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Crise de água potável

Por Ulisses Capozzoli

Em um mundo com aproximadamente 75% de sua superfície coberta por oceanos, o que justifica a crise de abastecimento de água presente no noticiário de várias regiões e, neste momento, intimamente relacionada à megalópole de São Paulo?

Do 1,3 bilhão de km³ de água do planeta, pouco mais de 1% é representado pela água doce e isso já reduz significativamente a oferta potável, aquela utilizada para consumo humano, atividades industriais e consumo pela agropecuária mundial.

É verdade que os oceanos têm participação majoritária no chamado ciclo hidrológico, o processo que regula a circulação da água na superfície e atmosfera do planeta, responsável pela purificação de aproximadamente 11 mil km³ de água a cada ano.

E a carência de água potável está intimamente ligada a esse volume de água purificada pelo ciclo hidrológico, que só foi desvendado ao longo de séculos de investigação.

Aristóteles, que se ocupou de quase tudo que diz respeito ao conhecimento, especulou que as profundezas da Terra eram responsáveis por uma espécie de geração espontânea da água. 

Ao longo do século 20 uma interação de campos que foi da hidrologia à cosmologia, passando pela evolução estelar, revelou que a água teve existência precoce no Universo.

Como nas demais áreas, também para a água, tudo começou com o Big Bang, a explosão da criação do Universo, segundo a cosmologia que tem esse nome.

Quase 400 mil anos após a explosão primordial, com a expansão e resfriamento do Universo, as partículas se acoplaram para formar os primeiros átomos e o volume maior desses elementos foi e ainda é representado pelo hidrogênio.

As primeiras estrelas foram bolas gigantescas de hidrogênio comprimidas gravitacionalmente para entrar em ignição nuclear e produzir o que hoje os astrofísicos chamam de síntese dos elementos químicos.

Numa fase relativamente curta, estrelas que “queimaram” hidrogênio e hélio deram origem ao oxigênio que, com o hidrogênio, forma a molécula H20, ou seja, uma molécula de água.

Assim, a água surgiu precocemente no Cosmos e ainda hoje fontes d´água estão localizadas em regiões como a enorme nebulosa de Órion, na constelação desse mesmo nome.

A nebulosa que há 5 bilhões de anos deu origem ao Sistema Solar era rica em água, segundo cientistas planetários consideram hoje. Dessa forma não seria surpreendente que a Terra reunisse parte desse estoque, ainda que o processo de formação de mundos seja complexo o suficiente para não permitir relações tão lineares.

Ainda no século passado ficou mais ou menos evidenciado que parte da água disponível na Terra chegou aqui no corpo de cometas que se chocaram com o planeta num bombardeio que há mais de 2 bilhões de anos foi intenso no Sistema Solar e que marcou, por exemplo, a superfície da Lua.

Na Terra, situada na chamada zona de habitabilidade do Sol, a água manifesta-se em seus três estados graças à chamada “ponte do hidrogênio”, que dá a esse elemento fundamental para a vida como conhecida, a capacidade de ser tanto vapor na atmosfera, líquida nas chuvas que se precipitam sobre a superfície e sólida, por exemplo, nas regiões polares.

Na Terra, a água está distribuída de forma bastante irregular, o que significa que algumas regiões são beneficiadas com esses recursos, enquanto outras se ressentem profundamente da escassez deles.

O Brasil dispõe de algo como 14% dos estoques de água doce do planeta, uma riqueza natural cada vez mais valorizada. A questão é que a maior parte deste volume está na região amazônica, distante da principal área de consumo, no Sudeste do país.

Estratégias nem sempre bem articuladas, perdas nas redes de distribuição e ausência de recuperação adequada de águas já utilizadas comprometem boa parte da oferta disponível neste momento em uma megalópole como São Paulo.

Assim, o equilíbrio entre oferta e demanda de água passa por um complexo sistema interativo, exigindo cuidados frequentes em termos de infraestrutura, previsões a mais longo prazo, educação para consumo equilibrado e outras questões estratégicas que nem sempre são devidamente consideradas.

Em 10 de novembro de 1980 as Nações Unidas criaram a década da água potável para sensibilizar administradores públicos em particular, e a sociedade humana em seu conjunto, para a importância de cuidados essenciais com a água.

Mas há um quarto de século atrás questões como essa pareciam, a muitos, apenas previsões pessimistas para o futuro.

Mas na nova década da água, de 2005 a 2015, o que parecia pura ficção é perturbadoramente real.

 

 

 

 

 



Escrito por blogdasciam às 17h24
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O novo século do cérebro

 Por Ulisses Capozzoli

Como um dos sistemas mais complexos da Natureza, o cérebro humano, é capaz de gerar sensações como pensamentos e emoções?

Legiões de neurocientistas em todo o mundo estão determinados a investigar processos que, um dia, devem nos colocar à frente de respostas que, longe de serem definitivas, levarão a novos questionamentos.

A diferença é que isso ocorrerá em um novo padrão, algo que o filósofo da ciência americano, Thomas Kuhn, considerou como “paradigmático” em sua obra Estrutura das revoluções científicas.

O ponto de partida mais promissor no processo de desvendamento do cérebro está no monitoramento da atividade elétrica de milhões de neurônios, as células nervosas, o que o neuroanatomista espanhol Santiago Ramón y Cajal chamou de “selva impenetrável, onde muitos pesquisadores se perderam”.

Métodos inovadores, na expectativa de neurocientistas, ao menos em princípio teriam condições de preencher vazios de conhecimento envolvendo processos que vão de um disparo de um neurônio a atos de cognição como percepção, emoção, tomada de decisões e um conjunto de processos de alta complexidade relacionados à consciência.

As novas perspectivas abertas para a compreensão do cérebro humano são o assunto de capa da edição de abril de Scientific American Brasil que chega às bancas neste fim de semana em todo o País.

Assinado por Rafael Yuste, professor de ciências biológicas e neurociência na Columbia University e George M. Churck, professor de genética ma Harvard University o artigo aborda “o novo século do cérebro”.

Desvendar os processos que ocorrem no interior de um órgão que consome boa parte da energia gerada pelo organismo, ainda que seu peso não supere 1,5 kg é um desafio na sequência de uma conquista obtida há quase 30 anos, desde que cientistas conseguiram mapear conexões entre cada uma das 302 conexões nervosas do verme Caenorhabditis elegans.

O desvendamento do cérebro tem como perspectiva imediata de desdobramento a chance de cura para doenças como Alzheimer, Parkinson, autismo e esquizofrenia que, em todo o mundo, afetam sem chances de libertação, a vida de milhões de pessoas.

Entre os projetos encarregados de investigar a complexidade do cérebro está o Brain (cérebro em inglês) com financiamento inicial do governo americano de USS 100 milhões ao longo deste ano.

O Brain complementa um conjunto de outros projetos fora dos Estados Unidos, caso do Projeto Cérebro Humano, financiado pela União Européia, com recursos de US 1,6 bilhão distribuídos ao longo de dez anos.

O século do cérebro, como escrevem Yuste e Churck, agora “paira sobre nós”.



Escrito por blogdasciam às 18h01
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Evidências da inflação cósmica

Por Ulisses Capozzoli

Uma descoberta intrigante, anunciada esta semana por cientistas americanos, certamente passou despercebida pela maioria das pessoas em meio ao noticiário sobre o avião perdido da Malaysia Airlines e a crise político-militar na Ucrânia, entre outros temas diários da mídia.

Trata-se da evidência da manifestação da chamada “inflação cósmica” teoria proposta pelo físico americano Allan Guth, em 1981, para explicar, entre outros pontos, o que os físicos chamam de “quebra de simetria cósmica”, um processo que separou matéria e antimatéria e permitiu a preponderância da matéria que forma o universo conhecido e estruturas como nossos próprios corpos, as nuvens que flutuam na atmosfera e as borboletas com seus voos aparentemente erráticos.

A inflação cósmica também está por trás de um fenômeno que os cosmólogos chamam de isotropia cósmica, ou seja, uma propriedade de o Universo mostrar-se como um todo homogêneo a observadores, independentemente da direção de observação, o que significa ausência de uma direção privilegiada.

A inflação cósmica teria ocorrido, segundo prevê a teoria, numa fase extremamente rápida (algo impensável para a mente humana, ainda que possa ser registrada como uma notação matemática) que se seguiu ao que ficou consagrado como o “Big Bang”, a manifestação de uma singularidade (quase sempre referida como uma explosão, daí o termo Big Bang) que deu origem ao Universo segundo essa cosmologia.

Este intervalo de tempo tem sido estimado como 10-35 a 10-32 segundo após a explosão primordial, quando o volume do Universo teria se expandido por um fator da ordem de 1050um crescimento tão acelerado que também está fora da compreensão humana por ausência de qualquer relação com a experiência diária que mantemos com as coisas do mundo.

Apenas para se ter uma idéia, é como se o diâmetro de um próton (partícula do núcleo atômico, ou núcleo do hidrogênio) passa abruptamente para o diâmetro de uma laranja e daí para, por exemplo, ao diâmetro da Lua, num movimento de expansão cósmica que já dura pelo menos 13,7 bilhões de anos, a idade científica do Universo.

Antes da manifestação da inflação, três das forças fundamentais da Natureza (força nuclear forte, força nuclear fraca e a eletromagnética) se encontravam unificadas em uma única.

A quarta das forças fundamentais da Natureza é a gravidade.

O cenário proposto pelos cosmólogos é que a temperatura (outro parâmetro impensável pela mente humana) apenas 10-35s após o Big Bang caiu para 1028 K e a simetria entre matéria e antimatéria foi rompida com a separação das forças fundamentais.

A evidência da inflação cósmica foi obtida a partir de perturbações no que os cosmólogos chamam de radiação cósmica de fundo em microondas, uma espécie de remanescente térmico do calor original produzido pelo Big Bang.

Um paralelo para se aproximar dessa idéia é imaginar, por exemplo, uma fogueira de uma festa junina e as cinzas que sobraram dela no dia seguinte.

O esplendor da fogueira é o Big Bang e as cinzas do dia seguinte a radiação cósmica de fundo.

A descoberta de evidências da inflação cósmica foi anunciada por uma equipe de cientistas americanos de um projeto chamado Bicep2, utilizando telescópios localizados no Pólo Sul, no coração do continente antártico, que fazem o monitoramento constante de uma pequena região do céu, tarefa facilitada pela posição privilegiada do pólo.

A equipe, com a participação de Allan Guth, o “pai” da teoria da inflação, relatou ter encontrado os vestígios da expansão cósmica acelerada observando a radiação cósmica de fundo que teria sido perturbada por ondas gravitacionais que percorreram o espaço-tempo nessa fase da infância cósmica.

O grupo diz que não apenas as marcas foram identificadas como são mais intensas que seria de se esperar.

A descoberta, que se confirmada é candidata fortíssima ao Prêmio Nobel de Física, lembra a detecção da própria radiação cósmica de fundo por um processo conhecido como “serendipidade”, algo parecido a uma pura coincidência, ainda que não possa ser reduzido a esta condição e que também justificou um Prêmio Nobel para os físicos Arno Penzias e Robert Wilson que então trabalhavam para os Laboratórios Bell, em meados dos anos 60.

As crises estampadas nas manchetes diárias dos jornais, evidentemente, não podem ser negligenciadas, e neste caso estão incluídos processos que vão do aquecimento global à ameaça no abastecimento de água de uma megalópole como São Paulo, indiretamente afetada por mudanças climáticas.

Mas, até mesmo para obtenção de energia de ânimo para enfrentar os fracassos anunciados a cada dia pelos economistas, como se o mundo não fosse durar mais que uma semana, certamente é saudável e necessário mergulhar no que pode se chamar de “misticismo matematizável”, idéias à primeira vista exóticas, mas que podem ser, e quase sempre são, corroboradas pela coerência das equações físico matemáticas.

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por blogdasciam às 17h19
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 Giordano Bruno e o papa Francisco I

Por Ulisses Capozzoli

 João Paulo II pediu perdão pela pena imposta a Galileu. Chega a hora de Francisco I tomar a mesma iniciativa em relação a Giordano Bruno

 

Uma análise de dados dos dois primeiros anos da missão Kepler para a detecção de planetas extrassolares revelou a identificação de 715 planetas em formação múltipla orbitando 305 estrelas da Galáxia.

Esse padrão múltiplo acena com a possibilidade de o nosso próprio sistema solar ser mais uma regra que exceção em meio aos 200 bilhões de estrelas da Via Láctea.

A missão Kleper, lançada em 7 de março de 2009, operou até maio passado, quando uma segunda falha no sistema de giroscópios, que assegurava a precisão no apontamento da nave, teve uma avaria que comprometeu a continuidade das operações.

Por volta de 95% desses 715 planetas são menores que Netuno, o oitavo planeta por ordem de distância do Sol, com quatro vezes o tamanho da Terra. 

A descoberta aumenta consideravelmente o número de planetas com porte mais próximo ao da Terra, algo como um parentesco cósmico capaz de revelar outras semelhanças possíveis, como porte e estrutura de eventuais formas de vida.

Nossos corpos têm um diálogo furtivo com o campo gravitacional da Terra, algo que passa despercebido numa consideração mais superficial.

Se a gravidade da Terra fosse mais intensa que é, nossas estruturas ósseas seriam mais sólidas e avantajadas, com corpos mais atarracados. Um campo gravitacional mais débil, no entanto, produziria um efeito contrário: corpos mais finos e delicados.

A idéia de que o Sistema Solar único, uma singularidade entre as estrelas, foi proposta pelo astrônomo e físico-matemático britânico James Hopwood Jeans (1877-1946). Jeans pensava que a passagem de uma estrela pelas proximidades do Sol teria arrancado dele uma porção de matéria, por efeito-maré, que originou seu colar planetário.

Acidente cósmico

De alguma maneira, o pensamento de jeans, um cientista brilhante e reconhecido por seus pares, perdurou até 1992, quando o primeiro exoplaneta foi detectado, por radioastronomia, na órbita de um pulsar, endereço onde dificilmente um mundo deveria ser buscado.

A razão para se pensar assim está relacionada ao fato de pulsares serem remanescentes de estrelas supernovas que explodem no estágio final de sua evolução, liberando enorme quantidade de energia o que, em princípio, literalmente vaporizaria um planeta.

Um dos 715 exoplanetas está localizado na chamada zona de habitabilidade, onde a água estaria disponível em seus três estados, permitindo o ciclo hidrológico.

Esse planeta é o Kepler-296f. Ele orbita uma estrela com metade do porte do Sol e apenas 5% do brilho de nossa estrela mãe. Mas o planeta exibe o dobro do tamanho da Terra. Os cientistas planetários ainda ignoram se esse é um mundo gasoso ou um núcleo rochoso envolto por uma densa camada de hidrogênio-hélio.

Ou, eventualmente, de um mundo-oceano, o que significa um possível núcleo rochoso cercado por um oceano profundo.

Muitas razões levam a ciência a buscar entre as estrelas da Galáxia mundos como a Terra.

O que desejamos saber, com essa busca, é se estamos sós ou temos companhia na aparente solidão do Cosmos.

Mundos do porte da Terra produziriam formas de vida e teriam processo evolutivo convergentes, ao menos em alguns casos,?

A depender do testemunho de um mundo próximo, caso de Vênus, por exemplo, no Sistema Solar, a resposta é negativa.

Inferno venusiano

Vênus tem praticamente o mesmo tamanho da Terra. Mas sem a companhia de uma lua, gira de “cabeça para baixo” e em vez de uma atmosfera favorável à vida, como a conhecemos, exibe um envoltório denso, pesado, opressivo e corrosivo.

Além de partilhar nossa presença no Universo com outras eventuais inteligências, conhecer mundos parecidos com o nosso e eventualmente sermos capazes de decifrar a origem e evolução deles é de fundamental importância para a compreensão e preservação de nossa própria casa cósmica.

Quanto à possibilidade de um dia nos transferirmos para essas novas moradias cósmicas, uma opção que seguramente virá com o futuro, por enquanto e durante muito tempo essa será uma promessa apenas potencial.

Antes de nos aventurarmos nas vizinhanças de outras estrelas, mesmo as mais próximas no corpo da Galáxia, deveremos ocupar planetas e luas do reino do Sol. Neste caso, mesmo Vênus, submetido ao que pode ser chamado de “engenharia planetária”, talvez um dia esteja apto para receber uma colônia humana.

Quanto à pluralidade dos mundos, para tomar de empréstimo a expressão do astrônomo francês Camille Flammarion (1842-1925) [Pluralidade dos mundos habitados] talvez tenha chegado a hora de se fazer justiça ao filósofo e astrônomo italiano Giordano Bruno (1548-1600).

Em fevereiro de 1600 Bruno foi queimado vivo, em praça pública, em Roma, acusado de heresia por questionar a infalibilidade do papa e defender que as estrelas são outros sóis e muitas delas têm planetas à sua volta, abrigando a vida.

A vida, como conhecida na Terra, ainda não foi identificada em nenhum outro mundo, mesmo do Sistema Solar, mas a possibilidade de que isso ocorra pode depender apenas de um pouco mais de tempo.

 O papa João Paulo II pediu perdão a Galileu pelas penas impostas pela Igreja Católica que o confinou a uma prisão doméstica até o fim da vida.

Francisco I, que ao final do seu primeiro ano de papado tem entusiasmado religiosos e céticos com a coragem de iniciativas, entre elas a de combater a corrupção dentro da Igreja, talvez possa pedir, como ocorreu com João Paulo II em relação a Galileu,  perdão pela pena bruta imposta a Bruno por ter tido a visão ampla do que viria com o futuro.



Escrito por blogdasciam às 18h33
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Os confins do Sistema Solar

 Missão que chega a Plutão no ano que vem amplia conhecimentos sobre origem e evolução do reino do Sol

Por Ulisses Capozzoli

 Ao final de uma viagem de 8 anos, um mês e 16 dias pelo espaço interplanetário a missão New Horizons chega ao seu alvo, o antigo planeta Plutão, agora reclassificado para planeta-anão Plutão, em 14 de julho do próximo ano.

Ao chegar ao destino, a New Horizons será primeira missão a examinar as bordas internas do Sistema Solar, desde que Plutão foi identificado pelo astrônomo amador americano Clyde Tombaugh, em 18 de fevereiro de 1930, ao final de um exaustivo processo de análise fotográfica com o recurso de um instrumento chamado cintilador. (http://goo.gl/tgzVLU) 

À época em que fez a descoberta do que durante décadas foi o planeta mais externo do Sistema Solar (ainda que devido à sua órbita altamente elíptica, temporariamente Plutão fique mais próximo do Sol que Netuno), os computadores que hoje executariam essa tarefa num piscar de olhos eram realizações do futuro.

A descoberta de objetos transnetunianos, ou transplutaniano, como o corpo 1992 QB1, o primeiro depois do próprio Plutão, foi possível pelo refinamento das observações astronômicas com equipamentos mais eficientes, como as câmeras CCD que aumentaram a sensibilidade dos registros fotográficos, coisa que os antigos filmes recoberto com sais de prata não podiam fazer.

Em Plutão a New Horizons deverá investigar e classificar a geologia e morfologia de Plutão e seu sistema de luas: Caronte, Nix, Hydra, Cérbero e Estige, entre as já conhecidas. E a perspectiva, como já ocorreu em mundos como Júpiter e Saturno, é que novas luas sejam identificadas.

Entre os objetivos secundários da missão está a investigação da atmosfera de Plutão e de Caronte, sua lua principal e a primeira a ser conhecida. Uma área de interesse particular no caso da atmosfera desses mundos é a interação que exibem com o vento solar, a chuva de partículas emitidas pelo Sol, em especial no pico de explosões, como ocorre agora e que inunda todo o Sistema Solar.

Limites do reino do Sol

Conhecer as fronteiras do reino do Sol, o que inclui o Cinturão de Kuiper, entulhos que sobraram da formação do Sistema Solar, e além dessa faixa mesmo a Nuvem Oort, são explorações indispensáveis para se desvendar em escala inédita a historia da sua formação, há uns 5 bilhões de anos, quando a própria galáxia, a Via Láctea, tinha pouco mais da metade da idade que exibe hoje.

A Nuvem Oort, referida de maneira algo sumária, é um berçário de cometas que, sob a ação gravitacional de estrelas próximas, dispara bólidos que podem tanto desprender-se em direção ao espaço profundo, em direção ao reino de outras estrelas, quanto encaminhar-se em direção ao Sol. Neste caso, dependendo da orbita que desenham, tanto podem fazer uma única visita à nossa estrela-mãe quanto serem capturados gravitacionalmente e se tornarem cometas periódicos.

Lançada em 19 de janeiro de 2006, a missão New Horizons viajou rumo a Plutão impulsionada tanto por foguetes químicos quanto pela técnica chamada de gravidade assistida. Neste caso, uma nave se vale da atração gravitacional de planetas ao longo da rota que deve percorrer “roubando” energia de cada um deles para deslocar-se.

Um sinal de rádio enviado da Terra em direção à nave demora pouco mais de 4 horas para chegar até ela e levar informações para um determinado comando, daí os computadores de bordo estarem programados para tarefas mais imediatas, sem tempo de serem transmitidas da Terra.

O descompasso do tempo em relação a uma nave nos confins do Sistema Solar, como ocorre com a missão New Horizons, é uma espécie de anúncio de uma época em que mesmo a velocidade da luz, o limite de transmissão de informação em nosso universo, terá a velocidade comparativa de uma carroça, no início do século passado.

Mas a viagem a esse mundo distante pode surpreender de muitas outras maneiras. A ciência não é uma atividade que possa ser desempenhada com base em algo como o bom senso. Ao contrário disso, a ciência é fundamentalmente um encontro com o desconhecido e, neste sentido, uma experiência profunda de estranhamento.

Ciência romântica

Em relação a Plutão, um enorme conjunto de considerações pode ser feito, a começar pelo seu descobridor, o simpaticíssimo Clyde Tombaugh, morto em 17 de janeiro de 1997, aos 90 anos, na localidade de Las Cruces, no Novo México.

Tombaugh teve interações próximas com astrônomos importantes de sua época, caso de Vesto Melvin Slipher (1875-1969), diretor do Observatório Lowell, em Flagstaff, no Arizona, de onde localizou Plutão.

E o próprio Percival Lowell (1855-1916), fundador do Observatório que leva seu nome foi responsável por boa parte da popularização da idéia de que Marte dispunha de canais artificiais e portanto era ocupada por criaturas inteligentes.

Slipher, por exemplo, é o verdadeiro mentor da idéia de um universo em expansão, de que Edwin Hubble tomou conhecimento em uma palestra em que o diretor do Observatório Lowell expôs suas idéias.

Hubble ficou com todo o crédito da descoberta quando, na verdade, tem o mérito de, em parceria com um ex-carroceiro, Milton Humason, ter feito as medidas da expansão cósmica, à época conhecida como fuga das galáxias.

Assim, de alguma maneira, a missão New Horizons remete a uma época de astrônomos individuais, quase heróis românticos, hoje substituídos pela chamada big science, equipes que podem ter dezenas de participantes, ainda que dirigidas por um líder.



Escrito por blogdasciam às 16h22
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A responsabilidade em relação à água

Por Ulisses Capozzoli

A estiagem atípica deste verão, com chuvas reduzidas e na melhor das hipóteses localizadas, traz um conjunto de questões que merecem a reflexão por parte de pessoas com noção de cidadania e, portanto, de vida em comunidade que, em ultima instância, é o que as cidades são: comunidades humanas.

Os humanos são animais sociais e a evidência mais clara disso é exatamente a da vida comunitária, em aldeamentos, povoados, vilas, cidadezinhas, cidades médias, grandes, metrópoles e megalópoles, caso em que cidades fundem-se entre si (conurbação) para formar um único e gigantesco espaço urbano.

Cidades, de um modo geral, ainda que isso valha mais especificamente para os grandes espaços urbanos, exigem uma enorme complexidade em termos de abastecimento de bens como alimentos e principalmente água.

E o que a estiagem deste verão está mostrando é que o abastecimento de água na cidade de São Paulo e outras está em risco, por esgotamento dos reservatórios e limitação das fontes de abastecimento desses estoques hídricos.

Em princípio isso não faria sentido, considerando que o Brasil detém perto de 14% dos estoques mundiais de água doce, o que significa dizer que, neste critério, somos os mais favorecidos em escala planetária.

Ausência de planejamento urbano, infraestrutura precária e má gestão pública do espaço urbano, algo histórico no Brasil, entre outros efeitos, anulam, no entanto, essa posição natural privilegiada e corremos o risco de enfrentar racionamento d’água, se as chuvas não chegarem logo e em abundância.

Administradores públicos têm apontado que o desconto no preço da água, adotado em caráter de urgência e absolutamente procedente está contribuindo para a economia.

O que pretendem com isso é capitalizar, com oportunismo, uma atitude cidadã das pessoas, evidência de que o conjunto da sociedade é capaz de iniciativas e movimentos de solidariedade, preservação, responsabilidade e respeito em relação a questões como a garantia no abastecimento de água.

O que já não se pode dizer de empresas públicas encarregadas do abastecimento de água e isso vale tanto para as megalópoles quanto para as pequenas cidades.

A média brasileira é de perda de 37% da água tratada e potencialmente disponível para consumo por vazamentos numa rede de qualidade insatisfatória.

Na cidade de São Paulo esse índice baixa para 26,5%, mas ainda assim é elevado em comparação, por exemplo, com as perdas do Japão, que não superam os 3%.

E em São Paulo a Sabesp, empresa encarregada dos serviços de água e esgoto, ainda é uma das responsáveis pelo esburacamento diário das ruas, sem reparos à altura, o que torna a qualidade das pistas de rolamentos para automóveis e trânsito de pedestres quase uma aventura.

Atitudes como a que o conjunto da população está tomando, no sentido de economizar o consumo de água, de forma a evitar racionamento e situações ainda mais imprevisíveis são fundamentais não só em casos como o da água, evidentemente. Elas se estendem a todo o conjunto de relações que dizem respeito à vida comunitária em especial nas grandes cidades e nas megalópoles.

O noticiário diário da mídia, carregado de negativismo e previsões sombrias, certamente deve abrir algum espaço para uma atitude que, na essência, é a fundamental: a atitude responsável, respeitosa e consequente do conjunto da sociedade em relação a um bem que é indispensável para a vida: a água.

 



Escrito por blogdasciam às 15h58
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A corrosão da radiação cósmica

Pesquisadores russos alertam que proteção da estação espacial internacional está sendo destruída pela radiação espacial

Por Ulisses Capozzoli 

A descoberta de que a radiação cósmica está afetando perigosamente a estrutura da Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês) longe de ser resultado de negligência de projeto, ou irresponsabilidade das empresas construtoras das diversas unidades que formam o corpo da estação, é uma demonstração da agressividade do ambiente espacial e dos desafios que devem ser vencidos para o que ficou consagrado, a partir da primeira viagem tripulada à Lua, como “a conquista do espaço.”

A radiação cósmica, no sentido mais específico, é formada por partículas altamente energéticas e por isso mesmo dotadas de enorme poder de penetração no meio em que incidem.

Raios cósmicos deslocam-se no espaço a velocidades próximas à da luz, praticamente 300 mil km/s.

Radiação cósmica, portanto, é diferente de radiação cósmica de fundo, uma manifestação em microondas, praticamente um rádio-ruído cósmico de natureza fóssil, no sentido de que são restos do calor original que deu origem ao Universo, ou à versão atual do Universo, segundo interpretações base na cosmologia do Big Bang.

Enquanto a radiação cósmica de fundo é praticamente inofensiva, e tende a ser bloqueada na atmosfera devido particularmente à presença de vapor d’água, raios cósmicos são extremamente energéticos e perigosos.

Quando uma dessas partículas com elevada energia colide com átomos de gases da atmosfera terrestre, a elevações como 10 mil metros (abaixo do que voam os grandes jatos comerciais), produzem uma chuva de partículas secundárias, com energia menor, os raios cósmicos secundários.

No Brasil, os físicos Cesar Lattes e Mario Schenberg, foram pioneiros em estudos nessa área.

Lattes, por exemplo, fez pesquisas a partir de um laboratório instalado no Monte Chacaltaya, na Bolívia, em parceria com físicos japoneses.

A radiação cósmica é o principal obstáculo a longas permanências no espaço, caso de uma viagem de ida e volta a Marte, por exemplo, que, pelo estágio atual de propulsão a foguetes químicos, exige um mínimo de dois anos período de máxima aproximação Terra/Marte levando em conta a órbita de ambos em torno do Sol.

Radiação solar, como raios X e ultravioleta ou mesmo gama, a fonte de energia mais poderosa da radiação eletromagnética, também são uma séria ameaça a astronautas no espaço, fora da proteção oferecida pela atmosfera terrestre.

Essas emissões são particularmente poderosas durante explosões solares, quando enormes porções da matéria do corpo incandescente do Sol são lançadas no espaço a até 500 mil quilômetros acima da superfície da estrela.

Um efeito secundário das explosões solares são as auroras polares, boreal no norte e austral no sul, por interação de partículas eletricamente carregadas com átomos da atmosfera.

Outro efeito, em caso de explosões poderosas, é o corte na transmissão de energia elétrica pelas redes distribuidoras e danos a satélites, o que pode interromper, por exemplo, transmissões de televisão.

De acordo com pesquisas feitas por pesquisadores russos, todo o casco protetor da estação espacial, a 370 km da superfície da Terra, está sendo corroída pela radiação cósmica.

Uma alternativa para contornar o problema, segundo os russos, é revestir a estação utilizando polímeros mais resistentes à agressão do ambiente espacial.

O problema é que, agora, isso é mais difícil de resolver que anteriormente, quando a frota de ônibus espaciais americanos estava operacional.

Em 23 de julho de 2011, o último remanescente da frota dessas naves reutilizáveis, o Atlantis, fez o vôo com que, ele e os demais componentes dessa frota espacial foram confinados aos museus e à historia da exploração do espaço.

Curiosamente, cientistas contrários ao desenvolvimento dos ônibus espaciais, peças que se encaixavam na chamada “Guerra nas Estrelas” no duplo mandato do então presidente americano Ronald Reagan (1981-1989), sempre defenderam a criação de uma plataforma orbital para a investigação do espaço profundo.

A ISS, um consórcio internacional que teve a desistência de alguns sócios ─ caso do Brasil, que em agosto de 2002 comunicou essa posição à agência espacial americana, durante a administração do presidente Fernando Henrique Cardoso ─ teve dificuldades para ser concluída e até agora ainda não produziu pesquisa científica relevante.

  

 

 


 



Escrito por blogdasciam às 16h14
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 Relatos fascinantes de Scientific American

 Edições que chegam as bancas nos próximos dias trazem assuntos de fronteira da ciência relacionados à vida cotidiana de seus leitores

 Por Ulisses Capozzoli

 As edições de fevereiro e março de Scientific American Brasil serão dois presentes adicionais de Natal aos seus leitores.

 A edição de fevereiro, que chega às bancas no próximo dia 30, tem como assunto de capa a produção de estados exóticos da matéria, obra de humanos, e por isso mesmo não disponível de forma natural no Universo.

 Átomos, moléculas e sólidos sujeitados por lasers de raios X materializam formas exóticas da matéria que, até recentemente, estavam confinadas ao universo da ficção científica.

 A imagem de capa desta edição traz um violoncelista tocando seu instrumento no túnel recém-construído de raios X a laser.

 A edição brasileira de Scientific American (a original americana) optou por esse tema de capa por duas razões básicas: a primeira delas é que física é o tema de maior interesse entre seus leitores.

 A segunda se deve ao fato de que, psicologia/psicanálise, que foram capa na edição original, americana, iria sobrepor-se às edições especiais 57 e 58 que tratam de neurociência.

 O primeiro volume das edições especiais chega às bancas também em fevereiro. O segundo, em abril.

 Outro artigo de interesse na edição de fevereiro, na área de astronomia, trata da possibilidade de luas de exoplanetas (como pode ser o caso de satélites de Júpiter e Saturno, no Sistema Solar) serem os locais mais promissores para a presença da vida no vasto corpo da Galáxia.

 Ainda em astronomia, mas abordada pela historia da ciência, está o caso da cosmologia copernicana.

 A oposição às idéias de Nicolau Copérnico, a partir de 1543, teve razões mais sólidas e não partiu apenas da intolerância religiosa.

Ainda nesta edição, outro artigo intrigante trata da simulação de uma célula viva, uma ferramenta desenvolvida por biólogos e que acena com a possibilidade de compreendermos melhor os intrincados processos da vida.

Já o número mensal de março (142), neste momento em fase de edição, traz como assunto de capa as desconcertantes medidas do raio do próton, a partícula que compõe o núcleo atômico no caso do átomo de hidrogênio, e partilha essa posição com nêutrons, no caso dos demais elementos químicos.

O artigo, assinado por Jan C. Bernauer e Randolf Pohl, do MIT, nos Estados Unidos, e do Max Planck Institute, na Alemanha, acena com mudanças nos fundamentos da física e por isso mesmo é uma abordagem de interesse para leitores envolvidos com a física, em particular, e com o corpo da ciência em geral, expandindo-se para a cultura como um todo.

 

Esta edição de março traz ainda um fascinante artigo sobre a inteligência de galinhas, aves suspeitas de não desfrutarem de habilidades cognitivas mais elevadas e por isso mesmo referidas, quase sempre, como “estúpidas”, o que não é o caso.

 Um artigo sobre curvas, nós, bolhas e enrolamentos em processos tão prosaicos como o ato de derrubar uma porção de mel sobre uma torrada, no café da manhã, mostra como a realidade é complexa e desafia o convencionalismo nas atitudes aparentemente mais prosaicas do dia a dia.

Essa situação se estende para um escrito sobre matemática, com o título provocador de “nunca diga nunca”, pois as coisas mais improváveis podem acontecer.

 E acontecem. É o caso da repetição dos mesmos números em duas extrações lotéricas, uma em seguida à outra.

Outro relato desconcertante aborda pessoas com memórias privilegiadas e que nunca esquecem os fatos aparentemente mais banais de suas vidas. Elas são capazes de se lembrarem de ocorrências mínimas, ao longo de cada um dos dias do ano, por anos e anos a fio.

 Abordagens nas fronteiras da ciência, tratadas com linguagem clara, precisa e atraente, como é o caso das quatro edições que estão sendo preparadas (incluindo as especiais, na área de neurociências) são típicas de Scientific American e fizeram sua história que, em 25 de agosto próximo, completa exatos 169 anos.

Voltada inicialmente para a proteção de patentes de inventores, quando circulou pela primeira vez, com apenas quatro páginas, Scientific American, agora, é uma publicação internacional, com 18 edições em diferentes línguas, entre elas o português, para circular no Brasil e em Portugal.

 A propósito, em junho próximo, Scientific American Brasil chega ao seu décimo - terceiro aniversário.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por blogdasciam às 14h31
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A duração do ano em diferentes mundos

 Por Ulisses Capozzoli

 

É o que vai acontecer mais uma vez neste próximo dia 31 de dezembro: termina o ano de 2013 desde o nascimento de Jesus Cristo e inicia o ano de 2014.

Do ponto vista astronômico, um ano é o período de tempo que um planeta precisa para dar uma volta completa em torno da estrela que orbita.

No caso da Terra esse período é de 365,4 dias.

Vênus, mais próximo do Sol que a Terra, tem um ano de equivalente a 224,7 dias terrestres, enquanto em Marte, mais distante do Sol, esse período é de 687 dias da Terra.

Como a duração do ano da Terra é fracionada, ou seja, soma 365 dias e seis horas, a cada quatro anos um dia é acrescentado ao calendário e então temos o excepcional 29 de fevereiro, em vez do tradicional 28 que encerra esse mês.

É o chamado ano bissexto. 

Um ano, é o período de tempo que a Terra precisa para completar uma volta em torno do Sol. Mas os horários variam de acordo com a posição do Sol sobre um ponto da superfície da Terra. E isso faz com que a meia noite em dado ponto de um lado do mundo corresponda o meio dia num ponto do hemisfério diametralmente oposto.

Isso faz também com que o ano chegue primeiro no Japão, que, por exemplo, no Brasil.

O Sol nasce no Oriente, daí a palavra “orientar-se” que significa procurar uma localização pelo Sol, ainda que no uso cotidiano das palavras, nem sempre um falante se dá conta do que elas significam.

A duração do ano e mesmo do dia faz com que a contagem do tempo para naves espaciais que vão para outros planetas do Sistema Solar seja feita em sóis. Assim, uma nave pousada em marte tem seu Sol 1, Sol 2, Sol 3 e, assim, sucessivos sóis.

A duração do dia da Terra e em Marte, no entanto, tem 37 minutos de diferença.

O dia é mais longo em Marte que na Terra, mas isso não cria um descompasso muito grande, ao menos em comparação com o que acontece em Vênus, por exemplo.

Em Vênus, a duração do dia é mais longa que um ano e equivale a 243 dias da Terra.

Com anos mais longos em comparação ao que ocorre na Terra, seríamos mais jovens em Marte que na Terra?

A resposta é sim, mas apenas como formalismo.

Na realidade, de acordo com a relatividade geral, em um corpo com menor massa e, portanto, menor gravidade, o tempo passa mais rapidamente que numa corpo de gravidade mais poderosa.

Assim, o tempo passa mais rapidamente em Marte que na Terra, o que pode fazer com que, no futuro, potenciais colonos mais vaidosos preferiam permanecer na Terra, em vez de se mudar para Marte.

A propósito, quando alguém nos pergunta, na portaria do hotel, na delegacia de polícia, ou no consultório médicos, a idade que temos (“quantos anos você tem?”) o que deseja saber, embora não tenha consciência clara disso, é quantas voltas já demos em torno do Sol.

E isso exatamente porque um ano significa uma volta inteira da Terra em torno do Sol.

Se você responde, ou escreve na ficha da portaria do hotel, que tem 30 anos, por exemplo, significa que já deu 30 voltas em torno do Sol.

Quer saber a distância que percorreu nesta caminhada em torno da estrela, sem nunca ter se dado conta de que se deslocava em alta velocidade?

Então multiplique sua idade por 950 milhões de quilômetros que é, aproximadamente, o comprimento da órbita da Terra em torno do Sol.

Deu 9,5 bilhões de quilômetros?

Pois é isso que você já viajou em torno de nossa estrela-mãe.

Quer saber a que velocidade você tem orbitado o Sol, desde que nasceu?

Divida 950 milhões por 365,4 dias e você terá a resposta: aproximadamente 108 mil quilômetros por hora, o que significa mais de 100 vezes a velocidade de um avião a jato comercial...

Mas você viajou mais que isso.

Na verdade, o Sol, levando junto seu colar planetário, também se desloca no braço de Órion, no corpo da galáxia em que vivemos, à velocidade de 72 mil quilômetros por hora.

Esse movimento, descoberto por William Herschel, um músico que se transformou no maior astrônomo de sua época, o século 18, chama-se ápex solar.

Mas mesmo o espaço está se expandindo, como um balão de aniversário inflado pelo ar pressionado pelos pulmões de uma pessoa.

Tudo está em movimento no imenso salão do Universo, onde galáxias, aglomerados galácticos e superaglomerados, dançam impulsionados pela ação da gravidade.

Quando for comemorar o ano que chega, despedindo-se do ano que vai, considere que no Universo tudo está repleto de movimento e por isso mesmo não faz qualquer sentido aceitar a idéia de que sua vida possa ficar paralisada, bloqueada, destituída de movimento por maior que seja o obstáculo que você tenha que enfrentar.

E aceite os cumprimentos e desejos de Feliz Natal e um maravilhoso Ano Novo por parte de toda a equipe que faz cada uma das edições de Scientific American Brasil.

Teremos uma curta parada de férias coletivas e retornamos no próximo dia 6 de janeiro.

Menos eu, Ulisses Capozzoli, que pego uma semana adicional e só reencontro cada um de vocês no próximo dia 13 de janeiro.

Um abraço a todos e obrigado pela ótima companhia ao longo de 2013.



Escrito por blogdasciam às 17h52
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Rosetta tentará pouso em cometa

Por Ulisses Capozzoli

Para quem ficou frustrado (milhões de pessoas em todo o mundo) com a destruição do cometa Ison, esmagado e vaporizado por ter se aproximado muito do Sol em fins de novembro passado (1,2 milhão de km da superfície da estrela), há uma perspectiva não menos emocionante já no início do próximo ano.

Mesmo que fora do alcance de telescópios, ou mesmo da observação a olho nu.

Trata-se da reativação da Rosetta, a espaçonave da Agência Espacial Européia (Esa) lançada em março de 2004 pelo foguete francês Ariane 5 e que em meados do ano deve fazer um estudo detalhado do cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko.

O 67P/Churyumov-Gerasimenko é um cometa com período orbital de 6,45 anos e que faz seu próximo periélio (máxima aproximação do Sol) em 13 de agosto de 2015.

O desafio da Rosetta, que leva 12 instrumentos a bordo, é orbitar e, em seguida, pousar na superfície do cometa.

Antes do pouso a pequena nave deve orbitar o 67P/Churyumov-Gerasimenko por um período de 17 meses e realizar o mais apurado levantamento feito até agora sobre a pouco conhecida natureza dessas montanhas de gelo sujo que perambulam pelo interior do Sistema Solar, guiadas pela gravitação universal.

As primeiras tentativas de interceptar um desses astros no céu envolveram o célebre cometa Halley, em sua passagem mais recente pelas proximidades do Sol, em 1985/6 pelas naves gêmeas soviéticas Vega 1 e 2, a pequena Sakigake japonesa e a européia Giotto, que também investigou o cometa Grigg-Skejellerup.

A Giotto, que homenageia o artista italiano medieval Giotto de Bondone, se aproximou a menos de 600 km do núcleo do Halley. Mas teve mais sucesso com o Grigg-Skejellerup, de que esteve a uma distância de 200 km do núcleo.

Decifrando cometas

A pequena nave européia rende tributo à Pedra da Rosetta que permitiu decifrar hierogrifos egípcios por parte do lingüista francês Jean-François Champollion. O enigma agora está relacionada aos cometas.

A Rosetta já visitou o asteróide 2867 Steins, em setembro de 2008, e o 21 Lutetia, em julho de 2010.

O objetivo da Rosettta neste caso, não é apenas desvendar o mistério de cometas e asteróides em si, bólidos que, dependendo da rota que fazem pelo interior do Sistema Solar, podem ser uma séria ameaça à Terra.

Os cientistas querem recolher nesses corpos amostras praticamente inalteradas do material que deu origem ao Sistema Solar, há 4,6 bilhões de anos.

Mas mesmo a natureza desses astros é de enorme interesse científico e de segurança para a humanidade. Se um desses bólidos for identificando como vindo de encontro à Terra, como podem ser desviados?

Alguns asteroides parecem frouxos ajuntamentos de blocos rochosos, reunidos pela fraca interação gravitacional entre si. Se uma nave do futuro tentar deslocá-los com uma pressão constante para fora da rota original que fazem, a operação poderá fracassar estrepitosamente.

Cometas e asteróides têm um parentesco muito próximo.

 Alguns asteróides, desconfiam astrônomos planetários, não são outra coisa que cometas “envelhecidos” por suas sucessivas passagens pelas proximidades do Sol. Nessas visitas eles perderam todo o material volátil de que dispunham.

Mais distante, no tempo, num território que hoje ainda pertence à ficção científica, há a perspectiva de exploração tanto cometas quanto de asteróides.

Controvérsias permanecem

Cometas são “bolas de gelo sujo” e podem representar estoques preciosos de água a serem minerados no espaço ou conduzidos de forma a atender necessidades humanas em condições mais específicas.

Quanto a asteróides, a riqueza que representam é de natureza mineral.

Ao que tudo indica, no entanto, os cometas devem despertar controvérsia por um tempo ainda longo, no futuro.

Há quem defenda a idéia de que esses astros são espalhadores de vida no Universo, concepção que tem acolhimento na teoria da panspermia proposta originalmente pelo físico-químico e Prêmio Nobel sueco Svante Arrhenius.

Mais recentemente, quem incorporou, ampliou e difundiu essa concepção foi o cosmólogo e físico-matemático inglês Fred Hoyle.

Criador da teoria cosmológica do Estado Estacionário foi Hoyle e quem cunhou a expressão “Big Bang” para criticar a teoria cosmológica concorrente que, ironicamente, acabou conhecida por esse nome.

Hoyle integrou o grupo de cientistas que desvendou a chamada síntese dos elementos químicos, ou seja, a maneira como a matéria foi transformada no interior das estrelas de grande massa para formar os elementos descritos atualmente na tabela periódica.

Há quem assegure que ele foi excluído do Nobel justamente por defender a idéia de que cometas seriam semeadores cósmicos de vida, hipótese considerada ousada demais pelos membros da academia que decidem a premiação.

Conhecido pela irreverência e o número de críticos que reuniu por suas hipóteses ousadas, pouco antes de morrer, em 20 de agosto de 2001, Hoyle disse não esperar ter suas idéias reconhecidas em vida.

O golpe dado pelos defensores do Big Bang quase o levou a nocaute, mas ele nunca desistiu de trabalhar numa versão alternativa de sua energia que propunha a idéia de um universo eterno.

A versão cosmológica que admite a idéia de que o Big Bang possa ser apenas a explosão mais recente, mas não a que deu origem ao Universo, pode ser o trunfo de que Hoyle dispunha, e nunca chegou a colocar na mesa.

Com a “compensação” oferecida pela Rosetta para a morte do Ison, o único lamento sem remédio, a curto prazo,  é a perda do satélite sino-brasileiro CBERS 3, destruído por um lançamento incompleto de um foguete chinês esta semana.

O satélite era fundamental para controle ambiental, entre outras tarefas, e indispensável para eficiente monitoramento de desmatamentos na Amazônia.



Escrito por blogdasciam às 18h42
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Sol destruiu mesmo o Ison

Ulisses Capozzoli

Mais uma vez um cometa pregou uma peça nos humanos, ainda que isso tenha lhe custado a vida.

O Ison, de fato, foi consumido pelo Sol. Mais especificamente pelo calor e o poderoso efeito-maré exercido pela estrela que certamente rompeu a fraca força de coesão de seu corpo diminuto.

Quando foi detectado por uma dupla de astrônomos russos, em 21 de abril do ano passado, as primeiras estimativas foram que pudesse ter aproximadamente 5 km de extensão, com a forma de uma batata, típica de cometas e asteróides.

As últimas estimativas, no entanto, reduziram essa medida a algo como 1,2 km.

Mesmo no segundo caso, trata-se de um corpo que, num eventual impacto com a Terra provocaria uma catástrofe indescritível.

Para uma montanha voadora do Sistema Solar, no entanto, é um corpo sem gravidade suficiente para arredondar suas formas.

As pessoas podem se perguntar o porquê de estrelas, planetas e luas, como o satélite natural da Terra, serem corpos esféricos e nunca um triângulo, retângulo ou um quadrado.

Por que não?

Pelo efeito da gravidade.

Num corpo esférico (na verdade oblóide) como a Terra, todos os pontos de sua superfície estão à mesma distância do centro e isso resulta da ação da gravidade.

Claro que alguém pode contestar:

“Ah!, mas a Terra tem uma deformação e é ligeiramente achatada nos pólos”.

É verdade, mas esse é o efeito de uma segunda força, a centrífuga, que age no sentido do centro para o exterior de uma esfera em rotação.

Essa força centrífuga ajuda mesmo no lançamento de foguetes para o espaço e essa é a razão para se procurar bases em pontos mais próximos do equador terrestre.

Com a força centrífuga, produzida pela rotação da Terra, os foguetes gastam menos combustível e por isso podem ser menores e mais baratos.

O campo gravitacional de um pequeno corpo, como o Ison, no entanto, não é suficiente para moldar sua forma esférica e também para evitar que pudesse ser poupado pelo poderoso efeito-maré do Sol.

Na semana passada, escrevemos, neste espaço, que o efeito-maré combinado com elevadas temperaturas pudessem ter destruído o Ison como ocorreria, mal comparado, com um sorvete colocado num forno doméstico em alta temperatura.

Pois as buscas feitas logo em seguida ao periélio do Ison, em 28 de novembro, a máxima aproximação que um corpo faz do Sol, mostram um tênue brilho esbranquiçado que pode indicar apenas os destroços do cometa, mas não a integridade de um corpo mantido coeso há algo como quase 5 bilhões de anos, desde que o material que o formou foi soprado pela radiação tanto da luz como do vento emitidos pelo Sol.

As últimas buscas com telescópios em terra ou satélites em órbita não indicam qualquer indício de que mesmo uma pequena porção do núcleo do Ison tenha sobrevivido e possa ser revelado às oculares de milhares de astrônomos amadores e profissionais em todo o mundo.

O que foi anunciado como o “cometa do século” já não é mais sequer um cometa, mas restos de poeira e pequenos entulhos consumidos pela fornalha nuclear do Sol.

Cometas foram famosos no passado relativamente recente da historia da humanidade. Quando as cidades não dispunham de iluminação artificial e  a maior parte das pessoas vivia no campo, não na cidade, o céu era, na ausência do brilho da Lua, escuro como carvão.

A poluição luminosa da iluminação urbana, no entanto, ameaça a noite escura cada vez mais, a ponto de preocupar até mesmo astrônomos profissionais, equipados com processadores capazes de minimizar o efeito dessas fontes.

Com o escuro da noite ameaçado, cometas tendem a ser cada vez menos brilhantes e já não há, também, a chance de astrônomos isolados, como era comum no passado, fazer a descoberta desses astros à medida que eles avançavam para as proximidades do Sol, ou mesmo se chocavam com nossa estrela-mãe.

Agora, satélites varrem o céu à procura de objetos celestes que possam ameaçar a Terra com o impacto de um bólido destruidor, e cometas são uma dessas ameaças potenciais.

De certa forma, uma época romântica, de astrônomos solitários investigando os abismos de espaço-tempo entre as estrelas, se não se esgotou completamente, está bem próxima do fim.

E quando teremos um cometa brilhante sobre nossas cabeças? Algo que nos faça pensar de uma forma primitiva sobre a magia, beleza e mistérios do Universo?

Isso é algo que ninguém pode prever.

Um cometa com chances de ser bastante luminoso pode estar se desprendendo agora mesmo da chamada Nuvem Oort, um berçário de cometas que envolve o Sistema Solar a algo como 1,5 ano-luz em torno do Sol.

Ou pode ser que demore um tempo excessivo, mesmo para toda a população que, neste momento, respira na superfície da Terra.



Escrito por blogdasciam às 17h00
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Proximidade com o Sol pode ter esfacelado cometa Ison

Astro que ontem teve sua máxima aproximação com o Sol, de menos de 1,2 milhão de km, pode ter sido rompido e vaporizado

Por Ulisses Capozzoli 

Ao que tudo indica o cometa Ison, C/2012 S1, não resistiu à passagem periélica (máxima aproximação do Sol) e pode ter sido inteiramente destruído, frustrando mais uma vez astrônomos amadores e profissionais, além de observadores de modo geral.

As informações relativas às últimas horas, a partir de diferentes observatórios, são ligeiramente desencontradas e isso só aumenta a expectativa dos astrônomos, especialmente dos amadores, que sonhavam com um belo espetáculo no céu, a exemplo do oferecido pelo cometa Halley em 1910.

O satélite de observação solar Soho, administrado em conjunto pela Agência Espacial Europeia (Esa) e a agência espacial americana (Nasa), detectou uma pequena luminosidade, na verdade uma esmaecida mancha de algodão por trás do disco solar, observado da Terra, que seriam restos do cometa.

Já o Observatório Solar Dinâmico (SDO), que como o nome indica é dedicado à observação do comportamento solar, neste momento no pico máximo de suas explosões com média de 11 anos, não detectou qualquer evidência do cometa.

Às 16h30 de Brasília, ontem, quinta-feira, o Ison chegou a pouco menos que 1,2 milhão de km da superfície solar e enfrentou temperaturas em torno de 2.700 C° o que comparativamente sugere algo como um sorvete depositado num forno doméstico a altas temperaturas.

A temperatura, no entanto, não era a única adversária do cometa, uma batata cósmica que, segundo as primeiras medidas poderia ter uns 5 km de comprimento mas que, posteriormente, teve essa medida reduzida para algo como 1,2 km.

Além do calor solar, um poderoso efeito-maré atuou sobre o corpo do cometa de forma a romper sua coesão interna e fraturá-lo como se tivesse sido atingido por um enorme martelo cosmico.

Foi exatamente isso que aconteceu com o cometa Shoemaker-Levy 9 que, em julho de 1994, chocou-se contra o corpo gasoso de Júpiter numa trombada atentamente acompanhada da Terra.

Ainda que seja o planeta mais massivo de todo o Sistema Solar, o campo gravitacional de Júpiter é incomparável menor ao do Sol.

Mas, ainda assim, o efeito-maré produzido pela gravidade jupiteriana destroçou o cometa ainda no espaço e ele se espatifou contra Júpiter numa sequência que, em determinado momento, lembrou um colar rompido.

O Ison, no ano passado, quando foi descoberto por dois astrônomos russos, chegou a ser interpretado como “o cometa do século”, no sentido de que poderia brilhar como nenhum outro e assim apagar a imagem dos cometas mais resplandescentes já observados por olhos humanos.

A frustração neste caso, no entanto, diz menos respeito a uma hipotética instabilidade de comportamento dos cometas e mais ao pouco que sabemos desses astros aparentemente errantes, mas, como outros corpos do Universo, também estão submetidos à batuta da gravitação universal, proposta por Isaac Newton em 1686/7.

Foi esse conhecimento que permitiu a Edmond Halley, amigo de Newton, prever o retorno do famoso cometa que leva seu próprio nome, o cometa Halley.

Da última vez que atravessou os céus da Terra, em meados dos anos 80, também o Halley provocou decepção parcial por não se exibir com a majestade da passagem anterior, quando teve uma aproximação muito maior da Terra e foi exatamente isso que permitiu a ele uma exibição de rara beleza.

Ao ser atacado pela poderosa gravidade do solar e experimentar o calor de uma aproximação temerária, o pequeno Ison de alguma maneira retornou a uma situação em que já esteve confinado, na infância do Sistema Solar.

O Ison, segundo as estimativas de órbita feita por astrônomos profissionais, teve origem na Nuvem Oort, um berçário de cometas que envolve o Sistema Solar a aproximadamente 1,5 ano-luz do Sol, o que significa dizer uma localização a meio caminho entre o próprio Sol e a estrela mais próxima dele, neste caso o sistema estrelar triplo de Alfa do Centauro, a 4,3 anos-luz da Terra.

Oscilações gravitacionais produzidas por estrelas a essa distância do Sol fazem com que, com certa freqüência, cometas se desgarrem desse berçário, com existência prevista pelo astrônomo holandês Jan Hendrik Oort por volta de 1950.

A Nuvem Oort nasceu de um poderoso sopro do Sol quando nossa estrela-mãe teve sua ignição nuclear deflagrada, há quase 5 bilhões de anos, e se acendeu como estrela.

Calor e pressão de radiação da luz solar sopraram para longe o material mais volátil que dava origem ao Sistema Solar e uma evidência disso é que os mundos mais próximo do Sol são estruturas, digamos, rochosas e não globos gasosos como Júpiter, Saturno e os gigantes mais distantes.

Mercúrio, por exemplo, é um mundo rochoso e metálico onde a vida como observada na Terra é absolutamente impossível.

Mas, ainda assim, no interior de suas crateras polares, onde a radiação solar não incide diretamente, há comprovada presença de água.

No passado remoto o bombardeio feito por cometas e asteróides (em alguns casos cometas que perderam sua cobertura volátil, expondo um núcleo rochoso) foi intenso no interior do Sistema Solar e o corpo craterado da Lua é uma das claras evidências disso.

Depois tudo se acalmou, ainda que nunca tenha cessado completamente.

Cometas, foram responsáveis, por exemplo, pelo depósito de boa parte da água disponível na Terra, algo como 1,3 bilhão de km³.

Se o leitor quiser entender o significado desse processo pode fazer uso de um raciocínio aparentemente prosaico, mas nem por isso menos surpreendente.

A questão é basicamente a seguinte: se boa parte da água disponível na Terra foi trazida por cometas, e se algo como 60% da massa de um corpo humano é formada por água, então parte do nosso corpo foi cometa no passado.

Estranho. Mas real.



Escrito por blogdasciam às 15h22
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Brutalidade contra animais

Por Ulisses Capozzoli

Edição especial de Scientific American Brasil que chega às bancas no próximo dia 5 de dezembro é de interesse especial de ambientalista e de pessoas preocupadas com a defesa e o bem estar de animais.

E, por extensão, também dos humanos.

Com o título de capa “Libertação Animal” a edição faz uma homenagem ao trabalho do filósofo austríaco Peter Singer que, em agosto passado, fez palestras em Porto Alegre e São Paulo.

Singer, agora na Princeton University, unidade da elite intelectual americana e onde trabalhou também o físico Albert Einstein, escreveu o trabalho que tem o mesmo título (Libertação Animal) em 1975, mas apenas agora, numa reedição nacional, a obra encontra acolhimento mais amplo dos leitores.

A linha de raciocínio de Libertação Animal está ligada ao especismo, idéia de que nossa espécie seria a mais importante de todas as outras que ocupam a Terra e isso nos daria direitos de nos beneficiarmos com exclusividade da vida de todas as outras espécies.

As pessoas têm, de modo geral, uma idéia clara do que seja racismo, quase sempre o pressuposto improcedente de que brancos são superiores a negros, por exemplo.

Ou sabem claramente do que trata o sexismo, a idéia igualmente inconsistente de que homens seriam superiores a mulheres e devem desfrutar de privilégios por conta dessa suposta condição.

Pois o especismo é a continuidade dessa linha de raciocínio excludente e exclusivista, defendendo a idéia de que nossa espécie é superior às demais e justamente por isso pode fazer uso delas em benefício próprio e sem quaisquer preocupações éticas.

Maus tratos com animais domésticos, ou não, em atividades que vão de rodeios exposições em circos e mesmo em zoológicos ou em experimentos estão na base do especismo, ainda que nem todo experimento científico possa ser caracterizado dessa maneira.

Em 3 de novembro de 1957 uma cachorrinha de rua de Moscou, batizada de “Crespinha”, da raça Laika, originária da Sibéria, foi colocada em órbita a bordo da nave russa Sputinik-2.

“Crespinha” morreu como resultado de aquecimento da apertada cabine da Sputinik e do pânico a que foi submetida.

A cachorrinha, escolhida entre outros dez cães exatamente por ser a mais sociável na relação com humanos, foi enviada à morte certa. Não havia condições de trazê-la de volta à Terra.

Em 14 de abril de 1958, 162 dias após o lançamento, o Sputnik-2 reentrou em chamas na atmosfera da Terra e foi calcinada com o corpo de “Crespinha” em seu interior.

Oleg Gazenlo, ex-diretor do programa espacial soviético manifestou arrependimento posterior por ter enviado o pequeno animal ao espaço, em condições críticas e sem qualquer alternativa de que ela pudesse retornar com vida.

Hoje um experimento como esse teria repúdio internacional e não seria possível.

Em seguida à viagem de “Crespinha”, no entanto, o programa espacial americano utilizou macacos em condições também críticas.

Peter Singer relata em Libertação Animal o que ocorre ainda hoje em instalações como abatedouros, em que animais caminham para a morte tangidos por choques elétricos e golpes de paus e ferros.

A edição especial de Scientific American Brasil mostra como nasceu e desenvolveu o conceito dos zoológicos atuais e relata o envenenamento de cães em São Paulo para evitar a reprodução indiscriminada. Nessas campanhas apareceram as “bolinhas”, recurso de envenenamento que ainda hoje sobrevive na cultura popular para indicar casos de mortes intencionais de cães.

A edição mostra ainda o que ocorre com animais selvagens como elefantes, caçados sem piedade por inescrupulosos caçadores de marfim no África.

A estratégia desses caçadores quase sempre é abater um filhote para atrair o cuidado da fêmea e então matá-la com armas de grosso calibre e rapidamente pilhar suas presas apreciadas especialmente no Japão e na China.

A edição relata ainda o sofrimento de cães sem domicílios, vítimas de acidentes e enfermidades em ruas, praças publicadas e cidades brasileiras.

Os cães começaram a conviver com humanos há pelo menos 100 mil anos e foram parceiros fundamentais na caça, no esforço para obtenção da proteína da carne vital para a reprodução de nossos ancestrais.

Avanços mais recentes, no entanto, levam para a medicina veterinária técnicas e recursos tecnológicos até recentemente típicos da medicina humana. Com isso cães e outros animais têm chances de tratamentos de saúde inéditos na historia da civilização.

A edição mensal de dezembro de Scientific American Brasil, nas bancas a partir do próximo 29, traz como tema de capa a sobrevivência de nossos ancestrais que, mesmo fracos em meio ao ambiente em que viviam se tornaram um predador dominante.

A edição mensal também trata das condições ambientais em mundo que orbitam sistemas estelares duplos e traz um questionamento quanto ao bóson de Higgs.

Essa partícula, tida como portadora de massa para as demais, também é dotada de massa e a dúvida é: o que atribui massa ao bóson de Higgs?

 

 

 

 

 

 



Escrito por blogdasciam às 16h38
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Vênus se exibe no céu

Por Ulisses Capozzoli

Mundo parecido com a Terra está ao nosso lado, e não a centenas de anos luz de distância 

Com alguma frequência a mídia se refere à descoberta de um planeta fora do Sistema Solar, uma espécie de primo ou irmão da Terra, e certa agitação sugere que um dia desses colocaremos nossos pés lá para trocar de mundos, algo como o que aconteceu na infância do Super Homem, quando deixou Krypton para viver com pais adotivos na Terra.

Na quarta-feira passada (30/10) mais uma vez a mídia internacional voltou a esse tema ao se referir ao planeta Kepler 78-b, a 400 anos-luz da Terra, no interior da constelação  do Cisne.

Kepler 78 é uma estrela anã-amarela, parente não muito distante do Sol, e o mundo que a orbita teria 1,2 o diâmetro da Terra e densidade de 5,3 ou 5,57 gramas por centímetro cúbico.

A densidade da Terra é de 5,52 grama por centímetro cúbico. Isso significa que 1cm³ do material médio que forma a Terra e cabe numa colher de chá pesa 5,52 gramas.

Ao menos a primeira comparação com a Terra por parte de Kepler-78, no entanto, mostra um enorme desencontro.

Kepler 78 está tão próximo de sua estrela-mãe que completa um giro em torno dela (um ano de Kepler 78) em pouco mais que um terço de dia da Terra, ou seja, 8h30.

O que um período orbital como esse sugere?

Que o planeta está estão próximo da estrela que sua temperatura superficial é infernal e absolutamente inconsistente com as formas de vida conhecidas na Terra. Entre outras razões porque, num mundo como esse, a água não pode manifestar-se nas três como ocorre na Terra. 

E se descobrirmos, a qualquer hora, um mundo como Vênus, em torno de uma outra estrela?

Seguramente seria uma comoção.

Os jornais abririam pequenas manchetes de página e os âncoras dos telejornais em horário nobre fariam posse para anunciar, com certa solenidade, que haveria uma segunda Terra no céu.

Mas Vênus está aqui, bem ao nosso lado. Por que não comemoramos a existência dele?

Talvez porque as sondas espaciais tenham revelado que, ao invés de deusa do amor da mitologia romana, na verdade Vênus é um mundo bem próximo de um inferno de calor (próximo de 500 ºC na superfície) e uma atmosfera corrosiva de ácido sulfúrico, entre outros elementos agressivos à presença humana e da vida conhecida.

Pressão esmagadora

Sem falar de uma assustadora pressão atmosférica, que literalmente amassou as primeiras naves soviéticas a pousar em sua superfície ainda nos anos 60.

Vênus tem 95% do tamanho da Terra, com diâmetro equatorial de 12.104 km, contra 12.400 km da Terra. Ao contrário da Terra, no entanto, Vênus não está acompanhado de uma lua e, curiosamente, gira de cabeça para baixo.

Uma dia ocuparemos Vênus?

Mais fácil chegarmos a Vênus (várias sondas americanas e russas já pousaram lá) que a alguns anos-luz daqui. Kepler 78-b, por exemplo, a 400 anos-luz exigiria uma viagem que, mesmo à velocidade da luz (300 mil km/s no vácuo) demoraria 400 anos.

Isso sem considerar que nenhum corpo dotado de massa pode viajar à velocidade da luz.

E antes de chegarmos a Vênus é mais simples pousar e iniciar a colonização de Marte, o que é mais fácil de falar que de fazer, embora isso, seguramente, deva acontecer em futuro relativamente próximo.

Carl Sagan, um dos mais notáveis divulgadores científicos do século 20, em sua tese de doutorado, propôs o que ficou conhecido como “terraformação” de Vênus com uma técnica supreendentemente simples. Algas geneticamente desenvolvidas colocadas na atmosfera do planeta absorveriam o gás carbônico que faz desse mundo um inferno e, à medida que isso ocorresse, estaríamos cada vez mais próximos de um segundo jardim, no Sistema Solar.

Claro que um irmão da Terra, ainda que distante, pode sugerir a presença de vida. Eventualmente de uma civilização, coisa que Vênus nem de longe sugere.

De qualquer maneira, em termos logísticos, mesmo a complexa engenharia planetária de Vênus é mais simples e direta que uma viagem interestelar a dezenas ou centenas de anos-luz distante da Terra.

A presença de Vênus no céu, entre novembro e dezembro deve fazer com que muitos especulem sobre a luz intensa entre as estrelas que não havia sido notada antes.

Às 4h58 de hoje (sexta-feira, 1º de novembro), Vênus atingiu sua máxima elongação oriental, ou seja, o máximo distanciamento aparente do Sol, observado da Terra e isso fará com que ele se mostre como um ponto bastante luminoso a uns 15º de altura no horizonte oeste, logo em seguida ao por do sol, no interior da constelação do Sagitário.

Vênus se exibe no céu

Mas à medida que os dias passam, e até o fim do ano, Vênus se exibirá luminosamente no céu sugerindo para muitos a idéia de um OVNI.

Em 6 de dezembro, bem próximo da Lua falcada (com a forma de uma foice) Vênus atingirá a magnitude – 4,9, mais brilhante que qualquer estrela no céu, mesmo Sirius, a mais brilhante de todas.

Interessados em fotografias do céu podem preparar-se para essa cena incomum, ainda que não inédita.

Enquanto Vênus exibe seu brilho no céu talvez seja interessante considerar que, mesmo incomparavelmente mais próxima da Terra que qualquer outro mundo da Galáxia, excetuando Marte, mais acolhedor, este ainda é um mundo agressivo à presença humana e à vida como concebemos.

A Terra ainda é, sob todos os aspectos, o único jardim conhecido da Galáxia e, sem qualquer dúvida, o espaço mais sofisticado de vida do Sistema Solar, ainda que duramente agredido pela poluição humana, com ameaça sobre a enorme diversidade de espécies com que compartilhamos a vida aqui.

Esse talvez possa ser um ponto de partida interessante para, surpreendentemente, começarmos a descobria a própria Terra, nossa casa cósmica que mais de uma nave espacial já mostrou como um pálido ponto azul em meio ao fundo escuro do céu, apenas pontilhado de estrelas.



Escrito por blogdasciam às 18h33
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A controvérsia no caso dos beagles do Instituto Royal

 Por Ulisses Capozzoli

O episódio envolvendo a invasão do Instituto Royal para o resgate de 178 cães da raça Beagle, em São Roque, a 66 km de São Paulo, ao que tudo indica até agora gerou mais ruído e discussão sem sentido que oportunidade de reflexão sobre uma questão de enorme importância.

A invasão da unidade da empresa e retirada dos animais que serviam de cobaias para experimentos científicos veiculada de maneira um tanto sensacionalista pela mídia até agora só produziu dois blocos antagônicos: um favorável e outro contrário à operação.

A questão, no entanto, é mais complexa e não tem como ser encaminhada de forma promissora com apego, por exemplo, a certa ortodoxia legal, de um lado, e liberdade de ação ilimitada, de outro.

Daí a necessidade de uma reflexão mais equilibrada e promissora sobre o caso.

A invasão do Instituto Royal pelos ambientalistas faz sentido de um ponto de vista, digamos, histórico.

Mas a operação em si, independentemente de outras consequências, traz riscos que certa ingenuidade dos ambientalistas não considerou.

Vamos a cada uma delas.

A brutalidade e desamor com animais, especialmente os domésticos e em particular envolvendo cães, tratados pela mídia nos últimos tempos têm sensibilizado toda e qualquer pessoa com um mínimo de percepção e preocupação quanto aos direitos elementares que se deve ter com tudo o que vive: humanos e animais.

Nos dois casos, no entanto, o noticiário da TV em horário nobre, e as páginas de jornais e revistas, têm demonstrado a crise de valores em que vivemos e as consequências amplas e complexas dessa situação em termos de violência, brutalidade e desamor.

Animais mutilados, arrastados, presos a carros e motocicletas como forma de punição, espancados como via de liberação de rancor, ódio e outras formas de transgressões patológicas certamente criaram, no conjunto da sociedade, um sentimento de impunidade em relação aos infratores.

Sem falar dos odiosos rodeios de espetáculos grotestos, como as chamadas “festas de peão boiadeiro”, cópias precárias do que ocorre no Texas, nos Estados Unidos, e disseminadas pelo país como cogumelos que brotam em qualquer lugar.

Da mesma forma, os relatos de cães que aguardam fielmente pelo retorno de seus donos mortos e que jamais retornarão (caso de um mecânico e de um tratador, entre outros) sensibiliza e sugere que os animais podem ser mais sensíveis e “generosos” que boa parte dos humanos.

Certamente esse tipo de procedimento esteve presente na decisão dos ambientalistas em invadir a sede do Instituto Royal e liberar os 178 beagles utilizados em experimentos científicos exatamente por serem dóceis e gentis no trato.

Os advogados do Instituto alegam que a empresa tinha autorização legal para realizar pesquisas com os animais e que, portanto, os ambientalistas são raivosos, inconseqüentes e especialmente criminosos, neste último caso por mais de uma razão.

A verdade, no entanto, é que o fato de o Instituto Royal dispor de licença para pesquisa com os beagles é, certamente, uma situação necessária mas não suficiente e exatamente neste ponto pode estar o núcleo fundamental de toda a questão.

Isso significa que o Instituto, seguramente informado do inconformismo dos ambientalistas (nada disso ocorre da noite para o dia sem certa fermentação de ânimos), deveria ter tratado a questão mais cientificamente e, o que significa dizer com mais responsabilidade e eficiência.

E isso não aconteceu.

O Instituto Royal deveria ter convidado um grupo de representante dos ambientalistas, com participação do Ministério Público, para conhecer e discutir a situação dos animais.

E isso não aconteceu.

Os ambientalistas já haviam estimulado o Ministério Público a se pronunciar sobre a situação da pesquisa com os beagles, mas esse processo, como se sabe, é indesejavelmente lento, burocrático e, em boa parte dos casos, absolutamente frustrante.

Então, se o Instituto Royal não teve procedimento devido (procedimento científico, pode se dizer) para lidar com o entorno social em sua sede de pesquisa com animais, é preciso que isso seja formalmente reconhecido e que o Instituto seja responsabilizado por isso.

E, certamente,o mais importante que apenas a responsabilização do Instituto Royal por isso: que o reconhecimento dessa situação seja capaz de criar um ambiente novo e  promissor em relação ao uso de animais como cobaias na produção de medicamentos para humanos.

Pode-se, como defendem alguns, dispensar inteiramente o uso de cobaias vivas nesse tipo de investigação científica?

A resposta, aqui, está muito longe de um puro “sim” ou “não”.

É mais complexa e desafiadora.

E exatamente por isso deve ser analisada num contexto mais amplo e sempre com a preocupação de evitar, de forma crescente, o uso dessas cobaias vivas.

As razões para isso são de diversas ordens e uma delas é o elementar direito natural de os animais poderem viver de forma digna, da mesma forma que os humanos, ainda que ambos, homens e animais, partilhem neste momento de um mundo violento, insensível e aparentemente sem muita perspectiva de mudança no futuro imediato.

A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) liberou, nesta semana, uma nota para a mídia condenando a invasão do Instituto Royal pelos ambientalistas e isso foi aproveitado pela empresa para se passar por vítima de truculência por parte dos ambientalistas.

Na verdade, a nota da SBPC não foi uma iniciativa muito inteligente, porque foi unilateral, restrita e para ser claro: ortodoxa e formal.

Para posicionar-se devidamente num caso como este a respeitabilíssima SBPC teria a obrigação de fazer uma reflexão mais ampla e colocar a questão na dimensão necessária.

E isso não aconteceu.

Quanto aos ambientalistas, invadindo o laboratório como fizeram, poderiam (ou podem) ter sido vítima de contaminações de que, provavelmente, sequer suspeitaram quando se decidiram pela iniciativa. Essa é uma situação ameaçadora que não pode ser desconsiderada nem em relação ao grupo invasor, nem em termos de saúde pública.

Também o ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Marco Antonio Raupp (ex-presidente da SBPC) teve uma fala aparentemente mal humorada com jornalistas, quando se referiu a esse acontecimento e condenou de forma unilateral a invasão dos ambientalistas para liberar os 178 beagles cobaia do Instituto Royal.

O ministro Raupp, uma pessoa afável, brilhante e com julgamento criterioso e por isso mesmo equilibrado (eu o conheço há tempos e convivi profissionalmente com ele tanto no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Inpe, quanto na própria SBPC) soou autoritário e excludente em sua fala.

E isso foi uma grande pena.

O ministro disse que o momento de se debater o uso ou não de animais como cobaias em laboratórios já havia ficado para trás e com isso desqualificou sumariamente os ambientalistas.

Os fatos, no entanto, em casos como esse, não são definitivos da mesma forma que, em ciência, as coisas também podem não ser definitivas.

Uma teoria científica, por exemplo, só pode ser aceita se for refutável e isso significa que o destino de uma teoria científica é literalmente o de viver na corda bamba.

Numa noite desta semana o âncora de um canal de TV aberta e popular se meteu a comentar o caso da invasão do Instituto Royal, aparentemente encorajado pela sumária nota liberada pela SBPC.

O fato, no entanto, é que o pobre homem mal sabia do que falava, em um discurso superficial, obscuro, desinformado e por isso mesmo com todo potencial para aumentar a confusão sem lançar uma única semente com possibilidade de frutificar uma perspectiva mais inteligente, necessária e melhor fundamentada, envolvendo todos os protagonistas de uma história emblemática como a liberação dos 178 pequenos beagles do Instituto Royal em São Roque.



Escrito por blogdasciam às 12h45
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