Blog de blogdasciam


Primavera começa na noite de segunda-feira

Por Ulisses Capozzoli 

Exatamente às 23h29 (horário de Brasília) da próxima segunda-feira teremos o equinócio de primavera, quando o Sol ˗˗ em seu deslocamento aparente em relação ao equador ˗˗ deixa o hemisfério norte e inicia o mergulho no sul até o deslocamento máximo nesse sentido, definido pelo solstício de verão, em 21 de dezembro.

Deslocamento aparente do Sol refere-se a um movimento  que, como o próprio nome diz, é apenas aparente, pois é produzido por duas situações básicas: a inclinação do eixo de rotação da Terra, de aproximadamente 23,5 graus e o deslocamento (translação) da Terra em torno do Sol.

Os limites desses deslocamentos aparentes são definidos pelos trópicos de Câncer, ao norte, e Capricórnio, ao Sul.

Por que a Terra tem essa inclinação de seu eixo de rotação, enquanto em outros planetas essa referência é tão mais acentuada? Vênus, por exemplo, praticamente gira de cabeça para baixo.

Respostas a perguntas como essa, aparentemente simples, não são tão simples assim, ainda que se possa especular que, por exemplo, o choque de um corpo com a Terra no passado remoto foi o responsável por isso.

A esse impacto também é atribuída a origem da Lua. O corpo impactante, do porte de Marte, teria arrancado uma porção da Terra que voltou a se coalescer no espaço e formou a Lua.

E o surpreendente é que, desde então, a Lua tem atuado tanto como um estabilizador do movimento da Terra ˗˗ uma espécie de âncora cósmica ˗˗ e também como um escudo.

Parte de bólidos vindos do espaço profundo e que teria como destino a Terra foi barrada pelo escudo lunar e isso pode ter mudado a história da vida no planeta.

Mas a própria inclinação do eixo de rotação terrestre, produzindo as estações do ano, também influenciou profundamente o desenvolvimento da vida no planeta. E isso foi significativo no processo de espalhamento da população humana desde épocas muito distantes.

As estações do ano transformam radicalmente a superfície do planeta, cobrindo de gelo e neve determinadas áreas durante o inverno, enquanto a outra fica livre dessas formações e, à medida que as estações se alternam, essas situações se alternam.

Animais, como ursos, hibernam durante os longos invernos do norte (não há ursos na Antártida, entre outras razões pelos efeitos do isolamento do continente, ao contrário do que ocorre no Ártico).

A influência no deslocamento de populações humanas deve ter ocorrido a partir de populações de caçadores-coletores, antes da fundação da agricultura, há 12 mil anos, no chamado Crescente Fértil que inclui áreas do Oriente Médio.

A escassez de chuvas no inverno, e a abundância delas, com pastagens verdes e nutritivas, levou a ainda leva animais a migrações, como ocorre na África. E atrás dos rebanhos de gnus e outros animais seguiram grupos humanos de caçadores.

Isso tudo significa que, sem a inclinação do eixo de rotação da Terra, a história da vida no planeta seria inteiramente distinta da que conhecemos hoje.

Referências como essa devem estimular a reflexão quanto a uma série de outras situações, entre elas o período de evolução de estrelas com a massa do Sol, que condicionam a vida como conhecemos.

 

A maior parte das pessoas, no entanto, aparentemente vive apressada e desvinculada das relações com a Natureza o suficiente para sequer desconfiar de como, o que parece apenas um detalhe, pode ser profundamente significativo para a vida.



Escrito por blogdasciam às 14h18
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Surpresas de uma chuva de meteoros

 Por Ulisses Capozzoli

 

Se você gosta de observar o céu, mesmo a olho nu, mas não tem programação, nem uma ideia clara do que observar, aqui vai uma dica. E com algum tempo de avanço, exatamente para você poder se preparar.

Em 17 de novembro próximo ocorre o pico de intensidade da chuva de meteoros Leonídeos, conhecida por esse nome porque parece emergir do interior da constelação zodiacal do Leão.

Leonídeos é a chuva de meteoros ˗˗ essas chuvas são popularmente conhecidas como “estrelas cadentes” ˗˗ mais importante do ponto de vista da astronomia meteorítica. Entre outras razões porque foi a primeira observada cientificamente. E quem fez isso não foi um astrônomo, mas o geógrafo, naturalista e explorador alemão Alexander von Humboldt (1769-1859).

Foi ele quem se deu conta, ao menos para os registros científicos, que essa chuva produzida por material liberado no espaço pelo cometa Temple-Tuttle, provém do interior da constelação do Leão.

Na realidade, as coisas são ligeiramente diferentes.

 Leonídeos e outras chuvas não emergem exatamente de um ponto do céu, agora chamado radiante. A sensação de que isso ocorre deve-se a um efeito de perspectiva para um observador na superfície da Terra.

O que ocorre de fato é que as chuvas de meteoros são produzidas por meteoroides, corpos que circulam pelo espaço e que podem ter, do porte de um grão de arroz ou menos, até vários quilômetros de diâmetro. Ainda que um corpo de grande porte neste caso seja, frequentemente, referido como asteroide.

Como um cometa libera material no espaço?

Cometas, na definição do astrônomo americano Fred Whipple (1906-2004) não passam de “bolas de gelo sujo”. Assim, cada vez que se aproximam do Sol em suas órbitas elípticas (como um anel achatado) se aquecem e experimentam reações químicas em seu interior.

As reações químicas, por estímulo térmico do Sol, produzem efeitos interessantes no corpo de um cometa.

Um desses efeitos é a formação de jatos de gases, atuando como se fossem pequenos foguetes, que podem, por exemplo, influir na rotação do cometa.

Sujeira dos cometas

As reações também liberam partículas sólidas, que podem ser blocos maiores ou os grãos de poeira cósmica do porte de um grão de arroz, por exemplo. É esse material que entra na atmosfera da Terra à velocidade (chamada velocidade cósmica) de 72 km/s e, reagindo com os gases atmosféricos, deixa rastros luminosos a elevações em torno de80 km/s, os chamados meteoros.

Então, para dissiparmos uma confusão muito frequente, temos três termos para distinguir uma coisa da outra e que, quase sempre, são confundidas:

Meteoro é a luz produzida por um meteoróide que entra na atmosfera da Terra. Se o meteoroide, após produzir um meteoro (o risco luminoso), sobrevive ao atrito e pousa na superfície, então temos um meteorito.

As pessoas se perguntam se um dia desses vamos ser atingidos por um bólido vindo do espaço profundo em alta velocidade.

A resposta é que isso acontece o tempo todo. A diferença está no porte desses bólidos. Em vez de um corpo do tamanho de um ônibus médio, como o que caiu recentemente na Rússia, somos atingidos por objetos menores: coisas que variam de um pedregulho aos, mais frequentes, grãos de areia cósmica.

As estimativas são de que, a cada ano, pelo menos 100 mil toneladas de material pousam na Terra vindo do espaço profundo. E não incluem apenas meteoróide.

Cometas, que normalmente abrigam reservatórios congelados de água, também podem liberar blocos que mergulham na atmosfera, onde são vaporizados. E isso significa que, a cada dia, recebemos um pouco mais de água na Terra.

Ocorre que a Terra também perde água para o espaço.

Como isso ocorre?

Certos tipos de nuvens, de elevadas altitudes, sofrem bombardeio intenso de radiação ultravioleta do Sol. Com isso, moléculas de água são fotodissociadas, ou seja, tem suas ligações atômicas entre dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio (H20) quebradas. Com isso temos os dois átomos de hidrogênio e um único de oxigênio liberados em suas formas atômicas.

Como oxigênio é mais pesado, mergulha em direção à superfície da Terra, por atração gravitacional. Já o hidrogênio, levíssimo, voa para o espaço e forma uma cabeleira que se estende até as proximidades da órbita da Lua.

Perdas compensadas

Então, a água que chega, trazida por cometas, de alguma maneira compensa a água perdida por fotodissociação em nuvens de elevada altitude.

Água é algo abundante no Universo. E mais que isso: a água se formou muito precocemente no Universo.

Como isso aconteceu?

Aconteceu quando as estrelas, depois de produzir oxigênio (a partir de hidrogênio) na chamada síntese dos elementos químicos, liberaram em meio a uma enorme explosão de supernova todo esse material no espaço.

O que a Natureza faz, por atrações físico-químicas, é compor átomos de hidrogênio e oxigênio e formar água. Enorme quantidade de água, elemento fundamental para a vida como é conhecida na Terra.

Agora, duas outras considerações que podem influenciar você na observação de Leonídeos.

Antes disso, talvez seja interessante dizer que, para observar essa chuva, basta sair da iluminação urbana. Forrar o chão com uma lona ou plástico para se proteger da picada de insetos e deitar com os olhos voltados para a posição nordeste.

Antes mesmo que o Leão fique muito elevado no céu você verá os meteoros associados a essa chuva.

Leve uma câmara fotográfica e deixe o diafragma aberto em direção ao radiante da chuva. Toda vez que um ou mais meteoros passarem, mude para a próxima gravação.

Com o diafragma aberto você gravará o movimento das estrelas produzidos, na verdade, pela rotação da Terra. Em meio ao rastro das estrelas você terá um ou mais meteoros.

A última vez em que Leonídeos se manifestaram com abundância foi em 1999, logo em seguida ao periélio (passagem próxima ao Sol) do cometa Tempel-Tuttle. O cometa, agora, está se aproximando do seu afélio (o máximo distanciamento do Sol) de onde inicia mais um retorno para o periélio.

E, agora, a revelação que adiamos, algumas linhas atrás, com suas considerações:

A primeira é que a quase totalidade de água da Terra foi trazida para cá por cometas que se chocaram com o planeta.

A segunda leva em conta que aproximadamente 60% da massa do corpo humano é formada por água.

A essa altura você já deve ter chegado à conclusão de que a maior parte do seu corpo já foi cometa no passado. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por blogdasciam às 16h51
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Uma nova visão do céu

Nova medida de superaglomerado galáctico amplia em 100 vezes volume dessa estrutura cósmica

 Por Ulisses Capozzoli     


O novo mapeamento cósmico referente ao superaglomerado galáctico de que faz parte a Via Láctea, a estrutura que abriga o Sistema Solar em um de seus braços (braço de Órion), surpreende, tanto pela capacidade humana de mensuração do Universo quanto pelo abismo de espaço-tempo em que estamos encerrados.

O trabalho, originalmente publicado na revista científica Nature (grupo de que Scientific American é parte) está reproduzido neste site acompanhado de animação para que os leitores tenham ideia do que se trata.

O super aglomerado galáctico a que a Via Láctea pertence, e que até então era conhecido como Super Aglomerado de Virgem, segundo essas novas medidas, tem volume 100 vezes superior ao que se pensava. Ao se darem conta dessa dimensão, os cosmólogos envolvidos com o trabalho, liderados por Brent Tully, da University of Honolulu, batizaram a estrutura de “Laniakea”, palavra havaiana para “paraíso incomensurável”.

Assim, Laniakea é a segunda instância de grandeza envolvendo a Via Láctea que tem sua estrutura de perfil observada no céu, especialmente em noites sem luz da Lua, como um fluxo luminoso de luz branca conhecido como Caminho de Santiago ou simplesmente Via Láctea.

A visão noturna do perfil da Via Láctea faz com que ela lembre um gigantesco ovo frito, observado de perfil.

A primeira instância é o chamado Grupo Local, um conjunto de galáxias com centro de gravidade comum que reúne aproximadamente 40 dessas estruturas, incluindo galáxias satélites da Via Láctea, como as Nuvens de Magalhães, visíveis nas proximidades do Cruzeiro do Sul e nossa vizinha mais próxima, Andrômeda, a 2,3 milhões de anos-luz.

Essa distância significa que, a luz de Andrômeda que pode ser visível mesmo a olho nu, em condições muito favoráveis, e mais facilmente observada com um telescópio de pequeno porte, deixou o corpo dessa galáxia a 2,3 milhões de anos e desde então viaja pelo espaço que separa essas duas estruturas vizinhas no espaço-tempo.

No caso da Via Láctea, o Sistema Solar se encontra a aproximadamente 30 mil anos-luz do núcleo galáctico, o meio da gema em nosso hipotético ovo frito, e a 20 mil anos-luz da borda galáctica, a extremidade do ovo considerado.

Densidade do núcleo

No centro galáctico a densidade estelar é maior e os processos astrofísicos mais acelerados.

Pode ser apenas sorte, mas provavelmente deve-se a razões mais restritas, o fato de estarmos localizados no braço de Órion, região menos turbulenta do ponto de vista de evolução estelar, com menor concentração de gás que a região central.

A densidade estelar, que acelera processos interativos, faz com que a morte ou fusão de estrelas disparem fluxos poderosamente destruidores de energia, entre eles radiação gama, a mais ponte fonte de radiação eletromagnética.

O reconhecimento de galáxias como aglomerados de vaga-lumes cósmicos ˗ as estrelas que formam essas estruturas ­˗ deslocando-se umas em relação às outras pela expansão do espaço, demorou milênios para ser feita. Agora, no entanto, tanto a disponibilidade instrumental para observação, quanto o avanço teórico que permite especulações impossíveis no passado, fazem desses avanços resultados impressionantes.

Na Antiguidade Grega, o astrônomo-matemático Aristarco de Samos (310 a 230 a.C.) que defendia a órbita da Terra em torno do Sol e sua rotação em torno de um eixo imaginário concebeu um universo tão vasto quanto o considerado nos anos 30 do século passado, quando a cosmologia deixou a filosofia e se integrou ao corpo da ciência pelos trabalhos do astrônomo americano Edwin P. Hubble (1889-1953).

Por ideias avançadas para a época, Aristarco foi acusado de impiedade pelo filósofo estóico Cleante de Assos (330 a 230 a. C.).

O estoicismo, escola filosófica fundada por Zenão de Cítio (333 a 233 a.C) defendia a ideia de que emoções destrutivas decorrem de erros de julgamento e que um sábio, no sentido de alguém com “perfeição moral e intelectual”, estaria a salvo desses desvios.

Em 1755 o filósofo alemão Emmanuel Kant (1724-1804), em História geral da Natureza e teoria do céu, concebeu a estrutura galáctica e a chamou de “universo-ilha”. Mas foi preciso esperar pelo desenvolvimento de telescópios mais eficientes para distinguir galáxias de nebulosas, no segundo caso, remanescentes de explosões estelares do tipo supernova.

Então, nos anos 30, com as medidas de afastamentos galácticos pela expansão cósmica ˗ descoberta teórica quase sempre atribuída a Hubble, mas na verdade concepção teórica do astrônomo também americano Vesto Slipher (1875-1969), que Hubble ouviu em uma conferência ˗ essas estruturas começaram a ser melhores conhecidas e classificadas.

A surpreendente fuga das galáxias

A observação e medida da chamada “fuga das galáxias” deu origem à cosmologia como parte do corpo da ciência e não mais da filosofia.

A forma e medidas da Via Láctea foram possíveis a partir da descoberta, durante a Segunda Guerra Mundial, da emissão de energia pelo hidrogênio eletricamente neutro pelo astrônomo holandês Hendrik Christoffel van de Hulst (1918-2000). Com essa emissão, ela foi mapeada com recursos da radioastronomia.

A mais recente “atualização da Via Láctea”, há pouco mais de uma década, mostrou que além de espiral, ela é também barrada (com uma barrada estelar no núcleo), o que faz dela uma espiral barrada.

A reinterpretação, agora, de que ela integra algo como um hiperaglomerado, a Laniakea, amplia o conhecimento e concepção que os cosmólogos obtém do Universo.

Essas medidas (ver animação) mostram que hiperaglomerados fluem para centros gravitacionais específicos, separando diferentes regiões do espaço como rios que, com nascentes próximas, correm com suas águas para direções distintas, em ilhas e continentes da Terra.



Escrito por blogdasciam às 18h01
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O limite dos oceanos

 Por Ulisses Capozzoli

O trabalho de dois climatologistas chineses, publicados na revista científica americana Science, explica o que pareceu uma pausa no processo de aquecimento global e levou, temporariamente, observadores céticos quanto a essa mudança, a um contrataque, em especial devido a contribuição humana com uso de combustíveis fósseis.

Segundo Xianyao Chen e Ka-Kit Tung, ambos da Universisty of Washington,  o Oceano Atlântico absorveu um calor excedente e dragou essas temperaturas mais elevadas para áreas mais profundas de sua bacia.

A pausa no processo contínuo de aquecimento ocorreu entre 1999/2012.

No período anterior, 1985/1998, a elevação de temperaturas vinha num crescendo.

A climatologia é uma área complexa da ciência e isso é o bastante para desestimular versões que, à primeira vista, parecem óbvias como a descoberta, no século 19, pelo físico-químico e Prêmio Nobel sueco Svant Arrhenius (1859-1927), de que o dióxido de carbono (ou gás carbônico) é um aprisionador de calor atmosférico.

 Assim, se aumentar a concentração desse (e de outros gases de efeito estufa) o resultado seria, inevitalmente, um aquecimento do envoltório de gases que envolvem a Terra, compondo a atmosfera.

A questão aqui é que outros processos poderiam compensar ou ao menos amenizar esse fenômeno, como a formação de uma capa mais perene e espessa de nuvens ˗ resultado da evaporação ˗ e isso refletiria como um espelho parcela da radiação solar que, antes disso, atingia a superfície do planeta.

Ainda assim, no entanto, não conviria “varrer para baixo do tapete”, o fato de que a concentração de gás carbônico na atmosfera passou de 280 ppm (partes por milhão) à época da previsão de Arrhernius para 400 ppm  em 9 de maio do ano passado.

Essa constatação (400 ppm) foi feita do topo do vulcão extinto de Mauna Loa, no Pacífico, um amostrador científico ideal por sua localização distante de centros urbano-industriais capazes de contaminar as medidas.

A discussão em torno do aquecimento global com mudanças climáticas por efeito antrópico é uma evidência clara de que a ciência, como qualquer outra atividade humana, é permeada por efeitos político-ideológicos que, à primeira vista, seriam incompatíveis com a metodologia científica.

Otimismo precoce

O trabalho da dupla de cientistas chineses, num primeiro momento, pode sugerir certo alívio, com a idéia de que as grandes massas de água oceânicas absorvem o calor excedente aprisionado na atmosfera e com isso um equilíbrio desejável é mantido.

Ocorre que o processo é bem mais complexo que isso, o que faz crescer os níveis de preocupação quanto ao futuro imediato do perfil climático da Terra com influência em toda forma de vida.

Para começar, a absorvação de excedentes de gás carbônico implica em acidificação dos oceanos e comprometimento profundo das formas de vida que eles abrigam.

Além disso, não se sabe até quando os oceanos do mundo podem absorver gás carbônico sem sofrerem um processo parecido ao que os físicos chamam de “mudança de fase”. Quando a água muda da forma sólida do gelo para a líquida, ou mesmo gasosa.

Processos como a defaunação, o desaparecimento de animais de ambientes que parecem sadios, tem relação com mudanças climáticas a partir do aquecimento global?

Ainda não se tem resposta para esta pergunta.

O que se sabe, para além da defaunação, é que o planeta passa por uma aceleradíssima perda de biodiversidade. E se o especismo (idéia de que a espécie humana é o principal legado da vida, com direito a explorar todas as outras) não for capaz de se sensibilizar com essa situação, é preciso lembrar que a teia de relações fará com que, a certo estágio desse processo, os humanos sintam o peso dessa nova realidade.

Como isso pode se manifestar?

A mudança climática deve impactar o regime de chuvas em escala global e a distribuição de água potável, pelo ciclo hidrológico, afeta tanto o abastecimento hídrico para consumo humano como para atividades agropecuárias e industriais.

As torneiras secas durante certas horas da noite em boa parte da megalópole de São Paulo é um exemplo de que essas cenas são parte da realidade atual e não ficção distante.

Os céticos do aquecimento global com mudanças climáticas, que inicialmente envolveu o setor ligado aos combustíveis fósseis e um  pensamento politicamente conservador (em alguns casos, reacionários) negou o processo desde o início sem embasamento científico. Aqui prevaleceu apenas a opinião desses críticos.

Pode-se argumentar que os defensores do aquecimento global com mudança climática a partir de contribuições antrópicas também não dispunham ˗ ao menos de início e pode-se dizer, neste exato momento ˗ mas há uma diferença radical entre esses dois grupos.

A admissão do aquecimento como resultado de atividades humanas (o que não nega a participação de efeitos naturais em um ou outro sentido, já que esses fenômenos não cessaram e nem cessariam abruptamente), no entanto, acena com a possibilidade de mudança de atitudes e isso é fundamental de um ponto de vista tanto pessoal como social.

Ponto de não retorno

Há quem duvide, em função da complexidade do clima referido inicialmente, que mesmo uma mudança radical, um corte completo na emissão de gases de efeito estufa por atividades humanas não seria capaz de deter o aquecimento com mudanças climáticas.

A razão por trás disso é uma certa inércia.

Um navio que se dirige sem controle rumo ao cais, mesmo que tenha seus propulsores desligados, ainda viajará certa distância antes de ser paralisado pelo atrito com a massa de água sobre o que desliza.

A inércia que governa nosso barco virtual pode fazer com que ele destrua o cais e se destrua sem que nada possa evitar a tragédia.

Isso significa que, de um ponto de vista climático, teríamos chegado a um ponto sem retorno?

Essa é outra pergunta para a que também não se tem resposta.

Na dúvida, a sociedade humana não deveria adotar medidas preventinas e acauteladoras?

Respostas mais cínicas podem dizer que, de certa maneira, isso nunca ocorreu e nem ocorrerá, no que podem estar corretas.

Mas, em escala planetária e por razões que dizem respeito à qualidade de vida, ou mesmo à sobrevivência de cada um, uma ameaça dessa natureza é inédita na historia da civilização. O que significa que não foi respondida antes.

A função da ciência e da cultura em geral (evidentemente que a ciência é parte da produção cultural e não algo à parte, como se ouve dizer mesmo em ambientes onde essa maneria de pensar não passa de limitação intelectual) é alimentar um substrato mental, uma concepção sobre o que o mundo é, a partir de olhos humanos.

Então, se a função da ciência é um refazer constante do substral mental social, e a divulgação de ciência um mecanismo indispensável neste processo, é de se esperar que a ciência possa sensibilizar os humanos para as perspectivas do futuro a partir de toda aventura, enquanto espécie, que vivenciamos desde o passado mais remoto.

Neste sentido, o aquecimento global com mudanças climáticas diz respeito a uma civilização (a única que conhecemos até agora) em um dos possíveis numerosos mundos habitados, no corpo da Galáxia, ou no bojo de muitas das bilhões de galáxias que dançam ao compasso da gravidade no salão cósmico.

Em princípio, ainda que possa parecer exagero, tudo está em aberto.

Este pode ser tanto mais um desafio ˗ entre os infinitos já enfrentados pelo Homo sapiens, desde que elevou-se sobre duas pernas, construiu ferramentas, desenvolveu a linguagem e forjou a cultura para que pudesse se desonvolver ˗ como o começo de um fim.

Isso tudo pode, também, parecer pura ficção.

Ocorre que, neste momento, aparentemente realidade e ficção se confundem como em nenhum outro momento da historia humana.

 

 



Escrito por blogdasciam às 15h58
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 Ameaça improvável

   Por Ulisses Capozzoli


Ao que tudo indica, quando não temos problemas, damos um jeito de encontrar algum.

E dessa saga trágica não escapam nem mesmo pesquisadores científicos.

Astrônomos da University of Tennesee, no sul dos Estados Unidos, estão estimando que, em 16 de março de 2880, um bólido cósmico, o 1950 DA, terá uma chance em 300 de se chocar com a Terra.

Essa relação, uma em 300, é altamente temerária em se tratando da probabilidade de choque com um cometa ou asteróide, caso do 1950 DA.

Mas em 2880, ou seja, em 866 anos  no futuro?

Pura besteira.

Se o bólido não alterasse sua rota, por efeitos gravitacionais de planetas gigantes como Júpiter, ou por uma inevitável interferência humana, até seria razoável levar em conta essa probabilidade.

Mas, em 866 anos no futuro, trata-se de uma completa impossibilidade.

Prever o estágio da sociedade humana em um período tão longo de tempo, ao menos para os padrões da vida humana (35 gerações), é praticamente impossível, dada a escala de mudanças estimuladas pela ciência e tecnologia.

Ainda assim, em 2880, há muito teremos colonizado os mundos mais favoráveis do Sistema Solar, eventualmente com uso de engenharia planetária, capaz de mudar completamente as condições inóspitas que agora prevalecem em Vênus.

Além da ocupação do Sistema Solar, seguramente teremos enviado um ou mais navios cósmico para mundos em torno de estrelas mais próximas, dotados de condições favoráveis à formação de colônias humanas.

Essas viagens demorarão séculos e gerações inteiras, com vida média talvez em torno de 150 anos, percorrerão o aparente vazio entre as estrelas antes de chegar a um destino onde fundarão, não uma cidade, mas um novo mundo.

Memória de navegadores

É possível que um ou mais desses navios cósmicos homenageiem nomes de barcos como os que compuseram a frota de Colombo em sua primeira viagem à América: o “Santa Maria”, “Pinta”e “Niña”.

Outros talvez farão homenagem a Pedro Nunes e D. João de Castro, os mais notáveis cosmógrafos portugueses do início do século 16, indispensáveis às viagens de descobrimentos empreendidas por Portugal que, ao contrário do que ainda se acredita, nunca teve uma instituição chamada Escola de Sagres.

É possível até mesmo que uma reprodução do que pode ter sido o rosto de Colombo seja colocada na ponte de navegação de um desses navios cósmicos e que, em momentos mais críticos da viagem, a tripulação que não esteja hibernando consulte-o simbolicamente como fez o capitão da nave que interceptou Rama, a cosmonave que parecia disposta a invadir a Terra no desconcertabte romance de Arthur C. Clarke, Encontro com rama.

Em 2880 também teremos estabelecido colônias espaciais, mundos construídos por mãos humanas, orbitando o Sol a distâncias convenientes para se abastecer de energia farta e ambientes apropriados para a continuidade da vida.

Essas cidades terão suas próprias fazendas de alimentos e esses cultivos estarão livres das pragas que hoje castigam os cultivos na Terra e tornam imprevisíveis e dura a vida de verdadeiros fazendeiros e pequenos agricultores.

Por essa época futura, há muito teremos nos apoderado de cometas e asteróides para retirar deles materiais como água e minerais (teremos desenvolvido novos materiais que em nada lembrarão as velhas carcaças de foguetes, aviões ou automóveis que um dia fascinaram os habitantes da Terra, antes que tivessem se lançado no espaço profundo).

Com os avanços em astronáutica, novas fontes de energia (eventualmente com a exploração energética de buracos negros e outras possibilidades, entre elas o completo domínio da fusão que permitirá a construção de pequenos sóis artificiais) a ameaça de um corpo como o 1950 DA colidir com a Terra será visto com humor e tolerância com a visão ingênua dos antigos moradores do que então será conhecido como Planeta-Mãe: a nossa velha e belíssima Terra.

Agora, no entanto, em meio à insegurança econômica, instabilidade emocional provocada por uma mudança vertiginosa no estilo de vida, impotência frente a guerras e conflitos que formam riachos de sangue humano, enxergar ameaças no futuro distante talvez não passe de mera projeção dos horrores do presente.



Escrito por blogdasciam às 16h35
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 Os equívocos com índios isolados

Por Ulisses Capozzoli

Um dos temas que mais geram desencontros e desentendimentos na mídia está relacionado a povos indígenas, em especial os grupos isolados.

Jornalistas sem nenhuma base em antropologia e história, com freqüência traduzem a idéia de índios isolados como etnias ou nações inteiras que fugiram ao contato com a sociedade exterior (que quase sempre eles se referem como “a civilização”) desde que Cabral e sua esquadra aportaram por aqui, para cumprir a formalização do descobrimento.

Na verdade, os grupos isolados fazem parte de povos que tiveram contato com os “brancos”, com traumas que os levaram a se refugiar nas profundezas da floresta, recusando sistematicamente novos encontros.

A lógica fácil da desinformação rebate que “isso aconteceu há muito tempo”, na pressuposição de que esse “muito tempo” teria feito com que esses povos se esquecessem da violência sofrida. Com isso, tentam desacreditar a presença do trauma.

A falta de bases elementares em antropologia, no entanto, faz com que não considerem que os povos indígenas são ágrafos, ou seja, não escrevem e, portanto, não registram a historia em sua forma clássica. Tudo que um índio sabe do passado do povo a que pertence é relatado por seus ancestrais de forma oral. 

Qual a diferença entre os dois processos, o relato escrito e o oral?

A diferença é radical.

Um relato como o que atingiu os Cinta-Largas em meados dos anos 60, por exemplo, conhecido como o “Crime do Paralelo 11”, quando feito por um ancião, comove profundamente os jovens, que vão às lágrimas.

Brutalidade insana

A brutalidade desse crime foi tamanha que se apossa de qualquer um que tome consciência dele através de um livro ou de cópias do processo que condenou um fazendeiro do Mato Grosso e seus capangas, responsáveis pela eliminação inteira de uma aldeia Cinta-Larga.

Um relato oral, no entanto, como os contos de fadas que ouvimos na infância, na escola ou feito por nossas avós, emociona como se tivesse acabado de ocorrer.

E essa é a diferença radical.

A narrativa oral presentifica os acontecimentos, como se cada um deles tivesse a idade de no máximo uns poucos dias.

E isso os “brancos” não são capazes de compreender. E boa parte dos jornalistas menos ainda.

Nesse conjunto de desencontros, termos como “brancos” são outra aberração.

A nominação de “brancos” como não índios tem origem em faroestes, em boa parte figurados por John Wayne e relativos a americanos ou ingleses, em sua maioria, loiros, de olhos azuis e pele branca.

No Brasil, não somos exatamente brancos. Somos pardos, mulatos, negros e até mesmo brancos, mas não no sentido anglo-saxão.

Quando indígenas, já em contato com a sociedade exterior − como os moradores do Parque Indígena do Xingu, por exemplo, − se referem a não-índios como “brancos”, usam essa palavra no sentido de “estrangeiro” ou ”não-índio”.

Um negro, por exemplo, pode ser chamado de “branco” por um indígena que foi ensinado a usar essa expressão sem ter, evidentemente, noção de sua origem em filmes de faroeste.

Contato recente

Nesta semana, a Fundação Nacional do Índio (Funai) liberou dados do contato de membros de um desses grupos isolados com antropólogos, sertanistas e funcionários do órgão no Acre, fronteira com o Peru.

O noticiário em horário nobre da televisão costuma fazer de casos como este um espetáculo à parte.

A verdade é que o Brasil tem um número não exatamente conhecido de grupos isolados. As informações sobre esses povos chegam por intermédio de povos indígenas em contato com a sociedade exterior (a chamada “civilização”, como se povos indígenas fossem desprovidos de cultura, o que significa que são vistos como pouco mais que animais).

Outra forma de obter evidências de isolados ocorre por fazendeiros, madeireiros e garimpeiros, quase sempre como saldo de encontros violentos, capazes de produzir mortos ou danos afetivos e culturais que jamais serão sequer conhecidos.

Há ainda o caso de sobrevôos de áreas que podem revelar a localização de grupos isolados, normalmente reduzidos.

O que seguramente é importante esclarecer é que os grupos isolados, até recentemente estimados em pelo menos 40, se localizam praticamente na Amazônia que, não por acaso, representa 50% do território nacional.

Em consequência disso, o Brasil é um dos pouquíssimos países do mundo que ainda tem sertanistas, como foram os irmãos Villas-Boas, e essa é uma prova emocionante de nosso patrimônio antropológico.

De um modo geral, os ufanistas da unidade nacional − neste contexto uma amarração equivocada do que seja uma nação – bradam que a língua, o português, é a prova incontestável dessa condição, a unidade nacional.

O português que se fala no Rio Grande do Sul e Rio Grande do Norte, no entanto, é quase como se fosse outra língua, tal a frequência e intensidade dos regionalismos.

O Brasil, no entanto, dispõe de pelo menos duas centenas de línguas, se considerada a diversidade de povos indígenas.

E o dramático, neste caso: pelo menos metade delas em risco de desaparecimento rápido, pelo esgotamento do que, no passado, foram nações inteiras.

Grupos remanescentes de povos indígenas, quase sempre um pequeno grupo de velhos, não tem como se reproduzir e, a cada sol, esperam pelo fim de sua linhagem com a impotência das pedras transformada em poeira pela corrosão impiedosa das intempéries.

A história dramática dos Cintas-Largas fica à espera de uma oportunidade de ser relatada neste espaço.

E o mesmo vale para os Uaimiri-atroaris, bombardeados por militares a bordo de helicópteros, durante a construção da BR-174, que liga Manaus, no Amazonas, a Boa Vista, em Roraima.

Tanto uma como outra capaz de fazer um branco chorar como se tivesse acabado de nascer.

 



Escrito por blogdasciam às 17h12
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 Defaunação reduz a vida na Terra

Por Ulisses Capozzoli

 A deterioração ambiental da Terra está perigosamente mais dramática que abordagens tradicionais tem sugerido, o que deve estimular uma mudança radical de postura por parte de toda a sociedade humana, sob pena de efeitos imprevisíveis mesmo em curto prazo.

Um trabalho publicado na revista científica americana Science, com participação do pesquisador brasileiro Mauro Galetti, do câmpus Rio Claro da Unesp, revela que o processo de “defaunação” do planeta está levando a uma extinção em massa de animais de pequeno e médio porte.

A defaunação, segundo mostra a pesquisa, compilando dados da literatura especializada, leva ao desaparecimento de animais mesmo em áreas não desmatadas e aparentemente estabilizadas de um ponto de vista ambiental.

De acordo com a interpretação dos autores de diversos países (Estados Unidos, México e Reino Unido, além do Brasil) envolvidos com a pesquisa, estamos em meio a uma onda global de perda de biodiversidade inédita provocada por ação humana.

Os dados apontam que nada menos que 322 espécies animais foram extintas desde 1500, a infância do período das viagens de descobrimentos que se iniciaram em Portugal e, em seguida, se espalharam por Espanha, Holanda, França e Inglaterra.

À primeira vista pode parecer um período longo demais para trazer preocupações a uma única geração humana. A realidade, no entanto, é mais complexa e ameaçadora que sugere uma interpretação simplista, como a que a maioria das pessoas tende a fazer ao se referir a questões climático-ambientais.

Essas perdas se mostram também entre invertebrados − além de animais de grande e pequeno porte: 35% no curtíssimo intervalo de 40 anos.

Ameaça à sobrevivência

As conseqüências dessa perda de biodiversidade estão longe de serem apenas emocionais. Elas ameaçam a qualidade e mesmo continuidade da vida humana.

Ainda que o especismo esteja longe de uma discussão mais profunda, como já ocorreu com o racismo e sexismo, continuamos − por uma série de razões, inclusive de fundo religioso − a pensar que as outras formas de vida com que partilhamos o mundo estão aqui para atender nossos desejos e necessidades e teríamos um pretenso direito de explorá-las à exaustão.

O trabalho mostra que a defaunação afeta pontos estratégicos à sobrevivência humana por afetar processos ambientais críticos em pontos como:

Polinização: Insetos, entre eles abelhas que enfrentam ameaças em escala global, polinizaram 75% da produção agrícola mundial. Evidentemente que, com o comprometimento, ainda que parcial desse processo, a tendência é queda de produção nos campos.

Controle de pestes: morcegos e aves controlam pragas agrícolas que, de outra forma, seriam devastadoras. Nos Estados Unidos, onde as estatísticas são mais frequentes que em outras regiões do planeta, o serviço natural prestado por essas espécies é avaliado em algo como US$ 45 bilhões ao ano.

Ciclagem de nutrientes e decomposição: aqui, invertebrados e vertebrados (urubus, entre outros) desempenham papel estratégico na decomposição orgânica e ciclagem de nutrientes no ambiente.

Qualidade da água: a defaunação, mostra o trabalho, compromete a qualidade da água que também mostra oferta irregular em função de mudanças climáticas produzidas por aquecimento global, resultado de ações humanas.

Desaparecimento de sapos e pererecas

O declínio de anfíbios como sapos e pererecas aumenta a concentração de algas e outros detritos, o que compromete a qualidade dos recursos hídricos.

Saúde pública: a defaunação afeta a saúde humana de diferentes maneiras num processo complexo que se estende da desnutrição ao controle de doenças.

O clássico Primavera Silenciosa, da oceanógrafa e jornalista americana Rachel Carson (1907-1964), publicado em 1962 e que fundou o moderno ambientalismo em escala mundial, denunciou o silêncio nos campos provocado pelo uso intensivo do pesticida DDT.

A obra de Carson fez com que o DDT − empregado ao longo da Segunda Guerra Mundial no combate de mosquitos vetores de doenças como malária e outras enfermidades – fosse banido.

As preocupações que ela levantou, no entanto, apenas anunciam uma época de enormes preocupações ambientais, consequência, em grande parte, de um processo que alguns pensadores se referem como de “dessacralização” da Natureza e adoção de um consumismo desenfreado e inconsistentes com a potencialidade de um planeta com uma população em crescimento acelerado.

Evidências de pressões ambientais se manifestam de todas as direções e a escassez de água, ainda que anunciada há décadas, agora toma forma definitiva e chega literalmente às torneiras das moradias.

Formuladores de políticas imediatistas, no entanto, lamentam, entre outros acontecimentos, a retração do mercado de automóveis, como se esses objetos de desejo pudessem expandir para sempre e cobrir, inconsequentemente, a face de toda a Terra.

A verdade é que, em países como o Brasil, automóveis inundam as ruas e as estradas como a releitura de uma praga bíblica.

Para abastecê-los, além do combustível fóssil, é preciso ocupar os campos como recursos renováveis, como a cana-de-açúcar, que expulsa animais, destrói ambientais e literalmente calcina os que não conseguem escapar das línguas de fogo em locais onde o corte da produção ainda é artesanal, como nos primeiros tempos da escravidão.

A pressão sobre os recursos naturais cresce a cada dia e as perspectivas de alternativas mais promissoras para uma tomada de posição mais consistente enfrenta o cinismo e realismo apenas aparente de formuladores de políticas em que apenas interesses restritos e imediatos são levados em conta.



Escrito por blogdasciam às 17h10
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Os 45 anos da conquista da Lua

            Por Ulisses Capozzoli

Exatamente às 17 horas, 17 minutos e 43 segundos (horário de Brasília) da tarde de 20 de julho de 1969, pela primeira vez na história da civilização, uma pegada humana marcou a superfície de outro astro, além da Terra.

 Na tarde deste domingo, um dos maiores feitos da história da ciência completa 45 anos.

As pegadas foram produzidas pelas botas espaciais do comandante da missão Apollo 11, Neil Armstrong (1930- 2012), seguido pelo seu companheiro de pouso Edwin “Buzz” Aldrin, enquanto o terceiro membro da missão, Michael Collins, permanecia a bordo da nave de retorno à Terra, circulando em órbita lunar.

A descida, saudada com a frase que ficou para a história: “um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade” marcou o ápice de um processo que havia começado com o lançamento do Sputnik-1, o primeiro satélite artificial da Terra, pela União Soviética, em 7 de outubro de 1957.

O feito dos soviéticos foi recebido com surpresa e receio nos Estados Unidos que trataram de acelerar os processos para também enviar um engenho do mesmo tipo em órbita da Terra.

Os americanos receberiam um segundo e ainda mais surpreendente golpe, em 12 de abril de 1961, quando a União Soviética anunciou o vôo do primeiro astronauta (cosmonauta) russo, Iuri Gagárin (1934-1968).

O período era marcado pela guerra fria, o potencial confronto nuclear entre a então União Soviética e seus aliados e os Estados Unidos e a Europa Ocidental. Nesse contexto, os feitos no espaço eram utilizados como forma de propaganda por cada uma das potências, interessadas em demonstrar eficiência sobre sua oponente.

Análises simplistas tendem a considerar que “a conquista da Lua” foi resultado de uma queda de braço militar entre União Soviética e Estados Unidos, mas esse é um equívoco produzido por uma consideração reducionista quanto à complexidade da história.

O contexto teve como cenário de fundo um conflito potencial, mas ela apenas acelerou uma tendência natural de avanço que começou desde que os humanos deixaram seu berço ancestral, na África e, possivelmente, ao mesmo tempo, também no Sul da China.

A história dos vôos tripulados à Lua, que se estenderam até a Apollo 17, em dezembro de 1972, de forma algo perturbadora revela que, de alguma maneira, já estivemos no futuro e, de lá, retornamos ao passado a bordo de uma surpreendente máquina do tempo.

A Lua esquecida

Com a Apollo 17 − lançada em 7 de dezembro de 1972 e que pousou sua tripulação no mar, em 19 de dezembro – a Lua foi literalmente esquecida, como se, durante os anos 60, não tivesse sido a obsessão que consumiu bilhões de dólares em recursos e esforços até então inéditos na historia da ciência e tecnologia.

Por que a Lua foi esquecida?

A resposta para uma pergunta como essa é que o satélite da Terra, conquistado por uma tripulação americana, simplesmente deixou de ser uma meta política, ainda que, de um ponto de vista estritamente científico, ainda hoje não estejam encerradas as controvérsias envolvendo sua origem.

A teoria que prevalece hoje, remanescente das três principais originalmente propostas, considera que, na sua juventude, a Terra foi atingida por um bólido cósmico, um corpo do porte de Marte, que arrancou uma porção de sua matéria e a ejetou no espaço, onde um processo de condensação gravitacional deu origem à Lua.

Em vez da Lua, o que atrai as atenções e esforços neste momento é Marte, um mundo mais apropriado à ocupação humana que a Lua, mais estéril que o mais agressivo deserto da Terra.

Em Marte, sucessivas missões pousaram na superfície do planeta utilizando paraquedas e isso porque o planeta dispõe de uma atmosfera, mesmo rarefeita e com apenas traços de oxigênio, elemento liberado pelas formas de vida na Terra e indispensável à respiração de mamíferos como os humanos.

Em escala mais complexa, no entanto, a tendência é a Lua atuar como uma espécie de trampolim para Marte, em rotas que, no futuro nada distante, tende a fazer desse planeta vizinho uma espécie de “novo mundo”, tal como, no passado, ocorreu com a ocupação e colonização da América.

Um crítico apressado pode argumentar que a escala de desafios comparativos é muito maior, o que não deixa de ser verdade.

Mas também é verdade que a saga do espalhamento dos humanos sempre superou os obstáculos mais desafiadores: do grande vazio dos oceanos ou as vastas extensões de gelo e desertos.

Daí a beleza da expressão criada pelo pai da astronáutica, o russo Konstantin Tsiolkvski: “a Terra é o berço dos humanos, mas ninguém pode viver eternamente no berço”.

Qual a importância da Lua para a Terra, além de fonte de inspiração romântica e efeito maré que eleva as águas e mesmo a porção sólida da Terra?

Estabilizadora da Terra

A resposta é que, na ausência da Lua, poderíamos nem estar aqui, escrevendo ou lendo um texto sobre o quadragésimo quinto aniversário de sua “conquista”.

A Lua, desde que colocou ao lado da Terra, compondo um sistema planetário duplo,  atuou como um escudo contra bólidos que chegaram e continuam a vir do espaço profundo. Entulhos que sobraram da formação do Sistema Solar há 5 bilhões de anos, como cometas e asteróides.

A superfície craterada da Lua, visível por telescópios de pequeno porte, é uma clara evidência de que, na ausência dela, boa parte desses impactos teria atingido a Terra e o maior ou maiores deles poderiam ter produzido mais de uma extinção em massa, e eventualmente inviabilizando os humanos.

Além dessa função de escudo, a Lua desempenha também um papel de âncora estabilizadora dos movimentos orbitais da Terra. Isso significa dizer que as coisas, de um ponto de vista de mecânica celeste, envolvendo a Terra, só são como conhecemos devido à presença estabilizadora da Lua.

Em datas como essa é natural certa especulação sobre o futuro da Lua. Em linhas gerais, o que deve ocorrer?

Uma aposta razoável é que o retorno à Lua deverá ser promovido pela indústria do turismo. Inicialmente com vôos em órbita da Terra, como já ocorre. Depois com viagens até a órbita da Lua, como aconteceu com missões que antecederam a Apollo 11. E, então com pousos na superfície lunar.

O Japão já cogitou planos para criação de um complexo hoteleiro na Lua, o que ainda rescende a pura ficção científica. Mas a China, com um programa espacial determinado e ambicioso, pode se apossar desse troféu com a ambição que caracteriza seus projetos.

Onde esses hotéis serão instalados?

Certamente na face visível da Lua e não no lado oculto (não existe um lado escuro da Lua como muita gente ainda acredita). Da face visível um turista do futuro poderá observar as luzes das grandes cidades da Terra e, mais que isso, contemplar a Terra como se fosse a própria Lua exibindo suas diferentes fases no céu.

Turistas que estão nascendo agora

No futuro não muito distante turistas espaciais privilegiados, que talvez estejam nascendo agora, poderão observar, por exemplo, a beleza da Terra em fase cheia, inundando o espaço próximo com a luz azulada produzida por sua atmosfera.

A tendência é de o lado oculto da Lua – resultado de interações gravitacionais que fazem com que um dia e uma noite lunares durem cada um duas semanas da Terra – ser preservado para observações científicas do espaço profundo, livre, por exemplo, de poluição no comprimento de onda de rádio que caracteriza a Terra.

Uma questão intrigante nestes momentos é, também, um grupo, ao que tudo indica decrescente de pessoas que se recusam a acreditar que tripulações humanas já desceram na Lua.

Como explicar esse descompasso em pleno século 21.

O ceticismo quanto a viagens tripuladas à Lua remete a uma idade pré-científica que ainda não se esgotou. No Brasil, por exemplo, o processo de urbanização só se consolidou nos anos 70. Antes disso, a maior parte da população vivia no campo, com hábitos influenciados pelo ritmo da Natureza, sem base científica para conceber que sistemas de propulsão como os foguetes que entronizam satélites em órbita da Terra, possibilitam viagens no aparente vazio do espaço.

E que essas viagens só estão começando.

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por blogdasciam às 17h32
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Lições do futebol

 Por Ulisses Capozzoli

Com mais uma disputa neste sábado, para decidir a terceira posição entre as quatro finais, a goleada sofrida pelo Brasil na partida contra a Alemanha continua ressoando.

Um número crescente de observadores argumenta que Luiz Felipe Scolari é um técnico superado, comprometido com táticas e estratégias do passado.

Outros apontam que a verdadeira responsável é a presidente Dilma Rousseff, que empenhou fortunas na construção de estádios e que teria feito tudo dar errado.

Há quem diga que a Alemanha só fez o que fez porque investiu no futebol: formou quadros, sofisticou a formação intelectual de atletas, varreu a corrupção que contaminava o futebol no país e assim criou uma infraestrutura que explica seu sucesso.

Há, ainda, os que optaram por torcer pela Argentina, como forma de protesto contra tudo e todos.

Em meio a ondas de cientificismo, as soluções ultra-racionalizadas, flutuam os restos de um naufrágio denegado por palavras de ordem inspiradas em otimismo de autoajuda.

O futebol, como engenho e arte, é uma poderosa metáfora da vida.

“Hoje a bola não quis entrar” costumam dizer jogadores ao final de uma partida em que nada deu certo.

E isso acontece também na vida cotidiana.

Em alguns dias, tudo dá errado.

Mas em outros, por atuação inesperada da fada-madrinha, tudo corre às maravilhas e nos perguntamos o que aconteceu.

O gênio da lâmpada incorporou a realidade e atendeu nossos mais recônditos desejos?

Se o futebol for uma metáfora da vida, talvez o momento seja mais para reflexões.

Se quisermos mudar o futebol (e com isso ajudar a mudar o país) certamente é o caso de procurarmos um técnico mais arejado. E se não dispusermos de nenhum deles no país, o jeito pode ser procurar por algum fora daqui. 

Para recuperar o futebol certamente será interessante dispor de bons estádios e os que foram construídos para a copa estão aí para serem usados.

O caos previsto pelo catastrofismo oportunista não aconteceu e isso também deve ser levado em conta para não nos sentirmos os piores dos humanos.

A presidente pode ter seus deméritos. Mas cada um tem os seus e os de alguns são ainda piores que os de outros.

A corrupção, evidentemente, deve ser banida dentro e fora do futebol. Mas, se começar por aí, pode captar a simpatia da torcida e eventualmente espalhar para outras áreas para satisfação geral da nação.

Torcer pela Argentina?

Este talvez seja um caso sem solução.

Nada contra nossos simpáticos e extrovertidos vizinhos, talvez ainda mais esperançosos que nós (afinal, a partida contra a Alemanha até o momento da redação deste texto ainda não aconteceu).

No futebol, torcer pela Argentina deveria ser um caso de alta traição nacional.

Sem direito a fiança ou qualquer outro recurso de amenização.



Escrito por blogdasciam às 16h58
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Futebol transcende a intolerância

Por Ulisses Capozzoli

 Hoje, sexta-feira, primeiro dia sem uma única partida de futebol, desde que a Copa 2014 começou, há uma evidente síndrome de abstinência.

 As telas de televisão estão mudas em restaurantes, locais de trabalho e provavelmente na maioria das casas de torcedores ou de pessoas que podem nem mesmo se interessar por esse esporte, mas acabaram cativadas pela emoção dos últimos dias.

Ninguém comenta um lance, comemora um gol, sorri encantado por um passe que parece a mais pura magia. 

Os que odeiam futebol – claro essas pessoas existem – argumentam, por exemplo, que esse esporte não passa de idiotice, com 22 homens correndo durante quase duas horas atrás de uma bola.

Que existam pessoas que não apreciem futebol é algo compreensível, mas, que sejam capazes de plasmar uma frase tão estúpida quanto essa, é algo que exige resposta.

Se o futebol, de fato, correspondesse a esse simplismo, como explicar que seja o único esporte que fascina as pessoas em todo o mundo?

O futebol, na verdade, é uma arte refinada, mais que um esporte.

Experimente o leitor tirar, momentaneamente, o som dos estádios da TV – e mais que isso, a bobageira sem limites de determinados narradores. O que fica?

Uma dança, um balé, uma coreografia que envolve o deslocamento da bola para onde quer que ela vá.

Voando, momentaneamente fora do alcance de qualquer um dos atleta, ou rolando pela grama aparada, em toques curtos, longos, oblíquos, calculados ou, às vezes, puramente acidentais.

Há toda uma dança.

Um deslocamento em grupo da defesa. Uma movimentação do ataque que ocupa espaços aparentemente invisíveis.

A solidão do goleiro

O goleiro, o último homem da equipe que ataca, provavelmente relaxa por alguns segundos, enquanto a bola, esférica como a Lua, ameaça seu adversário com movimentos imprevisíveis.

O que passa pela mente de um goleiro nesses breves momentos de descontração?

Um goleiro conversa sozinho, instiga o ataque, torce, sugere determinada jogada, antevê uma revanche, uma jogada de uma partida anterior, de muitos jogos anteriores, de jogos de que ele sequer participou?

Provavelmente é o que acontece, daí o futebol, dependendo da qualidade com que é praticado ser mais arte que propriamente esporte, ainda que a divisão de territórios como esse não passe de necessidade que cultivamos de precisar coisas e fatos que, rigorosamente, não são nada precisos nem precisáveis.

Quando o goleiro russo Akinfeev engoliu o que o vocabulário futebolístico define como “frango” ou “penosa”, no jogo contra a Nigéria, por exemplo, por frações de segundo viajei no tempo, e certamente não fui o único, para recuperar a imagem de Yashin, o mágico goleiro russo de copas passadas.

Lev Ivanovich Yasin (1929-1990), conhecido como “pantera negra” na Europa e “aranha negra” no Brasil e América Latina, pelo seu uniforme inteiramente negro – na verdade numa época em que os goleiros se vestiam assim – foi o único goleiro, até agora, a ganhar a cobiçada Bola de Ouro, da revista francesa France football, para o melhor goleiro da Europa em 1963.

Melhor goleiro do século 20

Quando se aposentou, em 1971, a Federação Internacional de Futebol Associado (Fifa) homenageou-o com uma medalha de ouro especial pela contribuição que deu ao futebol. Informalmente, no gosto do público, que é o que realmente vale, Yashin foi considerado o melhor goleiro de todo o século 20.

A certa altura das ocorrências esportivas foi criado um prêmio, o troféu “Lev Yashin”, em homenagem ao Aranha Negra, mas posteriormente, por idiossincrasias impossíveis de se decifrar, o prêmio mudou de nome e agora se chama simplesmente “Luva de Ouro”.

Quando cometeu a falha quase cômica, a imagem, o nome, a memória de Yashin teria passado pela memória do jovem e inseguro Akinfeev?

Impossível saber.

A solidão do goleiro no estádio hiperlotado talvez só possa ser comparada à de Michael Collins, atravessando o lado oculto da Lua, sem qualquer contato com a Terra, com o abismo do espaço-tempo projetado ao fundo de sua pequena e frágil nave espacial.

E o atacante uruguaio, Luis Suárez, que atacou a dentadas o italiano Stefano Michelini?

Mesmo o simpaticíssimo presidente do Uruguai, José Mujica, entendeu que ele foi vítima de uma punição desproporcional.

Mas a primeira expulsão de um jogador na copa também foi de um Uruguaio, Max Pereira, resultado de uma agressão injustificável contra um atleta da Costa Rica no jogo mais faltoso da copa.

O que explica que um país cativante como o Uruguai, com o bom vinho que produz, um presidente absolutamente democrático tenha sido o responsável por duas das mais lamentáveis cenas desta copa mundial?

Talvez seja impossível saber.

No futebol, como na vida, nem tudo pode ser explicado.



Escrito por blogdasciam às 16h46
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As formas da Galáxia

 Estrelas localizadas do lado oposto da Galáxia podem trazer dados novos sobre a Via Láctea

Por Ulisses Capozzoli

Astrônomos do Japão e África do Sul detectaram um pequeno grupamento de estrelas Cefeidas do lado oposto da Galáxia, em relação à posição do Sistema Solar, que acenam com a possibilidade de novas deduções sobre nosso bairro cósmico.

A idéia de galáxias como um gigantesco aglomerado estelar, reunindo bilhões de corpos, foi proposta inicialmente pelo filósofo alemão I. Kant (1724-1804) em 1755. Kant chamou de “universos-ilhas” esses ajuntamentos que se reúnem em aglomerados e super aglomerados em movimentos regidos pela gravidade.

Durante muito tempo astrônomos consideraram que o corpo da nossa galáxia, a Via Láctea, correspondia a todo o Universo e isso só começou a mudar com o crescente poder de resolução dos telescópios.

Nos anos 30, do século passado, nebulosas de vários tipos que correspondem a remanescentes de estrelas mortas e berçário de novas estrelas ainda eram confundidas com galáxias.

Quando essa confusão se dissipou os astrônomos se deram conta de que muitas das “nebulosas” eram, na verdade, galáxias independentes como a nossa que deve dispor de 200 bilhões de estrelas.

O que veio a seguir foi uma descoberta feita com caneta e papel pelo astrônomo holandês Hendrik Christoffel van de Hulst (1918-2000) durante a segunda guerra mundial,

Hulst, que trabalhava no observatório de Leiden, sob direção de Jan Hendrik Oort (1900-1992) descobriu que o hidrogênio neutro emite num comprimento de 21 cm, o que foi confirmado, em seguida, por Harold Ewen e Edgard Mills Purcell.

Essa descoberta permitiu que os radiotelescópios mapeassem o corpo da galáxia que é, fundamentalmente, uma enorme concentração de hidrogênio, o elemento químico mais abundante de todo o Universo.

O mapeamento em rádio de nossas galáxia mostrou que ela tem a forma espiral e em um dos seus braços, o braço de Órion, abriga o Sistema Solar, a pouco menos de 30 mil anos-luz do núcleo galáctico.

No final do século 20 uma nova descoberta mostrou que a Via Láctea não é apenas uma galáxia espiral, mas uma espiral barrada, devido à forma de concentração estelar na sua porção central.

A descoberta anunciada pelos astrônomos japoneses e sul-africanos a partir de observações feitas com o Grande Telescópio Sul-Africano (Salt) permite a exploração de regiões extremas da Galáxia, de onde podem chegar novas informações capazes de melhorar o conhecimento que temos do que se pode reconhecer como nosso bairro cósmico.



Escrito por blogdasciam às 15h25
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 Ventos se intensificam na Antártida

Por Ulisses Capozzoli

Os ventos que varrem o Oceano Antártico, a massa de água que envolve o continente austral, são os mais intensos do último milênio e o mecanismo por trás desse processo são as mudanças climáticas por aquecimento global, segundo dados publicados por pesquisadores da Australian National University (ANU) na segunda-feira (12/05).

O Oceano Antártico, também conhecido como Oceano Austral ou Oceano Glacial Antártico, na verdade é o prolongamento, ao sul, dos oceanos Atlântico, Índico e Pacífico e soma uma área de pouco mais de 20 milhões de km².

Esses ventos, que aterrorizam navegadores praticamente desde o século 16, quando as ilhas subantárticas começaram a ser identificadas por embarcações que perseguiam focas e baleias, se intensificaram nos últimos 70 anos.

Nerilie Abram, co-autora da pesquisa publicada na revista Nature Climate Change, diz que a combinação de dados envolvendo a intensificação dos ventos e outros processos que ocorrem na região aponta para o efeito estufa, produzido por gases liberados por atividades humanas em escala global, e que retém parte do calor emitido pelo Sol na atmosfera da Terra.

Ventos intensos dificultam ainda mais a navegação no Oceano Antártico, particularmente na Passagem de Drake, um espaço aberto entre o sul da América do Sul e o norte do continente antártico, de aproximadamente mil quilômetros.

A passagem tem esse nome em homenagem ao corsário inglês Francis Drake que, colhido por uma tempestade quando navegava ao largo da costa oriental da América do Sul, teve seu barco desviado para a região que, desde sempre, atormentou navegadores, tanto de veleiros do passado como embarcações modernas e bem equipadas.

A intensificação dos ventos, no entanto, não atinge apenas navegantes. O estudo da equipe da ANU mostra que esses ventos, que evitam a costa oriental do continente e têm temperaturas mais baixas, acabam privando a Austrália de chuvas, e exatamente por isso são responsáveis por secas e incêndios.

Em meados dos anos 90, quando a Organização das Nações Unidas (ONU) intensificou a divulgação de dados relacionados ao aquecimento global com mudanças climáticas, o pensamento conservador contestou enfaticamente essa interpretação. Grupos de interesse, como a exploração e comercialização de combustíveis fósseis, acionaram lobbies e fizeram uma agressiva campanha procurando desacreditar essa interpretação.

Pressão econômica

O argumento do pensamento conservador, que arregimentou também jornalistas, mais comprometidos com a ideologia que com a metodologia, é que as mudanças seriam naturais e sem qualquer relação com atividades antrópicas.

Climatologia, de fato, é uma área complexa da ciência e exatamente por isso avessa a interpretações sumárias.

Mudanças climáticas, produzidas por fenômenos naturais, de fato ocorreram na Terra muitas vezes, sem qualquer intervenção humana. Na verdade, em períodos que os humanos ainda seriam uma construção do futuro.

Ocorre, no entanto, que as mudanças naturais foram longas, envolvendo ciclos de milhares de anos, como o que, há aproximadamente 13 mil anos, encerrou o último período glacial e iniciou o interglacial, em que estamos vivendo.

No interglacial, como o nome diz, as temperaturas tiveram elevação, as geleiras continentais se dissolveram, a oferta de água continental aumentou e, possivelmente, em função da conjunção desses fatores, a agricultura nasceu pelas mãos humanas, no chamado Crescente Fértil, que inclui terras que agora pertencem ao Iraque, há 12 mil anos.

Já o aquecimento com mudança climática resultado de atividades antrópicas se mostra muito mais rápido que a versão natural e uma das consequências disso é a incapacidade de adaptação de flora e fauna em escala global.

Num planeta com população acima de 7 bilhões de pessoas, o impacto desse fenômeno na atividade produtiva, em especial na agropecuária, é extremamente preocupante.

Outras áreas de enorme preocupação em relação ao aquecimento e mudanças climáticas são a extinção de espécies e a crescente carência na oferta de água potável, além da ocorrências de tormentas mais frequentes e destruidoras.

Climatologistas céticos quanto ao aquecimento global por ação antrópica ainda brandem suas idéias contrárias e com isso ainda cativam adeptos.

A verdade, no entanto, é que a ciência não é um processo que envolve consenso absoluto, o que torna natural, e mesmo desejável, a existência de críticos, independentemente da questão considerada.

Ocorre, no entanto, que desde Svante Arrhenius (1859-1927) Prêmio Nobel sueco de química de 1903, sabe-se que o dióxido de carbono (gás carbônico) é um gás de efeito estufa. Assim, ao menos em princípio, quanto maior a concentração desse gás na atmosfera, maior a tendência ao aquecimento.

E, em maio de 2013, a mesma ONU preveniu que, pela primeira vez na historia da civilização, a concentração dessa substância na atmosfera atingiu 400 PPM (partes por milhão).



Escrito por blogdasciam às 16h15
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Os dias dourados de Sol

  Por Ulisses Capozzoli                                                               

 Você pode sair à luz do Sol num desses dias de outono e se encantar com uma tonalidade ligeiramente mais dourada, menos intensa, por exemplo, que a luz branca e intensa do verão.

Por que essa variação na tonalidade da luz do Sol?

A razão disso está na inclinação do eixo de rotação da Terra de aproximadamente 23,5°, responsável pelas estações do ano.

No verão de cada hemisfério o Sol está mais a pino e a camada de atmosfera que sua luz atravessa é menos espessa, o que faz com que sofra menos interferência.

A partir do outono, no entanto, até o fim do inverno a situação é inversa e a incidência da luz solar é mais oblíqua para cada um dos hemisférios. Assim, a tendência é que o comprimento mais longo da luz, o vermelho, penetre a atmosfera com mais facilidade, ao contrário do que ocorre com o azul, mais curto, que acaba rebatido num jogo de espelhos formado pelos átomos dos gases atmosféricos.

Os físicos chamam esse processo de “espalhamento da luz”.

Essa situação fica evidente ao amanhecer e ao entardecer, ao longo do ano, quando o Sol, baixo na linha do horizonte, se mostra como uma enorme moeda incandescente, subindo à medida que o dia avança, por efeito da rotação da Terra, ou mergulhando abaixo dessa linha para a formação da noite, pelo mesmo efeito de giro do planeta.

Formação da Lua

Qual a razão da inclinação do eixo de rotação da Terra?

Essa é uma das questões aparentemente simples, mas que ainda não tem uma resposta clara. Pode ser que tenha resultado do impacto de um corpo com a jovem Terra, quando mesmo o Sistema Solar era muito jovem, e que deu origem à Lua.

O fato é que as estações do ano moldaram as características da vida na Terra.

Ursos, por exemplo, hibernam durante o inverno em seus hábitats naturais. Plantas florescem e dão seus frutos de acordo com a estação do ano. Hábitos e comportamentos humanos, como vestuário e alimentação também mudam ao longo do ano.

O eixo de rotação da Terra certamente influenciou mesmo a distribuição da população humana pela superfície do planeta, a partir da África, tida como o berço da humanidade.

Como isso aconteceu?

Bem, caçadores primitivos sem dúvida se deslocaram nas pegadas de manadas que mudavam periodicamente, ao longo das estações, buscando pastagens mais abundantes e generosas. Isso abriu espaços novos, estimulou ocupações diversas e acenou com cenários novos abaixo da linha do horizonte.

Nem sempre foi assim

Tudo isso pode fazer pensar que as coisas de certa forma sempre foram assim, ou seja, que a Terra sempre existiu e o Sol brilhou como hoje, mas isso não é real. 

Na verdade, o Sistema Solar se formou num dos braços da Galáxia, a Via Láctea, a cidade cósmica em que vivemos, há aproximadamente 5 bilhões de anos, quando a própria Galáxia era mais jovem, embora já tivesse idade de bilhões de anos.

O Sistema Solar formou-se de uma nuvem gigantesca, remanescente de uma estrela primordial que gerou uma ninhada de estrelas, as irmãs do Sol, agora dispersadas pelo vasto corpo da Galáxia.

Mas houve um tempo ainda anterior, quando a própria Galáxia não existia e antes disso o Universo foi tomada por uma grande escuridão, a chamada Idade das Trevas, que teria durado algo como 1 bilhão de anos.

Se você quiser saber como tudo isso aconteceu, e o que iluminou o Cosmos, produzindo o que pode ser expresso como um “a luz se fez”, leia o artigo de capa deste mês de Scientific American Brasil que está nas bancas, com o título de “O amanhecer cósmico”.

Você saberá que a luz nem sempre atravessou o céu da Terra como agora. Que nem sempre a Terra existiu. Que a Galáxia também se formou numa etapa de evolução do Universo. E que o próprio Universo emergiu com a manifestação de um ponto conhecido como singularidade, um enigmático e surpreendente ovo cósmico.

 

 

 

 

 

 



Escrito por blogdasciam às 13h14
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A ameaça de impactos cósmicos

Por Ulisses Capozzoli

Há um risco, maior que o estimado antes, de a Terra ser atingida pelo impacto de um bólido celeste, segundo dados divulgados pela organização Comprehensive Nuclear Test Ban Treaty Organization no último dia 21. 

A entidade que, como seu nome sugere dedica-se à vigilância de testes nucleares clandestinos, revelou ter identificado o impacto de 26 asteróides com a atmosfera da Terra no curto período entre 2000 e 2013.

 Esses 26 bólidos incluem o corpo que caiu nas proximidades dos Montes Urais, na Rússia, em 15 de fevereiro do ano passado e deixou pelo menos mil pessoas feridas por estilhaços de vidro e outros detritos.

 Neste caso, a transformação de energia cinética (movimento) do corpo que se chocou com a Terra, estimado em 10 mil toneladas, transformou-se subitamente em energia térmica (calor) e gerou uma explosão que estrilhaçou vidros de janelas de pessoas que foram verificar o clarão produzido pelo impacto.

 A onda de choque produzida pela explosão, além de romper janelas e transformar vidro rompido em projéteis, também lançou outras formas de detrito na baixa atmosfera que atingiram e feriram pessoas e seguramente animais.

 Quase sempre, quando se fala em impacto de asteróides, as pessoas tendem a pensar no corpo que teria se chocado contra a Península de Yucatã, no México, e pôs fim ao longo reinado dos dinossauros ao liberar na atmosfera vapor d’água e poeira que bloquearam a luz solar e provocaram a morte da vegetação.

 Sem alimentos, os dinossauros herbívoros, de que os carnívoros se alimentaram, foram eliminados e levaram junto seus antigos predadores.

 Mas esse era um asteróide comparativamente grande e mais raro, ao contrário dos menores, mas mais numerosos e igualmente ameaçadores.

 A conexão, no caso dos acontecimentos há 65 milhões de anos, pode sugerir um teatro menos violento que o que se manifestou na realidade e relativamente mais rápido. Mas o cenário não foi assim.

O armagedon

O corpo, estimado em 10 km de diâmetro, impactou com a Terra, explodiu e ejetou no espaço parte da atmosfera terrestre. Além disso, produziu uma quantidade de calor que teria alimentado incêndios em escala planetária, entre outros efeitos que aos olhos humanos teria sido a forma mais extrema de terror vinda do espaço profundo.

O mais frequente, no caso de bólidos vindos do espaço, são impactos com corpos menores, porque eles são mais numerosos, o que diminui os riscos de uma catástrofe, especialmente se ocorrer em uma significativa comunidade humana, mas também levaram a crer que esses acidentes cósmicos sejam menores que na realidade devem ser.

As chuvas de meteoros, por exemplo, que encantam astrônomos amadores e observadores eventuais, de forma geral são material desprendido de cometas e asteróides que passam pelas proximidades do Sol em suas órbitas quase sempre elípticas.

Uma “estrela cadente” que com freqüência marca o céu como um risco de fósforos cósmicos, quase sempre tem o porte entre um grão de milho e um de arroz e por isso mesmo não oferecem riscos na superfície do planeta.

Corpos maiores, no entanto, não foram nem serão tão inofensivos e essa possibilidade preocupa crescentemente a comunidade astronômica, em meio à comunidade científica de modo geral.

O mais significativo deles, ao que tudo indica o corpo de um pequeno cometa, caiu no vale do Rio Tunguska, na Sibéria, território da antiga União Soviética, em 1908, então praticamente desabitado.

A explosão que ocorreu na atmosfera, em Tunguska, liberou calor em quantidade suficiente para incendiar uma floresta com a extensão da área da cidade de São Paulo, numa devastação que só algumas décadas depois foi testemunhada por observação humana.

Explosão iluminou a noite

Para se ter uma idéia do cenário, registros falam que a luminosidade da explosão permitiu a leitura de jornais durante a noite, em Londres, a centenas de quilômetros  distante do grande vazio siberiano.

Mais recentemente ainda, em 1932, o que se imagina que tenha sido também parte de um cometa, chocou-se com a Terra na região do Vale do Rio Javari, um dos afluentes do Solimões  que, com o Rio Negro, forma o Amazonas, o maior rio da Terra.

Cientistas buscaram sem sucesso a cicatriz do impacto, da cratera, deixado pelo corpo que caiu no Vale do Javari, da mesma forma como também não foi encontrada de forma inequívoca a cratera produzido pelo bólido do Vale do Tunguska.

O que fazer para evitar um desastre que pode comprometer seriamente a estabilidade da civilização, uma questão que parece emergir do universo da ficção científica?

A resposta está em duas providências: identificar, ainda no espaço e relativamente distante, o corpo ameaçador e, em seguida, providenciar o desvio de sua rota para que  a Terra saia de sua alça de mira.

As duas questões até agora permanecem como um desafio, em particular a possibilidade de desvio de rota do corpo ameaçador, mas esforços nessa direção tendem a ser intensificados numa mudança de mentalidade que traz o que já foi ficção científica para a pura realidade, a exemplo do que ocorreu em outras áreas do conhecimento.

Talvez valha a pena acrescentar que esse bombardeio intenso da Terra por blocos desprendidos de cometas injetam água no planeta e com isso compensa as perdas por fotodissociação que ocorrem em elevadas altitudes da atmosfera fazendo com que o oxigênio precipite em direção à superfície, enquanto o hidrogênio, leve como pluma, forme um véu que se estende da Terra a uma distância equivalente à órbita da Lua.

Uma última e surpreendente relação:

A água que chega agora do espaço, e que no passado também foi trazida para a Terra no corpo de cometas que se chocaram com o planeta, forma perto de 60% da massa de um corpo humano.

Isso significa que, apesar do risco representado pelos cometas, ao lado de asteróides − que em alguns casos não são outra coisa que cometas envelhecidos – nossos próprios corpos foram, no passado remoto, parte de um cometa brilhante no céu.

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por blogdasciam às 16h03
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Um mundo como a Terra

Por Ulisses Capozzoli

O anúncio um tanto bombástico da identificação de um planeta com características próximas às da Terra na sexta-feira passada (18/04), orbitando uma estrela anã-vermelha a 490 anos-luz do Sistema Solar, é compreensível quanto à possibilidade de que mundos como o nosso possam ser abundantes no corpo da Galáxia, a Via Láctea e em outros “universos-ilha”, para usar a expressão de Kant, espalhados por todo o Universo.

Mas, considerada por outros aspectos, soa algo literalmente inalcançável, uma espécie de “paraíso perdido”, agora para tomar de empréstimo o título de uma obra do poeta inglês John Milton.

Kepler 186f, uma espécie de primo distante da Terra, foi identificado pelo telescópio espacial Kepler, atualmente fora de operação por um defeito em seu delicado sistema de apontamento. Astrônomos planetários identificaram o planeta analisando os dados coletados pelo Kepler pelo processo de trânsito planetário.

Imagine o farol de seu carro numa noite escura e que subitamente um inseto do porte de uma pulga cruze na frente deles.

Você, obviamente, não se dará conta disso. Mas um sistema sofisticado de detecção na variação na quantidade de luz emitida pelo farol de seu veículo (nesta analogia o Sol que abriga um planeta em sua órbita) seria capaz de identificar as dimensões do corpo da pulga, ainda que fosse incapaz de determinar sua massa.

Ao menos desde 1992, quando foi identificado o primeiro planeta extrassolar, ou seja, o primeiro planeta fora do reino do Sol, astrônomos planetários buscam um mundo do porte e características da Terra, na esperança de responder uma pergunta ancestral: se somos a única inteligência do Cosmos.

Evidentemente que a última frase do parágrafo anterior pressupõe vida, e vida inteligente, como concebemos à imagem de nossa própria existência e esse já é um reducionismo capaz de arruinar completamente um raciocínio mais amplo e complexo.

De qualquer maneira, de alguma forma procuramos nossa própria imagem em outros mundos e, na essência, sonhamos com a possibilidade de indagar a prováveis outras criaturas sobre questões que nos são fundamentais e para as quais ainda não obtivemos respostas satisfatórias.

Perguntas fundamentais

Entre elas questões ligadas à nossa própria origem e destino.

E também às origens e destino do Universo.

O Universo tem um começo e fim, em termos temporais, ou incorpora em si a eternidade, seja lá o que isso possa significar, talvez num processo de nascimento/renascimento sucessivo e infinito?

Claro, Kepler 186f é muito diferente de todos os mundos detectados até agora, ainda que não tenhamos tido uma imagem minimamente mais nítida de nenhum deles.

Mas está localizado na chamada “zona habitável” de uma estrela, distância entre um planeta e sua estrela mãe onde a água possa exibir seus três estados, como ocorre na Terra e assim sugerir as possibilidades de um ciclo hidrológico.

A estrela-mãe de Kepler 186f é uma anã-vermelha e isso significa que ela é muito diferente de nosso sol o que, de imediato, sugere que formas de vida, eventualmente humanóides que remetam às nossas próprias formas e ao nosso narcisismo ilimitado.

O que se poderia pensar a respeito deles?

Que teriam olhos diferentes e maiores que os nossos, já que esses órgãos, são verdadeiros detectores biológicos e, em nosso (e eventualmente em outros mundos) adaptados à estrela-mãe.

A estrela-mãe de Kepler 186f tem massa 10% a mais que a Terra, segundo as primeiras avaliações, o que é novidade em relação aos mundos até agora identificados, corpos do porte de Júpiter ou ainda maiores que o maior dos planetas do Sistema Solar.

Mas essa anã-vermelha emite menos energia que o Sol e Kepler 186f é o quinto e últimos dos planetas mais afastados de sua estrela-mãe, com o ano equivalente a 129,9 dias da Terra.

A luz que chegou aos sensores do telescópio Kepler e que agora os astrônomos planetários vasculham em busca de outros mundos, em especial mundos como o nosso, deixou a superfície da anã-vermelha que abriga o 186f há 490 anos, na verdade apenas 24 anos depois que Pedro Álvares Cabral e sua esquadra desembarcaram na costa do que agora é o Estado da Bahia, num anúncio formal da descoberta do Brasil.

Que quantidade de energia deveríamos despender para uma eventual viagem a Kepler 186f?

Imensidão cósmica

Quanto tempo levaríamos para cruzar essa extensão do oceano cósmico, levando em conta as limitações estabelecidas por Einstein de que corpos com massa não podem deslocar-se à velocidade da luz?

Einstein um dia será superado quanto aos limites de velocidade de deslocamento no espaço?

Essas são questões apenas teóricas que, eventualmente, apenas num futuro mais distante podem ocupar a atenção de cientistas que ainda não nasceram.

Por enquanto poderíamos pensar, com maior praticidade, economia e viabilidade, na ocupação de Marte e, depois disso, numa transformação de Vênus, como mundos que potencialmente podem abrigar uma futuro colônia humana.

Com frequência, pessoas perguntam se uma dia iremos para Marte.

A resposta, no entanto, é que já estamos indo, embora boa parcela das pessoas, absorvidas pelas formalidades da vida cotidiana ainda não tenham se dado conta disso.

Mais importante que Kepler 186f, Marte e Vênus em conjunto, deve estar a preocupação com o nosso próprio mundo, de realidade incontestável, a quinta pedra de nosso Sol, uma aquário esférico com um quarto de sua superfície formada por continentes e ilhas, onde temos certeza de que a vida floresceu e se desenvolve a cada início de manhã e fim de noite.

A Terra é nossa verdadeira morada cósmica, o único mundo onde temos certeza de que, por exemplo, chove. E quando as chuvas são raras ou excessivas os problemas se manifestam em uma ou outra extremidade de um espectro de profunda destruição.

Kepler 186f permanecerá por milhões, eventualmente bilhões de anos em órbita de sua estrela-mãe e, antes disso, seguramente teremos identificado milhões de outros mundos como a Terra.

Mas, para ao menos sonhar com cada um deles é fundamental que possamos preservar nosso próprio mundo.

Na ausência dele, o que significa dizer, na destruição dele, nenhum outro pode fazer sentido.



Escrito por blogdasciam às 15h35
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