, quase sempre um pequeno grupo de velhos, não tem como se reproduzir e, a cada sol, esperam pelo fim de sua linhagem com a impotência das pedras transformada em poeira pela corrosão impiedosa das intempéries.

A história dramática dos Cintas-Largas fica à espera de uma oportunidade de ser relatada neste espaço.

E o mesmo vale para os Uaimiri-atroaris, bombardeados por militares a bordo de helicópteros, durante a construção da BR-174, que liga Manaus, no Amazonas, a Boa Vista, em Roraima.

Tanto uma como outra capaz de fazer um branco chorar como se tivesse acabado de nascer.

 



Escrito por blogdasciam às 17h12
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 Defaunação reduz a vida na Terra

Por Ulisses Capozzoli

 A deterioração ambiental da Terra está perigosamente mais dramática que abordagens tradicionais tem sugerido, o que deve estimular uma mudança radical de postura por parte de toda a sociedade humana, sob pena de efeitos imprevisíveis mesmo em curto prazo.

Um trabalho publicado na revista científica americana Science, com participação do pesquisador brasileiro Mauro Galetti, do câmpus Rio Claro da Unesp, revela que o processo de “defaunação” do planeta está levando a uma extinção em massa de animais de pequeno e médio porte.

A defaunação, segundo mostra a pesquisa, compilando dados da literatura especializada, leva ao desaparecimento de animais mesmo em áreas não desmatadas e aparentemente estabilizadas de um ponto de vista ambiental.

De acordo com a interpretação dos autores de diversos países (Estados Unidos, México e Reino Unido, além do Brasil) envolvidos com a pesquisa, estamos em meio a uma onda global de perda de biodiversidade inédita provocada por ação humana.

Os dados apontam que nada menos que 322 espécies animais foram extintas desde 1500, a infância do período das viagens de descobrimentos que se iniciaram em Portugal e, em seguida, se espalharam por Espanha, Holanda, França e Inglaterra.

À primeira vista pode parecer um período longo demais para trazer preocupações a uma única geração humana. A realidade, no entanto, é mais complexa e ameaçadora que sugere uma interpretação simplista, como a que a maioria das pessoas tende a fazer ao se referir a questões climático-ambientais.

Essas perdas se mostram também entre invertebrados − além de animais de grande e pequeno porte: 35% no curtíssimo intervalo de 40 anos.

Ameaça à sobrevivência

As conseqüências dessa perda de biodiversidade estão longe de serem apenas emocionais. Elas ameaçam a qualidade e mesmo continuidade da vida humana.

Ainda que o especismo esteja longe de uma discussão mais profunda, como já ocorreu com o racismo e sexismo, continuamos − por uma série de razões, inclusive de fundo religioso − a pensar que as outras formas de vida com que partilhamos o mundo estão aqui para atender nossos desejos e necessidades e teríamos um pretenso direito de explorá-las à exaustão.

O trabalho mostra que a defaunação afeta pontos estratégicos à sobrevivência humana por afetar processos ambientais críticos em pontos como:

Polinização: Insetos, entre eles abelhas que enfrentam ameaças em escala global, polinizaram 75% da produção agrícola mundial. Evidentemente que, com o comprometimento, ainda que parcial desse processo, a tendência é queda de produção nos campos.

Controle de pestes: morcegos e aves controlam pragas agrícolas que, de outra forma, seriam devastadoras. Nos Estados Unidos, onde as estatísticas são mais frequentes que em outras regiões do planeta, o serviço natural prestado por essas espécies é avaliado em algo como US$ 45 bilhões ao ano.

Ciclagem de nutrientes e decomposição: aqui, invertebrados e vertebrados (urubus, entre outros) desempenham papel estratégico na decomposição orgânica e ciclagem de nutrientes no ambiente.

Qualidade da água: a defaunação, mostra o trabalho, compromete a qualidade da água que também mostra oferta irregular em função de mudanças climáticas produzidas por aquecimento global, resultado de ações humanas.

Desaparecimento de sapos e pererecas

O declínio de anfíbios como sapos e pererecas aumenta a concentração de algas e outros detritos, o que compromete a qualidade dos recursos hídricos.

Saúde pública: a defaunação afeta a saúde humana de diferentes maneiras num processo complexo que se estende da desnutrição ao controle de doenças.

O clássico Primavera Silenciosa, da oceanógrafa e jornalista americana Rachel Carson (1907-1964), publicado em 1962 e que fundou o moderno ambientalismo em escala mundial, denunciou o silêncio nos campos provocado pelo uso intensivo do pesticida DDT.

A obra de Carson fez com que o DDT − empregado ao longo da Segunda Guerra Mundial no combate de mosquitos vetores de doenças como malária e outras enfermidades – fosse banido.

As preocupações que ela levantou, no entanto, apenas anunciam uma época de enormes preocupações ambientais, consequência, em grande parte, de um processo que alguns pensadores se referem como de “dessacralização” da Natureza e adoção de um consumismo desenfreado e inconsistentes com a potencialidade de um planeta com uma população em crescimento acelerado.

Evidências de pressões ambientais se manifestam de todas as direções e a escassez de água, ainda que anunciada há décadas, agora toma forma definitiva e chega literalmente às torneiras das moradias.

Formuladores de políticas imediatistas, no entanto, lamentam, entre outros acontecimentos, a retração do mercado de automóveis, como se esses objetos de desejo pudessem expandir para sempre e cobrir, inconsequentemente, a face de toda a Terra.

A verdade é que, em países como o Brasil, automóveis inundam as ruas e as estradas como a releitura de uma praga bíblica.

Para abastecê-los, além do combustível fóssil, é preciso ocupar os campos como recursos renováveis, como a cana-de-açúcar, que expulsa animais, destrói ambientais e literalmente calcina os que não conseguem escapar das línguas de fogo em locais onde o corte da produção ainda é artesanal, como nos primeiros tempos da escravidão.

A pressão sobre os recursos naturais cresce a cada dia e as perspectivas de alternativas mais promissoras para uma tomada de posição mais consistente enfrenta o cinismo e realismo apenas aparente de formuladores de políticas em que apenas interesses restritos e imediatos são levados em conta.



Escrito por blogdasciam às 17h10
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Os 45 anos da conquista da Lua

            Por Ulisses Capozzoli

Exatamente às 17 horas, 17 minutos e 43 segundos (horário de Brasília) da tarde de 20 de julho de 1969, pela primeira vez na história da civilização, uma pegada humana marcou a superfície de outro astro, além da Terra.

 Na tarde deste domingo, um dos maiores feitos da história da ciência completa 45 anos.

As pegadas foram produzidas pelas botas espaciais do comandante da missão Apollo 11, Neil Armstrong (1930- 2012), seguido pelo seu companheiro de pouso Edwin “Buzz” Aldrin, enquanto o terceiro membro da missão, Michael Collins, permanecia a bordo da nave de retorno à Terra, circulando em órbita lunar.

A descida, saudada com a frase que ficou para a história: “um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade” marcou o ápice de um processo que havia começado com o lançamento do Sputnik-1, o primeiro satélite artificial da Terra, pela União Soviética, em 7 de outubro de 1957.

O feito dos soviéticos foi recebido com surpresa e receio nos Estados Unidos que trataram de acelerar os processos para também enviar um engenho do mesmo tipo em órbita da Terra.

Os americanos receberiam um segundo e ainda mais surpreendente golpe, em 12 de abril de 1961, quando a União Soviética anunciou o vôo do primeiro astronauta (cosmonauta) russo, Iuri Gagárin (1934-1968).

O período era marcado pela guerra fria, o potencial confronto nuclear entre a então União Soviética e seus aliados e os Estados Unidos e a Europa Ocidental. Nesse contexto, os feitos no espaço eram utilizados como forma de propaganda por cada uma das potências, interessadas em demonstrar eficiência sobre sua oponente.

Análises simplistas tendem a considerar que “a conquista da Lua” foi resultado de uma queda de braço militar entre União Soviética e Estados Unidos, mas esse é um equívoco produzido por uma consideração reducionista quanto à complexidade da história.

O contexto teve como cenário de fundo um conflito potencial, mas ela apenas acelerou uma tendência natural de avanço que começou desde que os humanos deixaram seu berço ancestral, na África e, possivelmente, ao mesmo tempo, também no Sul da China.

A história dos vôos tripulados à Lua, que se estenderam até a Apollo 17, em dezembro de 1972, de forma algo perturbadora revela que, de alguma maneira, já estivemos no futuro e, de lá, retornamos ao passado a bordo de uma surpreendente máquina do tempo.

A Lua esquecida

Com a Apollo 17 − lançada em 7 de dezembro de 1972 e que pousou sua tripulação no mar, em 19 de dezembro – a Lua foi literalmente esquecida, como se, durante os anos 60, não tivesse sido a obsessão que consumiu bilhões de dólares em recursos e esforços até então inéditos na historia da ciência e tecnologia.

Por que a Lua foi esquecida?

A resposta para uma pergunta como essa é que o satélite da Terra, conquistado por uma tripulação americana, simplesmente deixou de ser uma meta política, ainda que, de um ponto de vista estritamente científico, ainda hoje não estejam encerradas as controvérsias envolvendo sua origem.

A teoria que prevalece hoje, remanescente das três principais originalmente propostas, considera que, na sua juventude, a Terra foi atingida por um bólido cósmico, um corpo do porte de Marte, que arrancou uma porção de sua matéria e a ejetou no espaço, onde um processo de condensação gravitacional deu origem à Lua.

Em vez da Lua, o que atrai as atenções e esforços neste momento é Marte, um mundo mais apropriado à ocupação humana que a Lua, mais estéril que o mais agressivo deserto da Terra.

Em Marte, sucessivas missões pousaram na superfície do planeta utilizando paraquedas e isso porque o planeta dispõe de uma atmosfera, mesmo rarefeita e com apenas traços de oxigênio, elemento liberado pelas formas de vida na Terra e indispensável à respiração de mamíferos como os humanos.

Em escala mais complexa, no entanto, a tendência é a Lua atuar como uma espécie de trampolim para Marte, em rotas que, no futuro nada distante, tende a fazer desse planeta vizinho uma espécie de “novo mundo”, tal como, no passado, ocorreu com a ocupação e colonização da América.

Um crítico apressado pode argumentar que a escala de desafios comparativos é muito maior, o que não deixa de ser verdade.

Mas também é verdade que a saga do espalhamento dos humanos sempre superou os obstáculos mais desafiadores: do grande vazio dos oceanos ou as vastas extensões de gelo e desertos.

Daí a beleza da expressão criada pelo pai da astronáutica, o russo Konstantin Tsiolkvski: “a Terra é o berço dos humanos, mas ninguém pode viver eternamente no berço”.

Qual a importância da Lua para a Terra, além de fonte de inspiração romântica e efeito maré que eleva as águas e mesmo a porção sólida da Terra?

Estabilizadora da Terra

A resposta é que, na ausência da Lua, poderíamos nem estar aqui, escrevendo ou lendo um texto sobre o quadragésimo quinto aniversário de sua “conquista”.

A Lua, desde que colocou ao lado da Terra, compondo um sistema planetário duplo,  atuou como um escudo contra bólidos que chegaram e continuam a vir do espaço profundo. Entulhos que sobraram da formação do Sistema Solar há 5 bilhões de anos, como cometas e asteróides.

A superfície craterada da Lua, visível por telescópios de pequeno porte, é uma clara evidência de que, na ausência dela, boa parte desses impactos teria atingido a Terra e o maior ou maiores deles poderiam ter produzido mais de uma extinção em massa, e eventualmente inviabilizando os humanos.

Além dessa função de escudo, a Lua desempenha também um papel de âncora estabilizadora dos movimentos orbitais da Terra. Isso significa dizer que as coisas, de um ponto de vista de mecânica celeste, envolvendo a Terra, só são como conhecemos devido à presença estabilizadora da Lua.

Em datas como essa é natural certa especulação sobre o futuro da Lua. Em linhas gerais, o que deve ocorrer?

Uma aposta razoável é que o retorno à Lua deverá ser promovido pela indústria do turismo. Inicialmente com vôos em órbita da Terra, como já ocorre. Depois com viagens até a órbita da Lua, como aconteceu com missões que antecederam a Apollo 11. E, então com pousos na superfície lunar.

O Japão já cogitou planos para criação de um complexo hoteleiro na Lua, o que ainda rescende a pura ficção científica. Mas a China, com um programa espacial determinado e ambicioso, pode se apossar desse troféu com a ambição que caracteriza seus projetos.

Onde esses hotéis serão instalados?

Certamente na face visível da Lua e não no lado oculto (não existe um lado escuro da Lua como muita gente ainda acredita). Da face visível um turista do futuro poderá observar as luzes das grandes cidades da Terra e, mais que isso, contemplar a Terra como se fosse a própria Lua exibindo suas diferentes fases no céu.

Turistas que estão nascendo agora

No futuro não muito distante turistas espaciais privilegiados, que talvez estejam nascendo agora, poderão observar, por exemplo, a beleza da Terra em fase cheia, inundando o espaço próximo com a luz azulada produzida por sua atmosfera.

A tendência é de o lado oculto da Lua – resultado de interações gravitacionais que fazem com que um dia e uma noite lunares durem cada um duas semanas da Terra – ser preservado para observações científicas do espaço profundo, livre, por exemplo, de poluição no comprimento de onda de rádio que caracteriza a Terra.

Uma questão intrigante nestes momentos é, também, um grupo, ao que tudo indica decrescente de pessoas que se recusam a acreditar que tripulações humanas já desceram na Lua.

Como explicar esse descompasso em pleno século 21.

O ceticismo quanto a viagens tripuladas à Lua remete a uma idade pré-científica que ainda não se esgotou. No Brasil, por exemplo, o processo de urbanização só se consolidou nos anos 70. Antes disso, a maior parte da população vivia no campo, com hábitos influenciados pelo ritmo da Natureza, sem base científica para conceber que sistemas de propulsão como os foguetes que entronizam satélites em órbita da Terra, possibilitam viagens no aparente vazio do espaço.

E que essas viagens só estão começando.

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por blogdasciam às 17h32
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Lições do futebol

 Por Ulisses Capozzoli

Com mais uma disputa neste sábado, para decidir a terceira posição entre as quatro finais, a goleada sofrida pelo Brasil na partida contra a Alemanha continua ressoando.

Um número crescente de observadores argumenta que Luiz Felipe Scolari é um técnico superado, comprometido com táticas e estratégias do passado.

Outros apontam que a verdadeira responsável é a presidente Dilma Rousseff, que empenhou fortunas na construção de estádios e que teria feito tudo dar errado.

Há quem diga que a Alemanha só fez o que fez porque investiu no futebol: formou quadros, sofisticou a formação intelectual de atletas, varreu a corrupção que contaminava o futebol no país e assim criou uma infraestrutura que explica seu sucesso.

Há, ainda, os que optaram por torcer pela Argentina, como forma de protesto contra tudo e todos.

Em meio a ondas de cientificismo, as soluções ultra-racionalizadas, flutuam os restos de um naufrágio denegado por palavras de ordem inspiradas em otimismo de autoajuda.

O futebol, como engenho e arte, é uma poderosa metáfora da vida.

“Hoje a bola não quis entrar” costumam dizer jogadores ao final de uma partida em que nada deu certo.

E isso acontece também na vida cotidiana.

Em alguns dias, tudo dá errado.

Mas em outros, por atuação inesperada da fada-madrinha, tudo corre às maravilhas e nos perguntamos o que aconteceu.

O gênio da lâmpada incorporou a realidade e atendeu nossos mais recônditos desejos?

Se o futebol for uma metáfora da vida, talvez o momento seja mais para reflexões.

Se quisermos mudar o futebol (e com isso ajudar a mudar o país) certamente é o caso de procurarmos um técnico mais arejado. E se não dispusermos de nenhum deles no país, o jeito pode ser procurar por algum fora daqui. 

Para recuperar o futebol certamente será interessante dispor de bons estádios e os que foram construídos para a copa estão aí para serem usados.

O caos previsto pelo catastrofismo oportunista não aconteceu e isso também deve ser levado em conta para não nos sentirmos os piores dos humanos.

A presidente pode ter seus deméritos. Mas cada um tem os seus e os de alguns são ainda piores que os de outros.

A corrupção, evidentemente, deve ser banida dentro e fora do futebol. Mas, se começar por aí, pode captar a simpatia da torcida e eventualmente espalhar para outras áreas para satisfação geral da nação.

Torcer pela Argentina?

Este talvez seja um caso sem solução.

Nada contra nossos simpáticos e extrovertidos vizinhos, talvez ainda mais esperançosos que nós (afinal, a partida contra a Alemanha até o momento da redação deste texto ainda não aconteceu).

No futebol, torcer pela Argentina deveria ser um caso de alta traição nacional.

Sem direito a fiança ou qualquer outro recurso de amenização.



Escrito por blogdasciam às 16h58
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Futebol transcende a intolerância

Por Ulisses Capozzoli

 Hoje, sexta-feira, primeiro dia sem uma única partida de futebol, desde que a Copa 2014 começou, há uma evidente síndrome de abstinência.

 As telas de televisão estão mudas em restaurantes, locais de trabalho e provavelmente na maioria das casas de torcedores ou de pessoas que podem nem mesmo se interessar por esse esporte, mas acabaram cativadas pela emoção dos últimos dias.

Ninguém comenta um lance, comemora um gol, sorri encantado por um passe que parece a mais pura magia. 

Os que odeiam futebol – claro essas pessoas existem – argumentam, por exemplo, que esse esporte não passa de idiotice, com 22 homens correndo durante quase duas horas atrás de uma bola.

Que existam pessoas que não apreciem futebol é algo compreensível, mas, que sejam capazes de plasmar uma frase tão estúpida quanto essa, é algo que exige resposta.

Se o futebol, de fato, correspondesse a esse simplismo, como explicar que seja o único esporte que fascina as pessoas em todo o mundo?

O futebol, na verdade, é uma arte refinada, mais que um esporte.

Experimente o leitor tirar, momentaneamente, o som dos estádios da TV – e mais que isso, a bobageira sem limites de determinados narradores. O que fica?

Uma dança, um balé, uma coreografia que envolve o deslocamento da bola para onde quer que ela vá.

Voando, momentaneamente fora do alcance de qualquer um dos atleta, ou rolando pela grama aparada, em toques curtos, longos, oblíquos, calculados ou, às vezes, puramente acidentais.

Há toda uma dança.

Um deslocamento em grupo da defesa. Uma movimentação do ataque que ocupa espaços aparentemente invisíveis.

A solidão do goleiro

O goleiro, o último homem da equipe que ataca, provavelmente relaxa por alguns segundos, enquanto a bola, esférica como a Lua, ameaça seu adversário com movimentos imprevisíveis.

O que passa pela mente de um goleiro nesses breves momentos de descontração?

Um goleiro conversa sozinho, instiga o ataque, torce, sugere determinada jogada, antevê uma revanche, uma jogada de uma partida anterior, de muitos jogos anteriores, de jogos de que ele sequer participou?

Provavelmente é o que acontece, daí o futebol, dependendo da qualidade com que é praticado ser mais arte que propriamente esporte, ainda que a divisão de territórios como esse não passe de necessidade que cultivamos de precisar coisas e fatos que, rigorosamente, não são nada precisos nem precisáveis.

Quando o goleiro russo Akinfeev engoliu o que o vocabulário futebolístico define como “frango” ou “penosa”, no jogo contra a Nigéria, por exemplo, por frações de segundo viajei no tempo, e certamente não fui o único, para recuperar a imagem de Yashin, o mágico goleiro russo de copas passadas.

Lev Ivanovich Yasin (1929-1990), conhecido como “pantera negra” na Europa e “aranha negra” no Brasil e América Latina, pelo seu uniforme inteiramente negro – na verdade numa época em que os goleiros se vestiam assim – foi o único goleiro, até agora, a ganhar a cobiçada Bola de Ouro, da revista francesa France football, para o melhor goleiro da Europa em 1963.

Melhor goleiro do século 20

Quando se aposentou, em 1971, a Federação Internacional de Futebol Associado (Fifa) homenageou-o com uma medalha de ouro especial pela contribuição que deu ao futebol. Informalmente, no gosto do público, que é o que realmente vale, Yashin foi considerado o melhor goleiro de todo o século 20.

A certa altura das ocorrências esportivas foi criado um prêmio, o troféu “Lev Yashin”, em homenagem ao Aranha Negra, mas posteriormente, por idiossincrasias impossíveis de se decifrar, o prêmio mudou de nome e agora se chama simplesmente “Luva de Ouro”.

Quando cometeu a falha quase cômica, a imagem, o nome, a memória de Yashin teria passado pela memória do jovem e inseguro Akinfeev?

Impossível saber.

A solidão do goleiro no estádio hiperlotado talvez só possa ser comparada à de Michael Collins, atravessando o lado oculto da Lua, sem qualquer contato com a Terra, com o abismo do espaço-tempo projetado ao fundo de sua pequena e frágil nave espacial.

E o atacante uruguaio, Luis Suárez, que atacou a dentadas o italiano Stefano Michelini?

Mesmo o simpaticíssimo presidente do Uruguai, José Mujica, entendeu que ele foi vítima de uma punição desproporcional.

Mas a primeira expulsão de um jogador na copa também foi de um Uruguaio, Max Pereira, resultado de uma agressão injustificável contra um atleta da Costa Rica no jogo mais faltoso da copa.

O que explica que um país cativante como o Uruguai, com o bom vinho que produz, um presidente absolutamente democrático tenha sido o responsável por duas das mais lamentáveis cenas desta copa mundial?

Talvez seja impossível saber.

No futebol, como na vida, nem tudo pode ser explicado.



Escrito por blogdasciam às 16h46
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