Preços abusivos da energia Ulisses Capozzoli O Brasil, em muitos aspectos, é um país no mínimo curioso. Somos, historicamente, grandes produtores de café. Mas, até recentemente, a melhor bebida era exportada e o pior ficava para o consumo interno. Isso aconteceu sob influência de abusos repetidos, como a frase de pretenso efeito, cunhada a certa altura do governo militar sobre “exportar é o que importa”. Muita gente deve ter se deliciado com essa estupidez que, na prática, significou que deveríamos consumir o que não prestava e entregar para os outros o que nos seria legítimo. Também aconteceu (e deve continuar acontecendo, dependendo da variação do clima) que, apesar de sermos grandes produtores de laranja, se uma nevasca devastar os laranjais da Flórida os preços disparam por aqui. E essa fruta popular se torna proibitiva, ao menos para os mais pobres. Ou seja, na época das vacas gordas somos estimulados a consumir, mas se o mercado externo abrir-se por influência do que quer que seja, devemos dar prioridade aos outros (o mercado externo). Alguma relação com nosso também histórico sentimento de inferioridade. Nossa baixa auto-estima de que só nos livramos entre as quatro linhas de um campo de futebol? E nem isso acontece sempre. Agora temos um problema com energia. Somos auto-suficientes em petróleo, mas a gasolina brasileira (um país que anda sobre quatro rodas, pois os militares com visão estratégica aguçada destroçaram as ferrovias) é das mais caras, senão a mais cara do mundo. A pergunta, óbvia, neste caso é: mas de que adianta sermos autosuficientes se o preço continua nas nuvens? Economistas, especialmente se estiverem ligados à burocracia, sempre têm uma resposta na ponta da língua para questões desse tipo. E mesmo que ela não faça qualquer sentido (como não faz sentido perdoar, sistematicamente, a bandidagem que parece não ter fim no congresso nacional) não quer dizer que seja refutada. O Brasil dispõe da maior reserva de água doce do planeta (ainda que boa parte da população continue sem água potável). Isso significa que nossa matriz energética está fortemente ligada à hidroeletricidade e, como ela é abundante, o preço da energia deveria ser, no mínimo, razoável. Gastamos os tubos, por exemplo, para construir a gigantesca Itaipu, em parceria (?) com o Paraguai. Mas sempre temos, e isso está acontecendo mais uma vez nesse exato momento, reajustes de tarifas que deixam a taxa de inflação no chinelo. De junho do ano passado a maio deste ano a inflação medida pelo IPCA ficou em meros 4,6%, mas o reajuste já definido para a eletricidade distribuída pela CPFL será de 20,19%. Os vilões desse abusivo aumento? O dólar... O pagamento da energia produzida por Itaipu é feito em dólar... Por que não em real? Por que a energia que custou enormes investimentos sociais, cobertos com impostos pagos pela população, deve ficar submetida a uma moeda estrangeira? E, em resumo, por que ela custa tão caro e continua subindo? Na edição especial DE SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL (“Todas as Fontes de Energia”) que está nas bancas, tratando de energia, Luiz Pinguelli Rosa, um dos articulistas dá uma explicação curta e grossa: privatização. Desde o processo de privatização os preços de energia dispararam, aponta ele. E continuam subindo. Até o ano passado, quem ousasse questionar processos de privatização (não significa, necessariamente, que a estatização seja solução excelente sempre) era visto como um dinossauro remanescente do asteróide do Cretáceo. Mas, e agora, que a GM acabou privatizada e boa parte do sistema bancário internacional só sobrevive por aportes de recursos públicos injetados pelo Estado (o Estado que se dizia extinto por versões estúpidas como o do “fim da história”)? Abusivo, desrespeitoso e praticamente criminoso o que ocorre com os preços da energia, embora, ao menos momentaneamente, nossos olhos estejam voltados para acontecimentos escabrosos do congresso nacional (com minúsculo mesmo). Ah! Sim. Ainda em relação à energia, até recentemente, fomos vítimas de uma lógica tipicamente brasileira: Com queda de consumo (no famoso “apagão” que o ex-presidente FHC disse desconhecer e responsabilizou um ministro por isso, como se não fosse um ministro do governo dele, indicado por ele) os preços subiram para compensar a queda. E, logo em seguida, os preços voltaram a subir. Mas com a justificativa de que tinham objetivo de restringir o consumo. Ou seja: aqui, se ficar o bicho pega e se correr o bicho come... E come mesmo.
Vulcanismo exótico Ulisses Capozzoli Artigo publicado na quarta-feira desta semana na revista científica Nature (do grupo a que pertence Scientific American) confirma as suspeitas de que a lua gelada de Saturno, Encélado, tem um enorme oceano salgado sob sua superfície. Para compreender essa situação imagine o pólo norte da Terra, que imaginariamente emerge de uma calota de gelo flutuando sobre o mar. Ao contrário do que acontece no pólo Sul, que “perfura” o gelo localizado sobre uma estrutura continental. A cobertura de gelo em Encélado é semelhante à calota do Ártico, mas, em vez de cobrir uma única região polar, como ocorre na Terra, envolve a lua inteira. Uma das razões para Encélado ser um mundo congelado é a enorme distância a que se encontra do Sol, de quase 1,5 bilhão de quilômetros. Como a intensidade da luz varia de acordo com o inverso do quadrado da distância (a mesma proporção válida para a gravidade) a radiação solar em Saturno é muito menor que a que atinge a Terra ou nossa lua, grafada como Lua (ou seja, “L” maiúsculo). Encélado é um mundo muito menor que a Lua, com diâmetro de 600 km (contra 3.476 da Lua). Os cientistas planetários já conheciam o vulcanismo gelado de Encélado que, neste momento, está sendo investigado pela sonda Cassini que gira em torno de Saturno. Foi a Cassini que confirmou que parte do material expelido por esse vulcanismo excêntrico é formado, entre outros elementos, por cloreto de sódio, mais conhecido como sal de cozinha, com que temperamos almoços e jantares. Duas questões, ao menos em princípio, interessantes em torno disso. A primeira delas é que formas de vida que existem, por exemplo, nas profundezas do Ártico, na Terra, podem sugerir situações parecidas em Encélado, ainda que isso não seja uma garantia completa. A outra envolve vulcanismo gelado em Encélado e uma versão mais parecida com o que ocorre na Terra, ou seja, quente, em Io, uma das luas de Júpiter. Por que existe vulcanismo gelado em Encélado e quente em Júpiter? Júpiter é um corpo diferente de Encélado, e muito maior, com 3.200 km de diâmetro (quase equivalente ao da Lua). O motor do vulcanismo em Io deve resultar de deformações internas nessa lua, devido à poderosa gravidade de Júpiter. Imagine, grosseiramente, uma esfera formada por massa de pão e coloque-a sobre uma mesa. Ela irá se deformar por ação da gravidade. Coisa parecida ocorre em Io e essa deformação de sua massa interior gera calor resultado de um enorme atrito. O resultado disso é que Io é literalmente um mundo infernal. Não se pode dizer que formas de vida elementares não existam em sua superfície. Mas, é bem pouco provável.
Diploma de jornalista Ulisses Capozzoli A discussão recente (na verdade ela se arrasta há anos) envolvendo exigência de diplomas para jornalismo é o tipo de questão em que não se pode, mecanicamente, se declarar a favor ou contra, sem outras considerações. O ataque sistemático contra o diploma tem partido especialmente do jornal Folha de S. Paulo, com o argumento, entre outros, de que foi uma decisão da ditadura militar. Mas a implantação do Fundo de Garantia também foi uma solução da ditadura militar. E por que a Folha não se coloca contra a adoção do Fundo de Garantia? A resposta é óbvia, ainda que a argumentação, em casos como este, costume passar por discursos envolvendo a “modernização” das relações de trabalho entre outras considerações. Suspeito também a Folha se apegar tanto ao argumento de “solução da ditadura” porque, à época do governo dos generais, a Folha não tinha editorial. Ou seja, não manifestava a sua opinião, corroborando a versão popular do “quem cala consente”. E isso sem considerar que o grupo Folhas, a que a Folha de S. Paulo pertence, tinha duas publicações sintomáticas, no sentido freudiano do termo. Uma delas era a simplesmente horrorosa Notícias Populares, a versão mais repugnante do chamado “mundo cão”. A outra era a Folha da Tarde, jornal francamente identificado com a ditadura militar que, agora, a Folha de São Paulo pretende caracterizar como nefasta. Se não convence leitores mais críticos, a Folha ao menos conquista a parcela do estilo “me engana que eu gosto”, um tipo de gente que escreve cartas aos jornais apoiando o que quer que seja, ou desaprovando, não faz diferença. O que a Folha pretende, na verdade, é dispor do que no passado foi chamado de “exército industrial de reserva”, e que hoje pode se entender como abundância de mão-de-obra, a custo baixo e submissa ao autoritarismo que caracteriza sua redação, uma das mais perversas da história do jornalismo. Nesta semana o Supremo Tribunal Federal (STF) por meio de seu presidente, o “deixa que eu chuto” Gilmar Mendes, anunciou o fim da exigência de diploma para jornalistas. E Mendes, como é de seu estilo, trombeteou que essa é a solução final no caso. Os atritos, próximo ao estilo briga de rua, que têm caracterizado o STF, sem falar dos transbordamentos egóicos que caracterizam parte de seus membros, combina com o estilo falastrão do ministro. Em artigo publicado na Folha de ontem, no entanto (esse é o estilo de venda da imagem de modernidade do jornal) o advogado José Paulo Cavalcanti Filho colocou o assunto em termos inteligíveis e civilizados. Não cabe, deixou claro Cavalcanti Filho, ao STF definir a obrigatoriedade ou não de diplomas para jornalistas (ou se meter na regularização/desregularização) de qualquer outra profissão. Esse é um papel do Congresso Nacional, ainda que esse mesmo Congresso também venha nos dando espetáculos repetidos de atos constrangedores. O fato, no entanto, e esse parece ser o centro da questão, é que por trás do fim do diploma para jornalistas não há qualquer pretensão de se elevar a qualidade do jornalismo brasileiro. O buraco aqui, para fazer uso de uma expressão popular “é mais embaixo” e não tem relação com qualquer tipo de altruísmo ou coisas dessa natureza. O interesse por trás do fim do diploma é simplesmente o barateamento da mão-de-obra e a elevada rotatividade profissional e essa é a ameaça que acompanha as frases feitas como as utilizadas pela Folha. Qualquer telespectador de canais por assinatura pode constatar, em emissoras de países desenvolvidos, a quantidade de jornalistas veteranos envolvidos em coberturas, comentários e avaliações de fatos merecedores de abordagem jornalística. Não é o que acontece no Brasil, onde a experiência profissional, a partir de certo momento, é mais identificada como ameaça, no sentido de resistência a atitudes indignas, que qualidade e isenção crítica sobre o que está em debate. Dizer que a defesa do diploma caracteriza corporativismo é palavra de ordem, lógica fácil, uma forma de jogar areia nos olhos da sociedade. Até porque a legislação atual aceita determinado percentual de jornalistas sem, obrigatoriamente, a exigência de diploma. Na verdade, a regulamentação/desregulamentação da profissão de jornalismo, acompanhada de várias outras atividades, mereceria uma discussão pragmática, articulada com uma realidade nacional mais ampla e crítica. Mas isso denunciaria interesses imediatos camuflados por trás de palavras de ordem, a lógica fácil que, especialmente críticos menos exigentes, tendem a aceitar como o equivalente da verdade.
De volta para a Lua Ulisses Capozzoli A conquista da Lua, deflagrada por uma queda de braço entre Estados Unidos e a ex-União Soviética, durante a guerra fria, praticamente encerrou-se com o vôo da missão Apollo 17, que durou 12 dias, entre 7 e 19 de dezembro de 1972. Essa missão bateu o recorde de permanência no solo lunar, mas encerrou o projeto Apollo, iniciado de forma trágica em fevereiro de 1966, e que resultou na morte de três astronautas ainda em terra, em testes da cabine de vôo. A introdução dos ônibus espaciais, que agora se encaminham para a aposentadoria, na prática impediu a continuidade da exploração lunar. A comunidade astronáutica americana e internacional ficou dividida entre a continuidade dessas explorações e a entrada em operação da frota dos ônibus. Com a retirada dos ônibus, novos projetos acenam com um retorno à Lua, anúncio feito já no governo de triste memória de George W. Bush. Nesta semana, um passo interessante nesse retorno para a Lua foi dado com o lançamento de duas sondas americanas em direção à Lua. Ambas entraram em órbita lunar ontem (terça-feira). O Orbitador de Reconhecimento Lunar (LRO, na sigla em inglês) deve fazer um novo reconhecimento de terreno para um retorno tripulado à Lua por volta de 2019. Deve ficar em órbita lunar por pelo menos um ano com a função, entre outras, de detectar a distribuição de hidrogênio no satélite natural da Terra e avaliar o índice de radiação nocivo a futuros exploradores. A presença de hidrogênio é importante como fonte de energia para manutenção de uma presença mais longa na Lua, ao contrário das visitas rápidas dos astronautas da série Apollo. Já a LCross deverá analisar detalhadamente um conjunto de crateras, especialmente no pólo sul lunar, que podem abrigar preciosos estoques de água deixados ali pelo impacto de cometas no passado remoto. Parte dessa água escapou para o espaço com a energia do impacto, mas um remanescente deve estar preservado no fundo das crateras, que não são atingidas diretamente pela radiação solar. Ao lado das fontes de energia, neste caso o hidrogênio, os reservatórios de água são fundamentais para o estabelecimento de colônias humanas que deverão seguir-se à ocupação mais prolongada de astronautas em missões de levantamento e preparação de terreno em atividades que devem incluir especialmente o turismo espacial. Quem visita museus como o Smithsonian, Washington, e observa as carcaças calcinadas das Apollo que retornaram do espaço, nos anos 60 e início dos 70, tem a clara sensação que já estivemos no futuro. A chegada, ontem, desse par de exploradores automáticos lunares, no entanto, sugere que o futuro apenas começou.
Deterioração da universidade Ulisses Capozzoli A invasão e ocupação do campus da principal universidade brasileira, a Universidade de São Paulo, mais que um fato isolado (ainda que muitos dos defensores da invasão tentem justificar por essa via) é um sintoma de que há algo em franca decomposição nessas instituições, para tomar de empréstimo a fala de Hamlet, o trágico príncipe da Dinamarca. E ainda para tirar partido dessa metáfora é preciso considerar que antes da decomposição, um organismo deve ser esvaziado de vida, ou seja, morrer, para então deteriorar-se, como evidenciam experiências cotidianas, visíveis e olho nu. E talvez o que esteja morto, ainda que não sepultado, daí a decomposição exposta, é a idéia da universidade como espaço de reflexão e criação. Acontecimentos que sugerem a morte da universidade, ao menos como espaço de reflexão e criação, têm ocorrido ao longo das últimas décadas e, ao que tudo indica, são subestimados, apesar de uma denúncia quase sistemática por parte daqueles que não se conformam com uma perda dessa dimensão. A burocracia, que camufla um autoritarismo inaceitável por parte do conjunto da sociedade (afinal é quem paga de salários a pesquisas e formação dentro da universidade) é uma delas. Os critérios para escolha de reitor, por exemplo, culminam num processo quase principesco por parte do governador do estado. Ele dá a última palavra. Ocorre que o governador é praticamente um corpo estranho num espaço que tem por obrigação, entre outras coisas, atuar de forma crítica inclusive na vida política, o que inclui a figura do governador enquanto executivo. Por que se conformar com critérios ultrapassados, incapazes de responder à dinâmica do processo necessário tanto de educação quanto pesquisa? Por que o desejo de poder atende a interesse de grupos específicos, ainda que, sistematicamente haja batalhas surdas envolvendo grupos em conflito. Dizer que entre os contestadores da ordem formalmente estabelecida há, por exemplo, “baderneiros” é certamente se referir ao óbvio. Mas “baderneiros” são espécies típicas de estruturas autoritárias. Estruturas abertas, transparentes e democráticas, para dizer o óbvio, costumam produzir anticorpos contra esses microrganismos nefastos. Daí a condenação veemente feita pelo prof. Antonio Candido quanto à iniciativa de chamar a polícia no campus para espancar manifestantes, reeditando os piores momento da ditadura dos generais. Um dos momentos de fechamento da sociedade em si própria, isolando-se da sociedade, no caso do campus da USP em São Paulo foi a decisão, de mais de uma década atrás, de impedir a frequencia pública que ocorria nesse espaço até então. A figura dos “baderneiros” também foi invocada para esse objetivo descaradamente autoritário. A idéia é que esse tipo de gente não sabia comportar-se num ambiente como o da cidade universitária. Mas uma das funções da universidade não é justamente a de educar? Qualquer um que tenha feito sua formação no campus da USP, em São Paulo, conhece a rispidez, má vontade e mesmo grosseria de boa parte dos funcionários da universidade. Um aluno de pós-graduação sabe bem do que estou falando. Por que não se altera esse comportamento? Porque há uma sistemática negligência esse respeito. Isso para não falar do escândalo das fundações que, sistematicamente, vem sugando o nome e a infra-estrutura da universidade, em benefício que nada tem a ver com a coisa pública. Isso para dizer que a universidade, neste caso a principal universidade brasileira, caminha rapidamente para um completo anacronismo, processo que os defensores da presença da polícia militar no campus universitário determinadamente se recusam a ver.
Alienígenas na Terra Ulisses Capozzoli A descoberta de uma bactéria no gelo do Ártico, que sobreviveu em estado de dormência por 120 mil anos, pode abrir caminho para o encontro de outros microrganismos em outros planetas e luas do Sistema Solar, segundo o International Journal of Systematic and Evolutionary Microbiology. Pesquisadores da University of Pennsylvania, liderados pela bióloga Jennifer Loveland-Curtze, reativaram a bactéria incubando suas amostras a 2ºC durante sete meses e a 5ºC por outros quatro meses. A bactéria, A.H.glaciei é entre dez e 50 vezes menor que sua parente que provoca gastrenterite e seu pequeno porte teria facilitado sua sobrevivência por esse longo tempo a mais de 3km de profundidade. Ainda que a interpretação envolvendo esse microrganismo tenha consistência, é preciso considerar que ela não é a única pista capaz de permitir uma antecipação de descobertas em outros corpos do Sistema Solar, especialmente em luas geladas de Júpiter e Saturno. Na Antártida pelo menos três outras áreas são extremamente promissoras neste sentido, mais ainda que no Ártico. As promessas antárticas envolvem tanto lagos confinados no interior da enorme calota de gelo, isoladas do exterior por milênios, quanto possibilidades apresentadas pelo chamado Vale Seco, não muito distante da base de McMurdo, localizada abaixo da Austrália, sem contar os meteoritos. Os lagos confinados devem abrigar microrganismos desconhecidos em outras regiões e a profundidade em que se encontram se assemelha à de alguns corpos do Sistema Solar. Neste sentido, ao mesmo do ponto de vista ambiental, são parecidos ao identificado no Ártico. Já os vales secos têm condições muito parecidas às de Marte: são desprovidos de gelo e exibem intensa radiação ultravioleta, algo que, em princípio, desestruturaria a informação contida no DNA e assim inviabilizaria formas de vida como conhecemos. Mas, como demonstraram pesquisadores como o cosmólogo britânico Fred Hoyle (1915-2001), bactérias podem existir em condições absolutamente agressivas, como proximidade de fontes vulcânicas e mesmo no interior de equipamentos deixados na superfície da Lua (com enorme variação de temperatura e intensa radiação ultravioleta, entre outras condições agressivas para a vida). Além disso, a Antártida, mais que o Ártico, é uma região rica em meteoritos. Ao contrário do Ártico que, no entorno do pólo, é apenas uma calota de gelo congelada flutuando sobre o oceano, a vastidão antártica se localiza sobre terra, ainda que coberta por uma camada de gelo que supera os 3 km de espessura. Determinadas regiões da Antártida costuma “drenar” meteoritos para certas posições onde são encontrados com maior facilidade. O Allan Hills 84001, um dos mais famosos, por exemplo, foi encontrado próximo à formação Allan Hills em 27 de dezembro de 1984 e dividiu a comunidade de exobiólogos ao exibir estruturas que sugerem formas bastante primitivas de vida. Meteoritos têm origem em impactos sobre outros planetas e luas do Sistema Solar que ejetaram material para o espaço e parte dele caiu na Terra. A Lua e outros planetas, no entanto, também devem ter meteoritos originários da Terra. Eles podem ter sido arrancados daqui por impactos como o grande choque que eliminou os dinossauros, há 65 milhões de anos, e que acabaram pousando na superfície de outros astros do Sistema Solar. Os autores de cada uma das descobertas, como a equipe da University of Pennsylvania, tendem a valorizar suas tarefas. Na realidade, as possibilidades de se identificar na Terra, tanto sugestões como formas de vida alienígena, são bem mais vastas, ainda que, até agora, nenhuma delas tenha sido inequivocamente identificada.
Nicolelis e os descompassos acadêmicos Ulisses Capozzoli Conferência do neurocientista Miguel Nicolelis, ontem à noite (terça-feira) no teatro Tuca, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), foi uma oportunidade incomum de retomar uma linhagem de grandes cientistas brasileiros que vão de Oswaldo Cruz e Vital Brazil a Mario Schenberg e José Leite Lopes, entre outros que praticamente caíram no esquecimento junto à opinião pública nacional. O professor Nicolelis, criador do Instituto de Neurociências em Natal, no Rio Grande do Norte, participou das comemorações do sétimo aniversário de SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL, neste mês de junho. Numa exposição que emocionou mais de 500 pessoas reunidas no Tuca, a convite (aberto a todos os interessados) da Duetto Editorial, Nicolelis dividiu sua exposição em dois momentos. Na primeira parte expôs didaticamente seus experimentos envolvendo a conexão cérebro-máquina, neste caso uma interação entre uma macaca em seu laboratório, na Duke University, na Carolina do Norte, costa leste dos Estados Unidos, e um robô capaz de receber descargas de neurônios do cérebro desse animal e executar os mesmos movimentos dela, do outro lado do mundo, no Japão. Essa conexão, intermediada por um conjunto de equações matemáticas, abre espaço para um vasto futuro que se estende da possibilidade de pessoas afetadas por paralisias recuperar seus movimentos, até exploração espacial, passando por alternativas promissoras envolvendo tratamento contra Parkinson. No segundo caso, um robô instalado na Lua ou em outro planeta do Sistema Solar, poderá receber, por rádio, decisões emitidas pelo cérebro de um pesquisador, na Terra, e executar tarefas complexas e inéditas na história da ciência. A exposição, de enorme densidade científica, foi acompanhada de um raríssimo comprometimento com a qualidade de vida humana, especialmente de parcelas mais pobres da população e especialmente daí emergiu toda a emoção da exposição de Nicolelis. A conferência, em princípio, deveria enfocar a ciência como forma de transformação social, mas foi muito além e disso resultou o impacto emocional que envolveu as pessoas. Santos Dumont, um dos inspiradores do projeto e da carreira de Nicolelis foi inserido pelo neurocientista no contexto da realidade nacional para justificar a possibilidade e necessidade de transformações radicais na educação. Um documentário mostrando o cotidiano de aproximadamente mil crianças que estudam em escolas do Instituto, em Natal, evidencia a potencialidade dessa iniciativa. A criação do Instituto de Neurociências de Natal sofreu inúmeras críticas na fase inicial do projeto, no início desta década. A observação mais frequente interpretava as posições de Nicolelis como próximas de idealismo ingênuo. A verdade, no entanto, é que a falta de compromissos do sistema universitário com a sociedade nacional, uma dose de egoísmo e pretensão e uma postura ligada a uma memória colonial estão por trás desse conformismo e limitação. Daí a conveniência de se retomar a saga de cientistas de envergadura, como Carlos Chagas na medicina, ou Mario Schenberg e Leite Lopes na física, para se concluir que a relação entre produção científica e bem estar social precisa ser profundamente repensada. Neste aspecto, não deixa de ser sintomático que, na noite em que Nicolelis expôs pontos de vista promissores em relação à produção de ciência e transformação social o campus da Universidade de São Paulo (USP), na capital, tenha sido invadido pela tropa de choque da Polícia Militar, que entrou em choque com estudantes e professores. Tropa de choque no campus universitário é indício evidente de decomposição de autoridade, austeridade e capacidade de diálogo produtivo. Professores e estudantes universitários não são agentes de subversão da ordem como se interpretou ao longo de duas décadas de ditadura militar, entre o golpe de 1964 e a reinstauração do estado de direito, com o fim da república dos generais. Que um dos principais cientistas brasileiros acene com futuro mais promissor, pressupondo uma profunda mudança de mentalidade, por parte da comunidade científica e do conjunto da sociedade nacional enquanto a tropa de choque ocupa o campus em que ele se formou, não deixa de ser paradoxal. Revela um fosso entre a realidade e as necessidades do Brasil.
Situação preocupante Ulisses Capozzoli Reportagem publicada na edição de hoje, segunda-feira (8 de fevereiro) por Eduardo Geraque, na Folha de S. Paulo, revela que a formação de doutores no Brasil, que chegou a 15% ao ano no início da década, caiu para menos da metade: 6% a partir de 2004.
Claro que se trata de um declínio preocupante, ainda que algumas fontes ligadas à produção científica, ouvidas pelo repórter, tenham minimizado essa retração. Aliás, nesse caso, mantemos certa visão provinciana: qualquer dado alentador é comemorado quase com fogos de artifício, enquanto retrações são justificadas por um amplo conjunto de argumentos. Mês passado, por exemplo, saíram dados indicando que houve aumento de mais de 50% na produção de artigos científicos em revistas indexadas entre 2005/2008. Em princípio trata-se de um dado estimulante. A contrapartida é que o número de citações desses artigos em outros trabalhos de pesquisa se mantém abaixo de praticamente a metade da média internacional. Claro que, neste caso, há um conjunto de razões que explicam ao menos parcialmente essa performance. Mas não a ponto de encobrir um fato da realidade: a qualidade dos artigos não é elevada o suficiente para permitir que sejam considerados pela comunidade científica internacional. Agora, a queda na formação de doutores traz outras implicações. Doutores são fundamentais para a propulsão da produção científica, afinal, esse título é fundamental para a construção da base da pesquisa. Carlos Henrique Brito da Cruz, diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), por exemplo, considera essa retração como “bastante preocupante”. Brito se refere mais especificamente à estagnação na comparação entre formação de doutores nos Estados Unidos e Brasil. Para avançarmos, o número de doutores no Brasil deveria continuar crescendo e o que está ocorrendo agora é justamente o contrário. O ministro Sérgio Rezende, da Ciência e Tecnologia, no entanto, justifica, segundo a reportagem de Geraque, que “não é possível que um sistema de pós-graduação cresça tanto por um tempo muito longo”. O Plano Nacional de Pós-Graduação brasileiro prevê, para o fim de 2010, a formação de 16 mil doutores número que a reportagem avalia como de difícil concretização. Por trás dessa retração há uma mentalidade obtusa, no Brasil. Universidades particulares tradicionalmente não se envolvem com pesquisa e permanecem restritas ao ensino. Mas ensino desacompanhado de pesquisa não faz sentido, ao menos um ensino de qualidade. E, no Brasil, universidades particulares são, em boa parte dos casos, sinônimo de iniciativas preocupadas quase que exclusivamente com o lucro. Possivelmente os indicadores relacionados à baixa citação de artigos científicos brasileiros por outros pesquisadores estejam relacionados a essa realidade indesejável, mas que nunca é devidamente explicitada. Até porque, por trás dessas universidades existe, quase sempre, um jogo de poder político. Isso significa que a formação de doutores/desenvolvimento de pesquisa é algo relacionado à universidade pública, sustentada com impostos de toda a sociedade. Mas aqui também existem outros problemas: pouca inovação, o que significa que o número de patentes registradas no Brasil é comparativamente baixo. Além disso, temos outra tradição nefasta: um completo distanciamento entre o que se pesquisa na universidade e o que é absorvido pelas empresas. Assim, a redução na formação de doutores (por carência de bolsas, baixo valor delas ou falta de trabalho para doutores formados) é apenas mais um sintoma de que, apesar de todo o discurso, o desenvolvimento da ciência no Brasil ainda não se consolidou inteiramente. Ao menos nos níveis que atendam às demandas das necessidades reais.
O horror de existir Ulisses Capozzoli Mais de um filósofo, teatrólogo ou escritor falou, desde muito tempo, sobre os humanos serem criaturas paradoxais e isso em muitos sentidos. O acidente com o avião da Air France, sobre a vastidão do Atlântico, de múltiplas e diferentes maneiras parece trazer essa condição à superfície do cotidiano. Por que as pessoas ficam chocadas com um acontecimento dessa natureza, uma tragédia, para remeter a um conceito extremamente caro aos gregos antigos? E por que o mesmo sentimento não é partilhado, ao menos da mesma maneira, num conjunto de ocorrências que aniquilam vidas diariamente em todo o mundo? Por que guerras devastadoras, especialmente na África - esse continente esquecido pelos deuses, e onde os humanos nasceram - não sensibiliza como o mergulho de um jato nas águas azuis do Atlântico? Por que pessoas, ainda que criminosas, são deliberadamente eliminadas em casos de pena de morte, em países onde esse princípio é adotado, ao mesmo tempo em que se luta desesperadamente para se resgatar ao menos um possível naufrago das águas oceânicas? Há uma infinidade de tragédias no mundo, algumas delas apenas anunciadas e sem se consumar como o acidente que envolveu a Apollo 13, em abril de 1970. A nave retornou à Terra numa corrente de invocação no mundo inteiro. Houve silêncio em estações de rádio de todo mundo para evitar interferências na comunicação com esses náufragos do oceano cósmico que tentavam voltar para a casa. Certamente há um amplo conjunto de considerações de ordem lógica para justificar diferentes sentimentos frente à tragédia porque, a vida de um assassino, por exemplo, também está permeada pela tragédia. Ainda que nossos sentidos estejam focados para interpretá-los como aqueles que devem morrer. Talvez, cada um de nós leve em conta que um assassino, ou qualquer transgressor de outra ordem, deva ter condições de refrear seus ímpetos e, nesse sentido, evitar que seus atos de barbaridade possam consumar-se. Seria, talvez pensemos secretamente, uma maneira de evitar que a tragédia, o completo horror de existir, se consuma de alguma maneira. Para conhecer completamente a razão pela qual a tragédia encantou os gregos antigos, rigorosamente teríamos que ser um deles e essa é uma completa impossibilidade. Assim, supomos que sabemos, com a ajuda de homens cultos e de tudo que os gregos nos legaram, pela escrita e outras representações, o que fez com que esse povo antigo “cismasse”, (para utilizar uma expressão de Guimarães Rosa) com a tragédia. Possivelmente, a questão que intrigou os gregos possa ser uma pergunta até certo ponto simples: “que critério têm deuses para fazer com que a tragédia desabe sobre a cabeça de alguns e poupe tantos outros?” E a resposta para essa questão é simples: não sabemos. Autoridades de diferentes ordens, de chefes de Estado a entidades de controle de tráfego aéreo, não poupam esforços para localizar na superfície montanhosa do fundo do mar (cicatrizes do nascimento e crescimento do Oceano Atlântico ainda hoje) um objeto abóbora curiosamente conhecido como “caixa preta”. A justificativa para essa busca tão determinada é a expectativa de que a caixa preta permita explicar o acidente e evitar que ele volte a ocorrer. Mas, talvez, a essência disso esteja no esforço de mergulhar na essência da tragédia e, neste sentido, tentar desarmar seu mecanismo. Não exatamente a tragédia do mergulho de um jato no mar. Mas a tragédia que implica no horror de existir, quando pessoas queridas, indispensáveis, que nos fazem respirar, que são a energia para o coração pulsar, desaparecem sem qualquer explicação.
Ciência e mistificação Ulisses Capozzoli De acordo com a revista digital Public Library of Science ONE uma parcela de 34% de pesquisadores científicos (brasileiros não estão incluídos) consultados num levantamento que envolveu 3.276 pesquisas admitiram ter adotado posturas questionáveis como omitir novos resultados capazes de por em xeque trabalhos anteriores, ou descartar informações de experimentos próprios por uma avaliação subjetiva de que poderiam estar incorretos. A pesquisa, sobre má conduta em pesquisa científica foi conduzida por Daniele Fanelli, do Instituto para o Estudo da Ciência, Tecnologia e Inovação, da Universidade de Edimburgo, na Escócia, país com longa tradição de investigações na área de sociologia da ciência. De acordo com a pesquisa, cerca de 2% dos pesquisadores confessaram ter simulado, falsificado ou adulterado dados para melhorar os resultados de seus trabalhos. A pesquisa envolveu 3.276 pesquisas que tratam de desvios éticos e separou 22 artigos publicados nos últimos 23 anos. A coleta de opiniões foi feita por questionários respondidos anonimamente pelos pesquisadores. Um crítico apressado poderia concluir que cientistas, ou boa parte deles, são pessoas absolutamente desonestas por falsearem dados, comportamento que, fora da vida acadêmica, pode ser duramente punido com a justificativa de falsidade ideológica. Alguns cientistas, de fato, podem ser desonestos, como acontece com qualquer outro segmento da sociedade. Mas generalizar esse fato sem dúvida é um erro. O que vale a pena considerar, a partir desses dados é, na verdade, a natureza humana da ciência. Por natureza humana se deduz que cientistas falham como quaisquer outras pessoas, o que significa que deveríamos aprender a olhar a ciência com outros olhos, coisa que vale especialmente para boa parte dos pesquisadores científicos. É frequente a argumentação, por parte de pesquisadores científicos (cientistas, na verdade, são como juristas, capazes de codificar novos comportamentos, enquanto pesquisadores científicos são como advogados que trabalham a partir dessas codificações). Assim, um primeiro passo nesta direção é compreender que, ao contrário do que dizem os jornais, cientistas são algo distinto de pesquisadores científicos. Talvez a analogia entre juristas e advogados ajude a compreender essa diferença. Pesquisadores científicos, com frequência maior que o desejável, costumam tecer críticas, por exemplo, quanto ao uso de metáforas, coisa de que a divulgação de ciência se vale para facilitar a comunicação de conceitos e princípios entre outras referências em ciência. Mas claro que a metáfora também está inserida na produção científica, ainda que não seja oportuno avançar nesta direção neste momento. De qualquer maneira, pense o leitor na seguinte idéia: você está indo com seu carro por uma rua e, de repente, o sinal verde se apaga e acende o vermelho. Você para seu carro, não é verdade? Pois isso é uma metáfora. Não existe uma barreira material à sua frente impedindo que você continue a avançar. O que existe é uma alegoria, um sinal luminoso, para que você pare e os motoristas da rua transversal se ponham em movimento. E funciona bem, a menos que o motorista submetido ao sinal vermelho seja um transgressor. Essa é uma evidência elementar de que a metáfora funciona, sem que precisemos mergulhar numa discussão sobre o simbolismo que faz a mediação entre a natureza do mundo e o que julgamos ser a natureza do mundo. A ciência, como disse mais de uma vez Albert Einstein, é algo maravilhoso, mas não passa de uma caixinha de brinquedo se comparada aos mistérios do Universo. No Brasil, uma herança positivista que muitos julgam extirpada, permeia boa parte das idéias da comunidade científica e o resultado disso, com alguma frequência, são idéias e conceitos não muito promissores. Quanto ao fato de cientistas se equivocarem ou burlarem comportamentos, digamos, éticos, trata-se de uma clara evidência de que são tão humanos como os demais, ainda que muitos deles vendam a idéia de olimpianos. E, para desfrutarmos da beleza da ciência e sensibilizarmos a sociedade para suas perspectivas, nada melhor que banir a mistificação. Qualquer que seja ela.
Ensaios para Copenhague Ulisses Capozzoli Até o próximo dia 12 a cidade de Bonn, na Alemanha, hospeda mais um encontro com a preocupação de amenizar os impactos das mudanças climáticas produzida pelo efeito-estufa de origem antrópica, ou seja, resultado de atividades humanas. Ao que tudo indica, a confirmação de origem antrópica, feita majoritariamente por climatologistas internacionais, em 2007, concluiu uma primeira fase desse programa: praticamente pôs fim na controvérsia sobre o aquecimento ser natural ou resultado de atividades humanas, incluindo queimadas de grandes florestas, produção de energia com combustíveis fósseis e alteração de ambientes para atividades agrícolas etc. O desafio agora e o encontro em Bonn é apenas parte dos preparativos para a reunião mais ampla do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) em dezembro, em Copenhague, na Dinamarca é deflagrar medidas efetivas de contenção das emissões especialmente de gás carbônico, um dos gases de efeito-estufa. Estima-se que pelo menos 4 mil participantes, de 180 países estarão reunidos em Bonn nessas discussões preparativas para a reunião de dezembro. Como sempre, há aspectos positivos e negativos nessa reunião na capital da antiga Alemanha Ocidental. Para começar pelos negativos e concluir pelos positivos, o que parece sempre mais estimulante, é preciso reconhecer que as metas estabelecidas em Kyoto e que vão até 2012 efetivamente não foram das mais animadoras. Uma das razões desse desapontamento foi a posição mais que conservadora, arrogante e desrespeitosa, do malfadado governo de George W. Bush, que deixou os Estados Unidos à beira de um enorme desastre econômico, o que contaminou toda a economia mundial. Além disso, as políticas ambientais de países emergentes como China e Índia especialmente, mas também do Brasil, neste caso por queimadas florestais são um desafio de porte a ser vencido. Mas existe um lado promissor e se a solução de um problema, independente de sua natureza, puder ser encontrada, certamente será pelo lado promissor. O fato de estar praticamente consolidada a idéia de que mudanças climáticas associadas a aquecimento global resultam de atividades humanas é um bom ponto de partida. Em vez de ficarmos esperando que a Natureza resolva todo o problema, como propunha o pensamento conservador capitaneado pela administração Bush, mais que nunca é o momento de se tomar iniciativas e medidas consistentes com elas. Nesse sentido, a vitória de Obama deve, evidentemente, ser comemorada como uma literal guinada na posição dos Estados Unidos frente à responsabilidade que cabe a esse país tanto na emissão de gases de efeito estufa quanto decisão de amenizar essas emissões. Além disso, na fase anterior, países emergentes como China, Índia e mesmo Brasil tentavam eximir-se de sacrifícios maiores nessa área. A realidade, no entanto, é que o mundo é literalmente um único barco cósmico, no interior de onde se abriga toda a humanidade e o que acontecer com este barco será vivido por seus passageiros. Evidentemente que os países emergentes devem forçar negociações para que os chamados países ricos arquem com a maior parte dos custos dessa mudança de paradigmas. Mas isso não significa que podem eximir-se dos seus próprios esforços. A China que tem exibido níveis vergonhosos de poluição em todos os sentidos não tem qualquer razão para “tirar o corpo fora”, como se diz na linguagem coloquial. A mesma coisa ocorre com outro dos gigantes emergentes, a Índia. E o Brasil deve assegurar, com todos os esforços possíveis, preservação de uma de suas riquezas estratégicas, as belas e complexas florestas tropicais. Tanto a floresta amazônica quanto a Mata Atlântica, que, neste exato momento, tombam sob a roda de tratores de grande porte, dentes afiados de motoserras e ardem sob fogo criminoso de ocupações ilegais de terras públicas. Controle das emissões de gases de efeito-estufa e preservação de ecossistemas como a grande floresta tropical não é luxo ou cuidado dispensável. É uma tomada de posição inadiável em relação à sorte da humanidade. E isso não é uma figura de linguagem. É um fato literal.
Memórias do inverno Ulisses Capozzoli Ainda que sejam fenômenos bem estabelecidos, e previsíveis, as estações do ano costumam confundir parte das pessoas, especialmente as que vivem na área urbana, mais distantes do contato com a Natureza.
A mídia sempre se refere a dados astronômicos para estabelecer, com precisão, o início de cada uma das estações, como o caso do inverno que se aproxima, com início às 5h43 do próximo dia 21. Por que existem estações distintas ao longo do ano e mais acentuadas à medida que se aproxima dos pólos? As estações resultam da inclinação (de 23º,27’) do eixo de rotação da Terra em relação à eclíptica, o plano de órbita da Terra. Essa inclinação do eixo produz as estações e elas moldaram o comportamento das mais diferentes formas de vida na Terra. Ainda que possa parecer sem conexão, as estações do ano também devem ter influenciado a ocupação da Terra pela humanidade. No passado remoto, rebanhos de diferentes animais migrando em busca de pastagens mais fartas, por exemplo, podem ter atraído grupos de caçadores que, ao longo do tempo, ampliaram as áreas ocupadas por populações humanas. Dizer que o inverno começa às 5h43 do próximo dia 21 de junho, no entanto, é parte de uma convenção. Nessa data o Sol atingirá o máximo afastamento aparente do equador (devido à inclinação do eixo de rotação). Mas, já em seguida, inicia o seu retorno aparente em direção ao Sul. Na verdade, o 21 de junho marca, digamos, o meio do inverno. Tanto que, na Antártida, existe uma festa tradicional que começou com os primeiros exploradores, principalmente ingleses, justamente batizada de Middle Winter, ou Meio do Inverno. Nessa data, dependendo de se tratar de um ano bissexto ou não, de fato o Sol atinge o maior afastamento aparente do equador, mas, como já referido, no instante seguinte, inicia o retorno ao Sul. Ao que tudo indica, ainda é frequente a identificação das estações do ano com a maior ou menor aproximação entre a Terra e o Sol. O periélio (máxima aproximação do Sol), este ano, ocorreu em 4 de janeiro e o afélio (maior afastamento) será em 4 de julho. Periélio e afélio decorrem da órbita elíptica da Terra em torno do Sol (um anel ligeiramente achatado), o que exigiu um trabalho árduo do astrônomo alemão Johanes Kepler (1572-1630). Kepler se deu conta de que a órbita de Marte era elíptica e com isso rompeu com a ortodoxia anterior, envolvendo circunferência perfeitas, idéia assimilada do aristotelismo. Mas para fazer essa mudança Kepler dependeu de um outro astrônomo, o dinamarquês Tycho Brahe (1546-1601) que havia feito medidas com base em instrumentos relativamente simples, numa era anterior à do telescópio. Talvez seja interessante relembrar que o solstício de inverno para o hemisfério sul marca o solstício de verão no hemisfério norte. Já os equinócios, que assinalam a passagem aparente do Sol entre os hemisférios, marcam a primavera e outono e também são invertidos em relação aos hemisfério Sul e Norte da Terra. Para se precaver do que acreditavam ser um “apagamento” do Sol no céu, com o solstício de inverno, antigas populações humanas faziam enormes fogueiras para assegurar a sobrevivência de nossa estrela estrela-mãe. Essas são as raízes distantes das festas juninas, comemoradas durante o inverno no Brasil. Como se vê, a Terra está indissoluvelmente ligada ao céu.
Energia e avanços da ciência Ulisses Capozzoli Um dos sonhos de energia farta e praticamente não poluente - ao menos em comparação aos padrões atuais - está sendo gestado numa localidade no Sul da França, reunindo parceiros como Estados Unidos, China, Japão e União Européia: o Reator Experimental Termonuclear Internacional (Iter, na sigla em inglês). O Brasil participa como observador. O projeto é literalmente o da construção de um pequeno sol, ou seja, trata-se de um reator de fusão nuclear e não fissão, como os que abastecem as usinas atômicas em uso, entre elas Angra 1 e 2, no Brasil. A fusão pode oferecer energia limpa e sem os inconvenientes dos dejetos nucleares atuais, ainda que também tenha um determinado volume de rejeitos. Mas, como tudo que pode parecer fácil demais pode trazer alguns inconvenientes, o projeto Iter não é exceção. Para começar, na realidade, ele não é tão fácil quanto parece. Ao contrário, a fusão nuclear exigirá investimentos vultosos até se transformar em realidade, algo previsto para apenas o início da segunda metade deste século, na previsão mais otimista. Por enquanto, além das dificuldades tecnológicas, o Iter divide opiniões e municia seus críticos exatamente com custos elevados. Custos elevados e não visualização clara de objetivos, até mesmo para uma parcela da comunidade científica, não são ocorrências incomuns na história da ciência. Um outro exemplo do que a muitos pareceu puro desperdício de dinheiro foi o radiotelescópio de Jodrell Bank, na Inglaterra. Nos anos 1950, com a Inglaterra atravessando enormes dificuldades financeiras e carência de matéria-prima, com o aço, Bernard Lowell, radioastrônomo inglês se dispôs a construir o equipamento, parecido com uma gigantesca antena parabólica ainda utilizada para a televisão, em lugares remotos. A certa altura, com o orçamento estourado, por uma variedade de razões, o agora Sir Bernard Lowell esteve ameaçado de prisão, acusado de malversação de recursos públicos. Quando a situação chegou ao ponto crítico, Lowell foi salvo pelos russos. Ou melhor, pelo lançamento do primeiro satélite artificial, o Sputnik 1. Ligando cabos improvisadamente, a antena de Jodrell Bank captou e localizou o satélite soviético no espaço, emitindo o seu ingênuo “bip-bip”. Literalmente, da noite para o dia, Lowell se transformou de vilão em herói. Com o Iter poderia ocorrer coisa parecida. Ampliar os horizontes da ciência, mergulhando no desconhecido, mesmo no que aparentemente pode parecer mais consistente, é, na maioria das vezes, algo sem garantia. A questão é que, quando uma grande descoberta, ou uma conquista significativa é feita, todo um conjunto de valores se transforma e, literalmente, o mundo deixa de ser o que era. Ou, em alguns casos, o que havia sido até então.
Ética e destruição Ulisses Capozzoli Não deixa de ser surpreendente que, mesmo com todas as evidências da íntima relação entre desmatamentos e mudanças ambientais, o riquíssimo patrimônio natural da Mata Atlântica continue sendo sistematicamente destruído. Dados produzidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) publicados nas edições dos jornais de hoje, quarta-feira, mostram que entre 2005 e 2008 a Mata Atlântica perdeu 102, 9 mil hectares, o equivalente a dois terços da área da cidade de São Paulo. Os primeiros desafetos da bela e complexa Mata Atlântica, um dos pontos de prioridade máxima em termos de conservação em todo o mundo, foram os portugueses do século 16. O Pau Brasil foi o primeiro objeto de saque e, com a proximidade da exaustão desse recurso, que teve impacto significativo na produção européia de têxteis, a própria floresta foi encarada como inimiga. Encarada como uma barreira à penetração pelo interior, em busca de outros recursos estratégicos, especialmente minerais preciosos, a magnífica floresta foi sendo dilapidada em nome do que se entendeu como processo civilizatório. Um dos biomas mais rico e por isso mesmo complexo de todo o mundo, a floresta está reduzida a meros 7,9% do que foi no passado não tão distante. O grande campeão na destruição da Mata Atlântica no período considerado foi o Estado de Minas Gerais, seguido de Santa Catarina, Bahia, Paraná, Rio Grande do Sul, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Goiás e Espírito Santo. Apenas Minas Gerais destruiu 32.728 hectares, enquanto Santa Catarina arrasou outros 25.953. Mas Santa Catarina, em breve, pode ser a grande campeã nessa irresponsabilidade completa, com a decisão local de se restringir a faixa de mata ciliar, sob o pretexto de aumentar as áreas para atividade agrícola. Minas Gerais, apegada a uma tradição arcaica, que em alguns países europeus foram vetadas há séculos, ainda utiliza madeira em atividades de siderurgia. Isso equivale a dizer que, nesse Estado, a riqueza da Mata Atlântica, ainda longe de ter seu potencial devidamente reconhecido, é literalmente transformada em carvão. De quem a responsabilidade por essa destruição estúpida, inteiramente avessa a interesses estratégicos do país? De alguma maneira, de todos nós. Mas especialmente dos governos locais e federal, pela covarde negligência que demonstram em tolerar perdas dessa dimensão. Os políticos, especialmente às vésperas de eleições, costumam abrir suas malas de truques e nessa arte superam em anos luz engolidores de fogos e os mais exímios especialistas na habilidade de transformar pombos em elefantes. Se tirassem partido dessa criatividade para gerenciar os recursos públicos, obrigação que teoricamente assumem nas urnas, poderiam dispensar os truques e ir diretamente ao que interessa. Certamente seriam amados e respeitados pelos cidadãos, em lugar de serem odiados e rejeitados como exemplos a não ser seguidos. Talvez pior que negligencia seja exatamente o péssimo exemplo que transmitem ao conjunto da sociedade, o que faz com que muitos ajam da pior maneira possível, com a cínica justificativa de que “faz o que todo mundo faz”. Qual a possibilidade de construção de cidadania em ambientes assim? Talvez o equivalente a semear com trigo os pisos de uma mina de sal. A destruição da Mata Atlântica numa porção tão vasta do território nacional certamente não é uma ocorrência isolada. É mais uma metáfora da condição precária em que vivemos. Submetidos ao ritmo alucinado da completa destruição.
Precocidade da vida terrestre Ulisses Capozzoli Uma pesquisa desenvolvida na University of Colorado sugere que o intenso bombardeio registrado em todo o Sistema Solar, há 3,9 bilhões de anos e que afetou a Terra pode ter ajudado no aparecimento da vida no planeta, ao contrário do que se pensava. Esse bombardeio (cujas cicatrizes podem ser observadas na superfície da Lua, com ajuda de um pequeno telescópio) tem origem nos “entulhos” que sobraram da formação do Sistema Solar. Interpretações anteriores avaliavam que o ambiente na superfície da Terra, sob pesado bombardeio por bólidos cósmicos, apresentava condições desfavoráveis para emergência e desenvolvimento da vida, o que está sendo refutado pelo trabalho desenvolvido na University of Colorado. Segundo esta abordagem, uma porção da crosta terrestre que pode ter chegado a um quarto do total, teria se derretido sob energia térmica dos impactos e criado hábitat subterrâneo para microorganismos. Mesmo as condições mais extremas simuladas em laboratório “não teriam sido suficientes para esterilizar a Terra”, segundo Oleg Abramov, um dos membros do grupo de pesquisa. O trabalho, publicado na revista Nature, do mesmo grupo editorial de Scientific American e SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL sugere ainda que a vida na Terra pode ter se iniciado 500 milhões de anos antes que se acreditava. A origem da vida na Terra associada a bólidos vindos do espaço, especialmente cometas, começou com o físico-químico e Prêmio Nobel sueco Svante Arrhernius (1859-1927) e foi retomada e atualizada pelo cosmólogo inglês Fred Hoyle (1915-2001) e seu principal colaborador, Chandra Wikramasinghe.
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