Blog de blogdasciam


 Defaunação reduz a vida na Terra

Por Ulisses Capozzoli

 A deterioração ambiental da Terra está perigosamente mais dramática que abordagens tradicionais tem sugerido, o que deve estimular uma mudança radical de postura por parte de toda a sociedade humana, sob pena de efeitos imprevisíveis mesmo em curto prazo.

Um trabalho publicado na revista científica americana Science, com participação do pesquisador brasileiro Mauro Galetti, do câmpus Rio Claro da Unesp, revela que o processo de “defaunação” do planeta está levando a uma extinção em massa de animais de pequeno e médio porte.

A defaunação, segundo mostra a pesquisa, compilando dados da literatura especializada, leva ao desaparecimento de animais mesmo em áreas não desmatadas e aparentemente estabilizadas de um ponto de vista ambiental.

De acordo com a interpretação dos autores de diversos países (Estados Unidos, México e Reino Unido, além do Brasil) envolvidos com a pesquisa, estamos em meio a uma onda global de perda de biodiversidade inédita provocada por ação humana.

Os dados apontam que nada menos que 322 espécies animais foram extintas desde 1500, a infância do período das viagens de descobrimentos que se iniciaram em Portugal e, em seguida, se espalharam por Espanha, Holanda, França e Inglaterra.

À primeira vista pode parecer um período longo demais para trazer preocupações a uma única geração humana. A realidade, no entanto, é mais complexa e ameaçadora que sugere uma interpretação simplista, como a que a maioria das pessoas tende a fazer ao se referir a questões climático-ambientais.

Essas perdas se mostram também entre invertebrados − além de animais de grande e pequeno porte: 35% no curtíssimo intervalo de 40 anos.

Ameaça à sobrevivência

As conseqüências dessa perda de biodiversidade estão longe de serem apenas emocionais. Elas ameaçam a qualidade e mesmo continuidade da vida humana.

Ainda que o especismo esteja longe de uma discussão mais profunda, como já ocorreu com o racismo e sexismo, continuamos − por uma série de razões, inclusive de fundo religioso − a pensar que as outras formas de vida com que partilhamos o mundo estão aqui para atender nossos desejos e necessidades e teríamos um pretenso direito de explorá-las à exaustão.

O trabalho mostra que a defaunação afeta pontos estratégicos à sobrevivência humana por afetar processos ambientais críticos em pontos como:

Polinização: Insetos, entre eles abelhas que enfrentam ameaças em escala global, polinizaram 75% da produção agrícola mundial. Evidentemente que, com o comprometimento, ainda que parcial desse processo, a tendência é queda de produção nos campos.

Controle de pestes: morcegos e aves controlam pragas agrícolas que, de outra forma, seriam devastadoras. Nos Estados Unidos, onde as estatísticas são mais frequentes que em outras regiões do planeta, o serviço natural prestado por essas espécies é avaliado em algo como US$ 45 bilhões ao ano.

Ciclagem de nutrientes e decomposição: aqui, invertebrados e vertebrados (urubus, entre outros) desempenham papel estratégico na decomposição orgânica e ciclagem de nutrientes no ambiente.

Qualidade da água: a defaunação, mostra o trabalho, compromete a qualidade da água que também mostra oferta irregular em função de mudanças climáticas produzidas por aquecimento global, resultado de ações humanas.

Desaparecimento de sapos e pererecas

O declínio de anfíbios como sapos e pererecas aumenta a concentração de algas e outros detritos, o que compromete a qualidade dos recursos hídricos.

Saúde pública: a defaunação afeta a saúde humana de diferentes maneiras num processo complexo que se estende da desnutrição ao controle de doenças.

O clássico Primavera Silenciosa, da oceanógrafa e jornalista americana Rachel Carson (1907-1964), publicado em 1962 e que fundou o moderno ambientalismo em escala mundial, denunciou o silêncio nos campos provocado pelo uso intensivo do pesticida DDT.

A obra de Carson fez com que o DDT − empregado ao longo da Segunda Guerra Mundial no combate de mosquitos vetores de doenças como malária e outras enfermidades – fosse banido.

As preocupações que ela levantou, no entanto, apenas anunciam uma época de enormes preocupações ambientais, consequência, em grande parte, de um processo que alguns pensadores se referem como de “dessacralização” da Natureza e adoção de um consumismo desenfreado e inconsistentes com a potencialidade de um planeta com uma população em crescimento acelerado.

Evidências de pressões ambientais se manifestam de todas as direções e a escassez de água, ainda que anunciada há décadas, agora toma forma definitiva e chega literalmente às torneiras das moradias.

Formuladores de políticas imediatistas, no entanto, lamentam, entre outros acontecimentos, a retração do mercado de automóveis, como se esses objetos de desejo pudessem expandir para sempre e cobrir, inconsequentemente, a face de toda a Terra.

A verdade é que, em países como o Brasil, automóveis inundam as ruas e as estradas como a releitura de uma praga bíblica.

Para abastecê-los, além do combustível fóssil, é preciso ocupar os campos como recursos renováveis, como a cana-de-açúcar, que expulsa animais, destrói ambientais e literalmente calcina os que não conseguem escapar das línguas de fogo em locais onde o corte da produção ainda é artesanal, como nos primeiros tempos da escravidão.

A pressão sobre os recursos naturais cresce a cada dia e as perspectivas de alternativas mais promissoras para uma tomada de posição mais consistente enfrenta o cinismo e realismo apenas aparente de formuladores de políticas em que apenas interesses restritos e imediatos são levados em conta.



Escrito por blogdasciam às 17h10
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Os 45 anos da conquista da Lua

            Por Ulisses Capozzoli

Exatamente às 17 horas, 17 minutos e 43 segundos (horário de Brasília) da tarde de 20 de julho de 1969, pela primeira vez na história da civilização, uma pegada humana marcou a superfície de outro astro, além da Terra.

 Na tarde deste domingo, um dos maiores feitos da história da ciência completa 45 anos.

As pegadas foram produzidas pelas botas espaciais do comandante da missão Apollo 11, Neil Armstrong (1930- 2012), seguido pelo seu companheiro de pouso Edwin “Buzz” Aldrin, enquanto o terceiro membro da missão, Michael Collins, permanecia a bordo da nave de retorno à Terra, circulando em órbita lunar.

A descida, saudada com a frase que ficou para a história: “um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade” marcou o ápice de um processo que havia começado com o lançamento do Sputnik-1, o primeiro satélite artificial da Terra, pela União Soviética, em 7 de outubro de 1957.

O feito dos soviéticos foi recebido com surpresa e receio nos Estados Unidos que trataram de acelerar os processos para também enviar um engenho do mesmo tipo em órbita da Terra.

Os americanos receberiam um segundo e ainda mais surpreendente golpe, em 12 de abril de 1961, quando a União Soviética anunciou o vôo do primeiro astronauta (cosmonauta) russo, Iuri Gagárin (1934-1968).

O período era marcado pela guerra fria, o potencial confronto nuclear entre a então União Soviética e seus aliados e os Estados Unidos e a Europa Ocidental. Nesse contexto, os feitos no espaço eram utilizados como forma de propaganda por cada uma das potências, interessadas em demonstrar eficiência sobre sua oponente.

Análises simplistas tendem a considerar que “a conquista da Lua” foi resultado de uma queda de braço militar entre União Soviética e Estados Unidos, mas esse é um equívoco produzido por uma consideração reducionista quanto à complexidade da história.

O contexto teve como cenário de fundo um conflito potencial, mas ela apenas acelerou uma tendência natural de avanço que começou desde que os humanos deixaram seu berço ancestral, na África e, possivelmente, ao mesmo tempo, também no Sul da China.

A história dos vôos tripulados à Lua, que se estenderam até a Apollo 17, em dezembro de 1972, de forma algo perturbadora revela que, de alguma maneira, já estivemos no futuro e, de lá, retornamos ao passado a bordo de uma surpreendente máquina do tempo.

A Lua esquecida

Com a Apollo 17 − lançada em 7 de dezembro de 1972 e que pousou sua tripulação no mar, em 19 de dezembro – a Lua foi literalmente esquecida, como se, durante os anos 60, não tivesse sido a obsessão que consumiu bilhões de dólares em recursos e esforços até então inéditos na historia da ciência e tecnologia.

Por que a Lua foi esquecida?

A resposta para uma pergunta como essa é que o satélite da Terra, conquistado por uma tripulação americana, simplesmente deixou de ser uma meta política, ainda que, de um ponto de vista estritamente científico, ainda hoje não estejam encerradas as controvérsias envolvendo sua origem.

A teoria que prevalece hoje, remanescente das três principais originalmente propostas, considera que, na sua juventude, a Terra foi atingida por um bólido cósmico, um corpo do porte de Marte, que arrancou uma porção de sua matéria e a ejetou no espaço, onde um processo de condensação gravitacional deu origem à Lua.

Em vez da Lua, o que atrai as atenções e esforços neste momento é Marte, um mundo mais apropriado à ocupação humana que a Lua, mais estéril que o mais agressivo deserto da Terra.

Em Marte, sucessivas missões pousaram na superfície do planeta utilizando paraquedas e isso porque o planeta dispõe de uma atmosfera, mesmo rarefeita e com apenas traços de oxigênio, elemento liberado pelas formas de vida na Terra e indispensável à respiração de mamíferos como os humanos.

Em escala mais complexa, no entanto, a tendência é a Lua atuar como uma espécie de trampolim para Marte, em rotas que, no futuro nada distante, tende a fazer desse planeta vizinho uma espécie de “novo mundo”, tal como, no passado, ocorreu com a ocupação e colonização da América.

Um crítico apressado pode argumentar que a escala de desafios comparativos é muito maior, o que não deixa de ser verdade.

Mas também é verdade que a saga do espalhamento dos humanos sempre superou os obstáculos mais desafiadores: do grande vazio dos oceanos ou as vastas extensões de gelo e desertos.

Daí a beleza da expressão criada pelo pai da astronáutica, o russo Konstantin Tsiolkvski: “a Terra é o berço dos humanos, mas ninguém pode viver eternamente no berço”.

Qual a importância da Lua para a Terra, além de fonte de inspiração romântica e efeito maré que eleva as águas e mesmo a porção sólida da Terra?

Estabilizadora da Terra

A resposta é que, na ausência da Lua, poderíamos nem estar aqui, escrevendo ou lendo um texto sobre o quadragésimo quinto aniversário de sua “conquista”.

A Lua, desde que colocou ao lado da Terra, compondo um sistema planetário duplo,  atuou como um escudo contra bólidos que chegaram e continuam a vir do espaço profundo. Entulhos que sobraram da formação do Sistema Solar há 5 bilhões de anos, como cometas e asteróides.

A superfície craterada da Lua, visível por telescópios de pequeno porte, é uma clara evidência de que, na ausência dela, boa parte desses impactos teria atingido a Terra e o maior ou maiores deles poderiam ter produzido mais de uma extinção em massa, e eventualmente inviabilizando os humanos.

Além dessa função de escudo, a Lua desempenha também um papel de âncora estabilizadora dos movimentos orbitais da Terra. Isso significa dizer que as coisas, de um ponto de vista de mecânica celeste, envolvendo a Terra, só são como conhecemos devido à presença estabilizadora da Lua.

Em datas como essa é natural certa especulação sobre o futuro da Lua. Em linhas gerais, o que deve ocorrer?

Uma aposta razoável é que o retorno à Lua deverá ser promovido pela indústria do turismo. Inicialmente com vôos em órbita da Terra, como já ocorre. Depois com viagens até a órbita da Lua, como aconteceu com missões que antecederam a Apollo 11. E, então com pousos na superfície lunar.

O Japão já cogitou planos para criação de um complexo hoteleiro na Lua, o que ainda rescende a pura ficção científica. Mas a China, com um programa espacial determinado e ambicioso, pode se apossar desse troféu com a ambição que caracteriza seus projetos.

Onde esses hotéis serão instalados?

Certamente na face visível da Lua e não no lado oculto (não existe um lado escuro da Lua como muita gente ainda acredita). Da face visível um turista do futuro poderá observar as luzes das grandes cidades da Terra e, mais que isso, contemplar a Terra como se fosse a própria Lua exibindo suas diferentes fases no céu.

Turistas que estão nascendo agora

No futuro não muito distante turistas espaciais privilegiados, que talvez estejam nascendo agora, poderão observar, por exemplo, a beleza da Terra em fase cheia, inundando o espaço próximo com a luz azulada produzida por sua atmosfera.

A tendência é de o lado oculto da Lua – resultado de interações gravitacionais que fazem com que um dia e uma noite lunares durem cada um duas semanas da Terra – ser preservado para observações científicas do espaço profundo, livre, por exemplo, de poluição no comprimento de onda de rádio que caracteriza a Terra.

Uma questão intrigante nestes momentos é, também, um grupo, ao que tudo indica decrescente de pessoas que se recusam a acreditar que tripulações humanas já desceram na Lua.

Como explicar esse descompasso em pleno século 21.

O ceticismo quanto a viagens tripuladas à Lua remete a uma idade pré-científica que ainda não se esgotou. No Brasil, por exemplo, o processo de urbanização só se consolidou nos anos 70. Antes disso, a maior parte da população vivia no campo, com hábitos influenciados pelo ritmo da Natureza, sem base científica para conceber que sistemas de propulsão como os foguetes que entronizam satélites em órbita da Terra, possibilitam viagens no aparente vazio do espaço.

E que essas viagens só estão começando.

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por blogdasciam às 17h32
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Lições do futebol

 Por Ulisses Capozzoli

Com mais uma disputa neste sábado, para decidir a terceira posição entre as quatro finais, a goleada sofrida pelo Brasil na partida contra a Alemanha continua ressoando.

Um número crescente de observadores argumenta que Luiz Felipe Scolari é um técnico superado, comprometido com táticas e estratégias do passado.

Outros apontam que a verdadeira responsável é a presidente Dilma Rousseff, que empenhou fortunas na construção de estádios e que teria feito tudo dar errado.

Há quem diga que a Alemanha só fez o que fez porque investiu no futebol: formou quadros, sofisticou a formação intelectual de atletas, varreu a corrupção que contaminava o futebol no país e assim criou uma infraestrutura que explica seu sucesso.

Há, ainda, os que optaram por torcer pela Argentina, como forma de protesto contra tudo e todos.

Em meio a ondas de cientificismo, as soluções ultra-racionalizadas, flutuam os restos de um naufrágio denegado por palavras de ordem inspiradas em otimismo de autoajuda.

O futebol, como engenho e arte, é uma poderosa metáfora da vida.

“Hoje a bola não quis entrar” costumam dizer jogadores ao final de uma partida em que nada deu certo.

E isso acontece também na vida cotidiana.

Em alguns dias, tudo dá errado.

Mas em outros, por atuação inesperada da fada-madrinha, tudo corre às maravilhas e nos perguntamos o que aconteceu.

O gênio da lâmpada incorporou a realidade e atendeu nossos mais recônditos desejos?

Se o futebol for uma metáfora da vida, talvez o momento seja mais para reflexões.

Se quisermos mudar o futebol (e com isso ajudar a mudar o país) certamente é o caso de procurarmos um técnico mais arejado. E se não dispusermos de nenhum deles no país, o jeito pode ser procurar por algum fora daqui. 

Para recuperar o futebol certamente será interessante dispor de bons estádios e os que foram construídos para a copa estão aí para serem usados.

O caos previsto pelo catastrofismo oportunista não aconteceu e isso também deve ser levado em conta para não nos sentirmos os piores dos humanos.

A presidente pode ter seus deméritos. Mas cada um tem os seus e os de alguns são ainda piores que os de outros.

A corrupção, evidentemente, deve ser banida dentro e fora do futebol. Mas, se começar por aí, pode captar a simpatia da torcida e eventualmente espalhar para outras áreas para satisfação geral da nação.

Torcer pela Argentina?

Este talvez seja um caso sem solução.

Nada contra nossos simpáticos e extrovertidos vizinhos, talvez ainda mais esperançosos que nós (afinal, a partida contra a Alemanha até o momento da redação deste texto ainda não aconteceu).

No futebol, torcer pela Argentina deveria ser um caso de alta traição nacional.

Sem direito a fiança ou qualquer outro recurso de amenização.



Escrito por blogdasciam às 16h58
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Futebol transcende a intolerância

Por Ulisses Capozzoli

 Hoje, sexta-feira, primeiro dia sem uma única partida de futebol, desde que a Copa 2014 começou, há uma evidente síndrome de abstinência.

 As telas de televisão estão mudas em restaurantes, locais de trabalho e provavelmente na maioria das casas de torcedores ou de pessoas que podem nem mesmo se interessar por esse esporte, mas acabaram cativadas pela emoção dos últimos dias.

Ninguém comenta um lance, comemora um gol, sorri encantado por um passe que parece a mais pura magia. 

Os que odeiam futebol – claro essas pessoas existem – argumentam, por exemplo, que esse esporte não passa de idiotice, com 22 homens correndo durante quase duas horas atrás de uma bola.

Que existam pessoas que não apreciem futebol é algo compreensível, mas, que sejam capazes de plasmar uma frase tão estúpida quanto essa, é algo que exige resposta.

Se o futebol, de fato, correspondesse a esse simplismo, como explicar que seja o único esporte que fascina as pessoas em todo o mundo?

O futebol, na verdade, é uma arte refinada, mais que um esporte.

Experimente o leitor tirar, momentaneamente, o som dos estádios da TV – e mais que isso, a bobageira sem limites de determinados narradores. O que fica?

Uma dança, um balé, uma coreografia que envolve o deslocamento da bola para onde quer que ela vá.

Voando, momentaneamente fora do alcance de qualquer um dos atleta, ou rolando pela grama aparada, em toques curtos, longos, oblíquos, calculados ou, às vezes, puramente acidentais.

Há toda uma dança.

Um deslocamento em grupo da defesa. Uma movimentação do ataque que ocupa espaços aparentemente invisíveis.

A solidão do goleiro

O goleiro, o último homem da equipe que ataca, provavelmente relaxa por alguns segundos, enquanto a bola, esférica como a Lua, ameaça seu adversário com movimentos imprevisíveis.

O que passa pela mente de um goleiro nesses breves momentos de descontração?

Um goleiro conversa sozinho, instiga o ataque, torce, sugere determinada jogada, antevê uma revanche, uma jogada de uma partida anterior, de muitos jogos anteriores, de jogos de que ele sequer participou?

Provavelmente é o que acontece, daí o futebol, dependendo da qualidade com que é praticado ser mais arte que propriamente esporte, ainda que a divisão de territórios como esse não passe de necessidade que cultivamos de precisar coisas e fatos que, rigorosamente, não são nada precisos nem precisáveis.

Quando o goleiro russo Akinfeev engoliu o que o vocabulário futebolístico define como “frango” ou “penosa”, no jogo contra a Nigéria, por exemplo, por frações de segundo viajei no tempo, e certamente não fui o único, para recuperar a imagem de Yashin, o mágico goleiro russo de copas passadas.

Lev Ivanovich Yasin (1929-1990), conhecido como “pantera negra” na Europa e “aranha negra” no Brasil e América Latina, pelo seu uniforme inteiramente negro – na verdade numa época em que os goleiros se vestiam assim – foi o único goleiro, até agora, a ganhar a cobiçada Bola de Ouro, da revista francesa France football, para o melhor goleiro da Europa em 1963.

Melhor goleiro do século 20

Quando se aposentou, em 1971, a Federação Internacional de Futebol Associado (Fifa) homenageou-o com uma medalha de ouro especial pela contribuição que deu ao futebol. Informalmente, no gosto do público, que é o que realmente vale, Yashin foi considerado o melhor goleiro de todo o século 20.

A certa altura das ocorrências esportivas foi criado um prêmio, o troféu “Lev Yashin”, em homenagem ao Aranha Negra, mas posteriormente, por idiossincrasias impossíveis de se decifrar, o prêmio mudou de nome e agora se chama simplesmente “Luva de Ouro”.

Quando cometeu a falha quase cômica, a imagem, o nome, a memória de Yashin teria passado pela memória do jovem e inseguro Akinfeev?

Impossível saber.

A solidão do goleiro no estádio hiperlotado talvez só possa ser comparada à de Michael Collins, atravessando o lado oculto da Lua, sem qualquer contato com a Terra, com o abismo do espaço-tempo projetado ao fundo de sua pequena e frágil nave espacial.

E o atacante uruguaio, Luis Suárez, que atacou a dentadas o italiano Stefano Michelini?

Mesmo o simpaticíssimo presidente do Uruguai, José Mujica, entendeu que ele foi vítima de uma punição desproporcional.

Mas a primeira expulsão de um jogador na copa também foi de um Uruguaio, Max Pereira, resultado de uma agressão injustificável contra um atleta da Costa Rica no jogo mais faltoso da copa.

O que explica que um país cativante como o Uruguai, com o bom vinho que produz, um presidente absolutamente democrático tenha sido o responsável por duas das mais lamentáveis cenas desta copa mundial?

Talvez seja impossível saber.

No futebol, como na vida, nem tudo pode ser explicado.



Escrito por blogdasciam às 16h46
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As formas da Galáxia

 Estrelas localizadas do lado oposto da Galáxia podem trazer dados novos sobre a Via Láctea

Por Ulisses Capozzoli

Astrônomos do Japão e África do Sul detectaram um pequeno grupamento de estrelas Cefeidas do lado oposto da Galáxia, em relação à posição do Sistema Solar, que acenam com a possibilidade de novas deduções sobre nosso bairro cósmico.

A idéia de galáxias como um gigantesco aglomerado estelar, reunindo bilhões de corpos, foi proposta inicialmente pelo filósofo alemão I. Kant (1724-1804) em 1755. Kant chamou de “universos-ilhas” esses ajuntamentos que se reúnem em aglomerados e super aglomerados em movimentos regidos pela gravidade.

Durante muito tempo astrônomos consideraram que o corpo da nossa galáxia, a Via Láctea, correspondia a todo o Universo e isso só começou a mudar com o crescente poder de resolução dos telescópios.

Nos anos 30, do século passado, nebulosas de vários tipos que correspondem a remanescentes de estrelas mortas e berçário de novas estrelas ainda eram confundidas com galáxias.

Quando essa confusão se dissipou os astrônomos se deram conta de que muitas das “nebulosas” eram, na verdade, galáxias independentes como a nossa que deve dispor de 200 bilhões de estrelas.

O que veio a seguir foi uma descoberta feita com caneta e papel pelo astrônomo holandês Hendrik Christoffel van de Hulst (1918-2000) durante a segunda guerra mundial,

Hulst, que trabalhava no observatório de Leiden, sob direção de Jan Hendrik Oort (1900-1992) descobriu que o hidrogênio neutro emite num comprimento de 21 cm, o que foi confirmado, em seguida, por Harold Ewen e Edgard Mills Purcell.

Essa descoberta permitiu que os radiotelescópios mapeassem o corpo da galáxia que é, fundamentalmente, uma enorme concentração de hidrogênio, o elemento químico mais abundante de todo o Universo.

O mapeamento em rádio de nossas galáxia mostrou que ela tem a forma espiral e em um dos seus braços, o braço de Órion, abriga o Sistema Solar, a pouco menos de 30 mil anos-luz do núcleo galáctico.

No final do século 20 uma nova descoberta mostrou que a Via Láctea não é apenas uma galáxia espiral, mas uma espiral barrada, devido à forma de concentração estelar na sua porção central.

A descoberta anunciada pelos astrônomos japoneses e sul-africanos a partir de observações feitas com o Grande Telescópio Sul-Africano (Salt) permite a exploração de regiões extremas da Galáxia, de onde podem chegar novas informações capazes de melhorar o conhecimento que temos do que se pode reconhecer como nosso bairro cósmico.



Escrito por blogdasciam às 15h25
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 Ventos se intensificam na Antártida

Por Ulisses Capozzoli

Os ventos que varrem o Oceano Antártico, a massa de água que envolve o continente austral, são os mais intensos do último milênio e o mecanismo por trás desse processo são as mudanças climáticas por aquecimento global, segundo dados publicados por pesquisadores da Australian National University (ANU) na segunda-feira (12/05).

O Oceano Antártico, também conhecido como Oceano Austral ou Oceano Glacial Antártico, na verdade é o prolongamento, ao sul, dos oceanos Atlântico, Índico e Pacífico e soma uma área de pouco mais de 20 milhões de km².

Esses ventos, que aterrorizam navegadores praticamente desde o século 16, quando as ilhas subantárticas começaram a ser identificadas por embarcações que perseguiam focas e baleias, se intensificaram nos últimos 70 anos.

Nerilie Abram, co-autora da pesquisa publicada na revista Nature Climate Change, diz que a combinação de dados envolvendo a intensificação dos ventos e outros processos que ocorrem na região aponta para o efeito estufa, produzido por gases liberados por atividades humanas em escala global, e que retém parte do calor emitido pelo Sol na atmosfera da Terra.

Ventos intensos dificultam ainda mais a navegação no Oceano Antártico, particularmente na Passagem de Drake, um espaço aberto entre o sul da América do Sul e o norte do continente antártico, de aproximadamente mil quilômetros.

A passagem tem esse nome em homenagem ao corsário inglês Francis Drake que, colhido por uma tempestade quando navegava ao largo da costa oriental da América do Sul, teve seu barco desviado para a região que, desde sempre, atormentou navegadores, tanto de veleiros do passado como embarcações modernas e bem equipadas.

A intensificação dos ventos, no entanto, não atinge apenas navegantes. O estudo da equipe da ANU mostra que esses ventos, que evitam a costa oriental do continente e têm temperaturas mais baixas, acabam privando a Austrália de chuvas, e exatamente por isso são responsáveis por secas e incêndios.

Em meados dos anos 90, quando a Organização das Nações Unidas (ONU) intensificou a divulgação de dados relacionados ao aquecimento global com mudanças climáticas, o pensamento conservador contestou enfaticamente essa interpretação. Grupos de interesse, como a exploração e comercialização de combustíveis fósseis, acionaram lobbies e fizeram uma agressiva campanha procurando desacreditar essa interpretação.

Pressão econômica

O argumento do pensamento conservador, que arregimentou também jornalistas, mais comprometidos com a ideologia que com a metodologia, é que as mudanças seriam naturais e sem qualquer relação com atividades antrópicas.

Climatologia, de fato, é uma área complexa da ciência e exatamente por isso avessa a interpretações sumárias.

Mudanças climáticas, produzidas por fenômenos naturais, de fato ocorreram na Terra muitas vezes, sem qualquer intervenção humana. Na verdade, em períodos que os humanos ainda seriam uma construção do futuro.

Ocorre, no entanto, que as mudanças naturais foram longas, envolvendo ciclos de milhares de anos, como o que, há aproximadamente 13 mil anos, encerrou o último período glacial e iniciou o interglacial, em que estamos vivendo.

No interglacial, como o nome diz, as temperaturas tiveram elevação, as geleiras continentais se dissolveram, a oferta de água continental aumentou e, possivelmente, em função da conjunção desses fatores, a agricultura nasceu pelas mãos humanas, no chamado Crescente Fértil, que inclui terras que agora pertencem ao Iraque, há 12 mil anos.

Já o aquecimento com mudança climática resultado de atividades antrópicas se mostra muito mais rápido que a versão natural e uma das consequências disso é a incapacidade de adaptação de flora e fauna em escala global.

Num planeta com população acima de 7 bilhões de pessoas, o impacto desse fenômeno na atividade produtiva, em especial na agropecuária, é extremamente preocupante.

Outras áreas de enorme preocupação em relação ao aquecimento e mudanças climáticas são a extinção de espécies e a crescente carência na oferta de água potável, além da ocorrências de tormentas mais frequentes e destruidoras.

Climatologistas céticos quanto ao aquecimento global por ação antrópica ainda brandem suas idéias contrárias e com isso ainda cativam adeptos.

A verdade, no entanto, é que a ciência não é um processo que envolve consenso absoluto, o que torna natural, e mesmo desejável, a existência de críticos, independentemente da questão considerada.

Ocorre, no entanto, que desde Svante Arrhenius (1859-1927) Prêmio Nobel sueco de química de 1903, sabe-se que o dióxido de carbono (gás carbônico) é um gás de efeito estufa. Assim, ao menos em princípio, quanto maior a concentração desse gás na atmosfera, maior a tendência ao aquecimento.

E, em maio de 2013, a mesma ONU preveniu que, pela primeira vez na historia da civilização, a concentração dessa substância na atmosfera atingiu 400 PPM (partes por milhão).



Escrito por blogdasciam às 16h15
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Os dias dourados de Sol

  Por Ulisses Capozzoli                                                               

 Você pode sair à luz do Sol num desses dias de outono e se encantar com uma tonalidade ligeiramente mais dourada, menos intensa, por exemplo, que a luz branca e intensa do verão.

Por que essa variação na tonalidade da luz do Sol?

A razão disso está na inclinação do eixo de rotação da Terra de aproximadamente 23,5°, responsável pelas estações do ano.

No verão de cada hemisfério o Sol está mais a pino e a camada de atmosfera que sua luz atravessa é menos espessa, o que faz com que sofra menos interferência.

A partir do outono, no entanto, até o fim do inverno a situação é inversa e a incidência da luz solar é mais oblíqua para cada um dos hemisférios. Assim, a tendência é que o comprimento mais longo da luz, o vermelho, penetre a atmosfera com mais facilidade, ao contrário do que ocorre com o azul, mais curto, que acaba rebatido num jogo de espelhos formado pelos átomos dos gases atmosféricos.

Os físicos chamam esse processo de “espalhamento da luz”.

Essa situação fica evidente ao amanhecer e ao entardecer, ao longo do ano, quando o Sol, baixo na linha do horizonte, se mostra como uma enorme moeda incandescente, subindo à medida que o dia avança, por efeito da rotação da Terra, ou mergulhando abaixo dessa linha para a formação da noite, pelo mesmo efeito de giro do planeta.

Formação da Lua

Qual a razão da inclinação do eixo de rotação da Terra?

Essa é uma das questões aparentemente simples, mas que ainda não tem uma resposta clara. Pode ser que tenha resultado do impacto de um corpo com a jovem Terra, quando mesmo o Sistema Solar era muito jovem, e que deu origem à Lua.

O fato é que as estações do ano moldaram as características da vida na Terra.

Ursos, por exemplo, hibernam durante o inverno em seus hábitats naturais. Plantas florescem e dão seus frutos de acordo com a estação do ano. Hábitos e comportamentos humanos, como vestuário e alimentação também mudam ao longo do ano.

O eixo de rotação da Terra certamente influenciou mesmo a distribuição da população humana pela superfície do planeta, a partir da África, tida como o berço da humanidade.

Como isso aconteceu?

Bem, caçadores primitivos sem dúvida se deslocaram nas pegadas de manadas que mudavam periodicamente, ao longo das estações, buscando pastagens mais abundantes e generosas. Isso abriu espaços novos, estimulou ocupações diversas e acenou com cenários novos abaixo da linha do horizonte.

Nem sempre foi assim

Tudo isso pode fazer pensar que as coisas de certa forma sempre foram assim, ou seja, que a Terra sempre existiu e o Sol brilhou como hoje, mas isso não é real. 

Na verdade, o Sistema Solar se formou num dos braços da Galáxia, a Via Láctea, a cidade cósmica em que vivemos, há aproximadamente 5 bilhões de anos, quando a própria Galáxia era mais jovem, embora já tivesse idade de bilhões de anos.

O Sistema Solar formou-se de uma nuvem gigantesca, remanescente de uma estrela primordial que gerou uma ninhada de estrelas, as irmãs do Sol, agora dispersadas pelo vasto corpo da Galáxia.

Mas houve um tempo ainda anterior, quando a própria Galáxia não existia e antes disso o Universo foi tomada por uma grande escuridão, a chamada Idade das Trevas, que teria durado algo como 1 bilhão de anos.

Se você quiser saber como tudo isso aconteceu, e o que iluminou o Cosmos, produzindo o que pode ser expresso como um “a luz se fez”, leia o artigo de capa deste mês de Scientific American Brasil que está nas bancas, com o título de “O amanhecer cósmico”.

Você saberá que a luz nem sempre atravessou o céu da Terra como agora. Que nem sempre a Terra existiu. Que a Galáxia também se formou numa etapa de evolução do Universo. E que o próprio Universo emergiu com a manifestação de um ponto conhecido como singularidade, um enigmático e surpreendente ovo cósmico.

 

 

 

 

 

 



Escrito por blogdasciam às 13h14
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A ameaça de impactos cósmicos

Por Ulisses Capozzoli

Há um risco, maior que o estimado antes, de a Terra ser atingida pelo impacto de um bólido celeste, segundo dados divulgados pela organização Comprehensive Nuclear Test Ban Treaty Organization no último dia 21. 

A entidade que, como seu nome sugere dedica-se à vigilância de testes nucleares clandestinos, revelou ter identificado o impacto de 26 asteróides com a atmosfera da Terra no curto período entre 2000 e 2013.

 Esses 26 bólidos incluem o corpo que caiu nas proximidades dos Montes Urais, na Rússia, em 15 de fevereiro do ano passado e deixou pelo menos mil pessoas feridas por estilhaços de vidro e outros detritos.

 Neste caso, a transformação de energia cinética (movimento) do corpo que se chocou com a Terra, estimado em 10 mil toneladas, transformou-se subitamente em energia térmica (calor) e gerou uma explosão que estrilhaçou vidros de janelas de pessoas que foram verificar o clarão produzido pelo impacto.

 A onda de choque produzida pela explosão, além de romper janelas e transformar vidro rompido em projéteis, também lançou outras formas de detrito na baixa atmosfera que atingiram e feriram pessoas e seguramente animais.

 Quase sempre, quando se fala em impacto de asteróides, as pessoas tendem a pensar no corpo que teria se chocado contra a Península de Yucatã, no México, e pôs fim ao longo reinado dos dinossauros ao liberar na atmosfera vapor d’água e poeira que bloquearam a luz solar e provocaram a morte da vegetação.

 Sem alimentos, os dinossauros herbívoros, de que os carnívoros se alimentaram, foram eliminados e levaram junto seus antigos predadores.

 Mas esse era um asteróide comparativamente grande e mais raro, ao contrário dos menores, mas mais numerosos e igualmente ameaçadores.

 A conexão, no caso dos acontecimentos há 65 milhões de anos, pode sugerir um teatro menos violento que o que se manifestou na realidade e relativamente mais rápido. Mas o cenário não foi assim.

O armagedon

O corpo, estimado em 10 km de diâmetro, impactou com a Terra, explodiu e ejetou no espaço parte da atmosfera terrestre. Além disso, produziu uma quantidade de calor que teria alimentado incêndios em escala planetária, entre outros efeitos que aos olhos humanos teria sido a forma mais extrema de terror vinda do espaço profundo.

O mais frequente, no caso de bólidos vindos do espaço, são impactos com corpos menores, porque eles são mais numerosos, o que diminui os riscos de uma catástrofe, especialmente se ocorrer em uma significativa comunidade humana, mas também levaram a crer que esses acidentes cósmicos sejam menores que na realidade devem ser.

As chuvas de meteoros, por exemplo, que encantam astrônomos amadores e observadores eventuais, de forma geral são material desprendido de cometas e asteróides que passam pelas proximidades do Sol em suas órbitas quase sempre elípticas.

Uma “estrela cadente” que com freqüência marca o céu como um risco de fósforos cósmicos, quase sempre tem o porte entre um grão de milho e um de arroz e por isso mesmo não oferecem riscos na superfície do planeta.

Corpos maiores, no entanto, não foram nem serão tão inofensivos e essa possibilidade preocupa crescentemente a comunidade astronômica, em meio à comunidade científica de modo geral.

O mais significativo deles, ao que tudo indica o corpo de um pequeno cometa, caiu no vale do Rio Tunguska, na Sibéria, território da antiga União Soviética, em 1908, então praticamente desabitado.

A explosão que ocorreu na atmosfera, em Tunguska, liberou calor em quantidade suficiente para incendiar uma floresta com a extensão da área da cidade de São Paulo, numa devastação que só algumas décadas depois foi testemunhada por observação humana.

Explosão iluminou a noite

Para se ter uma idéia do cenário, registros falam que a luminosidade da explosão permitiu a leitura de jornais durante a noite, em Londres, a centenas de quilômetros  distante do grande vazio siberiano.

Mais recentemente ainda, em 1932, o que se imagina que tenha sido também parte de um cometa, chocou-se com a Terra na região do Vale do Rio Javari, um dos afluentes do Solimões  que, com o Rio Negro, forma o Amazonas, o maior rio da Terra.

Cientistas buscaram sem sucesso a cicatriz do impacto, da cratera, deixado pelo corpo que caiu no Vale do Javari, da mesma forma como também não foi encontrada de forma inequívoca a cratera produzido pelo bólido do Vale do Tunguska.

O que fazer para evitar um desastre que pode comprometer seriamente a estabilidade da civilização, uma questão que parece emergir do universo da ficção científica?

A resposta está em duas providências: identificar, ainda no espaço e relativamente distante, o corpo ameaçador e, em seguida, providenciar o desvio de sua rota para que  a Terra saia de sua alça de mira.

As duas questões até agora permanecem como um desafio, em particular a possibilidade de desvio de rota do corpo ameaçador, mas esforços nessa direção tendem a ser intensificados numa mudança de mentalidade que traz o que já foi ficção científica para a pura realidade, a exemplo do que ocorreu em outras áreas do conhecimento.

Talvez valha a pena acrescentar que esse bombardeio intenso da Terra por blocos desprendidos de cometas injetam água no planeta e com isso compensa as perdas por fotodissociação que ocorrem em elevadas altitudes da atmosfera fazendo com que o oxigênio precipite em direção à superfície, enquanto o hidrogênio, leve como pluma, forme um véu que se estende da Terra a uma distância equivalente à órbita da Lua.

Uma última e surpreendente relação:

A água que chega agora do espaço, e que no passado também foi trazida para a Terra no corpo de cometas que se chocaram com o planeta, forma perto de 60% da massa de um corpo humano.

Isso significa que, apesar do risco representado pelos cometas, ao lado de asteróides − que em alguns casos não são outra coisa que cometas envelhecidos – nossos próprios corpos foram, no passado remoto, parte de um cometa brilhante no céu.

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por blogdasciam às 16h03
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Um mundo como a Terra

Por Ulisses Capozzoli

O anúncio um tanto bombástico da identificação de um planeta com características próximas às da Terra na sexta-feira passada (18/04), orbitando uma estrela anã-vermelha a 490 anos-luz do Sistema Solar, é compreensível quanto à possibilidade de que mundos como o nosso possam ser abundantes no corpo da Galáxia, a Via Láctea e em outros “universos-ilha”, para usar a expressão de Kant, espalhados por todo o Universo.

Mas, considerada por outros aspectos, soa algo literalmente inalcançável, uma espécie de “paraíso perdido”, agora para tomar de empréstimo o título de uma obra do poeta inglês John Milton.

Kepler 186f, uma espécie de primo distante da Terra, foi identificado pelo telescópio espacial Kepler, atualmente fora de operação por um defeito em seu delicado sistema de apontamento. Astrônomos planetários identificaram o planeta analisando os dados coletados pelo Kepler pelo processo de trânsito planetário.

Imagine o farol de seu carro numa noite escura e que subitamente um inseto do porte de uma pulga cruze na frente deles.

Você, obviamente, não se dará conta disso. Mas um sistema sofisticado de detecção na variação na quantidade de luz emitida pelo farol de seu veículo (nesta analogia o Sol que abriga um planeta em sua órbita) seria capaz de identificar as dimensões do corpo da pulga, ainda que fosse incapaz de determinar sua massa.

Ao menos desde 1992, quando foi identificado o primeiro planeta extrassolar, ou seja, o primeiro planeta fora do reino do Sol, astrônomos planetários buscam um mundo do porte e características da Terra, na esperança de responder uma pergunta ancestral: se somos a única inteligência do Cosmos.

Evidentemente que a última frase do parágrafo anterior pressupõe vida, e vida inteligente, como concebemos à imagem de nossa própria existência e esse já é um reducionismo capaz de arruinar completamente um raciocínio mais amplo e complexo.

De qualquer maneira, de alguma forma procuramos nossa própria imagem em outros mundos e, na essência, sonhamos com a possibilidade de indagar a prováveis outras criaturas sobre questões que nos são fundamentais e para as quais ainda não obtivemos respostas satisfatórias.

Perguntas fundamentais

Entre elas questões ligadas à nossa própria origem e destino.

E também às origens e destino do Universo.

O Universo tem um começo e fim, em termos temporais, ou incorpora em si a eternidade, seja lá o que isso possa significar, talvez num processo de nascimento/renascimento sucessivo e infinito?

Claro, Kepler 186f é muito diferente de todos os mundos detectados até agora, ainda que não tenhamos tido uma imagem minimamente mais nítida de nenhum deles.

Mas está localizado na chamada “zona habitável” de uma estrela, distância entre um planeta e sua estrela mãe onde a água possa exibir seus três estados, como ocorre na Terra e assim sugerir as possibilidades de um ciclo hidrológico.

A estrela-mãe de Kepler 186f é uma anã-vermelha e isso significa que ela é muito diferente de nosso sol o que, de imediato, sugere que formas de vida, eventualmente humanóides que remetam às nossas próprias formas e ao nosso narcisismo ilimitado.

O que se poderia pensar a respeito deles?

Que teriam olhos diferentes e maiores que os nossos, já que esses órgãos, são verdadeiros detectores biológicos e, em nosso (e eventualmente em outros mundos) adaptados à estrela-mãe.

A estrela-mãe de Kepler 186f tem massa 10% a mais que a Terra, segundo as primeiras avaliações, o que é novidade em relação aos mundos até agora identificados, corpos do porte de Júpiter ou ainda maiores que o maior dos planetas do Sistema Solar.

Mas essa anã-vermelha emite menos energia que o Sol e Kepler 186f é o quinto e últimos dos planetas mais afastados de sua estrela-mãe, com o ano equivalente a 129,9 dias da Terra.

A luz que chegou aos sensores do telescópio Kepler e que agora os astrônomos planetários vasculham em busca de outros mundos, em especial mundos como o nosso, deixou a superfície da anã-vermelha que abriga o 186f há 490 anos, na verdade apenas 24 anos depois que Pedro Álvares Cabral e sua esquadra desembarcaram na costa do que agora é o Estado da Bahia, num anúncio formal da descoberta do Brasil.

Que quantidade de energia deveríamos despender para uma eventual viagem a Kepler 186f?

Imensidão cósmica

Quanto tempo levaríamos para cruzar essa extensão do oceano cósmico, levando em conta as limitações estabelecidas por Einstein de que corpos com massa não podem deslocar-se à velocidade da luz?

Einstein um dia será superado quanto aos limites de velocidade de deslocamento no espaço?

Essas são questões apenas teóricas que, eventualmente, apenas num futuro mais distante podem ocupar a atenção de cientistas que ainda não nasceram.

Por enquanto poderíamos pensar, com maior praticidade, economia e viabilidade, na ocupação de Marte e, depois disso, numa transformação de Vênus, como mundos que potencialmente podem abrigar uma futuro colônia humana.

Com frequência, pessoas perguntam se uma dia iremos para Marte.

A resposta, no entanto, é que já estamos indo, embora boa parcela das pessoas, absorvidas pelas formalidades da vida cotidiana ainda não tenham se dado conta disso.

Mais importante que Kepler 186f, Marte e Vênus em conjunto, deve estar a preocupação com o nosso próprio mundo, de realidade incontestável, a quinta pedra de nosso Sol, uma aquário esférico com um quarto de sua superfície formada por continentes e ilhas, onde temos certeza de que a vida floresceu e se desenvolve a cada início de manhã e fim de noite.

A Terra é nossa verdadeira morada cósmica, o único mundo onde temos certeza de que, por exemplo, chove. E quando as chuvas são raras ou excessivas os problemas se manifestam em uma ou outra extremidade de um espectro de profunda destruição.

Kepler 186f permanecerá por milhões, eventualmente bilhões de anos em órbita de sua estrela-mãe e, antes disso, seguramente teremos identificado milhões de outros mundos como a Terra.

Mas, para ao menos sonhar com cada um deles é fundamental que possamos preservar nosso próprio mundo.

Na ausência dele, o que significa dizer, na destruição dele, nenhum outro pode fazer sentido.



Escrito por blogdasciam às 15h35
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Crise de água potável

Por Ulisses Capozzoli

Em um mundo com aproximadamente 75% de sua superfície coberta por oceanos, o que justifica a crise de abastecimento de água presente no noticiário de várias regiões e, neste momento, intimamente relacionada à megalópole de São Paulo?

Do 1,3 bilhão de km³ de água do planeta, pouco mais de 1% é representado pela água doce e isso já reduz significativamente a oferta potável, aquela utilizada para consumo humano, atividades industriais e consumo pela agropecuária mundial.

É verdade que os oceanos têm participação majoritária no chamado ciclo hidrológico, o processo que regula a circulação da água na superfície e atmosfera do planeta, responsável pela purificação de aproximadamente 11 mil km³ de água a cada ano.

E a carência de água potável está intimamente ligada a esse volume de água purificada pelo ciclo hidrológico, que só foi desvendado ao longo de séculos de investigação.

Aristóteles, que se ocupou de quase tudo que diz respeito ao conhecimento, especulou que as profundezas da Terra eram responsáveis por uma espécie de geração espontânea da água. 

Ao longo do século 20 uma interação de campos que foi da hidrologia à cosmologia, passando pela evolução estelar, revelou que a água teve existência precoce no Universo.

Como nas demais áreas, também para a água, tudo começou com o Big Bang, a explosão da criação do Universo, segundo a cosmologia que tem esse nome.

Quase 400 mil anos após a explosão primordial, com a expansão e resfriamento do Universo, as partículas se acoplaram para formar os primeiros átomos e o volume maior desses elementos foi e ainda é representado pelo hidrogênio.

As primeiras estrelas foram bolas gigantescas de hidrogênio comprimidas gravitacionalmente para entrar em ignição nuclear e produzir o que hoje os astrofísicos chamam de síntese dos elementos químicos.

Numa fase relativamente curta, estrelas que “queimaram” hidrogênio e hélio deram origem ao oxigênio que, com o hidrogênio, forma a molécula H20, ou seja, uma molécula de água.

Assim, a água surgiu precocemente no Cosmos e ainda hoje fontes d´água estão localizadas em regiões como a enorme nebulosa de Órion, na constelação desse mesmo nome.

A nebulosa que há 5 bilhões de anos deu origem ao Sistema Solar era rica em água, segundo cientistas planetários consideram hoje. Dessa forma não seria surpreendente que a Terra reunisse parte desse estoque, ainda que o processo de formação de mundos seja complexo o suficiente para não permitir relações tão lineares.

Ainda no século passado ficou mais ou menos evidenciado que parte da água disponível na Terra chegou aqui no corpo de cometas que se chocaram com o planeta num bombardeio que há mais de 2 bilhões de anos foi intenso no Sistema Solar e que marcou, por exemplo, a superfície da Lua.

Na Terra, situada na chamada zona de habitabilidade do Sol, a água manifesta-se em seus três estados graças à chamada “ponte do hidrogênio”, que dá a esse elemento fundamental para a vida como conhecida, a capacidade de ser tanto vapor na atmosfera, líquida nas chuvas que se precipitam sobre a superfície e sólida, por exemplo, nas regiões polares.

Na Terra, a água está distribuída de forma bastante irregular, o que significa que algumas regiões são beneficiadas com esses recursos, enquanto outras se ressentem profundamente da escassez deles.

O Brasil dispõe de algo como 14% dos estoques de água doce do planeta, uma riqueza natural cada vez mais valorizada. A questão é que a maior parte deste volume está na região amazônica, distante da principal área de consumo, no Sudeste do país.

Estratégias nem sempre bem articuladas, perdas nas redes de distribuição e ausência de recuperação adequada de águas já utilizadas comprometem boa parte da oferta disponível neste momento em uma megalópole como São Paulo.

Assim, o equilíbrio entre oferta e demanda de água passa por um complexo sistema interativo, exigindo cuidados frequentes em termos de infraestrutura, previsões a mais longo prazo, educação para consumo equilibrado e outras questões estratégicas que nem sempre são devidamente consideradas.

Em 10 de novembro de 1980 as Nações Unidas criaram a década da água potável para sensibilizar administradores públicos em particular, e a sociedade humana em seu conjunto, para a importância de cuidados essenciais com a água.

Mas há um quarto de século atrás questões como essa pareciam, a muitos, apenas previsões pessimistas para o futuro.

Mas na nova década da água, de 2005 a 2015, o que parecia pura ficção é perturbadoramente real.

 

 

 

 

 



Escrito por blogdasciam às 17h24
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O novo século do cérebro

 Por Ulisses Capozzoli

Como um dos sistemas mais complexos da Natureza, o cérebro humano, é capaz de gerar sensações como pensamentos e emoções?

Legiões de neurocientistas em todo o mundo estão determinados a investigar processos que, um dia, devem nos colocar à frente de respostas que, longe de serem definitivas, levarão a novos questionamentos.

A diferença é que isso ocorrerá em um novo padrão, algo que o filósofo da ciência americano, Thomas Kuhn, considerou como “paradigmático” em sua obra Estrutura das revoluções científicas.

O ponto de partida mais promissor no processo de desvendamento do cérebro está no monitoramento da atividade elétrica de milhões de neurônios, as células nervosas, o que o neuroanatomista espanhol Santiago Ramón y Cajal chamou de “selva impenetrável, onde muitos pesquisadores se perderam”.

Métodos inovadores, na expectativa de neurocientistas, ao menos em princípio teriam condições de preencher vazios de conhecimento envolvendo processos que vão de um disparo de um neurônio a atos de cognição como percepção, emoção, tomada de decisões e um conjunto de processos de alta complexidade relacionados à consciência.

As novas perspectivas abertas para a compreensão do cérebro humano são o assunto de capa da edição de abril de Scientific American Brasil que chega às bancas neste fim de semana em todo o País.

Assinado por Rafael Yuste, professor de ciências biológicas e neurociência na Columbia University e George M. Churck, professor de genética ma Harvard University o artigo aborda “o novo século do cérebro”.

Desvendar os processos que ocorrem no interior de um órgão que consome boa parte da energia gerada pelo organismo, ainda que seu peso não supere 1,5 kg é um desafio na sequência de uma conquista obtida há quase 30 anos, desde que cientistas conseguiram mapear conexões entre cada uma das 302 conexões nervosas do verme Caenorhabditis elegans.

O desvendamento do cérebro tem como perspectiva imediata de desdobramento a chance de cura para doenças como Alzheimer, Parkinson, autismo e esquizofrenia que, em todo o mundo, afetam sem chances de libertação, a vida de milhões de pessoas.

Entre os projetos encarregados de investigar a complexidade do cérebro está o Brain (cérebro em inglês) com financiamento inicial do governo americano de USS 100 milhões ao longo deste ano.

O Brain complementa um conjunto de outros projetos fora dos Estados Unidos, caso do Projeto Cérebro Humano, financiado pela União Européia, com recursos de US 1,6 bilhão distribuídos ao longo de dez anos.

O século do cérebro, como escrevem Yuste e Churck, agora “paira sobre nós”.



Escrito por blogdasciam às 18h01
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Evidências da inflação cósmica

Por Ulisses Capozzoli

Uma descoberta intrigante, anunciada esta semana por cientistas americanos, certamente passou despercebida pela maioria das pessoas em meio ao noticiário sobre o avião perdido da Malaysia Airlines e a crise político-militar na Ucrânia, entre outros temas diários da mídia.

Trata-se da evidência da manifestação da chamada “inflação cósmica” teoria proposta pelo físico americano Allan Guth, em 1981, para explicar, entre outros pontos, o que os físicos chamam de “quebra de simetria cósmica”, um processo que separou matéria e antimatéria e permitiu a preponderância da matéria que forma o universo conhecido e estruturas como nossos próprios corpos, as nuvens que flutuam na atmosfera e as borboletas com seus voos aparentemente erráticos.

A inflação cósmica também está por trás de um fenômeno que os cosmólogos chamam de isotropia cósmica, ou seja, uma propriedade de o Universo mostrar-se como um todo homogêneo a observadores, independentemente da direção de observação, o que significa ausência de uma direção privilegiada.

A inflação cósmica teria ocorrido, segundo prevê a teoria, numa fase extremamente rápida (algo impensável para a mente humana, ainda que possa ser registrada como uma notação matemática) que se seguiu ao que ficou consagrado como o “Big Bang”, a manifestação de uma singularidade (quase sempre referida como uma explosão, daí o termo Big Bang) que deu origem ao Universo segundo essa cosmologia.

Este intervalo de tempo tem sido estimado como 10-35 a 10-32 segundo após a explosão primordial, quando o volume do Universo teria se expandido por um fator da ordem de 1050um crescimento tão acelerado que também está fora da compreensão humana por ausência de qualquer relação com a experiência diária que mantemos com as coisas do mundo.

Apenas para se ter uma idéia, é como se o diâmetro de um próton (partícula do núcleo atômico, ou núcleo do hidrogênio) passa abruptamente para o diâmetro de uma laranja e daí para, por exemplo, ao diâmetro da Lua, num movimento de expansão cósmica que já dura pelo menos 13,7 bilhões de anos, a idade científica do Universo.

Antes da manifestação da inflação, três das forças fundamentais da Natureza (força nuclear forte, força nuclear fraca e a eletromagnética) se encontravam unificadas em uma única.

A quarta das forças fundamentais da Natureza é a gravidade.

O cenário proposto pelos cosmólogos é que a temperatura (outro parâmetro impensável pela mente humana) apenas 10-35s após o Big Bang caiu para 1028 K e a simetria entre matéria e antimatéria foi rompida com a separação das forças fundamentais.

A evidência da inflação cósmica foi obtida a partir de perturbações no que os cosmólogos chamam de radiação cósmica de fundo em microondas, uma espécie de remanescente térmico do calor original produzido pelo Big Bang.

Um paralelo para se aproximar dessa idéia é imaginar, por exemplo, uma fogueira de uma festa junina e as cinzas que sobraram dela no dia seguinte.

O esplendor da fogueira é o Big Bang e as cinzas do dia seguinte a radiação cósmica de fundo.

A descoberta de evidências da inflação cósmica foi anunciada por uma equipe de cientistas americanos de um projeto chamado Bicep2, utilizando telescópios localizados no Pólo Sul, no coração do continente antártico, que fazem o monitoramento constante de uma pequena região do céu, tarefa facilitada pela posição privilegiada do pólo.

A equipe, com a participação de Allan Guth, o “pai” da teoria da inflação, relatou ter encontrado os vestígios da expansão cósmica acelerada observando a radiação cósmica de fundo que teria sido perturbada por ondas gravitacionais que percorreram o espaço-tempo nessa fase da infância cósmica.

O grupo diz que não apenas as marcas foram identificadas como são mais intensas que seria de se esperar.

A descoberta, que se confirmada é candidata fortíssima ao Prêmio Nobel de Física, lembra a detecção da própria radiação cósmica de fundo por um processo conhecido como “serendipidade”, algo parecido a uma pura coincidência, ainda que não possa ser reduzido a esta condição e que também justificou um Prêmio Nobel para os físicos Arno Penzias e Robert Wilson que então trabalhavam para os Laboratórios Bell, em meados dos anos 60.

As crises estampadas nas manchetes diárias dos jornais, evidentemente, não podem ser negligenciadas, e neste caso estão incluídos processos que vão do aquecimento global à ameaça no abastecimento de água de uma megalópole como São Paulo, indiretamente afetada por mudanças climáticas.

Mas, até mesmo para obtenção de energia de ânimo para enfrentar os fracassos anunciados a cada dia pelos economistas, como se o mundo não fosse durar mais que uma semana, certamente é saudável e necessário mergulhar no que pode se chamar de “misticismo matematizável”, idéias à primeira vista exóticas, mas que podem ser, e quase sempre são, corroboradas pela coerência das equações físico matemáticas.

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por blogdasciam às 17h19
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 Giordano Bruno e o papa Francisco I

Por Ulisses Capozzoli

 João Paulo II pediu perdão pela pena imposta a Galileu. Chega a hora de Francisco I tomar a mesma iniciativa em relação a Giordano Bruno

 

Uma análise de dados dos dois primeiros anos da missão Kepler para a detecção de planetas extrassolares revelou a identificação de 715 planetas em formação múltipla orbitando 305 estrelas da Galáxia.

Esse padrão múltiplo acena com a possibilidade de o nosso próprio sistema solar ser mais uma regra que exceção em meio aos 200 bilhões de estrelas da Via Láctea.

A missão Kleper, lançada em 7 de março de 2009, operou até maio passado, quando uma segunda falha no sistema de giroscópios, que assegurava a precisão no apontamento da nave, teve uma avaria que comprometeu a continuidade das operações.

Por volta de 95% desses 715 planetas são menores que Netuno, o oitavo planeta por ordem de distância do Sol, com quatro vezes o tamanho da Terra. 

A descoberta aumenta consideravelmente o número de planetas com porte mais próximo ao da Terra, algo como um parentesco cósmico capaz de revelar outras semelhanças possíveis, como porte e estrutura de eventuais formas de vida.

Nossos corpos têm um diálogo furtivo com o campo gravitacional da Terra, algo que passa despercebido numa consideração mais superficial.

Se a gravidade da Terra fosse mais intensa que é, nossas estruturas ósseas seriam mais sólidas e avantajadas, com corpos mais atarracados. Um campo gravitacional mais débil, no entanto, produziria um efeito contrário: corpos mais finos e delicados.

A idéia de que o Sistema Solar único, uma singularidade entre as estrelas, foi proposta pelo astrônomo e físico-matemático britânico James Hopwood Jeans (1877-1946). Jeans pensava que a passagem de uma estrela pelas proximidades do Sol teria arrancado dele uma porção de matéria, por efeito-maré, que originou seu colar planetário.

Acidente cósmico

De alguma maneira, o pensamento de jeans, um cientista brilhante e reconhecido por seus pares, perdurou até 1992, quando o primeiro exoplaneta foi detectado, por radioastronomia, na órbita de um pulsar, endereço onde dificilmente um mundo deveria ser buscado.

A razão para se pensar assim está relacionada ao fato de pulsares serem remanescentes de estrelas supernovas que explodem no estágio final de sua evolução, liberando enorme quantidade de energia o que, em princípio, literalmente vaporizaria um planeta.

Um dos 715 exoplanetas está localizado na chamada zona de habitabilidade, onde a água estaria disponível em seus três estados, permitindo o ciclo hidrológico.

Esse planeta é o Kepler-296f. Ele orbita uma estrela com metade do porte do Sol e apenas 5% do brilho de nossa estrela mãe. Mas o planeta exibe o dobro do tamanho da Terra. Os cientistas planetários ainda ignoram se esse é um mundo gasoso ou um núcleo rochoso envolto por uma densa camada de hidrogênio-hélio.

Ou, eventualmente, de um mundo-oceano, o que significa um possível núcleo rochoso cercado por um oceano profundo.

Muitas razões levam a ciência a buscar entre as estrelas da Galáxia mundos como a Terra.

O que desejamos saber, com essa busca, é se estamos sós ou temos companhia na aparente solidão do Cosmos.

Mundos do porte da Terra produziriam formas de vida e teriam processo evolutivo convergentes, ao menos em alguns casos,?

A depender do testemunho de um mundo próximo, caso de Vênus, por exemplo, no Sistema Solar, a resposta é negativa.

Inferno venusiano

Vênus tem praticamente o mesmo tamanho da Terra. Mas sem a companhia de uma lua, gira de “cabeça para baixo” e em vez de uma atmosfera favorável à vida, como a conhecemos, exibe um envoltório denso, pesado, opressivo e corrosivo.

Além de partilhar nossa presença no Universo com outras eventuais inteligências, conhecer mundos parecidos com o nosso e eventualmente sermos capazes de decifrar a origem e evolução deles é de fundamental importância para a compreensão e preservação de nossa própria casa cósmica.

Quanto à possibilidade de um dia nos transferirmos para essas novas moradias cósmicas, uma opção que seguramente virá com o futuro, por enquanto e durante muito tempo essa será uma promessa apenas potencial.

Antes de nos aventurarmos nas vizinhanças de outras estrelas, mesmo as mais próximas no corpo da Galáxia, deveremos ocupar planetas e luas do reino do Sol. Neste caso, mesmo Vênus, submetido ao que pode ser chamado de “engenharia planetária”, talvez um dia esteja apto para receber uma colônia humana.

Quanto à pluralidade dos mundos, para tomar de empréstimo a expressão do astrônomo francês Camille Flammarion (1842-1925) [Pluralidade dos mundos habitados] talvez tenha chegado a hora de se fazer justiça ao filósofo e astrônomo italiano Giordano Bruno (1548-1600).

Em fevereiro de 1600 Bruno foi queimado vivo, em praça pública, em Roma, acusado de heresia por questionar a infalibilidade do papa e defender que as estrelas são outros sóis e muitas delas têm planetas à sua volta, abrigando a vida.

A vida, como conhecida na Terra, ainda não foi identificada em nenhum outro mundo, mesmo do Sistema Solar, mas a possibilidade de que isso ocorra pode depender apenas de um pouco mais de tempo.

 O papa João Paulo II pediu perdão a Galileu pelas penas impostas pela Igreja Católica que o confinou a uma prisão doméstica até o fim da vida.

Francisco I, que ao final do seu primeiro ano de papado tem entusiasmado religiosos e céticos com a coragem de iniciativas, entre elas a de combater a corrupção dentro da Igreja, talvez possa pedir, como ocorreu com João Paulo II em relação a Galileu,  perdão pela pena bruta imposta a Bruno por ter tido a visão ampla do que viria com o futuro.



Escrito por blogdasciam às 18h33
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Os confins do Sistema Solar

 Missão que chega a Plutão no ano que vem amplia conhecimentos sobre origem e evolução do reino do Sol

Por Ulisses Capozzoli

 Ao final de uma viagem de 8 anos, um mês e 16 dias pelo espaço interplanetário a missão New Horizons chega ao seu alvo, o antigo planeta Plutão, agora reclassificado para planeta-anão Plutão, em 14 de julho do próximo ano.

Ao chegar ao destino, a New Horizons será primeira missão a examinar as bordas internas do Sistema Solar, desde que Plutão foi identificado pelo astrônomo amador americano Clyde Tombaugh, em 18 de fevereiro de 1930, ao final de um exaustivo processo de análise fotográfica com o recurso de um instrumento chamado cintilador. (http://goo.gl/tgzVLU) 

À época em que fez a descoberta do que durante décadas foi o planeta mais externo do Sistema Solar (ainda que devido à sua órbita altamente elíptica, temporariamente Plutão fique mais próximo do Sol que Netuno), os computadores que hoje executariam essa tarefa num piscar de olhos eram realizações do futuro.

A descoberta de objetos transnetunianos, ou transplutaniano, como o corpo 1992 QB1, o primeiro depois do próprio Plutão, foi possível pelo refinamento das observações astronômicas com equipamentos mais eficientes, como as câmeras CCD que aumentaram a sensibilidade dos registros fotográficos, coisa que os antigos filmes recoberto com sais de prata não podiam fazer.

Em Plutão a New Horizons deverá investigar e classificar a geologia e morfologia de Plutão e seu sistema de luas: Caronte, Nix, Hydra, Cérbero e Estige, entre as já conhecidas. E a perspectiva, como já ocorreu em mundos como Júpiter e Saturno, é que novas luas sejam identificadas.

Entre os objetivos secundários da missão está a investigação da atmosfera de Plutão e de Caronte, sua lua principal e a primeira a ser conhecida. Uma área de interesse particular no caso da atmosfera desses mundos é a interação que exibem com o vento solar, a chuva de partículas emitidas pelo Sol, em especial no pico de explosões, como ocorre agora e que inunda todo o Sistema Solar.

Limites do reino do Sol

Conhecer as fronteiras do reino do Sol, o que inclui o Cinturão de Kuiper, entulhos que sobraram da formação do Sistema Solar, e além dessa faixa mesmo a Nuvem Oort, são explorações indispensáveis para se desvendar em escala inédita a historia da sua formação, há uns 5 bilhões de anos, quando a própria galáxia, a Via Láctea, tinha pouco mais da metade da idade que exibe hoje.

A Nuvem Oort, referida de maneira algo sumária, é um berçário de cometas que, sob a ação gravitacional de estrelas próximas, dispara bólidos que podem tanto desprender-se em direção ao espaço profundo, em direção ao reino de outras estrelas, quanto encaminhar-se em direção ao Sol. Neste caso, dependendo da orbita que desenham, tanto podem fazer uma única visita à nossa estrela-mãe quanto serem capturados gravitacionalmente e se tornarem cometas periódicos.

Lançada em 19 de janeiro de 2006, a missão New Horizons viajou rumo a Plutão impulsionada tanto por foguetes químicos quanto pela técnica chamada de gravidade assistida. Neste caso, uma nave se vale da atração gravitacional de planetas ao longo da rota que deve percorrer “roubando” energia de cada um deles para deslocar-se.

Um sinal de rádio enviado da Terra em direção à nave demora pouco mais de 4 horas para chegar até ela e levar informações para um determinado comando, daí os computadores de bordo estarem programados para tarefas mais imediatas, sem tempo de serem transmitidas da Terra.

O descompasso do tempo em relação a uma nave nos confins do Sistema Solar, como ocorre com a missão New Horizons, é uma espécie de anúncio de uma época em que mesmo a velocidade da luz, o limite de transmissão de informação em nosso universo, terá a velocidade comparativa de uma carroça, no início do século passado.

Mas a viagem a esse mundo distante pode surpreender de muitas outras maneiras. A ciência não é uma atividade que possa ser desempenhada com base em algo como o bom senso. Ao contrário disso, a ciência é fundamentalmente um encontro com o desconhecido e, neste sentido, uma experiência profunda de estranhamento.

Ciência romântica

Em relação a Plutão, um enorme conjunto de considerações pode ser feito, a começar pelo seu descobridor, o simpaticíssimo Clyde Tombaugh, morto em 17 de janeiro de 1997, aos 90 anos, na localidade de Las Cruces, no Novo México.

Tombaugh teve interações próximas com astrônomos importantes de sua época, caso de Vesto Melvin Slipher (1875-1969), diretor do Observatório Lowell, em Flagstaff, no Arizona, de onde localizou Plutão.

E o próprio Percival Lowell (1855-1916), fundador do Observatório que leva seu nome foi responsável por boa parte da popularização da idéia de que Marte dispunha de canais artificiais e portanto era ocupada por criaturas inteligentes.

Slipher, por exemplo, é o verdadeiro mentor da idéia de um universo em expansão, de que Edwin Hubble tomou conhecimento em uma palestra em que o diretor do Observatório Lowell expôs suas idéias.

Hubble ficou com todo o crédito da descoberta quando, na verdade, tem o mérito de, em parceria com um ex-carroceiro, Milton Humason, ter feito as medidas da expansão cósmica, à época conhecida como fuga das galáxias.

Assim, de alguma maneira, a missão New Horizons remete a uma época de astrônomos individuais, quase heróis românticos, hoje substituídos pela chamada big science, equipes que podem ter dezenas de participantes, ainda que dirigidas por um líder.



Escrito por blogdasciam às 16h22
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A responsabilidade em relação à água

Por Ulisses Capozzoli

A estiagem atípica deste verão, com chuvas reduzidas e na melhor das hipóteses localizadas, traz um conjunto de questões que merecem a reflexão por parte de pessoas com noção de cidadania e, portanto, de vida em comunidade que, em ultima instância, é o que as cidades são: comunidades humanas.

Os humanos são animais sociais e a evidência mais clara disso é exatamente a da vida comunitária, em aldeamentos, povoados, vilas, cidadezinhas, cidades médias, grandes, metrópoles e megalópoles, caso em que cidades fundem-se entre si (conurbação) para formar um único e gigantesco espaço urbano.

Cidades, de um modo geral, ainda que isso valha mais especificamente para os grandes espaços urbanos, exigem uma enorme complexidade em termos de abastecimento de bens como alimentos e principalmente água.

E o que a estiagem deste verão está mostrando é que o abastecimento de água na cidade de São Paulo e outras está em risco, por esgotamento dos reservatórios e limitação das fontes de abastecimento desses estoques hídricos.

Em princípio isso não faria sentido, considerando que o Brasil detém perto de 14% dos estoques mundiais de água doce, o que significa dizer que, neste critério, somos os mais favorecidos em escala planetária.

Ausência de planejamento urbano, infraestrutura precária e má gestão pública do espaço urbano, algo histórico no Brasil, entre outros efeitos, anulam, no entanto, essa posição natural privilegiada e corremos o risco de enfrentar racionamento d’água, se as chuvas não chegarem logo e em abundância.

Administradores públicos têm apontado que o desconto no preço da água, adotado em caráter de urgência e absolutamente procedente está contribuindo para a economia.

O que pretendem com isso é capitalizar, com oportunismo, uma atitude cidadã das pessoas, evidência de que o conjunto da sociedade é capaz de iniciativas e movimentos de solidariedade, preservação, responsabilidade e respeito em relação a questões como a garantia no abastecimento de água.

O que já não se pode dizer de empresas públicas encarregadas do abastecimento de água e isso vale tanto para as megalópoles quanto para as pequenas cidades.

A média brasileira é de perda de 37% da água tratada e potencialmente disponível para consumo por vazamentos numa rede de qualidade insatisfatória.

Na cidade de São Paulo esse índice baixa para 26,5%, mas ainda assim é elevado em comparação, por exemplo, com as perdas do Japão, que não superam os 3%.

E em São Paulo a Sabesp, empresa encarregada dos serviços de água e esgoto, ainda é uma das responsáveis pelo esburacamento diário das ruas, sem reparos à altura, o que torna a qualidade das pistas de rolamentos para automóveis e trânsito de pedestres quase uma aventura.

Atitudes como a que o conjunto da população está tomando, no sentido de economizar o consumo de água, de forma a evitar racionamento e situações ainda mais imprevisíveis são fundamentais não só em casos como o da água, evidentemente. Elas se estendem a todo o conjunto de relações que dizem respeito à vida comunitária em especial nas grandes cidades e nas megalópoles.

O noticiário diário da mídia, carregado de negativismo e previsões sombrias, certamente deve abrir algum espaço para uma atitude que, na essência, é a fundamental: a atitude responsável, respeitosa e consequente do conjunto da sociedade em relação a um bem que é indispensável para a vida: a água.

 



Escrito por blogdasciam às 15h58
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