Voyager-1 atinge região desconhecida

                                                                                            Ulisses Capozzoli

 

A sonda espacial Voyager-1, lançada em 5 de setembro de 1972, inicialmente com destino a Júpiter e Saturno atingiu uma nova região a 119 unidades astronômicas (17,8 bilhões de km)  do Sol,  com características diferentes das registradas na porção mais interna do Sistema Solar.

            Na região de estagnação (stagnation region) como essa área foi batizada o fluxo de partículas emitidas pelo Sol é sensivelmente mais fraco e sofre efeito do espaço interestelar, ainda que a nave se mantenha na área de influência dinâmica dominante do Sol.

            A distância que separa a nave da fronteira do Sol com a de outras estrelas vizinhas ainda permanece desconhecida.

            Segundo informações do controle da missão, no Jet Propulsion Laboratory, em Pasadena, na California, as condições comparadas entre o ano passado e agora sugerem que a pequena Voyager-1 entrou numa espécie de “purgatório” com alterações tanto no fluxo de partículas carregadas liberadas pelo Sol, o vento solar, como no campo magnético do Sol, enquanto partículas de origem extrassolar tem se intensificado.

            A nave, segundo o controle do voo, está sofrendo uma espécie de pressão externa, algo que ocorreu também com as Pioneers-10 e 11 e que ficou conhecida como “anomalia Pioneer”.

            Investigações recentes descartam a desaceleração do deslocamento das Pioneers como de origem gravitacional.

Então, o que explica essa desaceleração?

            Os dados disponíveis não permitem estimar exatamente quando a Voyager-1 cruzará a fronteira entre os domínios do Sol para o espaço interestelar, mas o controle de voo em Pasadena estima que isso deverá ocorrer entre alguns meses e uns poucos anos.

            A velocidade do vento solar, de acordo com registros da sonda, havia sofrido uma redução radical em abril de 2010 sugerindo que a Voyager-1 penetrava um novo território nos limites do Sistema Solar.

            O controle do voo girou a nave várias vezes durante a primavera e o verão do hemisfério norte num esforço para avaliar essas alterações na velocidade do vento solar.

            No ano passado os instrumentos de bordo também detectaram variações na intensidade do campo magnético solar na região de estagnação sugerindo a pressão de campos magnéticos externos ao Sistema Solar.

            As gêmeas Voyager-1 e 2 inicialmente  deveriam visitar Júpiter e Saturno e o controle de voo temeu pela integridade delas especialmente na travessia do cinturão de asteróides entre Marte e Júpiter.

As naves, no entanto, sobreviveram e, submetidas a uma compactação de dados feita à distância, chegaram a esses dois planetas mais “inteligentes” que quando deixaram a Terra. Essa operação configurou o que o astrônomo americano Carl Sagan  (1934-1996) chamou de “triunfo das Voyagers”.

Numa manobra já nas vizinhanças de Saturno a Voyager-2 teve sua rota alterada e passou por Urano e Netuno que nunca haviam sido visitados antes.

O único planeta que ficou fora de rota das Voyagers foi Plutão, agora rebaixado para a categoria de planeta-anão.

Uma missão especial foi destacada para Plutão, a News Horizons, prevista para chegar ao destino em 2015.

A News Horizons deve ampliar o conhecimento do cinturão de asteróides que envolve o Sistema Solar de que Plutão, o antigo planeta, agora é parte.

            O retorno de Thomas Malthus

                                                                                         Ulisses Capozzoli

                                                          

 

             O consumo abusivo dos países ricos e o crescimento populacional sem qualquer planejamento nos países pobres devem levar a humanidade a um impasse político-ambiental inédito na historia da civilização segundo um estudo de dois anos realizado pela Royal Society e divulgado esta semana.

            A Royal Society of London for the Improvement of Natural Knowledge, mais conhecida como Royal Society, foi criada em 1660 para, como seu nome sugere, divulgar o conhecimento científico e teve em Isaac Newton (1642-1727) um de seus presidentes.

            Algumas das recomendações feitas pela equipe que participou do estudo incluem a necessidade de permitir às mulheres dos países pobres acesso ao planejamento familiar, abandono do Produto Interno Bruto (somatória de bens e serviços produzidos por uma sociedade geralmente no período de um ano) como índice de saúde econômica e redução do desperdício de alimentos.

            Ao mesmo tempo, ainda segundo o estudo, os países ricos devem tanto ajudar os pobres a viabilizarem esses avanços econômico-sociais como restringir seu próprio consumo de recursos naturais, o que não implica, necessariamente, em redução do padrão de vida de que dispõem.

            Apenas o programa de planejamento familiar custaria cerca de US$ 6 bilhões ao ano.

            O relatório da Royal Society será uma das peças em debate na Rio+20, conferência das Nações Unidas para desenvolvimento sustentável que será realizada entre os dias 20 a 22 de junho próximo, no Rio de Janeiro.

 

Período crítico

John Sulston, presidente do grupo de trabalho responsável pelo relatório avalia que “este é um período de extrema importância para o planeta, com mudanças significativas na saúde humana e na Natureza”.

            Sulston, que liderou a equipe britânica no projeto Genoma Humano, alerta que “o rumo que seguimos depende da vontade humana e não é alguma coisa predestinada. Não é um ato de qualquer coisa fora do controle da humanidade e está em nossas mãos”.

            A advertência é uma clara referência a prováveis resistências de natureza religiosa ligada a interpretações mais ortodoxas sobre a vida e o destino humanos.

            Com cabelos e barbas brancos, um sorriso descontraído no rosto, Sulston disse, numa palestra recente no Rio de Janeiro que “grande parte da ciência mundial está refém dos interesses econômicos de grandes laboratórios, o que limita as pesquisas e consequentemente piora a saúde da população”.

            Em 2002 ele recebeu o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia em parceria com o também britânico Sydney Brenner e o americano Robert Horvit.

            O porte da população humana é uma preocupação antiga e foi destacado em especial pelo demógrafo Thomas Robert Malthus (1766-1834) em seu famoso An Essay on the Principle of Population, publicado entre 1798 e 1826.

Malthus alertou que o crescimento demográfico indiscriminado da população acabaria levando à fome e à doença.

 

Criatividade negligenciada

Em resposta ele recebeu críticas de vários de seus contemporâneos, entre eles a do jornalista, romancista e filósofo anarquista britânico William Godwin (1756-1836), crítico implacável da aristocracia e pai de Mary Shelley, a autora da ficção científica Franknstein. 

            Para Godwin Malthus chegou a suas conclusões pessimistas porque desconsiderou a criatividade, expressa, entre outros pontos, na capacidade humana de transformar a realidade natural e social.

            De fato, inovações revolucionárias, como a Revolução Verde, o desenvolvimento e a disseminação de sementes melhoradas e outras técnicas agrícolas que entre as décadas de 60 e 70 ampliaram enormemente a produção agrícola mundial, demonstraram que os limites ao crescimento demográfico estavam bem além das fronteiras consideradas anteriormente.

            Mas isso nunca significou que o “crescei e multiplicai-vos” da alegoria bíblica pudesse ser tomado como verdade ao pé da letra e considerado de forma definitiva.

            A população humana, de 7 bilhões de pessoas, deverá chegar a 10 bilhões até o final deste século.

A Terra é finita, apesar de ilimitada.

De acordo com o estudo da Royal Society “a humanidade já ultrapassou as fronteiras planetárias seguras” em termos de perda de biodiversidade, mudanças climáticas e ciclo do nitrogênio, sob o risco de profundos impactos ambientais no futuro imediato.

            Questões em discussão no Congresso Nacional neste momento, como a mudança do código florestal, certamente devem incorporar preocupações como as expostas pelos cientistas membros do estudo da Royal Society.

           

 Sciam amplia vendas em bancas

                                                                               Ulisses Capozzoli

 

Nesta segunda-feira (23/04) chega às bancas o quarto volume da coleção Enciclopédia Ilustrada do Universo abordando as 88 constelações em que o céu está dividido.

Esta edição permanecerá nas bancas até o próximo 23 de maio e divide espaço, por duas semanas, com o quinto e último volume da série relativo a cartas celestes.

Enciclopédia Ilustrada do Universo teve sua versão original editada pelo radioastrônomo e astrônomo real britânico Martin Hees reunida em um único volume.

A edição brasileira, feita pela Duetto Editorial, agora revista e atualizada foi dividida em cinco volumes: O fascínio do Universo com uma introdução ampla e bem consolidada sobre o Universo como um todo; O Sistema Solar, abordando o Sol, os planetas, luas, asteróides e cometas; O reino das galáxias, tratando da Via Láctea, a galáxia que abriga o Sistema Solar e as galáxias do aglomerado local e dos superaglomerados.

A Via Láctea, que já foi interpretada como uma galáxia espiral, mais recentemente foi classificada como uma espiral barrada devido à presença de uma estrutura que lembra uma barra em seu bojo central.

O volume 4 da Enciclopédia Ilustrada do Universo trata de cada uma das 88 constelações em que o céu está dividido com detalhes sobre seus conteúdos, caso de estruturas extragalácticas, nebulosas, quasares, pulsares e outras criaturas do zoológico cósmico.

Já o quinto e último volume, que traz as cartas celestes permite que um observador, em qualquer região do planeta, possa se orientar no céu e, assim, seja capaz de identificar cada uma das constelações à medida que elas desfilam no céu ao longo do ano.

 Evidentemente que, de acordo com a latitude do observador, a região observável do céu terá limitações: de São Paulo, por exemplo, não se pode observar a estrela polar, ou alfa da Ursa Menor, que fica abaixo da linha do horizonte norte.

Da mesma maneira, um observador em latitudes mais elevadas no hemisfério norte não pode observar o Cruzeiro do Sul que, da mesma maneira, estará abaixo da linha do horizonte em função da esfericidade da Terra.

Reunidos, os cinco volumes de Enciclopédia Ilustrada do Universo oferecem ao leitor um verdadeiro curso de introdução à astronomia.

Leitores que eventualmente possam ter perdido a oportunidade de adquirir números anteriores podem fazer esse pedido na Loja Duetto no endereço WWW.sciam.com.br

Neste momento, leitores interessados em física e astronomia encontram nas bancas a edição especial 46, dedicada aos mistérios do tempo que, neste caso, remete aos diversos modelos cosmológicos.

As questões aqui são, por exemplo, a possibilidade de o tempos ser finito: ter nascido em determinado momento e esgotar-se em outro.

A possibilidade de o tempo ser eterno está intimamente vinculada à cosmologia do Big Bang e da expansão indefinida do tempo.

Neste caso o tempo teria nascido com o espaço e energia que posteriormente daria origem à matéria.

Outras cosmologias, no entanto, como a proposta pela teoria de cordas, propõem a idéia de que o Universo possa ser eterno e, neste caso, o tempo também não teria nem origem nem fim.

A teoria de cordas, ao contrário do que defende o modelo clássico do Big Bang, propõe que a chamada explosão primordial, foi apenas o acontecimento mais recente de um processo em que o Universo passaria por um processo de contração/expansão/contração/explosão indefinido.

O volume 46, primeiro das duas edições especiais dedicadas ao tempo, está batendo recorde de venda entre todas as edições da série especial e isso também deverá ocorrer com a edição 47, segundo avaliação do departamento de distribuição da Duetto Editorial.

A edição mensal 118 de Scientific American Brasil relativa ao mês de março passado, com capa dedicada ao “universo quântico” também atingiu a maior venda em bancas dos últimos anos com percentual de quase 50%  em bancas, sem contar assinaturas.

Já a edição especial 46, dedicada ao tempo, está próxima de 53% das vendas em bancas, também sem incluir as vendas por assinatura.

Ao contrário dos anos anteriores, em 2012 Scientific American Brasil terá 18 edições ao longo do ano, entre mensais e especiais.

Isso sem contar lançamentos como Enciclopédia Ilustrada do Universo.

 

Edição especial sobre o tempo

                                                                                       

                                                                                                                 Ulisses Capozzoli

 

Desde a quarta-feira (4 de abril) o primeiro dos dois volumes da edição especial de Scientific American Brasil sobre o tempo está disponível nas bancas.

            O título deste primeiro volume (46) é “Mistérios profundos do tempo”

Ao contrário do que costuma acontecer sempre, esta edição sobre o tempo estende-se por dois volumes e o segundo (47) estará disponível para os leitores nas bancas em 4 de junho.

Este conjunto especial de artigos sobre este tema já foi publicado em edições anteriores da revista e agora retornam, revistos e atualizados num conjunto articulado que oferece uma visão ampla numa área que divide opiniões.

Neste primeiro volume, por exemplo, Graig Callender, professor de filosofia da University of California, em San Diego, questiona se o tempo é real ou apenas ilusão.

Já o conhecido cosmólogo e físico teórico Paul Davies, da Arizona State University, contribui com dois artigos: no primeiro deles trata do fluxo misterioso do tempo argumentando que do passado fixo ao presente tangível e ao futuro indeciso parece que o tempo flui inexoravelmente, mas isso também não é verdade.

A segunda abordagem de Davies trata da construção de uma possível máquina do tempo. Ele pondera que esforços nessa área não será uma tarefa fácil, mas pode não ser impossível.

Outra questão interessante em relação ao tempo é a sensação de que ele está passando cada vez mais rapidamente. Com isso há uma impressão genérica de que a duração do dia está diminuindo, quando ocorre justamente o contrário, ainda que em frações imperceptíveis aos sentidos.

De fato, a velocidade de rotação da Terra diminui em especial sob influência de interação gravitacional com a Lua que, em conseqüência disso, afasta-se lentamente da Terra.

Viagens no tempo, com a emergência tanto do chamado “paradoxo do avô”, para viagens ao passado, quanto “paradoxo dos gêmeos”, no caso de viagens ao futuro, também são abordados em um artigo de Ronald C. Lasky, professor do Dartmouth College e tecnólogo da Indium Corporation.

A edição 46 traz artigos que tratam do tempo na vida cotidiana, em especial em entre as diversas culturas do planeta.

Marcar um encontro com alguém e chegar atrasado ou fazer a pessoa esperar propositadamente tem significados evidentes que devem ser levados em conta para a compreensão de mensagens sutis.

A obsessão humana em medir o tempo com a construção de relógios cada vez mais preciso e as raízes históricas desse empreendimento também integra essa visão articulada sobre esse tema que se manifesta no cinema, na literatura e se estende até a questões que envolvem constantes cósmicas.

A edição 47 tem como primeiro artigo um trabalho que se estende por 12 páginas sobre o mito do começo do tempo e é tão fascinante como contraintuitiva. Este artigo é assinado por Gabriele Veneziano, conhecido físico teórico, agora no College de France, em Paris.

“Átomos de espaço e tempo”, outro dos artigos intrigantes do segundo volume é assinado por Lee Smolin, outro conhecido cosmólogo e físico de partículas.

Uma entrevista com Sean M. Carrol, do California Institute of Technology, autor do livro From eternity to here, relata o ambiente dos bastidores que leva um cientista a decidir a escrever um livro sobre determinado tema, com a intenção de tratá-lo em detalhes e com inteligibilidade possível, para um público mais amplo.

Multiversos, universo quântico, partículas “fantasmas” como também são conhecidos os neutrinos são outros dos temas do volume 2 que traz a contribuição do físico e cosmólogo brasileiro Mario Novello.

A partir da edição de junho o professor Novello integrará uma equipe de colaborares fixos de Scientific American Brasil.

                                               Erro de avaliação

Ulisses Capozzoli

 

         Na edição 119, próxima ao Primeiro de Abril, e às vésperas do décimo aniversário de Scientific American Brasil (em junho) cometi um erro de avaliação numa nota sobre homeopatia, publicada na seção Avanços, que quero reconhecer tanto junto aos leitores brasileiros da revista quanto em relação à tradição quase bicentenária da edição americana, a Scientific American.

            A nota em questão está relacionada a um curso na área de homeopatia aplicada à agricultura, oferecido pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) por meio do seu departamento de fitotecnia e, de acordo com as informações, com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

            O fato de se tratar de uma universidade de prestígio na área agrícola e de o curso ter patrocínio da principal agência de financiamento à pesquisa científica no Brasil, o CNPq, fizeram com que eu aceitasse e publicasse a nota produzida por uma colaboradora, bióloga, que fez o curso de 10 meses na UFV.

            Esse foi o meu erro de avaliação.

            Se um médico homeopata, dos aproximadamente 15 mil que existem no Brasil, montar um consultório e atender pacientes nesta área, não poderá ser acusado de desvio de conduta ou charlatanismo. Isso porque a homeopatia é legalmente reconhecida aqui como especialidade médica, farmacêutica e mesmo veterinária.

            Essa situação certamente relaxou meu sistema de controle sobre a referida nota e seu conteúdo, o que significa dizer que ajuda a explicar meu erro. Mas, sem dúvida, não o justifica, daí meu pedido de desculpas aos leitores e à edição original da revista.

            Até o final deste ano terei editado 18 números de Scientific American Brasil: 12 edições mensais e outras 6, bimestrais. Preparo todos os textos de cada uma dessas edições, o que significa dizer que leio cada palavra, antes e depois da revisão ortográfica. A revista, como sabem seus leitores, trata de temas nas fronteiras da ciência, com a preocupação de ter linguagem clara, precisa e conceitos inequívocos.

            Quando cometi o erro de avaliação a que me referi há pouco, atropelei o conteúdo conceitual: Scientific American, refletindo talvez a maioria das opiniões no meio científico, entende que homeopatia não é ciência.

            Leitores indignados com minha avaliação enviaram e-mails à redação e abordaram a questão na rede social, o que permitiu que eu me desse conta da falha que havia cometido. Numa madrugada com a Lua alta, quase cheia no céu, e o perfume da dama-da-noite inundando um pequeno jardim me dei conta de que o único reparo ao meu alcance é reconhecer o erro e me desculpar, como estou fazendo, com o apoio do diretor de redação, Janir Hollanda.

            Conforta-me, devo dizer o fato de a história da ciência estar repleta de falhas, algumas talvez mais radicais que a minha, mas cada uma delas devidamente reparada. Cito algumas para pura diversão dos leitores: em 1887 o químico francês Marcellin Berthelot disse que “para a ciência, o mundo de agora em diante não tem mais mistério”. Essa frase, curta e aparentemente objetiva, é considerada uma das mais imbecis de todos os tempos.

            Os canais de Marte, proclamados como de origem artificial pelo astrônomo americano Percival Lowell certamente é de conhecimento quase geral e a mesma coisa pode ser dita em relação à teoria da geração espontânea: a idéia de que ratos nasceriam naturalmente do lixo. A gênese desse conceito remonta a Aristóteles que em seus tratados Da geração dos animais e História dos animais, considera que certos insetos “vêm do orvalho que se precipita sobre as folhas”.

            A fusão a frio foi um fiasco (reproduzido em várias partes do mundo) pelos eletroquímicos Martin Fleischmann e o americano Stanley Pons, em 1989.

            E isso tudo sem falar nas medidas apuradíssimas do tamanho do cérebro humano, mas com interpretações no mínimo controvertidas, feitas pelo cirurgião Frances Paul Broca.

            Ciência e falsa ciência

 

                                                                                                                Ulisses Capozzoli

 

            Uma decisão do Tribunal Federal Regional da 1ª Região decidiu esta semana que apenas médicos terão direito de praticar a acupuntura.

            A decisão do Tribunal resultou de ação movida pelo Conselho Federal de Medicina já há dez anos e veta que outros profissionais ligados à área da saúde possam praticar a acupuntura, caso de fisioterapeutas, psicólogos, farmacêuticos e mesmo outras pessoas sem formação convencional nessas atividades.

            A pretensão de monopolizar essa prática por parte do Conselho Federal de Medicina não deixa de ser curiosa, levando em conta o que ocorreu em 1972, quando o então presidente americano Richard Nixon, numa visita à China, fez o que ficou conhecido como uma reabertura desse país para o Ocidente.

            Essa redescoberta ocidental da China fez com que técnicas ancestrais fossem consideradas, em especial a acupuntura.

            E qual foi a reação largamente majoritária dos médicos e seus órgãos representativos?

            A acupuntura foi considerada uma farsa, algo no mesmo nível de uma feitiçaria tosca e por isso mesmo tratada com repulsa e condenação.

            E o que acontece exatamente 40 anos depois?

            No Brasil, médicos praticam a acupuntura e seus órgãos de classe vão à Justiça para que seus associados sejam os únicos autorizados a fazer uso dela.

            Apenas para localizar melhor o percurso recente da acupuntura no Ocidente, certamente vale a pena rememorar que o destaque dado a essa prática foi, de certa maneira, acidental.

            Ocorreu que, em 1971, o jornalista James Reston, lendário editorialista do New York Times, beneficiou-se da acupuntura para tratar de dores pós-operatórias devido a uma cirurgia para tratar de apendicite, quando estava na China.

            Reston relatou os benefícios da experiência e com a credibilidade de que desfrutava fez com que a técnica fosse considerada no meio científico americano.

            A viagem de Nixon, que retirou a China de um longo isolamento, permitiu, em seguida, uma troca de informações inéditas entre cientistas chineses e americanos e a acupuntura, evidentemente, esteve incluída nessas considerações.

            Demorou algum tempo, como costuma ocorrer na adoção de práticas/medicamentos na área de saúde, mas em 1996, finalmente, a Food and Drug Administration, a famosa agência reguladora americana na área da saúde, aprovou a prática da acupuntura nos Estados Unidos.

            O reconhecimento formal dessa técnica terapêutica eficaz, a ponto de boa parte de seus detratores iniciais agora pretenderem ter exclusividade na sua prática, é apenas um capítulo mais recente da história da ciência.

            Fundamentalistas (tanto na comunidade acadêmica, como e principalmente fora dela), no entanto, costumam privilegiar a memória em prejuízo da inteligência.

            Com freqüência, discursos agressivos, baseado fundamentalmente em palavras de ordem e em evidências discutíveis, falam em “separar a verdadeira da falsa ciência”, como se essa fosse uma tarefa trivial.

Algo equivalente a fazer um risco de giz no chão e definir: “esta é verdadeira e aquela é falsa ciência”.

            Evidentemente que existem coisas que não passam de descarada falsa ciência.

            A ciência de Trofim Denisovič Lysenko, sob Stalin, na antiga União Soviética, foi um exemplo disso.

            Obscuro criador de plantas, Lysenko que chegou a ocupar a direção do Instituto de Genética da Academia Soviética nos anos 40, rejeitou a genética mendeliana com o argumento que se tratava de “ciência burguesa”.

            O trabalho de Lysenko, baseado em parte nas pesquisas do geneticista Ivan Vladimirorich Michurin, mas com desvios grosseiros, produzidos por limitações ideológicas, representou um grande retrocesso na genética e, de certa forma, em toda a ciência produzida na União Soviética.

            O pensamento dele só foi formalmente refutado em meados dos anos 60, o que permitiu uma renovação do pensamento científico no que então era uma das potências no sistema de poder bilateral que caracterizou a Guerra Fria.

            Se existe uma falsa ciência em paralelo, não a uma verdadeira ciência, mas o que se pode chamar de ciência com base, por exemplo, no método científico, isso não significa que seja tão fácil quanto parece fazer de imediato essa distinção.

            A não ser na base de palavras de ordem típicas da submissão ideológica, sem falar de possíveis e sugestivos problemas de natureza freudiana, entre outros.

            O grande Galileu, por exemplo, sorriu com desdém de intolerância quando Johannes Kepler, o “ultimo dos antigos e o primeiro dos modernos”, referiu-se à idéia de forças agindo à distância, ou seja: a gravitação universal.

            Numa passagem não muito conhecida da história da ciência, Galileu desacreditou, como parte do “pensamento mágico” as considerações de Kepler que, Newton, desenvolveria  nos Principia mathematica, publicado em 1687.

            Newton estabeleceu que a matéria se atrai na razão direta das massas e na razão inversa do quadrado da distância e isso foi e continua válido, ainda que alterado pelas equações da relatividade geral de Einstein onde o conceito de força é substituído pela idéia perturbadora da curvatura do espaço-tempo.

 A Lua, por exemplo, gira em torno da Terra porque está localizada num poço gravitacional criado pela massa da Terra. E a mesma coisa ocorre com a sistema Terra-Lua, em torno do Sol e também se replica em relação às galáxias do chamado Grupo Local, submetida à deformação do Superaglomerado de Virgem.

O Universo é um amplo salão, onde a gravidade define o estilo e o ritmo da dança.

            A comparação entre esses fatos sugere que a genialidade humana é infinita.

Mas a estupidez também é, quando se manifesta sob a forma de pensamento limitado e limitante. Comprometido mais com a camisa de força da memória que com a criatividade libertadora da inteligência, sequiosa por perscrutar os mistérios do mundo.

                                   A água que flui na Terra

 

                                                                                                                 Ulisses Capozzoli   

 

Na quinta-feira passada foi comemorado o Dia Internacional da Água por iniciativa da assembléia geral da Organização das Nações Unidas (ONU) de fevereiro de 1993.

            O tema deste ano foi Segurança da Água e da Comida.

            Não deixa de ser surpreendente que no “Planeta Água”, com 75% de sua superfície coberta por água líquida, a civilização humana se ressinta desse recurso básico para a manutenção da vida.

            O que ocorre, no entanto, é que do 1,35 bilhão de km³ de água disponível na Terra, apenas 11 mil km³ são apropriados para consumo direto, abastecimento da agricultura e mesmo industrial.

            Esse é o volume de água potável renovável, a cada ano, pelo ciclo hidrológico.

            O ciclo hidrológico permite a água em seus três estados: sólido, líquido e gasoso, versatilidade possibilitada pelo que os físicos chamam de “ponte do hidrogênio”.

            Mas esse potencial do hidrogênio só se realiza porque a Terra está a uma distância do Sol que os astrônomos chamam de “zona de vida”.

            Isso significa uma quantidade de energia balanceada para permitir variações na quantidade de calor que cria nuvens no céu, neve e gelo nas montanhas e nas regiões polares e água líquida nos oceanos, mares, lagos e rios.

            O único planeta em todo o Universo onde temos absoluta certeza de que chove água é na Terra.

            Certamente, muitos outros planetas em torno de bilhões de estrelas desta e de bilhões de outras galáxias, têm precipitação sob a forma de chuva ou neve.

            Mas a Terra é a único mundo onde temos certeza de que isso de fato ocorre.

            Titã, por exemplo, lua de Saturno, tem chuva.

 Mas ela é ácida e corrosiva e não precipitações que asseguram a vida como ocorre na Terra.

Ao contrário do que se pode pensar inicialmente, a água é uma substância abundante e muito antiga no Universo.

            Tão logo as primeiras estrelas sintetizaram oxigênio (a partir da fusão de enormes nuvens de hidrogênio de que as primeiras estrelas foram constituídas) e espalharam esse gás pelo meio interestelar, a água se formou, já que é composta por dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio.

            A nebulosa do Órion, na constelação que tem esse nome, por exemplo, é uma fonte cósmica de água.

Gigantescas nuvens de hidrogênio e oxigênio em Órion produzem, a cada dia, o equivalente a toda a água disponível na Terra.

            A ONU e a Unesco, órgão da ONU para educação, ciência e cultura, têm manifestado sistemática preocupação com o abastecimento de água em todo o mundo.

            Na África, por exemplo, em muitos pontos, as mulheres, tradicionais transportadoras de água, são vítimas sistemáticas de crocodilos e hipopótamos, quando se aproximam de cursos d’água para abastecer suas famílias.

            A água é fonte de vida, mas também pode ser o vetor da morte quando está poluída, envenenada ou comprometida por microrganismos patógenos.

            A água que escorre pela superfície da Terra em rios ou correntes marinhas se formou da nuvem da gás que deu origem ao planeta. Mas nem toda ela.

            Parte da água da Terra chegou aqui foi transportada por cometas que se chocaram com o planeta e deram origem a crateras de impacto, ou astroblemas.

            Perto de 60% da massa de um corpo humano é representado por água.

            E como parte dessa água foi cometa, parte do corpo de cada um de nós também foi cometa no passado mais remoto.

 

A partida de um homem notável


Morte do professor Aziz Ab’Saber deixa um espaço vazio na ciência brasileira

 

 

                                                                                                              Ulisses Capozzoli

 

 

A ciência, no Brasil, terminou esta semana mais pobre que começou e essa, lamentavelmente, não é uma alegoria ou força de expressão.

 O geomorfólogo Aziz Nacib Ab’Saber, o “professor Aziz” como era carinhosamente chamado, morreu em sua casa, um abrigo confortável num bairro mais distante onde, em meio a generosa vegetação,  viveu, recebeu pessoas, escreveu e abrigou uma infinidade de livros.

            Cientista notável, de cultura ampla, − dessas que não se encontra com frequência  − generoso e emotivo como uma criança ele não foi um acadêmico convencional.

Nem um homem confortável, no sentido de satisfazer-se com o prestígio de que desfrutava já havia muito tempo.

Em lugar disso foi um desassossegado, uma pessoa que teve olhos para o mundo e que enxergou na ciência uma forma de amenizar o chamou de “infinito sofrimento humano”.

            Convivi com ele por longos anos, desfrutando do conhecimento, afeto e pequenos desabafos que aliviavam seu coração atormentado pelo que considerava injustiças, incompetências, desonestidades, covardias e um conjunto de comportamentos abjetos que, em especial nos últimos tempos, têm proliferado como erva daninha.

O professor não se conformava com a postura do que chamava de “dinheiristas” gente disposta a qualquer coisa por compensação financeira.

Nem do que polida e genericamente se pode chamar de “má educação”, na verdade, comportamentos chulos, grosseiros e inconvenientes que caracterizam o comportamento, não de gente rude, que ele reconheceu e respeitou.

Mas de patifes de vários matizes, tipos que atacam na obscuridade para, em seguida, fugir apressada e inominadamente.

O que significa dizer que os últimos tempos de sua vida não foram, ao menos sob esse aspecto, muito fáceis.

O professor Aziz entrou na Universidade de São Paulo com um contrato de jardineiro, o que, um dia, relatado por uma amiga comum, me trouxe espanto e incredulidade.

Antes que eu recompusesse a vida dele para concluir, mais uma vez, que ele sempre foi um homem incomum.

Notável a ponto de sofrer, academicamente, de dissabores e boicotes que só afetam as inteligências promissoras, as que incomodam pela inteligência, coragem, integridade e algo ainda mais raro que se pode chamar de “amor humano”.

Amor pelos desamparados, que a sorte por alguma razão, deixou de lado.

Amor por desencontrados a quem ele procurou ajudar a encontrar rumos.

Amor pelos rebeldes a quem ele reconheceu razões.

Amor a desafortunados carentes de conhecimento, a quem ele ofereceu livros e estímulo na periferia da grande cidade, em muitos casos acompanhados de conselhos e recomendações em voz quase sussurrada.

Por isso teve suas decepções.

Como ocorreu a outro dos grandes cientistas brasileiros: o físico Mario Schenberg (1914-1990), afastado do convívio de seus alunos durante o regime militar também por sua inteligência, generosidade e ousadia intelectual.

O professor Aziz apreciava, e ele mesmo sempre foi, um artesão do pensamento complexo, estruturado nos clássicos, no conhecimento profundo e de campo na vasta área a que se dedicou, a partir da geomorfologia, e que fez dele um dos símbolos da Universidade de São Paulo de onde foi, desde que se aposentou, professor emérito.

Aziz Nacib Ab’Saber, filho de um mascate libanês e de uma dona de casa brasileira nasceu em 24 de outubro de 1924 em São Luiz do Paraitinga, no Vale do Paraíba, recentemente fustigada pelas águas turbulentas trazidas pela ocupação não ordenada.

Numa manhã de longa conversa ele relatou, com olhos marejados, a primeira memória que teve da topografia da região em que nasceu, observando o entorno do interior de um jacá de bambu, transportado no lombo de uma mula conduzida, em fila de animais, pelo pai.

Garotinho, mal alcançava o topo da peça tosca em que viajava, mas essas imagens, contou ele, o acompanharam por toda a vida: as serras azuladas à distância, efeito produzido pelo que os físicos chamam de “espalhamento da luz azul”, o mesmo efeito que dá essa cor ao céu.

O garotinho viajava com os sentidos impressionados pelo zumbido intenso das cigarras, o perfume acentuado  da vegetação pisoteada pelos animais, a voz familiar do pai, interagindo com outros trabalhadores.

Um dia tudo isso se resumiu a memória, nas lembranças dele.

Em particular quando seus olhos começaram a enfraquecer e reconhecer e recolher a bagagem na esteira do aeroporto no retorno de uma viagem já era uma tarefa desafiadora.

Aziz Nacib Ab’Saber partilhou suas qualidades incomuns por longo período com os leitores de Scientific American Brasil, por um convite meu, como editor, e de Alfredo Nastari, diretor de redação.

Aprendemos com ele, partilhamos do entusiasmo dele, solicitamos a ele, muitas vezes, que abordasse determinados assuntos, com a intenção de esclarecer questões que nos pareciam obscuras aos olhos do grande público.

E ele sempre nos respondeu com entusiasmo.

Os jornais, revistas semanais e o noticiário em horário nobre da TV vão falar da obra, dos títulos e da importância acadêmica do trabalho do professor Aziz.

Eu apenas retiro da memória cenas de convivência com ele, com o professor Crodowaldo Pavan, com as professoras Glaci Zancan e Carolina Bori, que também dirigiram a SBPC e deixaram, em minha lembrança, exemplos edificantes.

A semana para a ciência brasileira também fica mais pobre pela partida do professor César Ades, da mesma Universidade de São Paulo, um dos fundadores do estudo do comportamento animal no Brasil, hospitalizado desde que foi vítima de um atropelamento, na quarta-feira passada.

 

 

 

 

Quasares e lentes gravitacionais

 


                                  Por Ulisses Capozzoli

 

 

O Universo, com alguma frequência, fornece pistas para revelar sua complexidade.

É o caso das lentes gravitacionais, previstas por Albert Einstein na teoria geral da relatividade, mas que, para o grande público sempre foi algo mais próximo da ficção.

            A história de uma lente gravitacional e o quasar HE 1104-184, no entanto, é tão real quanto o Sol que desponta no horizonte leste a cada manhã.

Ainda que tenha também sua ponta de ficção.

            Um artigo que saiu na edição de dezembro passado do Astrophisical Journal relata a experiência de uma equipe liderada pelo astrônomo Jose Muños, da Universidade de Valência, na Espanha, envolvendo uma lente gravitacional e o quasar HE 1104-184.

Devido à enorme distância em que se encontra do Sistema Solar o quasar só pode ser observado e investigado por efeito dessas distorções do espaço, provocadas por enormes concentrações de massa que formam uma lente natural.

            Em resumo: a curvatura do espaço produzida por uma galáxia, por exemplo, faz com que essa distorção atue como lente, a exemplo das que equipam  óculos convencionais, ainda que, evidentemente, muitíssimo mais poderosas.

Essa lente gravitacional amplia a imagem de corpos situados além dela, permitindo que astrônomos observem esses corpos remotos, no caso em que estamos tratando, o quasar HE1104-184.

Em princípio, por estar muito distante e, além disso, pelo fato de o espaço estar em expansão acelerada (efeito que os cosmólogos atribuem à energia escura, uma espécie de anti-gravidade) o quasar estaria para sempre fora da observação dos astrônomos.

O efeito lente faz com que essas imagens cheguem aos espelhos dos telescópios na Terra.

A magnificação produzida pela lente gravitacional foi comparada a um telescópio capaz de ampliar um grão de areia lunar e permitir que seja observado daqui.

Lentes gravitacionais, é preciso ponderar, dependem tanto do posicionamento tanto do objeto observado (o quasar HE 1104-184) quanto do corpo (provavelmente uma galáxia) que produz o efeito lente no espaço.

E também da Terra, que deve estar alinhada com os feixes luminosos desviados pela lente, do objeto observado (o quasar HE 1104-184).

Lentes gravitacionais são, realmente, construções intrigantes do ponto de vista, digamos, de “topografias” cósmicas.

Mas quasares não são menos estranhos.

Quasares, os corpos mais luminosos do Universo, são criaturas cósmicas arredias e, por isso mesmo, pouco conhecidos.

Interpretadas como núcleos de galáxias em formação, submetidos à ação de vorazes buracos negros, estão a distâncias abissais, tanto no espaço quanto no tempo.

E essa é uma das razões de termos pouca informação sobre eles.

Assim, a colaboração fortuita de uma lente gravitacional é uma espécie de pista que o Universo oferece à ciência para compreensão de sua complexidade.

Certamente a civilização humana não é a única a tirar partido dessas “coincidências”. Ainda que, por enquanto, tudo o que tenhamos não passe de suposições razoáveis e desejo de não sermos a única criatura inteligência entre as estrelas.

Não é insensato pensar que, um dia, com o “fim da infância” (como Arthur C. Clarke relata o encontro com outra civilização cósmica), lentes gravitacionais e quasares estejam entre as perguntas que faremos aos nossos possíveis visitantes.

Por enquanto, na Terra, utilizamos fortuitas lentes gravitacionais para perscrutar profundezas onde, sem ajuda, nem os olhos mais poderosos de nossos telescópios penetram.

Quanto aos quasares, já os empregamos, por exemplo, na calibragem de satélites que monitoram nossos vulgares equipamentos GPS.

Com eles um navio ou avião encontra o rumo que deve seguir no meio da noite.

E, cada um de nós, o endereço do restaurante onde pretendemos jantar.

O incêndio da base antártica

 

 

                                                                                                                Ulisses Capozzoli

 

 

 

            O incêndio que destruiu a base antártica brasileira comandante Ferraz, na ilha Rei George, no arquipélago das Shetland do Sul – separada da Península Antártica pelo Estreito de Bransfield – pode ter seu lado positivo.

A não ser pelas duas mortes de militares que tentaram apagar o fogo, evidentemente.

Vidas humanas são perdas irreparáveis, sem compensações materiais.

Do ponto de vista de exploração antártica, no entanto, o acidente que destruiu a estação deve estimular uma reflexão sobre o que o Brasil deseja na Antártida.

Tanto a base quanto a infraestrutura disponível ainda hoje em trabalhos antárticos resultam de uma improvisação, no começo dos anos 80, quando o Brasil temeu pela decisão de uma eventual partilha de terras, com a revisão do Tratado Antártico em 1991, 30 anos depois de adotado pelos países interessados em pesquisar a região.

No início dos anos 80 o Brasil comprou, da Noruega, um navio que havia sido utilizado em pesquisas polares pela França ─ o Thala Dan, rebatizado de “Barão de Teffé” ─ para assegurar a logística em pesquisas no continente.

 O navio oceanográfico “Professor Wladmir Besnard”, da Universidade de São Paulo, fez dupla com o “Barão” para produzir os primeiros trabalhos científicos brasileiros na região.

O que o Brasil desejava com essas improvisações e quais eram as dificuldades da época em relação à Antártida?

O Brasil desejava ser membro consultivo do Tratado Antártico e com isso ter direito a voto na eventual decisão de partilha de terras na região (a exemplo do que ocorreu no Ártico), caso essa fosse a decisão a ser tomada em 1991.

Para ser membro consultivo, no entanto, o Brasil precisaria ter produção científica na região e isso começou a ser feito a “toque de caixa”, como diz a linguagem popular.

Mas havia sensibilidades nesta área tanto por parte do Chile, país com pretensões territorialistas no continente, como da Argentina.

No caso da Argentina a situação era ainda mais delicada e agravada pela decisão brasileira recente de construir Itaipu, que a Argentina interpretou como  ameaça, no caso de uma catastrófica ruptura da barragem.

A guerra das Malvinas, quando o Brasil deu apoio político e material (especialmente aeronaves e medicamentos para a Argentina), no entanto, amenizou essa situação e hoje a parceria entre os dois países se encarregou de soterrar antigas questões de natureza geopolítica.

O Brasil, então, conseguiu obter o posto de membro consultivo, mas isso não o levou a aprofundar pesquisas na região, repetindo o que já havia ocorrido durante o Ano Geofísico Internacional de 1957/58 (AGI, na sigla em inglês) que marca a fase de exploração científica na Antártida, com participação de Argentina e Chile, entre os países latino-americanos.

O Brasil, em meados dos anos 50, investia seus recursos limitados na “Marcha para o Oeste”, como ficou conhecido o desbravamento do Brasil Central, incluindo a Expedição Roncador-Xingu, comandada pelos irmãos Villas-Bôas e a criação (em 1961) do atual Parque Indígena do Xingu.

Até agora o Brasil não dispõe de uma base no continente, já que a ilha Rei George, a 120 km da Península Antártica, é uma espécie de portão de entrada no continente.

Para ir mais fundo em pesquisas na região o Brasil necessita de uma base permanente no continente, como fazem, por exemplo, Chile e Argentina.

Climatologistas e meteorologistas brasileiros têm interesse, por exemplo, no que ocorre no Mar de Bellingshausen (em homenagem ao explorador russo Taddeus Bellingshausen, quem observou, pela primeira vez, terras continentais antárticas) pelos impactos que se manifestam no Brasil.

Mas, desde o início da pesquisa antártica, crises políticas, econômicas e oscilação na distribuição de verbas para a pesquisa fez de trabalhos da Antártida pouco mais que o mínimo para justificar essas atividades.

O lamentável acidente do fim de semana, aparentemente, coloca um ponto final nessa política de indecisões reconhecida por todos os envolvidos nesse trabalho.

O que fazer na Antártida?

Reconstruir a base numa espécie de subúrbio antártico?

Fazer dela um ponto de apoio para uma base continental?

Certamente toda a comunidade antártica estará envolvida nessas discussões a partir desse dramático fim de semana.

Reformular a política de exploração antártica, com decisões mais claras e continuadas certamente é a melhor homenagem que se pode prestar não apenas às vítimas do incêndio que destruiu Ferraz, mas a todos aqueles que, de alguma maneira, contribuíram para que o Brasil faça na Antártida uma pesquisa à altura da sua produção científica internacional.

 

                                               Interlocutores especiais

 

                                                                                                                Ulisses Capozzoli

 

 

Mais que quaisquer outras áreas, em jornais ou revistas, talvez os editores de ciência sejam os destinatários das mensagens e ou visitas mais exóticas.

            Não passa uma única semana sem que mensagens, cartas, pacotes de material xerografado, visitas-surpresas ou outras manifestações afins não ocorram.

            A maior parte das pessoas contesta Newton, Darwin e Einstein. Mas, de modo geral, se contesta muito mais.

            Há quem diga, por exemplo, (e o número não é pequeno) que o aquecimento global, com mudança climática, é a maior mentira já propalada até agora.

            Isso apesar de ter sido demonstrado, já em fins do século 19, que a maior concentração de dióxido de carbono e mesmo vapor d’água retém calor na atmosfera em lugar de permitir que escape para o espaço.

E isso produz o que é conhecido como efeito-estufa.

            Como a quantidade de dióxido de carbono subiu bastante desde o início da Revolução Industrial, é razoável aceitar que o aquecimento global seja mesmo de origem antrópica. Mas, além disso, milhares de pesquisadores científicos trabalham neste tema e estão convencidos de que se trata de realidade, não de ficção.

            Vez ou outra alguém argumenta que o homem jamais pisou na Lua e tudo aquilo que aconteceu nos anos 60 e início dos 70 não passou de farsa.

            Mensagens e especialmente cartas são mais fáceis de resolver.

            Basta responder que, por falta de corroboração, não é possível publicar um artigo que consumiria 20 páginas para questionar a legitimidade da teoria geral da relatividade (ainda que observações feitas em 29 de maio, de 1919, em Sobral, no Ceará tenham confirmado a previsão de que um corpo como a Terra ou o Sol curva significativamente o espaço à sua volta).

            Cartas são (lamentavelmente) coisas que perderam sentido.

            Responder essas comunicações e postá-las quase sempre consome um tempo que não existem mais e, exatamente por isso, a tendência é que fiquem esquecidas à espera de um tempo que não certamente não virá.

            Mas as visitas são, geralmente, mais complicadas.

            A recepcionista avisa que alguém quer falar com o editor e, como a pessoa está esperando, o editor de alguma maneira deve atendê-lo.

            Então começa a novela do interlocutor que já procurou encaminhamentos em universidades, centros de pesquisa e afins, sem que ninguém lhe tenha dado atenção. Ele não se conforma com tanta negligência, afinal, traz sob os braços soluções que, a seu ver, mudarão para sempre o sentido da realidade.

            Outros casos são mais dramáticos.

            São pessoas que se queixam, por exemplo, de síndrome do pânico, ou tem alguém na família com este ou outro problema.

            No caso da síndrome do pânico, a melhor solução é ter na memória do computador a relação de centros de atendimento em todo o estado e aconselhar a pessoa a buscar ajuda com pessoal especializado.

            Há casos de desconfianças em que uma pessoa quer saber, por exemplo, se a gravidez “altera o DNA” porque suspeita que está sendo ludibriada numa relação amorosa.

            Mas, em meio a tudo isso, há surpresas desconcertantes.

            A senhora que fez contato por telefone, por exemplo, é uma delas.

            A história, neste caso, envolve a primeira cidade construída por humanos, na Anatólia, região que agora pertence à Turquia, na sua parte ocidental.

            A mulher é gentil, mais que isso, refinada, tem ótima cultura e um discurso à primeira vista coerente. No final, fornece um endereço onde gostaria de receber a correspondência em que está interessada: é um hospital psiquiátrico.

            O caso da senhora é desconcertante. A longa conversa em que ela demonstra conhecimento do tema e a forma como expõe seus argumentos não deixa dúvida de que é uma pessoa bem formada intelectualmente.

Ainda que o discurso revele indícios leves de que alguma coisa não está bem.

Cada um desses casos costuma produzir uma reflexão.

Engenheiros aposentados, por exemplo, com questões novas envolvendo problemas matemáticos e outras “inovações”, são todos “gente fora dos eixos”?

Certamente que não.

Mas como um editor poderia publicar, sem o amparo de especialistas, trabalhos que quase sempre os próprios especialistas não têm tempo para examinar?

E uma edição, de jornal ou revista, mesmo mensal, é quase sempre uma verdadeira corrida contra o tempo.

O que, de muitas maneiras, não passa de pura insensatez.         

 

 

 

 

 

 

Mentalidade ambiental

 

                                                                                Ulisses Capozzoli

 

 

Com alguma frequência, apresentadores de telejornais enchem o peito para ler uma notícia que julgam meritória: o Brasil é um dos campeões (em algumas áreas o grande campeão) de reciclagem.

            Em latinhas de cerveja e refrigerante à base de alumínio talvez tenha a primeira posição.

            Mas qual a vantagem disso?

            Se considerarmos que latinhas de cerveja são recolhidas por uma legião de “descamisados” expressão histórica recuperada de forma recente e oportunista na vida política nacional, a resposta é nenhuma.

            Ou melhor, quase nenhuma.

            Há, claro, mérito em altas taxas de reciclagem em qualquer área da produção. Mas se isso for feito à custa de um exército de desfavorecidos, o mérito deve ser, no mínimo, repensado.

            O Brasil, lamentavelmente, ainda exibe taxas alarmantes de desperdício e alguns desses itens podem surpreender as pessoas, caso dos chuveiros elétricos, vorazes devoradores de energia.

Em nenhuma parte do mundo desenvolvido existe algo parecido a um desses equipamentos.

            E temos chuveiros elétricos porque dispomos de um enorme potencial energético, ainda que para viabilizarmos essas fontes seja necessário construir hidrelétricas, com lagos que afogam áreas de biodiversidade endêmica, terras de populações indígenas e ribeirinhas.

            Isso significa que não valorizamos nosso patrimônio.

            Da mesma forma como comemorar reciclagem à custa de miséria social não valoriza nosso patrimônio enquanto parcela significativa da população.

            Poderíamos estimular, por exemplo, aquecimento solar. Que se não dispensa completamente o uso de chuveiros elétricos, ao menos reduzem o apetite que eles têm por energia.

            Mas isso exige um mínimo de criatividade por parte do estado nos diversos níveis de administração.

            Em alguns casos, a tecnologia (elementar) até existe, mas não é divulgada.

            Agora, o que enche as páginas dos jornais e ocupa a mídia como um todo é o fim das sacolas de plástico nos supermercados.

            Não que o banimento  dessas embalagens seja negativo, mas porque isso foi feito de forma indevida.

            Evidentemente que, por exemplo, antes do banimento, os estabelecimentos comerciais cobravam por esses produtos.

            E agora, quando deixam de fazer isso, qual o benefício transferido para os consumidores?

            Nenhum.

 

Pausa para viver

 

Por Ulisses Capozzoli

 

O ano talvez não tenha sido fácil pra ninguém. Mas também não foi difícil. Embora boa parte das pessoas diga o contrário, quase sempre não temos problemas na vida. Temos desafios que, às vezes, parecem intransponíveis. Às vezes você pára, pensa e diz: “agora não dá mais, não vou conseguir”.

Então, em seguida, algumas horas depois, no dia seguinte, você descobre que apenas superdimensionou o desafio e que você pode resolvê-lo sim que, de alguma maneira, é até divertido resolvê-lo e seguir em frente. Até que um dia... bem, um dia a gente vai embora deste mundo. Cada um de nós...

Para muita gente esse é o tipo de comportamento otimista ou coisa do tipo.

Acho que é apenas uma maneira de olhar as coisas pela frente, cair fora da autocomiseração, de ter pena da gente mesmo e andar de cabeça baixa.

Autocomiseração não resolve desafios e andar de cabeça baixa não permite ver as estrelas. Por nada neste mundo eu faria isso.

Fim de ano quase sempre nos leva a alguma reflexão, a desejar boa sorte às pessoas, dar um abraço adiado por meses seguidos e desejar um bom ano, mesmo a quem possa nos desejar o contrário.

Além disso, finalmente chegaram as férias.

Algumas semanas para reflexão, dedicação a projetos pessoais como a pequena peça de madeira que vem sendo trabalhada há tempos, mas ainda não foi concluída.

Caminhadas pelas montanhas, à beira do mar. Uma viagem a Istambul e uma passagem pela Grécia, onde professores denunciam que crianças estão desmaiando nas escolas por falta de alimentação.

Visitar a Grécia é uma forma de levar algum apoio, enxergar a crise econômica de perto e avaliar a voracidade dela. 

Levar algum dinheiro, gastar por lá em pequenas coisas, com o consolo insensato de contribuir, ainda que seja com pouco, para amenizar o sofrimento dessa terra que é o berço da civilização ocidental.

A Grécia não merece essa humilhação. Nação alguma merece, mas a Grécia, em particular não merece.

Assim, só voltamos a conversar em fins de janeiro.

Feliz Natal a todos.

Um rico e promissor 2012.

Pode ser que ele também não seja fácil.

Na vida nada é fácil.

Nem difícil...

 

A busca pelo outro

 

 

Por Ulisses Capozzoli

 

 

 

A identificação de um exoplaneta (um planeta que não pertence ao nosso sistema solar) a 600 anos-luz, situado na zona de vida de uma estrela como o Sol, entusiasmou a mídia ao longo desta semana.

            Identificar mundos como a Terra, de alguma maneira sugere que possamos não ser a única inteligência no Universo.

Mas, paradoxalmente, essa dúvida foi incapaz de fazer com que (ao menos até agora) pudéssemos ser capazes de descobrir a dimensão de nosso próprio mundo.

Brutalidades continuam a ser cometidas na África, nos países pobres e também nos ricos.

A prepotência histórica faz com que a crise econômica continue sem solução especialmente na Europa, onde antigos privilégios resistem a revisões.

Da mesma maneira, o aquecimento global com inequívoca mudança climática, não comove países poluidores a reformular antigos hábitos consumistas para preservação de nosso próprio mundo de um desastre que pode ser irreversível em algum ponto de uma curva em ascensão.

Políticos, em muitos países, não passam de ladrões vulgares, dissimulados de autoridades públicas que se locupletam impunemente em detrimento do bem-estar coletivo. 

Num contexto, digamos, cósmico, qual o sentido de um conceito como “civilização”?

Daí a razão da Equação Drake (uma sequência de condições que na avaliação do radioastrônomo americano Frank Drake indicaria o número de civilizações na Galáxia e no Universo) a certa altura considerar a possibilidade de autodestruição.

A autodestruição reduziria um número potencial de civilizações à metade.

Mas essa é uma possibilidade consistente ou apenas a projeção do que sentimos como ameaça velada no dia a dia de nossa própria civilização?

Ainda neste contexto, qual o sentido mais profundo de buscarmos mundos como a Terra na vastidão do corpo da Galáxia?

Kepler-22, nome de batismo do planeta anunciado pela mídia esta semana, ainda é um mundo vago.

O pouco que se sabe dele é que tem as dimensões próximas às da Terra e situa-se na zona de vida, expressão que subentende a água em seus três estados e a possibilidade do ciclo hidrológico: ou seja que nesse mundo haja evaporação e precipitação, como ocorre na Terra.

Uma distância como 600 anos-luz é modesta até mesmo para distâncias estelares.

O diâmetro da Galáxia, por exemplo, estende-se por 100 mil anos-luz

Nossa galáxia vizinha, Andrômeda, está a 2,3 milhões de anos luz.

E o quasar mais próximo (corpos mais luminosos do Universo) e o primeiro a ser identificado, o 3C 273, se encontra a 3 bilhões de anos-luz.

Mas, Marte, a 5 minutos luz, na posição mais próxima da Terra, ainda permanece um mundo distante enquanto nossa própria lua, a pouco mais de um segundo-luz, não é visitada desde meados dos anos 70, quando a última tripulação deixou em sua superfície a marca de botas espaciais.

Desembarcar num mundo a 600 anos-luz, ainda que ele seja mais receptivo que a Terra (se é que isso é possível de ser considerado) é uma tarefa para o futuro .

Se, claro, sobrevivermos até lá.

Com tudo isso, procurar outra Terra no céu, ao mesmo tempo em que desrespeitamos profundamente a Terra em que nascemos, ao menos em princípio não passa de pura contradição.

Ainda assim, há mais de uma boa razão para comemorarmos, por exemplo, a descoberta de mundos como a Terra ou planetas gigantes, corpos do tamanho ou ainda maiores que Júpiter, o gigante de nosso sistema solar.

Em fevereiro de 1600 o filósofo italiano Giordano Bruno foi queimado vivo na fogueira da Inquisição por defender a idéia de que estrelas são outros sóis como o nosso e estão acompanhados de planetas, muitos deles abrigando outras formas de vida.

Que as estrelas são outros sóis e que muitas delas (talvez a maioria) tenham um planeta ou colares planetários à sua volta já está suficientemente demonstrado.

Mas não sabemos se abrigam a vida, embora que isso deva ser inevitável.

Por que a vida deveria restringir-se à Terra?

E por que, na Terra, as criaturas que se julgam a mais inteligente podem viver tão estúpida, indiferente e egoisticamente em sociedade?

O que ocorre na Terra é um paradoxo, ou criaturas de outros mundos seriam tão estúpidas como as que vivem aqui?

Por um pequeno conjunto de razões é possível questionar se vale mesmo a pena continuarmos essa busca cósmica pelo outro.

Ausência de cidadania   

 


                                                                                                         Por Ulisses Capozzoli

 

 

Entre temas que, neste espaço, vão da astronomia à zoologia (o que faz com que tudo seja considerado ciência, pois é permeado pelo método científico) certamente é interessante considerar também a história e, em particular, a história das mentalidades.

            Entre todos os povos essa é uma área fascinante de conhecimento. Entre nós, depois de 350 anos de escravidão, ela tem implicações particulares.

Primeiro porque afeta nosso cotidiano, nos mínimos detalhes, embora quase sempre não estejamos dispostos a esses reconhecimentos.

Segundo porque sofremos, também cotidianamente, o que se pode chamar de “maldição da África”, o pesado tributo que pagamos por termos sido uma das sociedades escravistas mais duradouras da história moderna e, em particular, pelo fato de sermos a última sociedade ocidental a banir essa prática profundamente odiosa.

Joaquim Nabuco (1849-1910) membro de uma família escravista, mas que optou lucidamente pelo abolicionismo, escreveu em um de seus livros, Abolicionismo, que por fim a  essa prática no Brasil não seria grande desafio (até porque os ingleses, interessados em vender máquinas ao Brasil, produtos da Revolução Industrial) estavam interessados nisso.

O desafio brasileiro, segundo Joaquim Nabuco, era retirar o entulho legado pelo escravismo. Tarefa que, segundo ele, demandaria séculos.

Numa sociedade escravista a Justiça, que no Brasil continua ausente, era uma decorrência natural.

Como pensar em Justiça num ambiente em que uns escravizavam outros?

Se não houve Justiça numa sociedade escravista, também não houve cidadania.

Tanto o dono de escravos quanto os escravos não eram, por razões distintas, cidadãos.

E, como previu Nabuco, esses ecos do passado comprometedor persistem.

Leitores de Scientific American Brasil, entre eles Iris Freire, partilham uma mensagem que é interessante levar ao conhecimento da sociedade porque, fundamentalmente, denuncia a negação à cidadania, neste caso o direito elementar de cada um de se defender da opressão do estado tributarista.

A questão, neste caso, tem quatro itens e que são basicamente os seguintes:

1)      Certidão de Nascimento. Quem precisar de uma certidão de nascimento ou de casamento não precisa mais ir a um cartório, esperar na fila e suportar o humor quase sempre azedo de um funcionário. Cartórios eletrônicos já estão disponíveis no site WWW.cartorio24horas.com.br

Estão disponíveis, mas quase ninguém sabe. E quase ninguém sabe porque essas questões de interesse público não são divulgadas. E não são divulgadas porque não temos cidadania consolidada para nos assegurar esse direito elementar.

Nesse site é possível resolver não apenas documento, mas outros, como cópias de certidões de óbitos, imóveis e protestos. Para pagar por esses serviços (que na verdade deveriam ser oferecidos gratuitamente, pois são parte das atribuições naturais do estado) pode-se imprimir um boleto bancário, recolher um valor e esperar pelo documento via Sedex.

2)      Na consulta telefônica pelo 102, de auxílio à lista, é possível utilizar o 08002800102. Isso significa que o cidadão não terá que pagar R$ 1,20 por essa consulta (de que nunca é informado). Governos camuflam descaradamente essa situação e empresas privadas fazem a mesma coisa, o que é pura desonestidade de um e outro em relação ao cidadão que, a cada dia paga mais e mais impostos

3)      Documentos roubados. Além de ter seus documentos roubados (porque o estado não garante a segurança suficiente ao cidadão, ou porque é incapaz de assegurar um mínimo de bem-estar social que permita reduções significativas do índice de violência social, ou ambos) a vítima ainda arca com custos para obter nova documentação. Mas a Lei 3.051/98 assegura o direito de tirar novos documentos sem ter que pagar por isso.

Uma cópia de habilitação custa R$ 42,97

A de identidade sai por R$ 32,65

E a de licenciamento do veículo é de R$ 34,11.

Para ter garantida a gratuidade basta levar uma cópia (que não precisa ser autenticada) do Boletim de Ocorrência (BO) ao departamento específico.

4)      Multa de trânsito. Essa é uma das maneiras mais descaradas de que o estado se vale para explorar a sociedade, o que demonstra a atualidade das previsões de Joaquim Nabuco.

Aqui a Lei (que a imensa maioria desconhece, e desconhece porque ela não é divulgada) diz que alguém que tenha levado uma multa leve ou média, se não tiver sido multado nos últimos 12 meses, não precisa pagá-la. Mas para isso deve ir ao Departamento de Trânsito (Detran) e pedir um formulário para converter a infração em advertência, com base no artigo 267 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB).

O interessado deve levar cópia xerox da carteira de motorista e a notificação. Em 30 o interessado recebe pelo correio a advertência por escrito, perde os pontos, mas não recolhe qualquer valor aos cofres do estado.

Aqui é bom esclarecer que é um caso específico para multas leves e médias (como trafegar a 65 km numa via em que a velocidade máxima é 60km). Não se aplica, evidentemente, a alcoolizados que dirigem irresponsavelmente, matam e ferem e, ao final, acabam livres dependendo dos advogados de que dispõem para defesa. Ou que conduzem veículos sem que tenham autorização legal para isso.

A indústria da multa no trânsito é uma das práticas mais indecorosas no Brasil em benefício do estado e de empresas privadas que gerenciam autoestradas sob concessão oficial.

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