A subjetividade na mecânica quântica
Por Ulisses Capozzoli A mecânica quântica, quase sempre a abordagem da Natureza em dimensão subatômica, ainda que seja utilizada também em escala atômica e molecular é, desde sempre, um território de puro estranhamento. A geração atual de físicos e seus descendentes, por gerações impossíveis de serem previstas por uma estimativa clássica, ao que tudo indica deverão deparar-se com muitos de seus desafios. Antes que ela possa ser devidamente desvendada. E isso se for verdade que esta palavra faz sentido, em termos convencionais. Considerada em seus extremos, numa abordagem simétrica, a mecânica quântica reúne desde a lógica fácil, disposta a levar em conta qualquer inconsistência, até o embaraço dos físicos, ainda hoje desorientados quanto à sua natureza paradoxal. No universo quântico partículas podem estar em dois lugares ao mesmo tempo. A informação parece viajar a velocidades superiores à da luz (o que coloca sob suspeição a relatividade restrita de Einstein) e gatos podem estar vivos e mortos, simultaneamente. O caso dos gatos, para nos determos brevemente num dos paradoxos, foi proposto pelo genial físico austríaco Erwin Schrödinger, em 1935. Talvez como vingança cômica e inconsciente pelo fato de ter sido sistematicamente discriminado por sua bigamia, situação que partilhou também com o pai da tabela periódica, o russo Dmitri Mendeleiev. A propósito de Mendeleiev, e apenas para uma breve parada nesta questão, quando um burocrata, invejoso foi se queixar ao czar, alegando que ele (Mendeleiev) era bígamo, teve como retorno uma resposta desconcertante: “sei que ele tem duas mulheres, mas eu só tenho um Mendeleiev”. A questão do gato vivo e morto ao mesmo tempo é de outra natureza: um paradoxo e não um mero preconceito, ou a pura inveja amorosa. Schrödinger considerou uma caixa fechada abrigando um gato vivo, um vidro de veneno e um átomo radioativo. O caso aqui é que, de acordo com a mecânica quântica a probabilidade de o átomo decair, emitindo radiação, no período de uma hora, era de 50%. Se o átomo decaísse, acionaria um martelo que quebraria o frasco de veneno e mataria o gato. Caso contrário, o gato estaria vivo. Se um observador não abrisse a caixa, o que os físicos chamam de função de onda do átomo estaria numa superposição de dois estados (decaído e não decaído) o que significa dizer que o gato estaria vivo e morto, ao mesmo tempo. Essa meia dúzia de considerações para relatar aos leitores deste blog que a edição 134 de Scientific American Brasil − neste momento em fase de processamento, etapa que antecede o envio à gráfica, para impressão − traz um fascinante artigo tratando de um esforço teórico para eliminar certos paradoxos quânticos, o gato de Schrödinger entre eles. A intenção por trás desse trabalho é tornar a mecânica quântica menos “inquietante”, para apresentar ao menos uma das justificativas. Um método, conhecido como Bayesiano quântico, ou apenas QBism, considerado neste artigo, reescreve a entidade que vive no centro da estranheza quântica: a função de onda. Na física convencional, descreve Hans Christian von Baeyer, autor do artigo, um objeto como um elétron é representado por uma função de onda, na verdade uma expressão matemática que descreve suas propriedades. E para prever o comportamento de um elétron é preciso calcular a evolução, no tempo, de sua função de onda. O problema, para sintetizar o pensamento de Von Baeyer, aparece “quando se considera que a função de onda é algo real” e não uma instância subjetiva na mente de um observador. O artigo é fascinante e envolve, a certa altura, Christopher A. Fuchs, um dos autores de um livro ainda não editado no Brasil Quantum probabilies as Bayesian probabilities (Probabilidades quânticas como probabilidades bayesianas). Fuchs é um desses rebeldes criativos, que levando suas roupas numa mochila puída, faz uma pregação incansável em todos os auditórios capazes de ouvi-lo sobre o fato de a ciência ser uma “atividade pública”, o que desmascara muitas das pretensões de suposta elegibilidade. Além disso, Fuchs, que alguns de seus colegas descrevem como “um vulcão em erupção constante” entende que os insights na ciência são produtos de acirradas disputas intelectuais, algo como um torneio em que, em vez de armas, se combate com idéias. Em especial afiadíssimas idéias, capazes de cortar a fundo tanto a tradição imobilista como o convencionalismo supostamente dinâmico, fixados fundo, como as raízes de certos parasitos. Os leitores de Scientific American Brasil não perdem por esperar pelo que está dito em “O paradoxo quântico que confunde a sua mente”, na edição de julho. Nas bancas a partir de meados do próximo mês.
Escrito por blogdasciam às 18h59
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Mudanças climáticas e lixo orbital Preocupam climatologistas e especialistas em navegação espacial Por Ulisses Capozzoli Duas preocupações ambientais em escala global levantadas ao longo dos últimos dias devem pautar iniciativas em prazos relativamente curtos, sob pena de conseqüências graves, ainda que pareçam distantes para a grande maioria das pessoas. A primeira emergiu da 6ª Conferência Européia Sobre Lixo Espacial, com duração de quatro dias, na semana anterior, em Darmstadt, na Alemanha. A segunda foi um apelo, feito nesta segunda-feira (29), pela chefe das negociações do clima da ONU, Christiana Figueres, para a necessidade urgente de controle na emissão de gases de efeito estufa (GEE), em especial o gás carbônico, ou CO2, na atmosfera da Terra. Os dois casos são dramáticos. Lixo espacial é uma ameaça crescente às atividades em órbita da Terra, envolvendo tanto astronautas que ocupam ou voam para a Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês), quanto satélites de diferentes aplicações. Já a presença de gás carbônico na atmosfera do planeta chegou a 399,72 ppm (partes por milhão) no último dia 25, quinta-feira passada, segundo dados produzidos por um observatório localizado em Mauna Loa, no Havaí, da National Oceanic and Atmosphere Administration (NOAA). A preocupação dos climatologistas, neste momento, é conter essa concentração em 400 ppm. Além disso, como exprimiu com angústia Christiana Figueres, é possível que se chegue a um ponto sem retorno com mudança climáticas catastróficas e irreversíveis em todo o mundo. Quando o Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas (IPCC) apontou, na década passada, para a origem antrópica (por atividades humanas) do aquecimento global com mudanças climáticas o pensamento conservador em todo mundo, fazendo eco aos interesses das companhias de energia fóssil, tentou desacreditar o diagnóstico. Argumentaram que, no passado, a Terra já foi mais quente e que essas variações térmicas ocorrem de forma natural, por alterações na radiação solar e outros efeitos ainda não suficientemente claros. Entre eles variações em longo prazo na órbita terrestre e mesmo travessia, pelo Sistema Solar, de grandes nuvens de gás e poeira no braço de Órion da Galáxia, o bairro cósmico em que vivemos. Calor do passado A Terra, de fato, teve períodos mais quentes no passado produzindo épocas que os climatologistas chamam de interglaciais. Ocorre, no entanto, que períodos glaciais e interglaciais manifestaram-se com intervalo de tempos de milhares de anos e não a curtíssimo prazo, como agora, e isso impede um processo de adaptação por parte das formas de vida que ocupam a Terra, o que pode incluir os humanos. Desde o século 19, com trabalhos desenvolvidos entre outros pelo físico-químicos e Prêmio Nobel sueco Svante Arrhernius (1859-1927), é conhecida a capacidade do gás carbônico de reter calor (radiação infravermelha) na atmosfera. Assim, se a concentração desse gás cresce, o raciocínio lógico é supor que a atmosfera se aqueça, ainda que a climatologia seja uma área mais complexa que pode parecer à primeira vista. De qualquer maneira, temos uma evidência lógica que deve ser levada em conta, em lugar de suposições com base em pura ideologia para tentar negar o aquecimento global com inevitáveis e dramáticas mudanças climáticas. Dicionários definem humanos como animais racionais, mas talvez nem sempre isso seja verdadeiro. E a relação entre gás carbônico e aquecimento global parece ser evidência disso. Dados de março de 1958 mostram que a concentração de gás carbônico na atmosfera nessa época estava em 316 ppm. Antes da Revolução Industrial, quando combustíveis fósseis, em especial o carvão, passaram a ser utilizados como fonte de energia a concentração estava em 280 ppm, ou seja, desde então a concentração aumentou em 112 ppm. Dados de épocas mais distantes são obtidos por paleoclimatologia envolvendo, por exemplo, gases atmosféricos confinados ao gelo de profundidades da Antártida e outras regiões glaciais no mundo. O alerta feito por Christiana Figueres está relacionado ao encontro previsto para ocorrer até o final deste ano em Varsóvia, na Polônia, para debater o aquecimento global com mudanças climáticas, exigindo posicionamento em especial dos dois maiores poluidores globais: Estados Unidos e China. A pressão sobre a dupla responsável pelas maiores emissões de GEE, no entanto, não significa omissão por parte de países como o Brasil, que tem nas hidrelétricas suas principal fonte de energia. E as razões para isso são múltiplas. Primeiro porque o lago de hidrelétricas não é tão neutro quanto se considerava até recentemente. E, segundo, porque as enormes queimadas na Amazônia e outras regiões do País não se restringem a injetar mais GEE na atmosfera, mas tem inúmeros outros efeitos negativos. Fracassos do passado A comunidade internacional tem como meta obter um acordo, em 2015, para redução das emissões de GEE, mas objetivos semelhantes já foram expostos no passado sem sucesso, entre outras razões pela negativa dos Estados Unidos. A voracidade econômica chinesa e o menosprezo que as autoridades do país têm demonstrado pelas preocupações ambientais também acenam com possibilidades de novos fracassos. O acordo previsto para 2015, se obtido, deverá entrar em vigor em 2020. Já em relação ao lixo espacial, desde outubro de 1957 quando o Sputnik 1, o primeiro satélite artificial entrou em órbita da Terra, até agora, mais de 5 mil lançamentos poluíram a órbita baixa, em torno de 2 mil km de altitude. Durante a Guerra Fria, o confronto potencial entre então União Soviética e os Estados Unidos, com seus respectivos aliados, experiências de destruição de satélites em órbita contribuíram significativamente para a dispersão de lixo orbital. O volume desses restos triplicou desde 1978, período inserido na Guerra Fria, segundo revelou na semana passada o diretor do departamento de lixo espacial da Agência Espacial Europeia Heiner Klinkrad. Parte desse material pode precipitar-se de volta para a Terra produzindo “estrelas cadentes” ao reagir com a atmosfera ou mesmo bolas de fogo, a exemplo de meteoritos, no caso de peças maiores, caso de estágios de foguetes. Dados do encontro na Alemanha confirmaram que a ISS precisa executar ao menos uma manobra ao ano para evitar choque com um entulho espacial. E a cada semana ao menos uma dúzia de objetos se aproxima perigosamente (2 km) de um satélite. O lixo espacial (que inclui de restos de naves e satélites e ferramentas perdidas por astronautas) gira em torno da Terra à velocidade de 25 mil km/h e é muito mais perigoso que, por exemplo, uma bala de fuzil AR-15, incorporados ao exército americano com a denominação de M16. Os M16 disparam um projétil com velocidade de 3.500 km/h. Satélites, agora, não são o luxo exibicionista dos primeiros tempos da Guerra Fria. São equipamentos fundamentais para um sem número de atividades indispensáveis à vida de cada um dos habitantes da Terra. A perda de um deles, atingido por lixo espacial, pode custar mais que prejuízo econômico. A Terra é nossa casa cósmica. O único mundo onde temos certeza de que a vida se manifesta. O único onde estamos seguros de que ocorrem chuvas abundantes como parte do ciclo hidrológico, entre outras razões pela proximidade com nossa estrela-mãe, o Sol. Mas, aparentemente, para a humanidade, nada disso é levado em conta.
Escrito por blogdasciam às 15h32
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Planetas como a Terra no corpo da Galáxia Por Ulisses Capozzoli Descobertas em torno de Kepler-62, a 1.200 anos-luz do Sistema Solar, mostram evidências de mundos como o nosso e reafirmam a necessidade de uma profunda revisão de conceitos criados pelo obscurantismo religioso que vitimaram cientistas como Giordano Bruno, Galileu Galilei e Johannes Kepler. O telescópio espacial Kepler pode ter realizado um sonho antigo da astronomia: encontrar outro mundo do porte da Terra e com condições orbitais semelhantes, capaz de abrigar a vida como a conhecemos aqui. Ainda que em torno de uma estrela mais distante. Artigo no site da revista científica americana Science relata a detecção de cinco planetas em torno de Kepler 62, a 1.200 anos-luz do Sistema Solar, dois deles aparentemente com estoques de água em estado líquido. Oferta de água não significa, necessariamente, presença de vida. Mas água é algo tão indispensável à vida como a conhecemos que, quase instintivamente, fazemos essa óbvia associação. Ou, numa cena que ainda permanece distante no tempo, encontramos um mundo receptivo a uma futura colonização humana. Os dois planetas, Kepler-62e e Kepler-62f, estão situados no que exobiólogos e cientistas planetários chamam de zona habitável em torno de uma estrela. Um dos parâmetros básicos para esta classificação é a presença de água em seus três estados clássicos (sólido, líquido e gasoso) o que deve assegurar um ciclo hidrológico (evaporação e precipitação) como ocorre na Terra. Um mundo receptivo à vida também deve ter, ao menos em princípio, movimento de rotação em torno de seu eixo, o que permite a distribuição de radiação e equilíbrio térmico (na presença de atmosfera, evidentemente). William Borucki, pesquisador da agência espacial americana (Nasa), coordenador da pesquisa que descobriu esses “parentes” longínquos da Terra, disse que os mundos anunciados são ligeiramente maiores que a Terra: Kepler -62e seria 60% maior e Kepler-f, 40%. Os dados sugerem que Kepler-f é um mundo sólido (rochoso) como a Terra, ainda que também possa ter composição de água sólida (gelo) e não necessariamente rocha, o que os tornaria bem parecidos com a Terra. O telescópio orbital Kepler, que homenageia o astrônomo alemão Johannes Kepler (1572-1630) conhecido como o “último dos antigos e o primeiro dos modernos”, foi lançado em 2009 e mede o brilho de 170 mil estrelas a cada 30 minutos. A alteração no brilho das estrelas, em muitos casos, pode dever-se à passagem de planetas frente aos seus discos voltados para a direção da Terra, um denunciador nanoeclipse. Essa é uma alternativa à técnica de bamboleios gravitacionais também utilizados para a identificação de planetas em órbita de outras estrelas da Galáxia. O primeiro planeta extrassolar foi encontrado em condições surpreendentes no início dos anos 90, deflagrando uma profunda revisão na área das ciências planetárias. Desde então acumulamos pelo menos 2.740 casos de possíveis planetas além do amplo mais limitado reino do Sol. As perturbações luminosas que levaram à suspeição de planetas em torno de Kepler-62 foram feitas em 13 de maio de 2009 e 28 de março de 2012, mas só reveladas agora. Nesse intervalo cientistas planetários fizeram observações mais detalhadas capazes de revelar dados como condições orbitais e massa desses mundos. O fato de esses parentes distantes da Terra terem massa maior que o nosso mundo estimula uma reflexão interessante que, certamente, passa despercebida à maior parte das pessoas interessadas em ciência. Nosso corpo tem um íntimo e surpreendente diálogo gravitacional com a massa e, portanto, com o campo gravitacional da Terra e isso define, digamos, nosso projeto pessoal enquanto estrutura biológica. Claro que isso ocorre dentro de determinados limites. Mas ocorre. Se vivêssemos em um mundo mais massivo, e por isso mesmo com maior gravidade, nossos corpos seriam mais robustos, com estruturas ósseas mais sólidas. Mas se fosse o contrário e habitássemos um mundo com gravidade menor teríamos corpos mais esbeltos e estrutura óssea mais delicada. Os possíveis (certamente é o caso de prevenir que a frase que conclui este raciocínio é uma liberdade algo “poética”) moradores de Kepler-62 f têm, por esse princípio básico, corpos mais robustos que os nossos. Johannes Kepler, que teve seu túmulo destruído pela violência da Guerra dos 30 anos (1818-1648) ficaria fascinado em saber que um satélite que leva seu nome amplia o horizonte da ciência entre os bilhões de estrelas de nossa galáxia, a Via Láctea. À época que deformou a circunferência para produzir uma elipse, e assim explicar os paradoxos da órbita de Marte, a partir de dados obtidos pelo controvertido astrônomo dinamarquês Tycho Brahe (1546-1601), sequer a idéia de galáxia tinha consistência. Ao menos até 1755, quando o onipresente astrônomo alemão Immanuel Kant (1724-1804) expôs a idéia de “universo-ilha” para se referir à totalidade das estrelas que observamos a olho nu. Mesmo as mais difusas, que formam o perfil leitoso da Galáxia, desvendadas em 1610 por Galileu Galilei, que nasceu em 1564 e morreu em 1642, ano em que Isaac Newton chegou ao mundo. O conceito atual de Universo, no entanto, só tomou forma nos anos 30 do século passado e coincide com a consolidação da cosmologia enquanto ciência. Antes disso ela integrava o universo da filosofia. Kepler teve uma vida tormentosa e, a certo momento de sua vida, retirou sua mãe, acusada de bruxaria pela Contra Reforma, dentro de um cesto de roupas sujas e a escondeu com alguma segurança no campo. A propósito de Kepler, novos planetas e obscurantismos e truculências religiosas por parte da Contra Reforma, cabe outro comentário interessante. Em 9 de fevereiro de 1600 o filósofo napolitano e monge dominicano Giordano Bruno (1550-1600) foi queimado vivo em praça pública, em Roma, por questionar a “infalibilidade do papa” e defender a idéia, agora explícita, de que as estrelas do céu são, cada uma delas um sol, e em torno de muitas devem haver planetas, eventualmente com vida. O papa João Paulo II, morto em abril de 2005, reconheceu a genialidade de Galileu (ameaçado de tortura pela Igreja Católica e submetido à prisão domiciliar por suas descobertas científicas) e o reabilitou. Em relação a Bruno, no entanto, permanece um silêncio ensurdecedor, sem nenhum pedido de perdão por parte da Igreja. E, isso, mesmo depois de Bento 16, que pediu afastamento recente do cargo, ter demonstrado que a pretensa “infalibilidade do papa” não passa de dogma sem a mínima consistência.
Escrito por blogdasciam às 12h58
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As surpresas das explosões solares Vigésimo - quarto ciclo de explosões solares, com pico de intensidade previsto para maio, deve ser o mais ameno desde 1928. Mas isso não significa, necessariamente, ausência de uma explosão única de enormes proporções. Por Ulisses Capozzoli Com a aproximação de maio, previsto como mês de pico de intensidade das explosões solares neste vigésimo - quarto ciclo de registros científicos é possível que alguma ocorrência relativa ao Sol ganhe as manchetes da mídia e assuste a população. Não há razão para isso. O Sol tem um ciclo médio de 11 anos de explosões associadas a manchas escuras que aparecem em sua superfície (fotosfera) e estão relacionadas à inibição da subida de energia a partir de seu coração profundo, onde se localiza sua usina de força. No coração solar, a 700 mil km de profundidade, está o reator nuclear natural, controlado pela gravitação universal, que transforma hidrogênio em hélio e assim libera energia, segundo a conhecida equação de Einstein E=m.C2, ou seja, energia equivale à massa pela velocidade da luz ao quadrado. Como a velocidade da luz no vácuo é enorme (300 mil km/s) uma transformação desse tipo libera quantidades impressionantes de energia. No coração do Sol, a 15 milhões de graus Celsius e pressão 340 bilhões de vezes a registrada ao nível do mar, na Terra, 600 mil toneladas de hidrogênio são transformadas em hélio a cada segundo. E isso há 5 bilhões de anos, a idade do Sol. Em fins de dezembro passado uma ponte de plasma, o quarto estado da matéria que forma o corpo solar, foi observada ejetando-se no espaço a 700 mil km de altura e, em seguida, novamente precipitando-se no corpo da estrela. Explosões solares intensas liberam, no interior do Sistema Solar, poderosos ventos solares, chuva de partículas subatômicas que, na Terra, produzem vários efeitos, ambientais. Mesmo no espaço os ventos formados por prótons (núcleos de hidrogênio) e partículas eletricamente carregadas, além de elétrons, que orbitam os núcleos atômicos e são negativamente carregadas, podem afetar a operação de satélites. Usuários de TV por satélite estão entre os que podem ter essas recepções interrompidas, com aviso de que isso se deve a tempestades solares. Mas astronautas a bordo de naves e da Estação Espacial Internacional também devem buscar os refúgios possíveis para evitar essas exposições com danos que podem ser irreparáveis à saúde. Mesmo redes de transmissão de energia elétrica correm o risco de ter suas operações interrompidas e com isso provocar uma enorme variedade de efeitos negativos. Um efeito cativante, no entanto, para quem já observou, são as auroras polares (boreal, ao norte e austral, ao sul) quando todo o céu é coberto por um fascinante jogo de luzes produzido pela interação dessas partículas com gases atmosféricos. Por que nos pólos? A razão de as auroras se manifestarem nos polos está relacionada à presença de um escudo magnético, a magnetosfera, que desvia essas partículas originárias do Sol para as regiões polares, e assim protegem a Terra de um bombardeio indesejável. Decifrar o mecanismo de explosões solares é um desafio ainda não inteiramente vencido pela ciência. De qualquer maneira, se admite que linhas magnética no Sol, sob a forma de longos e torcidos fios de força que atravessam o corpo solar e manifestam-se em hemisférios opostos, inibem temporariamente a convecção, o transporte de energia gerado no coração do Sol para sua superfície, a fotosfera, de onde ela é liberada no espaço. Essas linhas atuam ao longo de determinado tempo, quando inibem a convecção e criam pontos escuros na superfície solar, com temperaturas inferiores às do entorno. Quando as linhas se rompem, no entanto, a convecção manifesta-se com intensidade e projeta as pontes de plasma no espaço. A energia gerada no coração do Sol pode necessitar de um período de até 1 milhão de anos para atingir a superfície e ser liberada no espaço. O período de 11 anos que separa um pico ou um vale de atividades solares é um tempo médio, já que as explosões, de fato, podem ter períodos entre 9 e 14 anos ou ainda mais variados. O pico de intensidade atual é tido pelos astrofísicos solares como não muito intenso, mas isso conta apenas parte de uma história que na realidade é bem mais complexa. E isso porque, observações históricas demonstram que, em ciclos não muito ativos podem ocorrer explosões individuais que superam o poder médio de períodos bastante ativos. As previsões recentes são de que o ciclo atual seja o mais ameno desde 1928. Uma grande tempestade solar ocorrida em 1859 e conhecida como Evento de Carrington, em homenagem ao astrônomo inglês Richard Carrington (1826-1875), especialista em manchas solares, provocou prejuízos que, se repetidos agora, seriam incalculáveis. O evento, que se manifestou em 2 de setembro de 1859, foi o mais poderoso já observado por pesquisadores científicos e provocou problemas em escala planetária como incêndios em equipamentos de telégrafos, o meio mais sofisticado pelo qual o mundo então se comunicava. Relatos da época contam que as auroras foram tão intensas que permitiram a leitura de jornais mesmo durante a noite. Não temos, evidentemente, nenhuma chance de controlar o comportamento do Sol e por isso, mesmo com a interpretação de que explosões espetaculares são naturais e parte da vida da estrela que nos supre de energia, não custa torcer para que um fenômeno da intensidade manifestada em 1859 não se repita. Ao menos por enquanto. Porque um dia isso pode acontecer.
Escrito por blogdasciam às 16h15
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Relato de uma viagem antártica Empenhados na reconstrução da base antártica, na ilha Rei George, ou envolvidos com pesquisas no continente, marinheiros e pesquisadores científicos brasileiros se esforçam para desvendar os segredos do gelo e oferecer uma nova perspectiva na interpretação de informações estratégicas para o país, entre elas o da previsão do tempo. Ulisses Capozzoli Pesado como um gordo albatroz o Hércules com camuflagem militar toca a pista coberta de seixos e aciona a reversão, deslocando os passageiros que viajam em bancos de lona apropriados a pára-quedistas. Há nervosismo a bordo. Os novatos, que nunca puseram os pés aqui, sentem como se estivesse pousando na Lua. Torcem o pescoço, procuram uma abertura, a vigia estreita do avião, a porta aberta, mas bloqueada por um tripulante que impede o desembarque, antes que os motores estejam completamente desativados. Os veteranos, que já pisaram aqui muitas vezes, mas estiveram ausentes nos últimos tempos também sentem uma tensão atravessar os músculos. Quando a porta fica livre, ao final de um par de minutos, a primeira sensação do recém-chegado é a lufada de ar gelado que desloca ligeiramente o corpo e golpeia os pulmões como um soco no peito. A Antártida se estende por todos os lados. Ao norte, depois de alguma terra, está confinada pelo terrível Drake, o estreito que liga o Pacífico ao Atlântico e dá vazão às tempestades que se formam distantes e se deslocam em sentido horário castigando tripulações inteiras. Essa é a região mais tempestuosa da Terra. Ao Sul, a partir do narigão de terra que lembra o mapa de Minas, estende-se até o polo que já foi a região mais erma da Terra. Mas, desde 12 de dezembro de 1911, tem gravada o rastro das botas de exploradores. Amundsen, o habilidoso explorador norueguês chegou ali nessa data, acompanhado de poucos homens de seu grupo. Em seguida vieram Scott e seu grupo. Scott não sobreviveu para contar sua historia e o que sabemos deles foi gravado no diário que penosamente escreveu, confinado a uma tenda batida por um vento que, para o grupo, foi interminável. Um desvio à esquerda, muito antes do pólo, deixa um viajante imaginário nos domínios do mar de Weddell, onde o explorador irlandês Ernest Shackleton e os tripulantes do Endurance, o mais lendário dos barcos que avançou por aquelas águas geladas, viveram a epopéia que marcou a chamada Idade Heróica da conquista antártica. Essa odisséia transcorreu entre 1914/17, quando a Europa sangrava com a Primeira Guerra Mundial. Frentes frias Um deslocamento à direita, a oeste da Península Antártica, atravessa, entre outras regiões o Mar de Bellingshausen, fundamental para o cotidiano meteorológico no Brasil. Quase sempre é daí que emanam o que o noticiário do tempo se referem como “uma frente fria chegando da Argentina...” Há uma correria de gente que chega e de outras que querem partir. Pacotes, tratores, bagagens transitam pela borda leste da pista enquanto a tripulação do Hércules prepara a decolagem. O tempo aqui muda rapidamente e se o capitão e sua equipe não quiserem ficar presos à ilha devem aproveitar o tempo claro, com a visão que se estende à linha do horizonte, ou é bloqueada por montanhas próximas parcialmente coberta de gelo. Cada um toma seu rumo. Meu destino é a base brasileira incendiada no ano passado e agora em reconstrução. E devo embarcar no Felinto Perry, sob o comando do capitão Luiz Felipe Queijo Correia. Retorno à Comandante Ferraz, a base em reconstrução, 28 anos depois de ter passado mais de dois meses a bordo do navio oceanográfico da USP, Prof. Wladimir Besnard, numa viagem que me rendeu um livro, um conjunto extenso de reportagens que enviei por rádio, e uma experiência fascinante sobre a saga do explorador. Enquanto nos deslocamos para a base permaneço num canto abrigado do vento no convés do Perry. Antes disso almocei com o comandante Correia uma comida frugal, mas generosa. A temporada está próxima do fim. Na verdade o Perry deve estar partindo hoje (15) de volta para a casa. Sua despensa está quase vazia e alimentos frescos como um ovo são quase tão preciosos quanto um copo d’água no deserto. O jogo de luzes, numa atmosfera transparente, com superposição de camadas de diferentes temperaturas cria um ambiente incomum. Bem mais ao sul, onde o frio é intenso, caso do Weddell, o “espelhismo” atmosférico cria cenários bizarros. Icebergues situados abaixo da linha do horizonte podem ser vistos elevados na linha de observação. Mas não passam de puro miragem, como muitas produzidas pelo gelo. Subitamente, a 50 metros do barco, uma baleia emerge e cachimba por alguns segundos. É uma fêmea acompanhada de um filhote. Certamente se aproximou curiosa para identificar o ruído produzido pelos motores possantes do Perry, embarcação especializada em resgate de submarinos. Caçadores impiedosos Mas logo, para meu total desapontamento, ela mergulha e desaparece. Quem sabe o que a fez afastar-se de nós? Na Antártida, sob a hipócrita justificativa de “pesquisa científica”, baleeiros japoneses capturam, a cada ano, quase duas centenas desses magníficos animais. − Por que continuamos estendendo esse rastro maldito de sangue no mar antártico? −, resmungo comigo mesmo no abrigo do convés do Perry e, por uns momentos me convenço de que não merecemos a vida. Não respeitamos um animal magnífico como a baleia. Abatemos, não faz muito tempo, a golpes rudes de arpãos manuais e mecânicos, criaturas como as baleias azuis que podem atingir as 140 toneladas... Abatemos, em boa parte dos casos sem uma piedade mínima, e respeito algum, uma infinidade de outros animais para nosso próprio desfrute. Arrancamos a pele deles para cobrir nosso corpo nu, como se fosse um ato natural. Como se apenas trocássemos de roupa. O confinamento traz memórias e reflexões estranhas e estou vivendo essa experiência num canto protegido do vento, no convés do Perry. As geleiras se estendem ao longe, cobrindo o costado das ilhas. O sol rosado inicia seu mergulho no leste. O dia aqui, no verão, é bem mais longo que a noite e à medida que um viajante desloca-se para o sul esse fenômeno é acentuado. No polo sul, à latitude – 90º o dia dura seis meses no verão. Em compensação a noite também é de seis meses no inverno e isso pode ser profundamente perturbador. O Perry mergulha na enseada em cujo interior fica a base brasileira, não muito longe da unidade da Polônia, a Henrique Arctowisk, onde no passado partilhamos boa cerveja com seus ocupantes. Ainda que cerveja não seja minha bebida preferida. Prefiro um tinto que aquece o espírito, libera o coração de complicações e sensibiliza para um diálogo promissor. Desço até a base num bote conduzido por dois oficiais do Perry. Tenho tempo para fotos, interações e registros de que vou precisar, antes que a noite estenda seu capote escuro no céu, com furos por onde as estrelas se mostram. Sem me despedir do capitão Pernoito no Perry e no dia seguinte, às 6h00, com o ar gelado e a baia coberta por blocos de gelo que se chocam produzindo a sonoridade de cristais, passo para o Ary Rangel, outro dos barcos da Marinha que servem na Antártida. Não tenho tempo sequer para me despedir do capitão Correia, o que me traz certo embaraço. Da ponte de navegação, no entanto, recebo o aceno dele e retribuo. Indico com um gesto que vou telefonar. O Perry é um magnífico barco de resgate de submarinos, que eu sequer suspeitava existir. Sua tripulação é o que verdadeiramente se pode chamar de “lobos do mar”. Mergulhadores, podem descer até 300 metros no mar para resgatar um submarino acidentado, desenvolver tarefas estratégicas ou apenas aliviar a consciência da tripulação desses submergíveis de que dispõem de alguma proteção, em caso de acidentes. A bordo do Rangel retomo o contato com Virginia Petry, que pesquisa aves em um refúgio na ilha Elefante, a mítica ilha no Drake em que Shackleton se refugiou, depois que seu navio foi triturado pelo gelo. Ela, outros pesquisadores e eu mesmo vamos produzir o conteúdo para uma edição especial de Scientific American Brasil, mostrando o ponto em que estamos na Antártida. O voo de volta para casa é longo e cansativo. Partilho da companhia de Beny Schmidt e Marcos, o filho dele, no último estagio da viagem, até o aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. O aeroporto está congestionado e sobrevoamos o mar por algum tempo, perfurando densas formações de cúmulus, nuvens enormes e multiformes que lembram enormes porções de algodão. Minutos depois que descemos uma tempestade se forma e desaba com fúria surpreendente. Estamos exaustos no taxi que nos leva para casa. Temos pela frente um longo relato do trabalho que está sendo desenvolvido na Antártida e este é apenas um esboço do que deveremos fazer. Enquanto escrevo este pequeno texto a tripulação do Perry e dos outros navios que servem na Antártida estão apenas começando um longo caminho também de volta para o calor confortante de casa. Que tenham boa viagem.
Escrito por blogdasciam às 18h31
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Meteorito assusta e fere pessoas na Rússia Ulisses Capozzoli Bólido que atingiu a cidade de Tcheliabinsk, a sudeste de Moscou, junto à fronteira com o Cazaquistão liberou onda de choque que produziu destruição e feridos. Céu se iluminou com bola de fogo gerada pelo atrito com a atmosfera. O meteorito que caiu nas proximidades da cidade russa de Tcheliabinsk ─ a sudoeste de Moscou próximo à fronteira com o Cazaquistão na manhã de hoje (15/02) 1h20 horário de Brasília ─ assustou a população local e segundo informações russas deixou centenas de feridos. Quedas de meteoritos, como o que atingiu Tcheliabinsk, são incomuns, mas podem espalhar confusão e desentendimento, além de temor generalizado. As primeiras informações diziam que muitas pessoas foram feridas por estilhaços de vidro, o que deve ter intrigado muita gente. Por que vidro? Porque a onda de choque provocada pela entrada do bólido na atmosfera se espalha como o efeito de uma bomba e destrói, por deslocamento de ar, janelas e vidraças. E o que feriu as pessoas foram esses estilhaços. O mesmo deslocamento de ar fez desabar a estrutura metálica de uma construção e pode ter produzido outros danos ainda não dimensionados na região. Os dados disponíveis ainda no início desta manhã (horário de Brasília) falavam em 900 pessoas que tiveram assistência médica, das quais 31 foram hospitalizadas. Esses feridos podem estar aumentando neste momento, à medida que mais pessoas procuram hospitais e pronto-socorros. O bólido, segundo um despacho do jornal New York Times tinha massa de 10 toneladas, o que sugere um corpo do porte de um ônibus de pequeno porte. Uma conclusão evidente é que o meteorito era rochoso e não metálico, pois explodiu na atmosfera numa altitude que está sendo estimada entre 30 km e 50 km. Se fosse um corpo metálico como o Bendengó, o mais famoso meteorito encontrado no Brasil (exposto no Museu Nacional, no Rio de Janeiro) teria chegado intacto ao solo. Testemunhas que observaram o fenômeno na Rússia relataram uma bola de fogo de intensa luminosidade no céu, o que é absolutamente consistente com a entrada de um meteoróide na atmosfera. Confusão de nomes Meteoróide é o nome que se dá a um corpo no espaço que, penetrando a atmosfera, produz um rastro luminoso (mais ou menos intenso, dependendo de sua massa) e que, se sobreviver ao atrito, atinge a superfície da Terra como um meteorito. “Estrelas cadentes” são um exemplo comum disso, com a diferença que, nesses casos, os corpos que penetram a atmosfera têm o porte de um grão de arroz ou de milho. Um corpo um pouco maior produz um “sussurro” além da luminosidade e um maior ainda um silvo que lembra o projétil de um canhão. Um ainda maior produz a explosão observada na Rússia. O meteorito de Tcheliabinsk, como certamente ficará conhecido, tem relação com o asteróide 2012 DA14 que no final da tarde de hoje (17h25 de Brasília) atinge sua máxima aproximação da Terra num sobrevôo rasante que o coloca no interior do anel de satélites geoestacionários (que permanecem sobre um ponto fixo da superfície da Terra, embora estejam se deslocando em torno do planeta)? Em princípio isso seria possível, como inicialmente especulou o físico ruso Aleksandr Y. Dudorov da Universidade Estadual de Chelyabinsk. Mas dados mais recentes, liberados pela agência espacial americana (Nasa) dão conta de que se trata de dois corpos independentes, com rotas distintas. Para deduzir essa informação os especialistas analisaram o ângulo de entrada do meteorito na atmosfera e uma das fontes de informação para esse tipo de dedução pode ter sido satélites de vigilância militares. Entre outras razões porque o bólido caiu numa região importante em termos de armamento nuclear soviético, nos Montes Urais. Pessoas relataram um emudecimento nas comunicações por telefones celulares como efeito da queda do meteorito. Na verdade isso se deve a uma ionização (eletrificação) da atmosfera provocada pela entrada de um bólido celeste na atmosfera. Pergunta sem resposta Que reação teria sido adotada num caso desses, durante a Guerra Fria, o enfrentamento tenso que opôs especialmente Estados Unidos e a então União Soviética ao final da Segunda Guerra Mundial. Nunca saberemos a resposta a uma pergunta como essa mas, mesmo à distância, no tempo, ela soa profundamente preocupante. Pesquisadores russos, a bordo de aviões e com equipes em terra continuam investigando a área onde os detritos do meteorito caíram, em busca de uma possível cratera. A administração de Chelyabinsk chegou a informar que uma equipe teria encontrado uma dessas formações a 50 km de distância de cidade, mas ainda é cedo para qualquer conclusão neste sentido. O bólido explodiu na atmosfera e se espalhou, segundo sugerem os relatos, mas um bloco maior pode ter sobrevivido e produzido uma cratera. Testemunhas da entrada do bólido na atmosfera relataram a forte explosão, além da intensa luminosidade e uma cena dessas seguramente é de fato impressionante. Analisada friamente, no entanto, são todas manifestações de efeitos naturais produzidas por um corpo que penetrou a atmosfera. Asteróides e corpos de menor porte, como o que caiu em Tcheliabinsk são remanescentes, uma espécie de entulho cósmico, do que sobrou da formação do Sistema Solar há 5 bilhões de anos. Entre Marte e Júpiter, onde teoricamente poderia existir um planeta, há um cinturão de asteróides, impedidos de se aglutinarem num único corpo pelo poderoso efeito gravitacional de Júpiter. Com freqüência, choques entre essa corrente de corpos faz com que, como num bilhar cósmico, muitos sejam desviados para um órbita interna, o que leva muitos a penetrar a órbita da Terra, em torno do Sol. Asteróides são justamente temidos pelo choque que podem ter com a superfície da Terra (muitos já ocorreram no passado e poderão ocorrer no futuro se não formos capazes de armar um sistema de detecção e desvios dos que se encontrem em rota ameaçadora). Mas, ironicamente, nós, humanos, devemos nossa presença na Terra a um deles. O bólido que há 65 milhões de anos pos fim ao longo reinado dos dinossauros abriu espaço para a evolução dos mamíferos, a grande família de que somos parte.
Escrito por blogdasciam às 14h07
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O vôo rasante de um asteróide sobre a Terra 2012 DA14 passa a 27,7 mil quilômetros do planeta Por Ulisses Capozzoli O misticismo açucarado e o oportunismo deslavado que criaram e espalharam o terror de que o mundo acabaria em 21 de dezembro passado poderiam ter escolhido uma data mais promissora. No próximo dia 15, uma sexta-feira, um asteróide se aproxima perigosamente da Terra. Não eliminaria a humanidade, como prometeram os adeptos do caos. Mas se viesse a se chocar com o planeta, sobre uma área urbanizada, pulverizaria uma cidade média. A energia liberada pela transformação de energia cinética (deslocamento do asteróide com velocidade de aproximadamente 28,8 mil km/h) equivaleria, segundo estimativas da comunidade astronômica internacional, à das bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki, ao final da Segunda Guerra Mundial. Talvez a maior parte da população mundial esteja disposta a acreditar que uma proteção divina evitaria essa catástrofe de dimensões globais. Outros, também por razões religiosas, talvez tendam a aceitar naturalmente essa destruição como evidência de um suposto desgosto divino pela arrogância e desobediência humanas. A realidade, no entanto, é mais complexa e vai além disso. O caminho mais seguro, neste caso, é admitir que o choque de um bólido celeste, asteróide ou cometa, com a Terra é um risco real. Até porque já ocorreram muitos desses impactos no passado. O que fazer? Essa é uma pergunta interessante. Os governos podem e devem, num primeiro momento, ampliar o número de observatórios especializados em vigiar o céu para detecção de cometas/asteróides em rota de colisão com a Terra. O Brasil tem um desses observatórios no Nordeste. Mas talvez possa dispor de mais de um e o mesmo deve ocorrer em outros países, em especial do hemisfério sul. Essa medida é indispensável, mas não a única. Identificado um bólido em rota de colisão é preciso destruí-lo ou alterar sua rota e essa é uma tarefa mais sofisticada. Neste exato momento há um conjunto de considerações no meio científico internacional ligado a essa área para decidir qual a melhor alternativa. Algumas delas lembram situações de ficção científica. A mais promissora parece ser o desenvolvimento de uma nave não tripulada capaz de interceptar o corpo no espaço e ligeiramente alterar sua rota, tirando a Terra de sua alça de mira cósmica. Alguém pode pensar num foguete levando uma bomba atômica com a missão de destruir o cometa/asteroide ameaçador. O risco dessa estratégia seria fazer com que não um corpo único, mas uma chuva de destroços, se precipitasse sobre a Terra com efeitos igualmente destrutivos. O asteróide desta sexta-feira, o 2012 DA14, é membro de uma família chamada Apollo, cuja característica é penetrar a órbita da Terra em torno do Sol. Para entender essa situação, considere que a Terra gira em torno do Sol a uma distância média de 150 milhões de quilômetros. Pois os asteróides da classe Apollo também giram em torno do Sol mas se aproximam dele muito mais que a Terra e assim penetram o interior da órbita terrestre. O 2012 DA14 é um piolho cósmico, ainda que possa produzir estragos, entre eles escavar uma cratera de 1,2 km de diâmetro e dezenas de metros de profundidade, refazendo o perfil da Cratera Meteoro, escavada no Arizona por um bólido de tamanho parecido, numa data entre 25 mil e 50 mil anos atrás, portanto já na época do Homo sapiens. A proximidade do 2012 DA14 fará com que ele penetre o anel orbital dos satélites de telecomunicações, por exemplo, que ficam a 35.800 km da superfície da Terra. Assim é, sem exagero, um rasante terrestre. Com massa estimada em 130 mil toneladas nem de longe lembra o monstro de 10 km de raio que pos fim ao longo reinado dos dinossauros há 65 milhões, quando, no impacto com a Terra, liberou uma nuvem densa de poeira e vapor d’água que obstruiu a luz solar por um longo período e assim impediu a fotossíntese e a consequente fonte de alimentação dos dinossauros herbívoros, de que os carnívoros se alimentavam. O risco maior não chega a ser de um corpo desse tamanho, mas de alguns menores. Levantamentos da agência espacial americana, Nasa, sugerem a existência de pelo menos 4.700 asteróides com potencial de se chocar com a Terra, boa parte deles com diâmetro entre 2km e 3 km, o suficiente para um pandemônio global. O bólido que eliminou os dinossauros e abriu caminho para a ascensão dos mamíferos, de que somos parte, não apenas obscureceu o céu criando o que hoje chamamos de “inverno nuclear”. Ele também explodiu e incendiou parte da atmosfera, alimentando incêndios que se propagaram a longas distâncias. O impacto fez literalmente a Terra tremer, alimentando terremotos e maremotos, num inferno que nossos olhos não testemunharam porque ainda levaríamos milhões de anos de anos para nascer. Mas foi o que ocorreu. No Brasil existem pelo menos meia dúzia de crateras de impacto de bólidos cósmicos e uma delas fica ao sul da cidade de São Paulo, em Parelheiros. Essa cratera tem idade estimada de 6 milhões de anos e está quase inteiramente soterrada por detritos. Mais que a Terra, a Lua é testemunha silenciosa do bombardeio de bólidos que ocorreu com enorme intensidade na juventude do Sistema Solar. Pegue um pequeno telescópio e observe essa infinidade de cicatrizes na superfície lunar, preservadas pela ausência de vento, chuva e atividade geológica. Essa história do passado está gravada na Lua literalmente a ferro e fogo. A passagem do 2012 DA14, em vez de terror e medo, deve acender um alerta alaranjado. É necessário montar um sistema de defesa contra ameaças que chegam do espaço e essa não é nenhuma história de ficção. É a pura realidade.
Escrito por blogdasciam às 17h49
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O desvendamento da energia escura? Ulisses Capozzoli O artigo publicado em 2 de janeiro passado na revista científica Science, envolvendo um experimento em que um gás quântico (Gás de Fermi, ou Gás de elétrons livres) ultrafrio de potássio atingiu temperaturas abaixo do zero absoluto seguramente será uma das notícias de ciência deste ano, ainda que bastante precoce. E as razões para isso são pelo menos duas. Primeiro que isso ocorre pela primeira vez. Segundo que, por razões à primeira vista impensáveis, este experimento pode oferecer uma resposta para a expansão acelerada do Universo. A expansão acelerada, contrariando a previsão de que deveria estar se desacelerando, por ação gravitacional da massa do próprio Cosmos, foi detectada em 1998. Essa foi a principal notícia científica daquele ano, justificando um Prêmio Nobel em 2011 para três físicos americanos que fizeram essa detecção. Em meados do século 19 o físico britânico William Thomson (1824-1907), mais conhecido por aqui como Lord Kelvin, definiu a escala de temperatura absoluta e propôs que nada poderia ser mais frio que o zero absoluto. Posteriormente, no entanto, físicos se deram conta de que a temperatura absoluta de um gás está relacionada à energia média das partículas. Assim, o zero absoluto corresponde a um estado teórico em que partículas não tem energia alguma enquanto temperaturas mais elevadas resultam de energia médias mais altas. No início dos anos 50 se começou a entender que essa situação nem sempre é verdadeira. Normalmente a maioria das partículas contidas em um gás exibe energia próxima da média e apenas algumas delas se manifestam em energias mais elevadas. Se a situação for revertida, com maior número de partículas exibindo energias mais elevadas, um gráfico se inverte. Com a inversão o sinal de temperatura mudaria de positiva absoluta para negativa, como expõe o físico Ulrich Schneider, da Universidade Ludwig Maximilian, de Munique, publicado na revista Nature, de cujo grupo editorial Scientific American é parte. Schneider e seus colegas foram os autores do experimento que coloca o conceito clássico de zero absoluto de pernas para o ar. Uma particularidade fundamental de um gás a temperaturas inferiores às do zero absoluto é que imita o que é chamado como “energia escura”, uma espécie de gravidade repulsiva e não atrativa, como ocorre na vida cotidiana e em experimentos convencionais. Schneider sugere que os cosmólogos devem examinar essa situação com atenção, porque ela pode revelar a natureza até agora fugidia da energia escura. Na edição de março de Scientific American Brasil que neste momento está em fase de edição o físico brasileiro Cláudio Nassif, autor do artigo A surpreendente aceleração da expansão cósmica, publicado na edição que está nas bancas (janeiro) vai abordar essa situação em um artigo previsto para seis páginas. Com a leitura do artigo que está na edição nas bancas e as considerações a partir do experimento liderado por Schneider, mais uma vez os leitores de Scientific American Brasil terão nas mãos uma leitura que não apenas está nas fronteiras da ciência, mas que também fornece inteligibilidade a uma tema não apenas complexo, mas também fascinante.
Escrito por blogdasciam às 13h11
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Um retorno à Idade Média Ulisses Capozzoli Terminar 2012 sob boataria, prevendo o fim do mundo em 21 de dezembro, certamente merece alguma reflexão. Na segunda década do século 21, quando a Voyager-2 se encontra a mais de 18 bilhões de km da Terra, uma navegação que convive com temores típicos do passado pré-científico evoca um paradoxo perturbador. Navegamos rumo a outras estrelas, ao mesmo tempo em que retrocedemos no tempo e vivenciamos temores típicos da Idade Média. O que levou multidões nas mais diferentes regiões do mundo a dar crédito a uma fabulação sem qualquer sentido racional e temer, uma vez mais, o fim da humanidade? Várias questões podem ser levadas em conta para uma resposta possível e, em conjunto, é possível que elas forneçam uma idéia satisfatória. Vivemos uma crise de valores em que, de maneira geral, o que era não é mais e o que deve ser ainda não é. A sucessão e o ritmo de mudanças a que estamos submetidos dificulta a percepção de uma idéia de processo e o resultado disso é um movimento desencontrado, profundamente desestabilizador do ponto de vista da estabilidade emocional. Em pleno século 21 é possível que, com a idéia de fim do mundo, tenhamos de volta conceitos típicos de uma época pré-científica, da ciência mágica que antecedeu a ciência moderna. É como se tudo pudesse ser processado de um único golpe e assim fosse possível retornar àquilo que os mitólogos conhecem como a “idade dourada”, uma época em que, supostamente, habitássemos o paraíso. É possível que estejamos vivendo um retrocesso orquestrado por certo fundamentalismo de fundo religioso, refratário a princípios de racionalidade que formam a base do pensamento científico e de uma realidade pretensasmente contemporânea. Como o mundo não acabou, que justificativa fornecerão aos incautos que lhes deram crédito uma diversidade de gurus, embusteiros, oportunistas e desajustados psíquicos de várias ordens? Seguramente dirão que rituais, entre outras práticas desenvolvidas em diferentes regiões do mundo, tidas como “seguras para enfrentar o fim do mundo”, foram responsáveis pela manutenção da naturalidade das coisas, ou seja, impediram que o mundo viesse abaixo como anunciado. E assim continuarão explorando um filão rentável que extrai do desconhecimento mínimo de princípios naturais, lucros e outras vantagens indevidas. Talvez não faça sentido atribuir a uma indústria de entretenimento gananciosa e desprovida de elementares sentidos de ética a responsabilidade por este momentâneo (?) retorno ao obscurantismo. Mas não se pode dizer que essa versão inescrupulosa da indústria de lazer não tenha dado sua contribuição significativa para que as coisas tenham chegado a esse nível de retrocesso. Ainda na quinta-feira à noite, pelo menos dois canais de uma rede de TV por assinatura alimentavam um clima de dúvida e insegurança numa programação com a participação de “autores” e “pesquisadores” , gente destituída de qualquer base lógica, para não falar em equívocos elementares, erros grotescos e citações e comparações despudoradamente indevidas. O mundo de fato não acabou. Mas talvez não esteja muito longe disso. As trevas do obscurantismo, oportunismos e retrogradação há muito tempo não demonstravam o quanto estão manipulando a história das mentalidades.
Escrito por blogdasciam às 17h57
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Júpiter se exibe no céu Por Ulisses Capozzoli Se você observar um ponto extremamente brilhante no céu ao longo dos próximos dias, não se surpreenda e nem considere que está a ponto de se encontrar com uma provável nave alienígena. Você estará vendo Júpiter, o maior planeta do Sistema Solar. Júpiter já está, há algum tempo, bem evidente no céu, mas, neste domingo ficará ainda mais brilhante (com magnitude, unidade de brilho, -2,8). Às 22h45 (horário de Brasília) do domingo o gigante do Sistema Solar atinge a oposição, situação em que um planeta exterior (além da órbita da Terra) tem sua observação mais facilitada. Na oposição, Sol, Terra e Júpiter (nesta ordem) estarão alinhados. Júpiter pode ser localizado no interior da constelação do Touro, conhecida por sua estrela (alfa) mais brilhante, Aldebaran, “o olho do Touro”. Mas pelo menos 30 vezes mais brilhante que ela. A oposição de Júpiter, com a intensificação de seu brilho, pode facilmente confundir as pessoas surpreendidas com sua luz (na realidade, com a luz que reflete do Sol a aproximadamente 780 milhões de quilômetros, pouco mais de cinco vezes a distância Terra/Sol). Com suas medidas gigantescas, ao menos em comparação aos padrões da Terra, Júpiter é um grande espelho da luz solar, daí o brilho com que se mostra no céu. Se fosse um mundo oco (na verdade, Júpiter é um mundo gasoso com um núcleo formado por rochas) em seu interior caberiam mais de mil Terras. Com um diâmetro de 142,8 mil quilômetros (o diâmetro da Terra é de 12.400 quilômetros) Júpiter contém mais massa que todos os outros planetas juntos. Ao contrário da Terra, que exibe uma única lua, Júpiter tem 63 satélites, entre eles quatro conhecidos por Galileanos, porque foram observados por Galileu com sua pequena luneta, entre 1609 e 1610. Boa parte dessas luas, no entanto, são asteroides agarrados pela poderosa gravidade jupiteriana, ainda que as luas Galileanas (Io, Europa, Ganimedes e Callisto) tenham porte significativo. Io, uma lua com intensa atividade vulcânica e a mais próxima do planeta (421.800 quilômetros), tem diâmetro de 3.643 quilômetros. Europa, à distância de 671.100 quilômetros, tem diâmetro de 3.122 quilômetros Ganimedes (1.070.400 quilômetros) exibe diâmetro de 5.262 quilômetros. Callisto (1.882.700 quilômetros) mostra diâmetro de 4.841 quilômetros. Com binóculo 7x50 e apoio em tripé ou outro suporte como um coluna, soleira de portas ou mesmo uma parede é possível distinguir as luas de Galileu como pequenos piolhos cósmicos,. Mas, atenção, uma ou algumas delas podem estar ocultas atrás do planeta. Apenas o brilho da Lua, ou eventual cobertura de nuvens, pode ofuscar um pouco a visão do gigante do Sistema Solar. Um bom binóculo, ou melhor ainda, mesmo um pequeno telescópio, mostra também as manchas avermelhadas (num telescópio será tudo branco) do equador jupiteriano.
Escrito por blogdasciam às 18h25
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Areia de Marte lembra vulcões do Havaí
Por Ulisses Capozzoli Dados enviados pelo laboratório móvel Curiosity, que neste momento explora as proximidades da cratera Gale, no equador de Marte, revelam que a poeira que cobre a superfície no planeta, ao menos na área sob exploração, é formada por feldspato cristalino, piroxênios e olivina misturados a material amorfo, ou seja, não cristalino. O material, recolhido pelo Curiosity de um depósito formado por material transportado pelo vento, uma espécie de duna marciana, é muito semelhante ao solo vulcânico do Havaí, no Oceano Pacífico. Os minerais identificados na areia vermelha de Marte foram analisados por um dos equipamentos a bordo do Curiosity, o Chemistry and Mineralogy Instrument (CheMin). Essas identificações, aos poucos, vão cobrindo falhas no conhecimento da estrutura química do solo de Marte. Havia um conjunto de considerações sobre a composição química do solo marciano que os dados obtidos pelo Curiosity vão confirmando ou, em alguns casos, fazendo novas identificações, relata David Blake, do Centro de Pesquisa Ames, da Nasa, em Moffett Field, na Califórnia. O reconhecimento do solo marciano é indispensável para o objetivo da missão confiada ao Curiosity para estabelecer as condições em que cada um dos minerais foi formado, já que a composição química de rochas fornece informações mais ambíguas, a exemplo do que revelam minerais como diamante e grafite. Eles têm a mesma composição, mas estiveram submetidos a diferentes condições de formação, comparam os cientistas da missão. O CheMin, que à primeira vista sugere um nome chinês, usa difração de raios-X para análises, o mesmo recurso utilizado em pesquisas na Terra, mas o equipamento que o abriga foi reduzido para ser utilizado em Marte. Esse método permite identificação mais precisa em comparação com outros instrumentos empregados anteriormente em Marte. A miniaturização desse equipamento para uso em Marte abriu uma nova possibilidade de exploração na Terra, o que amplia mais uma vez o espectro de equipamentos de uso espacial que integra o uso mais cotidiano ao alcance de um número significativo de pessoas. Exemplo disso são os fornos domésticos de microondas que, inicialmente, deveriam atender a necessidades de astronautas em naves espaciais. A inovação a bordo do Curiosity deve ser empregada, na Terra, para exploração de petróleo, identificação de objetos arqueológicos e pesquisas farmacêuticas entre outras. Boa parte da superfície marciana é coberta por areia que se move em tempestades que podem durar semanas ou meses e o fato de esse material ter origem vulcânica oferece pistas novas aos cientistas planetários que trabalham em Marte, como David Bish, da Indiana University, em Bloomington, no sul dos Estados Unidos. Os 10 instrumentos montados na estrutura do Curiosity vasculham a superfície marciana em busca de informações do ambiente passado do planeta e buscam, em especial, condições ambientais favoráveis a vida microbiana no passado e ainda agora. Um par de naves gêmeas, as Viking 1 e 2, enviadas a Marte em meados dos anos 70, tinham a missão de identificar possíveis formas de vida no planeta, mas os resultados que enviaram para a Terra deixaram dúvidas que não foram solucionadas até agora. No século 19 a crença de vida em Marte (muitas se referiam a uma civilização complexa) não passou de puro equívoco, mas parte desse legado permaneceu na ficção científica e em versões místicas, sem qualquer consistência irrefutável.
Escrito por blogdasciam às 10h50
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Cidadãos cientistas localizam planeta extrassolar Ulisses Capozzoli A busca por planetas extrassolares em torno de estrelas não muito distante do Sistema Solar pode mudar profundamente o trabalho de astrônomos amadores em todo mundo e abrir uma nova perspectiva em pesquisa científica. Um esforço comum entre o que se pode chamar de “cidadãos cientistas” e astrônomos profissionais permitiu a descoberta recente de um planeta orbitando um sistema estelar duplo e que, a uma distância equivalente à de 1 mil vezes a que separa a Terra do Sol (1 mil Unidades Astronômicas) é orbitado por um segundo par estelar. O planeta, identificado como PH1 foi inicialmente detectado pelos amadores, Kian Jek, de San Francisco, na Califórnia, e Roberto Gagliano, de Cottonwood, no Arizona, segundo informações divulgadas pela University New Haven, em Connecticut. Uma equipe internacional de astrônomos identificou e confirmou a existência do planeta circunbinário, por localizar-se num sistema estelar formado por quatro estrelas. Planetas circumbinários estão no extremo da complexidade da mecânica celeste e por isso mesmo desafiam o modelo convencional de criação e evolução estelar. Até agora, apenas seis planetas foram localizados em torno de um sistema estelar binário, mas nenhum deles estava acompanhado, ainda que a uma distância razoável, de um segundo par estelar. PH1 foi detectado pelo método convencional de variação na luminosidade de uma estrela pela passagem de um corpo à sua frente. Trata-se de algo parecido a uma pulga que salta frente ao farol de um automóvel estacionado no campo, sob uma noite escura. Observações feitas com telescópios de superfície, como o Keck telescópio, com diâmetro de espelho de 8 metros, localizado em Mauna Kea, no Havaí, sugerem que o planeta tem um raio 6,2 vezes maior que o da Terra, portanto de 38.500 km, é um gigante gasoso. PH1 tem um período orbital de 138 dias terrestres em torno do par estelar com massa de 1,5 e 0,41 massa solar. O segundo par estelar gira em torno do sistema estelar binário à distância de 1 mil unidades astronômicas, ou seja, 1 mil vezes a distância da Terra ao Sol. Os amadores inscritos no projeto (planethunters.org.website) estão desenvolvendo um trabalho importantíssimo, avalia Jerome Orosz, da San Diego State University. Muitos dos sistemas automáticos do telescópio Kepler, utilizado na busca de planetas extrassolares, não funcionam tão eficientemente quanto seria de se esperar. Assim, segundo Orosz, a participação de amadores amplia significativamente essa busca. Gagliano, um dos descobridores do PH1 diz que é um enorme prazer ser um “cidadão cientista” e que se trata de um enorme privilégio colaborar estreitamente com astrônomos profissionais. No Brasil, o processo de consolidação da astronomia profissional, nos anos 70, deixou de lado um grupo promissor de astrônomos amadores. E o não reconhecimento, ainda hoje, da potencialidade desses “cidadãos cientistas” faz com que permaneçam à margem de oportunidades mais promissoras. Outra dificuldade no Brasil é a compra de telescópios e outros equipamentos de observação astronômica, devido a preços elevados e impostos de importação que fazem com que essa compra seja quase inviável. Uma revisão na política científica voltada para a astronomia amadora pode dar frutos promissores no futuro imediato. Mas essa é uma iniciativa que ainda não foi devidamente considerada.
Escrito por blogdasciam às 20h31
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Cometa ilumina o céu em 2013 Ulisses Capozzoli Em fins de setembro de 2013 um novo cometa deverá brilhar no céu mais intensamente que qualquer um desses astros que passaram pelas proximidades do Sol e puderam ser observados da Terra. O C/2012 S1 (ISON), cometa que neste momento está no interior da constelação zodiacal do Câncer, mas com magnitude 6,5, só é visível mais claramente com telescópios amadores de médio porte. Ele irá atingir sua máxima aproximação do Sol, o periélio, em fins de novembro do próximo ano. O C/2012 (ISON) foi identificado a partir de fotografias feitas em 21 de setembro passado pelos astrônomos Vitali Nevski, de Vitebsk, na Bielorrússia e Artyom Novichonok, de Kondopoga, na Rússia. Os caçadores de cometa encontraram esse astro com um telescópio com espelho de 40 cm de diâmetro do International Scientific Optical Network (ISON, na sigla em inglês). Quando foi localizado o C/2012 exibia magnitude 18,8, 100 mil vezes mais fraco que o brilho de uma estrela no limite de visibilidade a olho nu no céu noturno. O cálculo feito por astrônomos que rastreiam a órbita do cometa aponta que, no periélio, ele deverá aproximar-se a apenas 1,8 milhão de quilômetros do Sol (a Terra está a 150 milhões de quilômetros do Sol) e, em dois meses, ou seja, em janeiro de 2014, atingirá a máxima aproximação da Terra, de 60 milhões de quilômetros. As estimativas são de que o cometa poderá ser observado por telescópios de pequeno porte, ou mesmo binóculo, em fins do inverno de 2013. E entre fins de outubro e começo de novembro seguintes será visível a olho nu, eventualmente com brilho mais intenso que o da Lua Cheia. Observadores, no entanto, devem levar em conta que essa comparação é bastante enganosa, já que essa luminosidade leva em conta o corpo inteiro do cometa, o que significa que ele estará longe de ser uma segunda Lua Cheia no céu. No momento de brilho mais intenso, no periélio, o cometa ficará diluído pela luz do Sol e estará se deslocando para o norte, com uma cauda que deverá surpreender pela extensão. Próximo ao Natal ele será mais bem observado do hemisfério norte e, em 8 de janeiro de 2014, estará a apenas 2º da Estrela Polar, portanto, fora da visão de observadores do hemisfério sul. Água marciana Em Marte, a plataforma de pesquisas Curiosity enviou para a Terra imagens inequívocas de sinais de erosão produzida por um curso d’água nas proximidades da Cratera Gale, no equador marciano. Essa é a primeira vez que sinais de água corrente em Marte se tornam absolutamente evidentes. Os cientistas planetários da equipe do Curiosity estimam que a velocidade da corrente que deslocou pedregulhos era de aproximadamente 0,90 metro por segundo, confirmando mais uma vez, de forma indireta, a presença de água no solo congelado de Marte. O Curiosity é o laboratório mais sofisticado já enviado para a superfície marciana, com a missão de detectar formas de vida no planeta, ainda que possam ser estruturas relativamente simples, como bactérias e extremófilos (organismos que sobrevivem em ambientes desfavoráveis para outras formas de vida). A descoberta de formas de vida mesmo primitivas em Marte tende a consolidar a ideia de que a vida pode ser um processo mais amplo e presente em outros mundos além da Terra.
Escrito por blogdasciam às 15h09
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Ciência distante Ulisses Capozzoli Junto ao grande público, descobertas científicas em áreas de intensa divulgação pela mídia têm assimilação simples e imediatas, ao mesmo tempo em que sugerem a sensação de que, um dia, tudo estará revelado e estabelecido. A culpa, evidentemente, não é das pessoas, mas da carência de informação/formação, algo que observadores mais duros interpretam como “analfabetismo científico” e que evidencia a carência de conteúdos na formação escolar básica. Professores da rede básica, em número significativo, não estão preparados para sensibilizar seus alunos para a ideia, por exemplo, de que o Sol é uma estrela e só é visível durante o dia e com brilho intenso porque estamos muito próximos dele. Uma pena porque, essa carência, não permite que jovens estudantes façam descobertas fundamentais: que a Terra é nossa casa cósmica e, atrelada gravitacionalmente ao Sol, é uma nave natural viajando pelo braço da galáxia em que vivemos (a Via Láctea) à velocidade de 72 mil km/hora em direção à constelação de Hércules (ápex solar). E esse é apenas um dos muitos movimentos da Terra. Ela gira em torno de seu eixo em torno de 1.600 km hora na faixa do equador. E desloca-se em torno do Sol a aproximadamente 108 mil km/h, umas 120 mais rapidamente que os jatos comerciais. Pequenos observatórios astronômicos municipais, que prefeitos e vereadores deveriam estimular, tirando partido da disponibilidade de astrônomos amadores e de professores/pesquisadores aposentados mudariam radicalmente essa situação. Mas mesmo prefeitos e vereadores, em número igualmente significativo, não enxergam e por isso mesmo não se interessam pela criação de observatórios com potencial de educação e sensibilização indispensável ao aprimoramento cultural social. Assim, notícias como a referente ao bóson de Higgs (partícula que de acordo com a teoria chamada Modelo Padrão, da física, confere massa às partículas o que, em última instância significa dizer que confere massa ao corpo de cada um de nós) fica distante do entendimento mais amplo. Na prática significa dizer que uma parcela restrita da população beneficia-se do que se pode chamar de “cidadania científica”. As demais estão impossibilitadas de desfrutar desse direito natural. Ao lado de pequenos observatórios, museus, pequenos, médios e de maiores portes teriam importância fundamental nessa sensibilização para a ciência e compreensão da beleza e complexidade da Natureza. Mas mesmo os laboratórios básicos de escolas não existem, por falta de recursos, iniciativas e compreensão do que representam para a formação dos jovens estudantes. Os sucessivos governos apreciam divulgar investimentos em ciência, inovação e outros estímulos à produção científica. Mas sem irrigar as raízes desse processo, com recursos modestos, mas bem aplicados, é difícil acreditar que essa situação possa mudar mais profundamente. E isso significa dizer que precisamos de mudanças muito mais radicais que as consideradas por certa burocracia repetitiva. E até certo ponto castradora.
Escrito por blogdasciam às 15h40
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Diversidade da vida por Ulisses Capozzoli O pouso tranquilo do Curiosity, plataforma móvel que transporta a missão Mars Science Laboratory, em Marte, é o que se pode chamar de meio caminho andado na determinação de se detectar prováveis formas de vida em Marte. A comprovação de vida em Marte, como já é praticamente de domínio geral, está relacionada à interpretação equivocada (por um problema de tradução do italiano para o inglês) da existência de “canais artificiais” nesse planeta vizinho. Os “canais” foram entendidos como de origem artificial, provavelmente para uso agrícola, numa fase ingênua da astronomia planetária. Para se ter uma ideia dessas concepções, num concurso aberto na passagem do século 19 para o 20 houve, na França, um concurso que daria 100 mil francos a quem fosse capaz de estabelecer contato com uma civilização extraterrestre. As iniciativas foram as mais exóticas, mas à época levadas a sério. Houve quem sugerisse o plantio de culturas diferentes nas estepes da Rússia para sugerir o teorema de Pitágoras e assim anunciar que havia vida inteligente por aqui. Outros sugeriram a escavação de um poço que deveria ser inundado com querosene e acendido à noite, com a intenção de que marcianos ou outras criaturas supostas do Sistema Solar se dessem conta da vida inteligente. Mas havia uma curiosa restrição: contato com marcianos não valeriam, pois a experiência era considerada “fácil demais”. Num segundo momento da história da ciência (e isso durou até meados dos anos 50) a vida foi considerada um fenômeno discreto, ou seja, restrito à Terra, levando em conta uma provável singularidade do Sistema Solar. O matemático inglês James Jeans esteve por trás dessa interpretação ao defender a idéia de que uma estrela errante teria arrancado, por efeito maré, uma porção do Sol, o que teria dado origem ao Sistema Solar. Com a abundância de sistemas extrassolares, neste momento, a concepção de que estrelas comumente são acompanhadas de planetas (ainda que nem sempre isso ocorra) relativizou a ideia de vida tão restrita. De qualquer maneira, todas as formas de vida conhecidas até agora são as conhecidas na Terra. E o Curiosity pode mudar essa situação.
Escrito por blogdasciam às 12h11
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