Blog de blogdasciam


O destino (enigmático) dos neandertais

Por Ulisses Capozzoli

Você se coloca frente ao espelho para se barbear e, numa experiência que pode durar frações de segundo, enxerga à sua frente um desconhecido, abrindo estreitas pistas de pele escanhoada em meio a uma camada de espuma, branca como a neve recém caída.

Um epifania que parece ter a duração do decaimento de uma partícula. Tão sumária que parece não ser real. Então, suspende por um par de segundos, o barbeador de cabo plástico, contrapartida das afiadas navalhas de aço do passado, e espera o tempo fluir.

Menos de uma colher de chá, na areia que escoaria de uma ampulheta. E tudo volta à normalidade.

Quem é o estranho que emergiu do fundo do espelho, como um recém-chegado de outra dimensão?

Quase sempre subestimamos experiências como essa, de pura epifania, termo que, numa acepção filosófica, refere-se a uma súbita sensação de entendimento da essência de alguma coisa que desconhecemos. Talvez o encaixe momentâneo de um quebra-cabeças, que se desfaz no tempo que uma partícula leva para viajar do fundo à superfície do espelho, supondo que um espelho tenha espessura, o que não é verdade.

Abordar, por exemplo, a porção neandertal que trazemos, talvez nem todos, de alguma maneira remete a experiências como o paradoxo de enxergarmos um outro no fundo do espelho quando, na realidade, quem está ali é aquele que, no cotidiano, reconhecemos como cada um de nós.       

Ainda assim, antropólogos e outros buscadores da história profunda dos humanos, percorrem antigos aldeamentos, aglomerações que remetem a proto-cidades e abrigos primitivos que reuniram grupos familiares em busca de um crânio esfacelado, o que sobrou de uma arcada, uma sequência de falanges, uma tíbia. Com alguma sorte, restos mais completos de um neandertal. E objetos tão úteis quanto uma faca, ou decorativos e artísticos como a beleza de um colar.

Objetos de sobrevivência e expressão artística, manifestações típicas de humanos, dão pistas vagas e fascinantes sobre esse desaparecimento.

A caverna de Gorham, no Estreito de Gibraltar, a lâmina d’água do Mediterrâneo que separa a Europa da África, no Sul da Espanha, é um sítio privilegiado para essas buscas.

Na caverna, nas proximidades dela e por toda a extensão de uma área mais ampla, um enorme grupo de neandertais viveu por milhares de anos, voltado para as exigências do cotidiano: caça, pesca, abrigo contra intempéries e confecções dos objetos práticos e de arte, como a decoração do piso da caverna.

Em essência, quando os antropólogos investigam locais como esse, o que procuram descobrir, é a razão do desaparecimento desses antigos moradores, como se tivessem sido engolidos pela boca do tempo.

E o mistério desse desaparecimento é mais profundo que o ocaso dos dinossauros, justificado pelo impacto de um bólido cósmico.

Durante muito tempo os neandertais foram concebidos como criaturas desajeitadas, extintas por sua própria capacidade de acompanhar o ritmo das mudanças, entre elas a presença dos “humanos modernos”.

Agora, no entanto, cada vez mais pesquisas sugerem que eles não sofreram dessas limitações, o que significa dizer que fatores não relacionados à inteligência puseram fim às suas vidas e permitiram o triunfo isolado do que elegemos como Homo sapiens.

Esta é, em essência, o conteúdo do artigo de capa da edição mensal de Scientific American Brasil que chega hoje às bancas de todo o país.

Entre outras abordagens, desta edição, apenas mais uma referência, para um relacionamento possível.

No momento em que se decidirem pela mineração de um buraco negro, a garganta profunda que devora toda matéria-energia que se aproxime dela, que imagem nossos descendentes remotos terão do que hoje somos nós?

À primeira vista, tudo sugere que seremos reconhecidos, como base em farta e ampla documentação.

Mas pode não ser assim.

Da mesma forma que não é, em relação aos neandertais.

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por blogdasciam às 15h33
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O novo enigma de Marte

Por Ulisses Capozzoli

Observações, inicialmente feitas por astrônomos amadores, detectaram o que parece ser uma pluma a até 250 km acima da superfície de Marte, desconcertando os astrônomos planetários quanto às causas responsáveis por esse fenômeno.

Em dois momentos diferentes, em março e abril de 2012, astrônomos amadores relataram a presença dessas formações em torno de Marte. Elas já haviam sido detectadas antes, mas nunca a uma altitude tão elevada como ocorreu nesses meses de 2012.

A atmosfera de Marte é muito menos densa que a da Terra, ainda que permita, por exemplo, o uso de paraquedas para o pouso de missões automáticas na superfície do planeta.

A 250 km de altitude, no entanto, mesmo em órbita da Terra a presença de atmosfera é bastante rarefeita.

Essa ocorrência em elevadas altitudes em Marte faz com que se mostre como um quebra-cabeças para a astronomia planetária.

As plumas, segundo sugerem as observações de amadores, desenvolveram-se muito rapidamente, num período de dez horas, cobrindo uma área retangular de 1000 km por 500 km e permaneceram visível por dez dias com suas formas mutantes.

Curiosamente, nenhuma das sondas que orbitam Marte registrou o fenômeno, prejudicadas, segundo astrônomos planetários, pela geometria da observação e também por restrições de iluminação.

Uma busca nos arquivos de imagens produzidas pelo Telescópio Especial Hubble entre 1995 e 1999, e também por astrônomos amadores, no período entre 2001 e o ano passado, revelou a presença de plumas na alta atmosfera marciana, mas nunca superior a 100 km de elevação.

A exceção foi uma imagem produzida pelo Hubble, em 17 de maio de 1997, exibindo uma pluma anormalmente elevada, semelhante às registradas por astrônomos amadores em 2012.

Os astrônomos planetários que investigam Marte estão usando o conjunto de imagens do Hubble e de astrônomos amadores para tentar decifrar o processo e explicar tanto sua origem quanto dinâmica.

Uma das explicações consideradas até agora está relacionada a uma nuvem refletiva de água gelada, gás carbônico ou mesmo partículas das abundantes areias vermelhas de Marte, mas essa hipótese exige revisões profundas no mecanismo conhecido envolvendo a circulação atmosférica marciana.

Auroras naturais

Outra possibilidade é que o fenômeno esteja relacionado a auroras, produzidas pela interação entre o vento solar, a chuva de partículas emitidas pelo Sol em especial em períodos explosivos e a atmosfera marciana.

Esse fenômeno ocorre na Terra e já foi observado em outros planetas.

De um ponto de vista histórico, as plumas ainda não explicadas em Marte são apenas mais um item na diversidade de fenômenos que sempre contribuíram para uma interpretação algo mística de Marte, visão que começou a ser desfeita por observações de missões automáticas, mas não a ponto de serem banidas para sempre.

O ponto de partida desses relatos começou com a descoberta de “canais”  pelo astrônomo italiano Giovanni Virginio Schiaparelli (1835-1910), pioneiro no mapeamento da superfície de Marte.

Um problema de tradução no nome das estruturas observadas por Schiaparelli foi o bastante para criar uma enorme confusão e dar início a uma série de desencontros entre realidade e ficção na superfície marciana.

A palavra italiana “canali” refere-se tanto a uma estrutura artificial, construída pelo homem, quanto natural. A transposição deste termo para o inglês, no entanto, denotou estruturas artificiais que foram atribuídas a uma inteligência alienígena.

Nos Estados Unidos o matemático, empresário e astrônomo amador Percival Lowell (1855-1916) foi certamente o maior entusiasta da ideia de uma civilização marciana, responsável pela criação dos canais.

Lowell criou o Observatório de Flagstaff, no Arizona, onde, em 1930 o astrônomo também amador Clyde Tombaugh (1906-1997) descobriu Plutão (as iniciais do nome de Percival Lowell – PL – contribuíram para o batismo de Plutão como este nome).

Posteriormente, em relação aos canais de Schiaparelli, outro astrônomo italiano, Vicenzo Cerulli (1859-1927) demonstrou que eram estruturas naturais mas, àquela altura, o estrago já estava feito e continuaria a espalhar seus efeitos.

Em 21 de julho de 1976 uma foto feita de Cydonia Mensae – uma região de transição entre a porção densamente craterada do hemisfério sul e uma mais alisada, já no hemisfério norte – mostrou o que seria a imagem de um rosto humano e isso provocou furor entre os adeptos de vida inteligente (e oculta da curiosidade de terráqueos em Marte).

Ilusão de óptica

A imagem, no entanto, é resultado de um efeito de luz e sombra, idêntica às sugeridas por formas fantasmagóricas de nuvens, como os enormes blocos de cúmulos, ou mesmo deposição de neve nos paredões vulcânicos escuros de ilhas antárticas.

Mas isso não abrandou o furor ao mesmo tempo em que estimulou boatos de que “a Nasa está escondendo coisas”.

Coisa parecida ocorreu quando a nave russa Phobos-2 ficou fora de controle e desapareceu na fase de aproximação de Fobos, uma das duas diminutas luas de Marte. Versões ufológicas espalharam que, antes da perda de contato com a nave, um objeto atribuído a uma inteligência alienígena, teria se aproximado dela.

A interpretação de que a Fobos seria uma lua artificial, feita pelo respeitado astrofísico russo I.S. Shklovskii (1916-1985) colocou ainda mais lenha nessa fogueira e ela ardeu com vigor renovado.

Em 30 de outubro de 1938, finalmente os marcianos invadiram a Terra.

Ao menos numa transmissão criativa de rádio (a Columbia Broadcasting System – CBS) feita pelo cineasta Orson Welles (1915-1985).

Às 21h00, uma mulher entrou assustada na 47ª delegacia de Polícia de Nova York arrastando dois filhos pequenos pelas mãos, algumas roupas e alimentos e declarou enfática aos policiais: “estou pronta para deixar a cidade”, segundo registrou o jornal New York Times.

A transmissão colocou a cidade em polvorosa e caixas d’água, com estruturas que pareciam naves com pernas alongadas, foram atingidas por um significativo número de disparos de armas de todo calibre.

Talvez as plumas recentes observadas em Marte possam ser uma das últimas especulações sem base na realidade até que a missão Mars Atmosphere and Volatile Evolution (Maven) comece a operar.

A missão foi lançada em 18 de novembro de 2013, chegou ao destino em 21 de setembro passado, e neste momento faz manobras que vão leva-la a uma órbita de apenas 125 km da superfície marciana na coleta mais completa de dados executada até agora.

Ah! Sim.  No começo do século passado foi oferecido um prêmio em Paris a quem conseguisse fazer o primeiro contato com uma civilização extraterrestre.

Mas o prêmio não valia, se o alienígena fosse um marciano.

Essa foi considerada uma conquista “fácil demais”.

 

 



Escrito por blogdasciam às 17h24
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Água, ficção e realidade

Portaria do Ministério da Saúde estabelece condições de abastecimento que não existem na vida cotidiana

 Por Ulisses Capozzoli

A crise no abastecimento de água potável em São Paulo ˗˗ com possibilidade de interrupção no fornecimento num sistema de dois dias de abastecimento por outros quatro de torneiras secas ˗˗ expõe contradições previstas em legislação federal e que até agora não foi considerada, como se fosse mera peça de ficção.

Trata-se da portaria 2914 do Ministério da Saúde de 12 de dezembro de 2011, publicada no Diário Oficial da União em 14 de dezembro de 2011.

O que dizem as 30 páginas da portaria, que inclui um conjunto de tabelas de conteúdo técnico relativo, por exemplo, ao padrão de potabilidade para substâncias químicas que representam riscos à saúde?

Em síntese, aponta que as pessoas que estão improvisando coleta de água de chuva para se prevenir de um recrudescimento da crise de abastecimento estão sujeitas, por exemplo, a penalidades previstas na Lei nº 6.437, de 20 de agosto de 1977 “sem prejuízo das sanções de natureza civil ou penal cabíveis”.

Essa situação, no cotidiano, configura o que ironiza o ditado popular: “se correr o bicho pega, se ficar, o bicho come”.

A portaria do Ministério da Saúde, que disciplina atribuições em escalas estadual e municipal, prevê, por exemplo, no artigo 4º que “toda água destinada ao consumo proveniente de solução alternativa individual de abastecimento de água, independentemente da forma de acesso da população, está sujeita à vigilância da qualidade da água”.

Essa é, evidentemente, uma previsão desejável, no sentido de assegurar um padrão básico de qualidade e assim proteger a saúde pública.

Mas, observada no cotidiano, é pura peça de ficção.

Em regiões do nordeste brasileiro, por exemplo, em que a população se abastece de poços, partilhando a água com animais, e destituída de qualquer tratamento, está a negação veemente da formalidade legal.

Estima-se em 30 mil mortes diárias em todo o mundo provocadas pelo consumo de água não adequada para o consumo humano e a maioria dessas vítimas são crianças, a maior parte das classes sociais mais pobres, vítimas especialmente de diarreias infecciosas, mas também de cólera, leptospirose, hepatite e esquistossomose.

No Brasil, mais de 3 milhões de famílias não dispõem de água tratada e algo em torno de 7,5 milhões de moradias não dispõem de rede de esgotos.

A portaria 2914 do Ministério da Saúde prevê, no seu parágrafo único, que “A autoridade municipal de saúde pública não autorizará o fornecimento de água para consumo humano por meio de solução alternativa coletiva quando houver rede de distribuição de água, exceto em situação de emergência e intermitência”.

A questão é que, ao menos até agora, essa caracterização “emergência e intermitência”, foi devidamente caracterizada.

Daí a prevalência do paradoxo: se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”.



Escrito por blogdasciam às 13h00
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Um Mundo Melhor que a Terra?

Por Ulisses Capozzoli

A ideia de buscar um mundo melhor que a Terra, entre as estimadas 200 bilhões de estrelas da Via Láctea ˗˗ como sugeriu o matemático alemão Gottfried Leibniz, em 1710 ˗˗ pode não ser improcedente, mas tem algo de insensato.

Esse assunto é tema de capa da edição mensal de Scientific American Brasil que está nas bancas.

À época de Leibniz não se pensava que uma civilização tecnológica como a nossa ˗˗ na verdade, no início do século 18 a tecnologia disponível ainda estava no futuro ˗˗ vivesse perto de 1 milhão de anos, como estimado agora.

Mas isso também, a idade de uma civilização tecnológica, são estimativas, um mero tateio em meio a possibilidades longe de inteiramente conhecidas.

Uma mudança climática mais radical como, por exemplo, a sugerida pelo criador da Teoria Gaia, o físico-químico inglês James Lovelock, colocaria as coisas de pernas para o ar. A ficção ocuparia o espaço da realidade e a realidade se projetaria como pura ficção.

Esse é um raciocínio que parece remoto e fora do contexto apenas pelo fato de não integrar, evidentemente, o cotidiano.

O dia a dia está repleto do que se pode chamar de “anomalias” ˗˗  palavra para representar um amplo conjunto de ocorrências exóticas e inexplicáveis de imediato. Para se dar conta disso é preciso olhos de um atento observador e, num mundo de homens apressados ˗˗ para tomar de empréstimo a expressão criada pelo geógrafo Milton Santos ˗˗ é quase uma impossibilidade.

Então, qual o sentido da busca por um mundo melhor que a Terra?

Astrônomos planetários, como o caso de René Heller, autor do artigo de capa da edição deste mês, têm, digamos, obrigação científica e mesmo cidadã de explorar as vastidões galácticas em busca de mundos iguais ou até melhores que o nosso.

Melhores, em certo sentido, e não em sentido amplo. Afinal, o que pode ser melhor que a Terra? Um mundo em órbita de uma estrela de menor massa que o Sol e que, assim, teria expectativa de vida mais alongada?

Mas, e se uma civilização tecnológica de fato não ultrapassar 1 milhão de anos, um piscar de olhos cósmicos, como considera o radioastrônomo também inglês, Martin Rees em Our Final Hour?

O fato sensível e verificável é que viajamos no corpo do que Lovelock chama de uma nave viva, executando, simultaneamente, centenas de movimentos ainda que para os sentidos convencionais pareça estarmos imóveis sob um teto fixo de estrelas.

Como tratamos a Terra, nossa casa cósmica?

Um levantamento de como os mais de 7 bilhões de moradores da Terra ˗˗ os humanos, com quem é possível alguma comunicação ˗˗ interpretam o planeta em que vivemos, seguramente revelaria uma imagem calamitosa.

Caso contrário, como justificar taxas de extinção animal e vegetal em escala sem precedentes motivadas por ações antrópicas?

Baleias e elefantes, sequoias e jequitibás ˗˗ moradores do planeta com quem não se pode partilhar, por exemplo, o lixo crescente que prolifera na mídia social e convencional ˗˗ estão entre as vítimas da devastação.

Da mesma forma que velhos, crianças e adultos, aturdidos por guerras sem fim, na Síria, Palestina e inúmeros pontos da Terra encharcados de sangue.

O Grande Depósito de Lixo do Pacífico, segundo os dados mais recentes, uma extensão do que já foi chamado de águas azuis, soma 680 mil km² de acúmulo de lixo, em particular de plástico flutuante ˗˗ área equivalente à dos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espirito Santo juntos ˗˗ e não para de crescer.

Assim, ainda que integre as preocupações de astrônomos planetários a identificação de um mundo potencialmente melhor que a Terra, essa é uma tarefa esvaziada de sentido se for levado em conta a maneira como tratamos a Terra, nosso belo e maltratado mundo de origem.



Escrito por blogdasciam às 15h10
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New Horizons chega a Plutão em julho

Por Ulisses Capozzoli


Em 15 de julho próximo a primeira missão automática da Terra a visitar Plutão e sua lua Caronte, na realidade um sistema planetário duplo, chega ao destino após um voo de 9,5 anos pelo Sistema Solar.

Quando a missão deixou a Terra, em 19 de janeiro de 2006 ˗˗ no topo de um foguete Atlas V 551, de três estágios ˗˗ Plutão ainda desfrutava do status de planeta, substituído, logo em seguida pela designação de planeta-anão, em função de descobertas que estavam sendo feitas, e ainda continuam, no chamado Cinturão Kuiper.

O Cinturão Kuiper, que homenageia o astrônomo holandês Gerard Peter Kuiper (1905-1973), quem previu a existência dessa formação, é um anel composto por entulhos da formação do Sistema Solar, há aproximadamente 5 bilhões de anos.

O Sistema Solar exibe três regiões fundamentais: a dos planetas rochosos, dos mundos gasosos e dos corpos gelados, no Cinturão de Kuiper.

No primeiro grupo estão Mercúrio, Vênus, Terra e Marte.

De Júpiter a Netuno estão distribuídos os mundos gasosos, onde é impossível, por exemplo, caminhar por uma superfície sólida.

Nos mundos gelados, talvez um astronauta do futuro possa fazer caminhadas exploratórias, observando o Sol como um ponto amarelado entre as estrelas e não como uma moeda incandescente, como é visto da Terra.

As duas primeiras regiões do Sistema Solar, reunindo os planetas rochosos e gasosos, já foram visitados por naves automáticas enviadas da Terra. Mas, no caso dos corpos gelados, Plutão e sua lua serão os primeiros anfitriões dessas explorações não tripuladas.

Na realidade, a News Horizons sobrevoará Plutão e sua lua a uma velocidade em torno de 43 mil km/h e, para entrar em órbita em torno desse sistema binário, deveria reduzir sua velocidade em 90%, o que consumiria mais de mil vezes o combustível que poderia carregar.

Há uma segunda razão para que a missão não permaneça para sempre em órbita de Plutão-Caronte: a New Horizons deve investigar outros corpos do Cinturão Kuiper, buscando dados inéditos para relatar a história da origem e evolução do Sistema Solar.

Defesa contra asteróides

O conhecimento desse processo deve permitir o refinamento de um sistema de defesa da Terra contra bólidos que podem emergir do espaço profundo. Ocorre que o Cinturão Kuiper é uma região pródiga em cometas que já se chocaram com a Terra no passado e ainda podem fazer isso num momento imprevisto do futuro imediato, ou de mais longo prazo.

Como se não bastasse, Plutão, sua lua Caronte e outros corpos já identificados no Cinturão Kuiper exibem concentrações significativas de material orgânico, ou seja, compostos de carbono e também de água, elementos fundamentais para a manifestação da vida, como conhecida na Terra.

Em resumo, as consequências das descobertas que podem ser feitas nessa região distante do Sol são amplas o suficiente para não permitir uma previsão quantitativa.

Ao contrário disso, elas podem ser mais excitantes que qualquer um pode estimar.

Quando a New Horizons passar pelo sistema Plutão-Caronte estará afastando-se do Sol num desvio que começou em 1989, em função de sua órbita elíptica que, periodicamente, faz com que mergulhe no interior da órbita de Netuno.

Com afastamento ainda maior do Sol a atmosfera de Plutão ficará congelada e esse é um momento para os instrumentos a bordo da nave da missão fazerem uma investigação detalhada do envelope gasoso que envolve esse mundo.

Plutão perde parte de sua atmosfera da mesma forma que ocorre com um cometa que se aproxima do Sol.

Esse processo também manifestou-se na Terra, num passado distante, especialmente no caso de hidrogênio e hélio, mais leves que, por exemplo, o oxigênio.

E os astrônomos planetários querem saber como esse processo se manifesta.

A investigação da atmosfera plutoniana será uma das consequências do afastamento da New Horizons em direção aos corpos ainda mais distantes do Cinturão Kuiper.

Com o perfil de Plutão desenhado contra a luz esmaecida do Sol um contraste permitirá não só uma exploração do envoltório gasoso do planeta como também da irregularidade de sua superfície, numa investigação das sombras.

A New Horizons chega a Plutão-Caronte impulsionada não só pela energia química do foguete Atlas V 551, de três estágios, mas também pelo que se conhece como sistema de “ajuda gravitacional”, neste caso de um efeito estilingue de Júpiter. 

Ajuda gravitacional

Em 28 de fevereiro de 2007, quando teve sua máxima aproximação de Júpiter, a New Horizons tirou partida da energia gravitacional desse gigante do Sistema Solar para ganhar velocidade e mergulhar ainda mais fundo rumo ao seu objetivo, desgarrando-se cada vez mais da atração gravitacional do Sol.

Em 8 de junho de 2008 a missão passou por Saturno, em 18 de março de 2011 teve a máxima aproximação de Urano e em 14 de agosto passado visitou Netuno a alguma distância.

Com a aproximação de sua meta, os instrumentos de bordo serão acionados, saindo de uma hibernação de anos.

À distância de 105 milhões de km de Plutão (a Terra está, em média, a 150 milhões de km do Sol) as câmeras de bordo começarão a funcionar, produzindo o primeiro mapa local desse mundo gélido com resolução de até 48 km.

Na aproximação máxima, a New Horizons se aproximará a até 9.600 km de Plutão e a 17 mil km de Caronte, investigando o ambiente nos comprimentos de onda visível e infravermelho próximo.

A expectativa é que as melhores fotos desse sistema binário tenham resolução para estruturas de até 60 m de diâmetro.

Até que os primeiros dados da missão estejam analisados não saberemos as surpresas que essa região remota do Sistema Solar reserva para a ciência.

É de se imaginar, no entanto, que a New Horizons vá dividir a investigação de Plutão e do Cinturão de Kuiper em um antes e um depois.

O antes já conhecemos, com base em livros textos e amplo material de divulgação na mídia, especialmente em publicações mais especializadas, como Scientific American Brasil.

Já o depois, por enquanto, está restrito à expectativa dos astrônomos planetários. E, em última instância, à imaginação de cada um.



Escrito por blogdasciam às 15h51
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A natureza surpreendente de um cometa

 Por Ulisses Capozzoli

Os primeiros trabalhos científicos publicados na revista científica americana Science, com base em dados coletados na superfície do cometa 67P/Churymov-Gerasimenko pela missão Rosetta, dão uma ideia completamente distinta da que seria de se esperar de uma dessas montanhas voadoras do Sistema Solar.

Mas, seguramente, ainda é cedo para uma definição mais clara do que é exatamente um cometa, o que significa dizer que outros membros dessa controvertida família do zoológico cósmico podem apresentar natureza distinta.

E isso, longe de simplificar as coisas, revela toda uma complexidade, algo frequente em fenômenos e construções da Natureza.

Ainda assim, a baixa densidade do 67P/Churymov-Gerasimenko, por exemplo, não deixa de surpreender.

Cometas foram definidos pelo astrônomo americano Fred Whipple, no final dos anos 40, como “bolas de gelo sujas” por reunir poeira e gases em meio ao gelo formado por água e dióxido de carbono.

Mas no imaginário popular, e mesmo numa concepção científica mais geral, é como se fossem objetos mais densos, com coesão interna mais intensa, apesar do fraco campo gravitacional de que dispõem, resultado de suas massas comparativamente reduzidas.

O 67P/Churymov-Gerasimenko lembra uma rolha cósmica, o que equivale a dizer que flutuaria numa piscina olímpica cósmica, ainda que não seja necessariamente original quanto a essa característica.

Saturno, por exemplo, o senhor dos anéis no Sistema Solar, com densidade média inferior à da água (1g/cm³) também flutuaria na piscina em que o 67P/Churymov-Gerasimenko fosse atirado.

Mas e os asteróides, em alguns casos cometas supostamente despidos de seu envoltório volátil?

Asteróides também teriam as mesmas características sugeridas pelo 67P/Churymov-Gerasimenko?

O mais razoável, também para os asteróides, é esperar por uma variedade de composição e natureza.

Até porque as investigações in loco, como faz a missão Rosetta, está em seu alvorecer.

Reconhecer em detalhes mais apurados composição, densidade, estrutura e outros dados relativos a cometas e asteróides não é importante apenas na coleta de dados para uma narrativa envolvendo a formação e desenvolvimento do Sistema Solar.

Conhecer a natureza íntima desses corpos é de fundamental importância para a criação de um sistema de defesa para a repulsão desses astros que, em mais ou menos tempo, se revelarão em rota de colisão com a Terra. Como aconteceu tantas vezes no passado.

Ocorre que, mesmo depois da presença humana na Terra ‒  em datas como 25 mil a 50 mil anos, quando supostamente se chocou com o planeta o bólido que deu origem à Cratera Barringer, no Arizona ‒ a densidade demográfica era insignificante em comparação com a atual.

O impacto de um bólido neste momento, no caso de ocorrer em uma área densamente urbanizada, provocaria um desastre de dimensões inéditas, superando sismos, tsunamis e detonação de artefatos nucleares, dependendo da massa do corpo impactante.

A missão Rosetta já indicou também que a água detectada no corpo do 67P/Churymov-Gerasimenko é diferente da que existe na Terra em termos físico-químicos (a partir de isótopos de hidrogênio e oxigênio).

Mas como previnem especialistas como Enos Picazzio, do Instituto Astronômico Geofísico e de Ciências Atmosféricas (IAG-USP), a água dos cometas não é única, ou seja, a mesma para todos eles.

Outra constatação feita pela missão Rosetta e exposta nos trabalhos publicados pela Science mostra o 67P/Churymov-Gerasimenko coberto por material orgânico, ou seja, à base de carbono, o que não significa, necessariamente, formas de vidas, mesmo muito  primitivas.

Mas não deixa de ser tentador pensar que cometas possam ser vetores de formas de vida viajando pelas vastidões do espaço para pousar e se desenvolver como sementes em ambientes propícios à vida, como supôs no início do século 19 o físico-químico e Prêmio Nobel sueco Svante Arrhernius (1859-1927), pai da panspermia.

Conhecer a origem e evolução da vida na Terra é um dos grandes desafios da ciência.

E embora as respostas para essas questões possam estar ainda distante, o avanço da astronomia planetária sugere que muitos outros mundos, além da Terra, sejam abrigos para a vida, confirmando as hipóteses que custaram a vida, na fogueira da Inquisição, ao filósofo-astrônomo italiano Giordano Bruno.

Conhecer a natureza íntima de cometas e asteróides, ainda que eles possam parecer astros sem importância, comparados a quasares, buracos negros, estrelas de nêutrons e outras criaturas exóticas do zoológico cósmico, é de fundamental importância.

Eventualmente, o progressista papa Francisco, possa, a partir da detecção de vida fora da vida, pedir perdão a Bruno, da mesma forma que João Paulo II fez em relação a Galileu, pelas evidências da ciência que ele produziu.

Em particular em relação aos movimentos da Terra que o confinou à prisão doméstica em uma época de obscurantismo quase absoluto.



Escrito por blogdasciam às 16h35
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Nature manifesta preocupação com Aldo Rebello

 Por Ulisses Capozzoli

Nature, a principal revista científica internacional (grupo editorial de que Scientific American é parte) questiona em sua última edição a indicação de Aldo Rebello para o ministério da Ciência Tecnologia e Inovação (MCTI).

A preocupação transmitida pela Nature, e que reflete preocupações da comunidade científica internacional ligada ao aquecimento global com mudanças climáticas, é que o ministro seja tolerante com a liberação de gases de efeito estufa, em especial com o desmatamento e queima de florestas na Amazônia.

As preocupações da comunidade científica estampada na publicação da Nature justificam-se por declarações recentes de Rebello colocando em dúvida o aquecimento global com o argumento de que é um processo “incompatível com o conhecimento científico disponível.”

Que Aldo Rebello no MCTI é uma ave fora do ninho é um fato reconhecido por praticamente a totalidade da comunidade científica brasileira. Mas Rebello, que também foi um corpo estranho no Ministério do Esporte, ameniza a situação. Em nota dirigida à Nature, ele desvincula suas avaliações pessoais da linha de atuação que deve ter no ministério. Segundo Rebello, o debate sobre mudanças climáticas “existe independentemente de minhas opiniões.”

Interferência indevida

Os editores de Nature interpretaram a declaração do ministro como sinônimo de que ele se limitará a atuar no sentido de garantir condições e recursos para a comunidade científica, sem interferir na política científica ou no rumo das pesquisas.

Essa interpretação certamente se deve às considerações que fontes consultadas no Brasil, como Jean Ometto, coordenador do Centro de Pesquisa de Ciências da Terra, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) subordinado ao MCTI.

Ometto disse à Nature que, “em geral, os cientistas estão céticos e desapontados”, referindo-se à escolha de Rebello pela presidente Dilma Rousseff, político sem qualquer vinculação anterior com a pesquisa científica. Mas o pesquisador ponderou que os centros de pesquisa científicas são sólidos o bastante para não se deixarem influenciar pelo pensamento de um ministro sem afinidade com a área.

Também a presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) Helena Nader disse, em declarações à Nature, que a comunidade científica estaria disposta a dar um prazo de ambientação, antes de ser mais crítica quanto à atuação do ministro. Ela relatou ainda que a comunidade científica não espera por retrocessos na política ambiental.

Outra preocupação manifestada pela Nature e que também reflete preocupações internacionais está relacionada à escolha de Kátia Abreu, representante do agronegócio no Congresso Nacional, para o Ministério da Agricultura 

Floresta Amazônica

Na verdade, o temor quanto à escolha de Rebello se superpõe à indicação de Katia Abreu, mais especificamente em relação à preservação da Floresta Amazônica, com sensível queda de desmatamento em relação ao pico registrado em 2004, mas que pode voltar a crescer.

Nature acrescenta que a presidente Dilma Rousseff nunca teve boas relações com ambientalistas para quem obras como novas hidrelétricas, com inundação de terras indígenas entre outras, aumenta uma pressão ambiental sobre as florestas. 

Para acomodar gregos e troianos no poder, tática para enfrentar o jogo de pressões que caracteriza a administração pública no Brasil desde sempre, a presidente Dilma Rousseff faz contorcionismo e as indicações tanto de Rebello como de Kátia Abreu são peças movidas em um tabuleiro político-partidário.

Durante a maior parte do governo militar, entre 1964 e 1985, em particular sob a administração do general Ernesto Geisel, preocupações ambientais foram interpretadas como estratégias dos países desenvolvidos para evitar a modernização de países não socialmente desenvolvidos, ou “em desenvolvimento” conforme o eufemismo da época.

Compromisso recente

Mais recentemente, o Brasil demonstrou disposição de aumentar a proteção sobre suas florestas e colaborar ativamente no sentido de amenizar os impactos sobre o processo de aquecimento global com mudanças climáticas que também ameaça suas potencialidades naturais e impacta uma realidade social já complexa, em particular na área urbana.

A posição obscurantista da ditadura militar foi superada, ainda que não inteiramente, nas fronteiras agrícolas internas, mas já mostra o impacto negativo de sua prevalência. Climatologistas suspeitam, por exemplo, que a estiagem atual, com irregularidade de chuvas no Sudeste podem refletir a destruição da Floresta Amazônica.

Pesquisas mais recentes demonstraram o papel da floresta na formação de nuvens que, tocadas por ventos dominantes sob ação da muralha dos Andes, desvia essas formações para o Sudeste, onde elas se desfazem sob a forma de chuvas.

Enfrentar o desafio de uma situação como esta talvez vá exigir do ministro Rebello mais que disposição para não interferir em pesquisas científicas que não se harmonizem com as linhas teóricas ortodoxas do PCdoB, partido a que ele é filiado.



Escrito por blogdasciam às 16h34
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Ciência e divulgação

Por Ulisses Capozzoli

Se há uma questão central na divulgação científica, ela diz respeito ao que se pode chamar de transformação do substrato mental. E substrato mental pode ser entendido – de maneira algo sumária – como uma forma de compreender o mundo o que, de certa forma, inclui acessar um conceito de realidade.

Um observador mais apressado pode disparar, com a agilidade de um Durango Kid, que a compreensão do que seja o mundo é tão vasta quanto o universo observável. E que a mesma coisa vale para o entendimento de realidade. Ele tem razão. Mas, em nenhum momento, isso inviabiliza o conceito de substrato mental e este é o ponto que interessa neste caso.

O mundo, agora, transforma-se em velocidade inédita na história da civilização, em função de uma ampla e complexa estrutura técnico-científica. Uma descoberta de fronteira na ciência, em curto espaço de tempo, estará aplicada ao cotidiano da sociedade e disso resultam transformações rápidas e radicais.

Dois exemplos do considerado no parágrafo anterior: em 1928 o físico teórico britânico Paul Dirac (1902-1984) fez a proposição moderna da existência de antimatéria, neste caso pósitron, ou antielétron. Apenas quatro anos depois, o físico americano Carl D. Anderson (1905-1991) fez a detecção dessa partícula analisando rastros de radiação cósmica numa câmera de ionização.

E o que ocorreu em seguida?

Em 1973 dois físicos americanos, Edward Hoffman (1942-2004) e Michael E. Phelps (1939-75 anos), então da Washington University em St. Louis, desenvolveram a tomografia por emissão de pósitrons (PET) que revolucionou a produção de imagens em medicina não invasiva. O que parecia pura ficção, em curto espaço de tempo se transformou em realidade cotidiana.

Outra inovação, e esta veio literalmente da ficção científica, foram os “comunicadores”, utilizados pela tripulação de Star Trek (Jornada nas Estrelas), que tomaram forma na realidade sob a forma de cell phones, os prosaicos telefones celulares.

Neste momento, os celulares desempenham um amplo conjunto de funções, entre elas a de permitir a comunicação, o que faria inveja ao capitão Kirk e à tripulação da Enterprise.

Mas se essas foram histórias promissoras, que mudaram para melhor a qualidade de vida da sociedade humana, outras transformações se deram em sentido contrário.

Em 1896, por exemplo, o físico-químico e Prêmio Nobel sueco Svante Arrhenius (1859-1927) descreveu o efeito estufa e preveniu que a queima de combustíveis fósseis, entre outras fontes, um dia iria aquecer a atmosfera da Terra com efeitos imprevisíveis.

É o que ocorre neste momento. Desde os anos 90 a Organização das Nações Unidas (ONU) vem se empenhando em sensibilizar as administrações nacionais para o impacto do aquecimento global com mudanças climáticas – ao mesmo tempo em que mantém uma equipe de alguns milhares de climatologistas investigando o padrão, ritmo e intensidade dessas transformações.

Inicialmente, a previsões do IPCC – comitê das Nações Unidas para investigação do aquecimento global com mudanças climáticas – foi parcialmente desacreditado, mesmo entre parcelas do mundo acadêmico. As evidências, quanto a esse processo, no entanto, vêm se acentuando desde então e é o assunto de capa da edição deste mês de Scientific American Brasil, agora na Editora Segmento.

Que relação as mudanças climáticas têm com o substrato mental social?

 

Se a ciência e divulgação de ciência forem impotentes em transformar a visão do mundo, alertando as administrações nacionais nos seus diferentes níveis de ação para os desdobramentos desse processo, os efeitos dessas transformações têm tudo para ser os mais desastrosos de toda a história da civilização. 



Escrito por blogdasciam às 14h20
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Código florestal estadual e os riscos que ele traz

Por Ulisses Capozzoli

A preocupação manifestada por ambientalistas quanto à lei ambiental aprovada nesta semana pela assembleia legislativa de São Paulo faz todo sentido, levando em conta condições intimamente associadas à estocagem de água indispensável para abastecimento de mananciais e alimentação de fontes como, rios, riachos e ribeirões.

O que está sendo chamado de Código Florestal Paulista, para diferenciá-lo das normas federais, foi aprovado na quarta-feira passada (11/12) e, na interpretação de pesquisadores ambientais, deve comprometer ainda mais a cobertura vegetal especialmente às margens de fontes, fluxos d’água e represas.

Teoricamente, a compensação pela redução de cobertura vegetal em determinadas áreas seria feita por adensamento de outras.

Ocorre, no entanto que, se isso satisfaz soluções legais, ˗˗ articuladas a partir de consensos e interpretações para mediar interesses ˗˗ não significa que funcionem na Natureza.

No dia seguinte à aprovação do código na assembleia, o governador do Estado, Geraldo Alckmin, defendeu as propostas e argumentou que a proteção de matas no sul de Minas Gerais, fundamentais para assegurar o abastecimento de Cantareira, por exemplo, é estratégico e justificaria o expediente de compensações.

Que a proteção de rios que vertem do sul de Minas Gerais para as bacias do Piracicaba-Alto Tietê são fundamentais para o abastecimento da cidade de São Paulo e de uma ampla porção do estado é indiscutível.

Mas essa não é a essência da discussão.

Até porque uma iniciativa não exclui a outra.

Equivale a dizer que preservar a cobertura vegetal em torno de nascentes e fluxos d’água do Sul de Minas Gerais, que abastecem São Paulo, não implica em fragilizar ambientes dentro das fronteiras paulistas e intimamente associadas à produção e oferta de recursos hídricos.

A crise de água potável que afeta o estado de São Paulo neste momento tem sido justificada, pelo tortuoso discurso político, como um desarranjo natural: a pior estiagem dos últimos 84 anos. Uma ocorrência fora do controle humano.

Um argumento como este pode satisfazer interlocutores pouco exigentes, dispostos aos argumentos da lógica fácil. Mas não basta para um raciocínio necessariamente mais amplo, sob pena de complicações adicionais numa situação que, por si só, já é complexa e altamente preocupante. 

Impactos previsíveis

Que o aquecimento global por gases de efeito estufa está produzindo alterações climáticas na Terra é uma situação que só um venusiano, que esteja chegando agora ao planeta, poderia alegar que desconhece. Mas que mudanças climáticas implicam, claramente, em redistribuição do regime de chuvas até mesmo nosso hipotético venusiano compreenderia sem dificuldades.

A questão, por trás de uma situação como essa, é que as administrações públicas conduzem o barco como faziam nossos antepassados, no século 18, quando se acreditava que o Sol pudesse ser habitado. A ciência continua restrita a certo exotismo, parte do noticiário da mídia e de um fazer acadêmico distante do real.

Nada que impacte a administração de uma cidade, estado ou País.

Daí o possível desconhecimento e o visível descaso com as previsões envolvendo mudanças climáticas.

Em países como os Estados Unidos, mesmo pequenas cidades vêm adotando cautelas e procedimentos para amenizar alterações climáticas relacionadas tanto à falta como excesso de chuvas ou outros fenômenos da Natureza.

Por aqui, no entanto, o assunto passa ao largo das preocupações.

Tanto assim que desmoronamento de terras em áreas de risco, alagamento de regiões previsíveis, incêndios em reservas estratégicas e outras ocorrências indesejáveis continuam como se fossem a vontade de Deus.

Se for acatado pelo governador, o conteúdo votado pela assembleia legislativa será um retrocesso do ponto de vista ambiental e uma ameaça o conjunto da sociedade. Uma bomba relógio prevista para explodir no futuro imediato.

Uma das mudanças indesejáveis previstas pelo código estadual é a redução do entorno de 50 metros das nascentes de rios para apenas 15 metros. O entorno mais amplo está previsto no Código Florestal federal.

Quanto à margem de rios, a mata ciliar tende a ter não mais que 5 metros de largura.

Matas ciliares, desde a truculência ambiental do regime militar, foram vistas como algo dispensável, um luxo de países ricos, ao longo da margem de rios.

Estudos de baixa qualidade técnica e ambiental chegaram a sugerir que matas ciliares sugariam água desses cursos, um efeito deletério para justificar sua eliminação.

Proteção subestimada

As matas ciliares, no entanto, como os cílios que protegem os olhos de humanos e outros animais, são indispensáveis.

No caso dos rios, têm, entre suas funções, proteção das margens, segurança contra assoreamento de leitos, alimentação de peixes e embelezamento paisagístico.

Para a burocracia de gabinete, no entanto, essas são condições dispensáveis. Como uma faixa adicional de terras, pretendem oferecer a produtores rurais um hipotético benefício, manobra típica dos chamados “homens práticos”.

A verdade, no entanto, e que, quando os rios reclamarem com violência as áreas que lhes pertencem por força da Natureza, os produtores rurais serão os primeiros afetados. As águas turbulentas levarão seus implementos, arrastarão o húmus de suas terras, invadirão suas moradias e os abrigos de seus animais.

Quando isso acontecer, os homens de gabinete responsabilizarão mais uma vez a imprevisibilidade da Natureza, os “acidentes naturais” e lavarão suas mãos com a tranquilidade de um hipócrita personagem bíblico.

A exportação dos reflorestamentos de São Paulo para outras áreas, o argumento de compensação ambiental votado pela assembleia, esconde uma carta na manga que observadores menos atentos não conseguirão enxergar.

É mais barato fazer isso fora de São Paulo e esta é a estratégia camuflada num discurso aparentemente coerente, prático e responsável. Mas que, na essência, é irresponsável, atrasado e contrário aos procedimentos da Natureza.

O projeto aprovado pela assembleia é de autoria do deputado Barros Munhoz (PSDB) e resultou de uma longa costura de interesses, em que cada ponto foi meticulosamente analisado.

Considerado à luz do aquecimento global, das mudanças climáticas e da crise atual de água potável, na cidade e estado de São Paulo ˗˗ fato, não possibilidade remota ˗˗ tem tudo para ser um movimento retrógrado, uma solução imediatista, não um procedimento que leve em conta o estado do conhecimento científico quanto à fascinante complexidade da Natureza. 

Nossos filhos e netos lamentarão por nós.

 

Mas aí pode ser tarde demais.



Escrito por blogdasciam às 15h20
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As dez conquistas astronômicas de 2014

Por Ulisses Capozzoli

Ainda que não se tenha encontrado um mundo sósia da Terra e nem feito contato com uma provável civilização alienígena entre as estrelas, a comunidade astronômica internacional comemora as conquistas feitas ao longo de 2014, que se esgota em menos de quatro semanas.

A principal revista internacional de divulgação astronômica, a americana Astronomy, traz, na edição de janeiro, as dez principais conquistas do ano e a primeira delas é a detecção de poeira liberada pela explosão de estrelas massivas, as supernovas.

Ao fertilizar o espaço interestelar com matéria pesada (praticamente toda a tabela periódica) a partir do hidrogênio, as supernovas geram matéria prima para a formação de estrelas de segunda geração, como o Sol, menores, potencialmente acompanhadas de colares planetários, que estão se formando ou vão se formar e, neste sentido, mundos para o eventual abrigo da vida.

Uma dessas fontes é a supernova 1987ª, na Grande Nuvem de Magalhães e a segunda, na Supernova 2010jl, na galáxia UGC 5189ª.

A segunda das dez descobertas é a identificação de placas tectônicas numa das Luas de Galileu (Europa) em torno de Júpiter.

Em Europa há o mesmo processo de subducção que ocorre na Terra e, aqui, produz tanto sismos, quanto atividade vulcânica e formação orogênica, ou seja, criação de montanhas.

Placas tectônicas da lua Europa

Observações em Europa revelam o mergulho de placas, uma sob a outra, como ocorre com a placa de Nazca, sob o Pacífico, que se desloca sob a placa Sul Americana, a balsa rochosa que abriga todo o território brasileiro.

O mergulho de Nazca sob a Sul Americana deu origem aos Andes que ainda continua crescendo, à medida que Nazca eleva a borda ocidental da placa Sul Americana.

Na terceira posição está o corpo eventualmente mais distante do Sol, em todo o Sistema Solar: o 2012VP, integrante do Cinturão de Kuiper, um anel de escombros que envolve o reino do Sol, a caminho da área de ação de outras estrelas próximas.

Em seguida vem a comemoração de medidas com precisão de 1% de galáxias remotas e por isso mesmo também distantes no tempo. Comparativamente a precisão equivale à medida entre Dallas e Austin, no Texas, de 300 km, com precisão de 3 km.

Na quinta posição aparece a detecção de ondas gravitacionais a partir de um observatório no polo geográfico sul que, se confirmadas por estudos que ainda estão sendo feitos, devem trazer avanços significativos na física, com perspectiva de abrir um caminho teórico para a sonhada unificação da gravidade e mecânica quântica.

Uma segunda lua do Sistema Solar, Enceladus, em Saturno, não deixou de surpreender ao revelar a existência de um oceano profundo abaixo de uma camada superficial rígida, mas formada por gelo.

O oceano de Enceladus já era suspeito há tempos mas, desta vez, observações feitas pela missão Cassini, em órbita do planeta dos anéis, reforça essa ideia.

Vida alienígena

Um oceano em Enceladus permite especulações sobre a possibilidade de formas de vida como as que existem em determinadas regiões polares da Terra e mesmo no interior de um lago selado pelo gelo, na Antártida, recentemente perfurado por pesquisadores russos.

O comemorado encontro da Nave Rosetta com o cometa 67PChuryumov-Gerasimenko, que fez descer na superfície do astro uma sonda (Philae) é a sétima conquista do ano na avaliação da Astronomy.

A sonda está em modo hibernação por não estar recebendo radiação solar que alimenta suas baterias solares. Mas ela já enviou uma enorme quantidade de dados para a Terra e espera-se que volte a operar à medida que se aproxima do Sol para fazer seu periélio, a máxima aproximação de sua órbita elíptica.

Na oitava posição aparece o buraco negro que se oculta no interior da galáxia M82 e que tem massa intermediária, estimada em 400 massas solares. No coração da Via Láctea, a galáxia que abriga o Sistema Solar, um buraco negro também se esconde e é muito mais massivo, com milhões de massas solares.

Neutrinos de fontes celestes

A nona comemoração, como a quinta, também vem de um experimento no pólo sul, no interior do continente antártico.

Um detector de neutrinos, partículas com quase nenhuma interação ‒ tanto que podem atravessar todo o corpo da Terra sem serem detidos ‒ foram identificados como originários de fontes celestes.

Relativamente próximo da Terra ‒ oito minutos luz de distância ‒ o Sol também é uma fonte de neutrinos, conhecidas como “partículas fantasmas” por sua baixa interação com a matéria.

Neutrinos atuam na fase final da explosão de supernovas e o papel que desempenham foi desvendado pelo físico brasileiro Mario Schenberg em parceria com o físico russo naturalizado americano George Gamow, batizado de Processo Urca, por analogia à velocidade com que se perdia dinheiro no antigo cassino da Urca, no Rio de Janeiro.

Já a décima posição é representada pela detecção de vapor d’água da superfície do asteróide Ceres ‒ o maior dessa família de astros, identificado, em 1801, pelo astrônomo italiano Giuseppe Piazzi, a partir do Observatório de Palermo, na Sicília, sul da Itália.

Ao contrário de corpos localizados no Cinturão de Kuiper, além da órbita de Netuno (a órbita elíptica de Plutão faz com que, temporariamente, ele penetre a órbita de Netuno) Ceres integra o cinturão de asteróides entre Marte e Júpiter.



Escrito por blogdasciam às 16h31
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A sobrevivência dos rios

Por Ulisses Capozzoli

Desde que a Organização das Nações Unidas (ONU) organizou uma conferência internacional pioneira sobre meio-ambiente ˗˗ em junho de 1972, em Estocolmo, na Suécia ˗˗ muita água passou sob as pontes que atravessam os rios da Terra.

Mas um volume enorme ainda deve fazer esse movimento antes que se tenha uma esperança mais palpável de que a proteção ambiental possa ter sensibilizado a sociedade humana para a necessidade de se preservar condições que, em essência, são indispensáveis à vida.

E isso, no único planeta conhecido, até agora, em toda a Galáxia, em que esse processo se manifesta com amplitude e diversidade impressionantes.

No encontro pioneiro em Estocolmo, os brasileiros ficaram constrangidos e envergonhados com a posição oficial exposta pelo então ministro do planejamento do governo militar, João Paulo dos Reis Velloso.

Em alto e bom som, o ministro trombeteou que o Brasil tinha rios à vontade para serem poluídos.

O que justificou uma posição que hoje entupiria as mídias sociais e eventualmente poderia colocar um ministro no olho da rua, por tamanho disparate?

Em 1972, a interpretação que os generais-presidentes tinham das preocupações ambientais derivava para a geopolítica de maneira estrábica.

Eles desconfiavam ˗˗ como desconfiavam de tudo e de todos ˗˗ que as preocupações ambientais eram uma estratégia maquiavélica de os países desenvolvidos para impedir o avanço das nações retardatárias.

O governo militar já havia se antecipado numa cruzada por iniciativas que hoje também seriam repelidas, como um programa de triste memória conhecido como Pro várzea.

Na versão original, essa iniciativa estimulou a retificação de inúmeros trechos de rios e ribeirões, sob o pretexto de impedir cheias periódicas e assim assegurar o uso de terras da calha fluvial para atividades econômicas ao longo de todo o ano.

Foi a ameaça de morte para inúmeros rios e ribeirões. Eles perderam suas curvas e com elas suas matas ciliares, suas belezas selvagens e seus remansos, onde cresciam as saborosas traíras (Hoplias malabaricus) e muitas outras espécies com preferência por águas calmas.

Retificados, com dragas mecânicas que expeliam fumaça como um animal raivoso, rios e ribeirões foram transformados, no curto período de meses, em regatões por onde as águas passaram a correr nervosas, apressadas em chegar das nascentes à foz, esvaziadas da geração da vida que cultivaram por séculos e milênios.

Com a redemocratização política, promessas apareceram e esperanças renasceram no horizonte em relação ao respeito sagrado às águas, reverência que recua à infância do homem e se estende aos fluxos que vertem por todos os rios do mundo.

E são particularmente pródigas no Brasil.

A mancha escura nas águas que apareceu na altura da cidade de Salto, no entanto, ˗˗ às margens do Rio Tietê, a 114 km de São Paulo, nesta semana ˗˗ traz de volta preocupações que nunca desapareceram, mas pareciam restritas a casos mais isolados.

No Tietê, porém, um dos rios mais importantes do Estado de São Paulo, entre outras razões porque é o fluxo que desliza pela capital, uma das megalópoles da Terra, ocorrências deste tipo não são incomuns. O que muda é a maneira como os desastres se anunciam.

Levantamentos feitos até agora não foram capazes de identificar a composição da mancha escura, ainda que ela tenha provocado uma mortandade de peixes, o bastante para demonstrar seu poder letal.

O envenenamento de um rio é o suicídio de uma sociedade.

Talvez nós, brasileiros, com território amplo e pródigo em água, ainda não tenhamos tido oportunidade de refletir sobre essa paradoxal obviedade.

Afinal, de onde se originam as lágrimas que vertem de nossos olhos, na alegria e na dor? Que origem tem o suor que brota de nossos corpos, numa tarde quente de verão? Com que o corpo de cada um de nós elabora o sangue que circula por nossas artérias e veias? De onde vem a água de nosso xixi?

Na maior parte dos casos vem das águas de um rio e isso é o bastante para dizer que a vida de cada um de nós depende da vida de um rio, ainda que isso possa parecer um discurso selvagem, remoto, como a dependência que tivemos dos cavalos para nos deslocarmos mais rapidamente que em uma caminhada a pé.

Talvez uma parcela das pessoas não esteja preocupada com isso, e, assim, dispostas a deixar “na mão de ecologistas”, responsabilidades que, aos olhos delas, parecem exageradas, talvez artificiais, ou ideologizadas.

Aos governos, em todas as instâncias ˗˗ municipal, estadual e federal ˗˗ cabe a responsabilidade de, não se arvorarem em serem os únicos responsáveis pela possível e necessária recuperação de rios, regatos, fontes e ribeirões.

Talvez a tarefa deles seja sensibilizar, com base em conteúdos de educação, o conjunto da sociedade para que possamos reaprender o respeito que nossos ancestrais cultivaram pelas águas puras que encontravam em uma infinidade de fluxos e eles vertiam dos mais diferentes pontos dos campos e das cidades.

Talvez, com a crise atual de abastecimento de água potável, tenhamos a oportunidade de um programa de educação pela vida, tomando por base o respeito e tributo sagrado às águas.

Cada garrafa plástica que for colocada num cesto de lixo e encaminhada para reaproveitamento será uma peça a menos entupindo as calhas de um curso d’água.

Claro, Pode parecer vergonhosamente simples. Mas isso não quer dizer que seja absolutamente dispensável.



Escrito por blogdasciam às 14h14
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O futuro anunciado pela missão Rosetta

Por Ulisses Capozzoli

O pouso da sonda Philae, na superfície do cometa 67P, na quarta-feira passada, define um antes e um depois, na história da astronáutica e, por extensão, da exploração espacial robótica.

A Philae, como o noticiário da mídia repetiu à exaustão, desde o pouso, é uma sonda liberada pela nave espacial europeia Rosetta, que homenageia a pedra angular da decifração dos hieróglifos egípcios.

Essa elucidação revelou para a história a dimensão e profundidade de uma cultura que, por intermédio da Grécia, está na base de praticamente tudo o que se pensa no Ocidente.

Do relativamente pouco que se conhece do primeiro filósofo grego, Tales de Mileto (624-543 a.C.), por exemplo, sabe-se que ele despendeu um período da vida em contato com sábios egípcios.

Como primeira sonda a pousar para uma longa exploração na superfície de um cometa, uma montanha ambulante vagando pelo Sistema Solar, submetida às leis da gravitação universal, a Philae já tem uma dimensão histórica.

É verdade que ela pode ter problemas a curto prazo, pelo fato de estar presa ao que seria uma espécie de penhasco, no corpo irregular do 67P, e isso possa comprometer tanto sua estabilidade como o abastecimento de energia solar.

A energia solar, em missões que não se destinam ao espaço profundo, é fundamental para o abastecimento de naves e sondas de investigação científica.  As missões a mundos ou regiões distantes tem como usina de força reatores nucleares e não antenas de captação de energia solar.

É o caso da missão New Horizons que, no próximo ano, chega a Plutão, seu alvo cósmico e, em parceria com o trabalho da missão Rosetta, tem como desafio decifrar os enigmas de um anel de escombros que envolve o Sistema Solar, o Cinturão de Kuiper.

Escombros de formação

O Cinturão de Kuiper, batizado em homenagem ao astrônomo holandês Gerard Peter Kuiper (1905-1973) quem previu sua existência, é o responsável pelo destronamento de Plutão, identificado no céu em 1930 pelo astrônomo amador americano Clyde Tombaugh (1908- 1997).

Isso ocorreu porque observações mais recentes, com uso de técnicas embutidas em telescópios mais avançados, permitiram saber que Plutão é apenas um dos corpos além da órbita netuniana, de tamanhos variados, que caracterizam o Cinturão de Kuiper.

O cometa periódico de nome complicado para os padrões ocidentais, Churyumov-Gerasimenko, abreviado para 67P, é, originalmente, um objeto do Cinturão Kuiper que, por efeitos gravitacionais complexos, foi atirado para o interior do Sistema Solar.

O 67P tem período orbital de 6,5 anos, o que significa dizer que, nesse período de tempo, tem tanto uma aproximação máxima do Sol (periélio) quanto um maior afastamento (afélio) em uma rota elíptica, o que sugere a forma de um anel achatado.

O próximo periélio do 67P ocorrerá em 13 de agosto de 2015. Isso quer dizer que, neste exato momento, ele se desloca em direção ao Sol.

A análise detalhada feita pela sonda Philae ˗˗ do porte de uma geladeira doméstica, no corpo do cometa ˗˗ combinada com observações e dados que serão enviados pela missão New Horizons levarão a uma reescrita da história do Sistema Solar.

As possibilidades, neste caso, são muitas e, ainda que possa parecer ficção científica à primeira vista, incluem, por exemplo a possibilidade de um quinto planeta, além de Júpiter, Saturno, Urano e Netuno, ter existido no Sistema Solar e ejetado para o espaço profundo, num violento jogo de bilhar cósmico.

Por que a humanidade despende recursos preciosos e enorme esforço intelectual para tentar desvendar, por exemplo, a história do Sistema Solar?

A resposta para uma pergunta como essa é, de certa maneira, desconcertantemente simples: porque somos humanos e talvez o que caracterize mais profundamente uma criatura humana é a insistência de fazer perguntas e repeti-las, a cada resposta.

Visão à distância

Espíritos práticos ˗˗ classificação simpática para gente que, em geral, tem dificuldade em enxergar a meio metro de distância do nariz, e tenta camuflar essa incapacidade com raciocínios tortuosos e bem pouco interessantes ˗˗ podem se perguntar para que interessa conhecer, por exemplo, a história do Sistema Solar. 

Para essa miopia intelectual seguramente é interessante lembrar questionamentos da pré-história da descoberta da eletricidade, quando os ancestrais dos homens de espírito prático também se perguntaram, com os ares de ceticismo de sempre: “mas, afinal, para que serviria isso?”

Para mentes abertas, que cultivam a dúvida, em lugar das certezas imutáveis, também vale a pergunta sobre o significado do conhecimento da história do Sistema Solar.

Mas, neste caso, a resposta é outra, tão bela quanto promissora.

Talvez, num futuro não tão distante, quando, numa espécie de versão científica da Arca de Noé estivermos nos preparando para uma mudança de mundos, buscando outro planeta, na órbita de um outro Sol, esse conhecimento poderá ser fundamental para a sobrevivência da humanidade.

Não uma humanidade distante, algo elusiva e sem nenhuma relação com cada um de nós.

Mas a humanidade formada por nossos próprios descendentes, carregando os genes e a curiosidade que hoje constroem nossos corpos e estimulam nossa imaginação.

Mesmo num caso aparentemente tão remoto como esse ainda estaríamos, de certa maneira, sendo um tanto objetivos e pragmáticos.

Ao homem, desde sempre, são necessários os sonhos, os projetos e as viagens e nada indica que, no futuro, as coisas possam não ser mais assim. 

 



Escrito por blogdasciam às 17h24
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Acidente atrasa viagens à Lua

Por Ulisses Capozzoli

 

O acidente com a nave aeroespacial suborbital SpaceShipTwo, que explodiu logo depois de se desprender de sua nave-mãe, a WhiteKnightTwo ˗˗ na tarde do 31 de outubro passado, em voo teste na California ˗˗, pode ter impacto na ocupação da Lua, ainda que esses dois fatos possam parecer distantes e sem qualquer relação, à primeira vista.

 A nave, desenvolvida para explorar o turismo suborbital, um voo balístico em que atinge uma altitude máxima ˗˗ em torno de 100 km, e volta a mergulhar rumo à superfície da Terra ˗˗ integra a primeira geração de naves para desmistificação do voo espacial, ainda que seu alcance se restrinja ao espaço suborbital, o que significa dizer, incapaz de levá-la à órbita da Terra como ocorria, por exemplo, com os aposentados ônibus espaciais.

 Por trás do argumento que abre esse artigo está a pergunta de um sem número de pessoas: se a Lua foi conquistada nos anos 60, e até 1972 recebeu uma viagem tripulada, por que uma nova geração de astronautas não põe os pés no satélite da Terra?

 A resposta a essa questão produziria mais que um livro e recuaria às profundezas do tempo, desde que o primeiro homem, evidentemente uma pura abstração, observou a moeda prateada da Lua escalando o céu e se perguntou quando um humano poderia tocá-la com as mãos.

 Essa proeza tomou forma dos vertiginosos anos 60, mais especificamente em 20 de julho de 1969, quando a tripulação da Apollo 11, formada por três astronautas, levou dois deles a pousar na Lua, enquanto um terceiro permanecia em órbita lunar, na nave de resgate que traria a equipe toda de volta à Terra.

 A pré-história do espaço

Mas o voo triunfal da Apollo 11 não teria existido se, em 12 abril de 1961, um astronauta, ou cosmonauta, como foi chamado na União Soviética, com a cara redonda e o sorriso fácil de um quase adolescente, não tivesse entrado em órbita da Terra e voado em meio ao que pareceu a boa parte de seus contemporâneos, viajado entre as estrelas.

Iuri Gagárin (1934-1968) quem anunciou do espaço que “a Terra é azul” metaforicamente abriu as viagens tripuladas para a Lua e, no futuro próximo, para Marte ainda neste século. Talvez num futuro apenas um pouco mais distante, eventualmente no século 22, para as bordas do Sistema Solar ou mesmo para um mundo em órbita de uma estrela vizinha.

 Mas, por que desistimos da Lua?

 A conquista da Lua, e este é um fato inequívoco, foi um feito de toda a humanidade, ainda que, circunstancialmente, tenha representado uma queda de braço entre a então União Soviética, líder do mundo socialista, e os Estados Unidos, líder do bloco capitalista.

 A principal razão de a conquista da Lua ser um feito de toda a humanidade está relacionada ao fato de a ciência ˗˗ corpo de conhecimento que inclui, por exemplo a astronáutica, a lei dos gases, dos movimentos e a gravitação universal, entre outros ˗˗ ser uma realização humana e não uma conquista uniliteral de qualquer nação.

 Circunstancialmente, no entanto, a conquista da Lua foi uma dura batalha para a demonstração da potencialidade de cada um dos hemisférios em que a Terra esteve dividida, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, quando duas bombas atômicas pulverizaram os corpos de pessoas, árvores, animais e mesmo de construções, em Hiroshima e Nagasaki, no Japão.

 Catástrofes inevitáveis

Os Estados Unidos sofreram vários revezes ˗˗ entre eles o incêndio que destruiu em terra e matou seus ocupantes ˗˗ da primeira unidade da nave Apollo I e levou a uma supersticiosa remuneração da série que conduziria várias tripulações à Lua.

Com os louros sobre a cabeça, os Estados Unidos convenceram o mundo de sua pretensa superioridade científica e industrial, obscurecendo as conquistas soviéticas que começaram com o voo do primeiro satélite artificial da Terra, o Sputnik I, em 4 de outubro de 1957 e, em seguida, o voo de Gagárin, além da viagem de uma primeira mulher ao espaço em torno da Terra.

 

Esgotada a exploração política, no entanto, não houve razões econômicas ou mesmo científicas para novas viagens à Lua, ainda que, ainda hoje, pairem dúvidas, por exemplo, sobre a origem do satélite natural da Terra. Sua massa comparativamente elevada, faz com que, em astronomia planetária, o sistema Terra-Lua seja interpretado como um surpreendente caso de planeta binário.

O que deve estimular novas viagens da Lua é justamente a poderosa e crescente indústria do turismo, incluindo o incipiente turismo espacial e, neste nicho, o papel de naves de voo suborbital. Depois disso virão as viagens lunares, inicialmente em órbita lunar e depois com pouso na superfície.

E naves como a SpaceShipTwo se encaixam como peças de um quebra-cabeça nesse movimento de avanço progressivo.

Alguém pode argumentar que o clube dos países espaciais foi ampliado pela China e Índia ˗˗ que enviou recentemente uma nave para Marte ˗˗ o que é verdade.

Mas não toda a verdade.

O que deve impulsionar mesmo o retorno da Lua são os lucros, a exemplo do que ocorre com bancos, hospitais e hotéis e bancas de jornais, cafés e sorveterias, entre um número quase infinito de empreendimentos na Terra.

Neste caso, naves como a SpaceShipTwo são uma espécie de precursores das caravelas, as embarcações que, ao longo do século 16, revolucionaram a arte da navegação com seus calados baixos e o chamado pano latino, que permitiu a navegação à bolina, ou seja, contra a direção dos ventos dominantes, entre outras características.

A destruição da SpaceShipTwo e a morte de um de seus dois pilotos ˗˗ o segundo deles saltou de paraquedas e se recupera de graves ferimentos em um hospital ˗˗ deve levar os desenvolvedores da nave e a empresa fabricante e revisões detalhadas para que um novo acidente não se repita.

E pode, também, deixar um pouco mais claro para a maioria dos que sonham com um voo, ainda que suborbital ˗˗ de onde se pode observar por uns cinco minutos a curvatura da Terra contra o abismo escuro do espaço-tempo ˗˗ sobre os riscos de uma viagem como essa.

A Terra vista de longe

E mesmo que esses novos exploradores endinheirados ˗˗ uma viagem dessas custa bem mais que uma contrapartida qualquer na superfície da Terra, levando em conta o curto período de duração ˗˗ não se preocupem com a própria vida, os governos devem impor limites de segurança de voo também para a esfera suborbital.

Acidentes como o da SpaceShipTwo, no entanto, são praticamente inevitáveis sob a lei dos grandes números. Isso significa dizer que, da mesma forma que ocorre com aviões, em meio a uma quase completa totalidade de voos bem sucedidos, um ou outro pode não chegar ao destino. Pode, por exemplo, desaparecer sem explicações na vastidão do Pacífico, como ocorreu com um voo da Malasyan Airlines.

O fato é que, em termos pragmáticos, apenas o turismo pode levar grupos humanos de volta à Lua. Isso significa que, se num primeiro momento eles ficarão precariamente abrigados em instalações polares, como ocorreu com a conquista e ocupação dos polos extremos da Terra, num segundo momento serão construídos hotéis e toda uma rede complexa, ainda que banal, para atendimento de viajantes.

Em nada eles lembrarão o que foram, num dia do passado, cosmonautas como o soviético Iuri Gagárin, ou astronautas como o americano Neil Armstrong, quem primeiro pisou o satélite natural da Terra.

Mas quem se importará com o passado?

Filhos ou netos das gerações que agora vivem na Terra, num dia do futuro observarão, da face visível da Lua, o disco azul da Terra contra o escuro profundo do espaço.

Eles certamente se emocionarão com a Terra em fase cheia ˗˗ exatamente como as fases da Lua ˗˗ inundando o espaço próximo com a luminosidade azul produzida por sua densa atmosfera.

Instalados em hotéis na face visível da Lua, nossos descendentes observação, com a ajuda de pequenos telescópios, as cidades iluminadas da Terra, acompanharão as centenas de tempestades que a cada dia desabam da atmosfera do planeta. Alguns deles poderão ser perguntar, sem encontrar respostas, como foi possível que toda a história da espécie humana tenha se reduzido, até aquele momento, ao globo azul flutuando  no espaço como um balão de gás, desses usados em festas de aniversário.



Escrito por blogdasciam às 18h21
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Redescoberta do Sistema Solar

 Por Ulisses Capozzoli

 Duas missões que já estão voando no espaço e chegam a seus alvos em janeiro e junho do próximo ano devem ampliar o conhecimento sobre a origem e evolução do Sistema Solar.

A primeira delas envolve a nave europeia Rosetta que, em 20 de janeiro, tem um encontro marcado com um cometa, o 67P/Churyumov-Gerasimenko (67P).

Se não ocorrerem imprevistos, a Rosetta, que já orbita o cometa desde 6 de agosto passado, deverá lançar uma sonda, a Philae, para atracar-se à superfície do astro e investigar seu comportamento à medida que se aproxima do Sol, na órbita elíptica dos cometas periódicos.

Lançada por um foguete Ariane, da base de Kouru, na Guiana Francesa, em 2 de março de 2004, a Rosetta é uma nave produtiva. Ela já investigou asteroides e fez uma visita a Marte, enquanto aguardava a aproximação do 67P/Churyumov-Gerasimenko para cumprir seu objetivo principal.

Em 2007 ela visitou Marte e da órbita desse planeta enviou imagens e outros dados para a Terra. Em setembro do ano seguinte sobrevoou o asteroide 2867 Steins e, em julho de 2010, investigou o 21 Lutelia.

Depois de passar 31 meses hibernando como um urso espacial, a Rosetta foi despertada pelo controle do voo, em Darmstadt, na Alemanha, em 20 de janeiro passado. Essa hibernação é importante para economia de combustível que garante as manobras que a nave deve executar para cumprir seus objetivos.

A Rosetta é uma homenagem à Pedra da Rosetta, descoberta em 1799 e que permitiu ao linguista francês Jean-François Champollion (1790-1832) decifrar os hieróglifos egípcios, com enorme impacto na investigação dessa antiga civilização que influenciou os gregos antigos e por isso mesmo está nos fundamentos da cultura do Ocidente.

Já o lander, a sonda da missão que pousará no cometa, é uma referência a ilha de Filas, no Rio Nilo, onde foi encontrado um obelisco que também forneceu dados para a que os hieróglifos pudessem ser decifrados.

 A New Horizons

A segunda missão, a New Horizons, da agência espacial americana, Nasa, deixou a Terra depois da Rosetta, em 19 de janeiro de 2006, para visitar Plutão e os componentes do Cinturão Kuiper, escombros da formação do Sistema Solar situados além da órbita de Netuno.

Referir-se a Netuno para precisar a localização do Cinturão Kuiper é algo frequente em astronomia planetária pois a órbita acentuadamente elíptica de Plutão faz com que, periodicamente ele invada a órbita de Netuno e faça desse mundo o mais distante em relação ao Sol.

Quando as duas naves foram lançadas, Plutão ainda era considerado um planeta, situação de que desfrutava desde que descoberto pelo astrônomo americano Clyde Tombaugh, em 1930, ao final de um exaustivo trabalho de manipulação fotográfica para localizá-lo contra o chamado “fundo fixo” de estrelas.

Pouco depois do lançamento da New Horizons, mais especificamente em 24 de agosto de 2006, no entanto, durante um encontro de membros da União Astronômica Internacional (UAI) Plutão foi rebaixado à condição de planeta-anão, categoria de que é parte também o asteroide Ceres, identificado em 1º de janeiro de 1801 pelo astrônomo italiano Giuseppe Piazzi, a partir do observatório de Palermo, na Sicília, sul da Itália.

Ao contrário de Plutão, no entanto, localizado na zona orbital que se confunde com o Cinturão Kuiper, Ceres se localiza no cinturão de asteroides entre as órbitas de Marte e Júpiter, bem mais próximo da Terra.

O que faz com que corpos localizados a diferentes distâncias do Sol, caso de Plutão e o cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko, sejam abordados num experimento estreitamente associados, por intermédio das missões Rosetta e New Horizons?

Os cientistas planetários apostam muitas fichas em que o cometa teve como origem essa região de escombros que envolve o Sistema Solar como uma primeira definição do que seria, convencionalmente, as fronteiras do Sistema Solar.

Região desconhecida

Depois do Cinturão Kuiper, onde muitos asteróides de porte significativos foram descobertos ao longo das duas últimas décadas, está localizada Nuvem Oort, um berçário de cometas que, eventualmente, por influência gravitacional de estrelas vizinhas podem mergulhar para o interior do Sistema Solar, numa única visita ou tomando forma de um cometa periódico, dependendo da órbita que desenhem no espaço.

Já antes da Nuvem Oort a influência do Sol mostra certa debilidade pela interação com a atividade de estrelas mais próximas, definindo a heliosfera.

As perguntas que os astrônomos planetários esperam responder com os dados enviados pelas duas missões podem praticamente redesenhar a configuração do Sistema Solar que vão desde a troca de posição de planetas a até a possibilidade de que um mundo que já integrou o Sistema Solar possa ter sido ejetado gravitacionalmente para o espaço profundo como resultado de um lance mais vigoroso de um bilhar cósmico.

Um artigo abordando o histórico e as perspectivas das duas missões, a Rosetta e New Horizons, integra a edição de dezembro de Scientific American Brasil, neste momento em fase de edição.

 



Escrito por blogdasciam às 14h54
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Libertação Animal

Por Ulisses Capozzoli

Tudo indica que a iniciativa de um grupo ambientalista de libertar uma centena de chinchilas ‒ num criadouro em Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo ‒ tende a ser cada vez mais frequente em relação a animais criados para retirada de peles ou mesmo experimentos de laboratório.

As chinchilas foram retiradas, domingo último, do criadouro Master Chinchila que, segundo a Frente de Libertação Animal (FLA), responsável pela ação, tem como um dos proprietários o argentino Carlos Perez, de 70 anos, presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Chinchila Lanígera (Achila).

Chinchila é um nome genérico para roedores da família Chinchillidae, nativa dos Andes sul americanos, com pelagem sofisticada e por isso mesmo apreciada para a produção de casacos sofisticados, com preços que chegam a R$ 70 mil.

A refinada pelagem da chinchila é pelo menos 30 vezes mais suave que o cabelo humano e sua alta densidade (20 mil pelos por cm²)  uma proteção ideal contra pulgas, entre outros parasitas que afetam animais na natureza.

Chinchilas são animais ativos e precisam de exercício constante e, como são curiosas e exploradoras, devem ser criadas soltas, em casa, ou em locais fechados, mas amplos. Elas são extremamente sociáveis e não suportam vida solitária.

No sítio em que eram criadas, em Itapecerica da Serra, no entanto, segundo relatos de membros da FLA, estavam confinadas em gaiolas de pequeno porte, superpostas, umas às outras, a elevadas temperaturas e com aeração inteiramente inadequada.

Os membros da FLA assumem uma atitude libertária e dizem que não podem esperar pela burocrática morosidade da lei, no caso da proteção animal.

Foi pela mesma razão que um grupo ambientalista libertou, em outubro do ano passado, cães Beagles, em São Roque, destinados a experimentos científicos, o que hoje divide também a comunidade de pesquisadores.

Muitos deles argumentam que boa parte das pesquisas já pode ser feita sem uso de cobaias animais, ainda que, em certos casos, isso ainda não seja possível.

Na indústria de cosméticos, no entanto, em que cobaias animais eram comuns, as práticas estão mudando rapidamente por exigência tanto de uma nova compreensão do ambientalismo, de que a proteção animal é parte, quanto do próprio mercado consumidor.

Libertação animal

Os defensores dos animais têm se inspirado na obra do filósofo australiano, Peter Singer, autor do livro Libertação animal, para iniciativas determinadas a por fim a tratamentos brutos e por isso mesmo indevidos a animais, como ocorre com as chinchilas, para a retirada de peles voltadas para a produção de artigos de luxo para humanos.

Pelo menos 200 chinchilas devem ter suas pelas arrancadas para a produção de um único casaco de peles.

A Assembléia Legislativa de São Paulo aprovou, em 17 de setembro passado, projeto de lei do deputado Feliciano Filho (PEN) para proibir a criação e manutenção de animais para a retirada de peles, que tem a resistência de Carlos Perez, do criadouro invadido.

Segundo ele argumentou em entrevista à Folha de S. Paulo, “30 mil chinchilas vão morrer por causa dessa lei”.

O projeto, agora, depende da posição do governador Geraldo Alckmin (PSDB) que tem até o próximo dia 28 para aprovação ou veto.

Perez entende que se o projeto do deputado Feliciano Filho for aprovado, a atividade de criação de chinchila “acabou”.

Já o governo estadual tem justificado que o projeto de lei está “sendo apreciado pelas áreas técnicas” das secretarias da Casa Civil e do Meio Ambiente.

O Brasil é um dos maiores produtores e já ocupa a segunda posição mundial como exportador de pele de chinchilas, superado apenas pela Argentina, segundo dados da Agência de Noticias de Direitos Animais (Anda).

Essa atividade foi introduzida aqui pelo próprio Perez, há mais de 30 anos. Agora a empresa dele disporia de 1.100 fêmeas e 214 machos reprodutores registrados.

 A empresa de Perez chega a abater cerca de 200 chinchilas diariamente, o bastante para a produção de três casacos de pele desses animais.

Os primórdios da exploração espacial foi uma época de uso intensivo de cobaias animais, ainda que essa seja uma parcela da historia camuflada no relato das conquistas.

Antes que Iuri Gagárin fizesse seu voo pioneiro, em abril de 1961, por exemplo, uma cadelinha de rua, da raça Laika, chamada “Crespinha”, foi encerrada numa nave e enviada para o espaço, com dados monitorados pelo controle do voo para acompanhar a reação do organismo de um mamífero nas condições inóspitas do espaço.

Crespinha teve uma morte lenta e sufocante e seu pequeno corpo foi carbonizado quando a nave que a transportava reentrou na atmosfera terrestre e foi destruída sob a forma de um meteoro.

O especialista russo responsável pelo envio dela ao espaço declarou, há alguns anos, que em hipótese alguma repetiria a iniciativa que teve no início dos anos 60.

Em seu livro, Libertação Animal, Singer argumenta que o histórico e sistemático desrespeito que temos para com os animais deriva do especismo, a idéia que parte dos humanos cultiva, de sermos uma espécie com direito de explorar todas as outras em nosso exclusivo benefício, conceito que, felizmente, está mudando rapidamente.

Um fato parece absolutamente claro: se não formos capazes de respeitar os animais, como respeitaremos a nós mesmos?

Até porque também somos animais, ainda que nos acreditemos racionais, mesmo que, muitas vezes,  isso possa ser profundamente questionável.



Escrito por blogdasciam às 18h13
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