De volta para casa
 
Pouco mais de dois anos depois de ter deixado Scientific American Brasil para me dedicar ao projeto de Astronomy Brasil me vejo de volta ao projeto inicial.

Essas considerações não são, evidentemente, para falar de meu percurso pessoal, menos que uma gota d’água na vastidão do oceano. Mas para retomar contato com os leitores da revista. Os mais antigos, com quem compartilhei o período inicial de Sciam, e os que se somaram desde então.

Na verdade, só agora me dei conta de que fiz um retorno por etapas, o que não deixa de ser surpreendente. Ao menos para mim. Quantas vezes passamos por experiências desse tipo sem nos darmos conta?

Quando retornei à Duetto, com Astronomy Brasil já no sexto número, em setembro passado, recebi de seu diretor-geral, Alfredo Nastari, convite para escrever uma coluna, “Telescópio”, sobre astronomia. 

Foi o que fiz desde então, com a satisfação de dar minha pequena contribuição para ampliação e consolidação deste projeto de que participei desde o início, dividindo tarefas e soluções com Ana Claudia Ferrari, agora diretora-adjunta para a área de conhecimento da Duetto.

Scientific American é uma revista estratégica num país como o Brasil, com tradição recente de ciência e não inteiramente livre de certo ranço positivista. Caso contrário, como explicar o “ordem e progresso” da bandeira nacional?

Em que sentido é uma publicação estratégica?

Entre outras razões, pela capacidade de provocação de que é capaz.

Provocação, no sentido comum, tem conotação pejorativa. No sentido considerado aqui, vem da raiz latina que significa “pro-vocare”, ou seja, fazer falar. Isto implica, evidentemente, em fazer pensar, pois quem fala deve pensar o que diz, sob pena de não ser levado a sério.

Um dos desafios do jornalismo como um todo, e do jornalismo científico em particular, é fazer jornalismo interpretativo, ou seja, contextualização histórica dos acontecimentos.

Não basta um “furo”, a notícia publicada por um único veículo sobre determinado acontecimento. Não só porque isto é cada vez mais raro como, também, no dia seguinte, todos vão dar a mesma notícia.

O fundamental, especialmente no jornalismo científico, ao contextualizar os acontecimentos, é inseri-los num processo para que os leitores, a sociedade como um todo, seja capaz de se dar conta de todas suas  implicações.

Jornalista e autores de forma geral, independentemente da área em que atuem, devem saber que, quando escrevem sobre determinado assunto, têm, entre seus leitores, ao menos uma pessoa que conhece aquilo melhor que ela. Tendo em conta essa situação, devemos escrever com perspectiva de inteligibilidade possível, ou seja, com a determinação de ser o mais claro possível levando em conta a diversidade dos leitores.

Este, sem dúvida, é um dos méritos de Scientific American.

Claro que sou mais que suspeito para falar disso. Entre as pilhas de revistas que mantenho em meu escritório estão exemplares de Scientific American com o projeto gráfico clássico que, coincidentemente (ou não) está de volta.

Ao longo destes anos temos recebido cartas de jovens leitores relatando que a leitura de Scientific American foi fundamental para a escolha profissional que fizeram na vida. Leio isto sempre com uma ponta de preocupação, mas, devo confessar, também com uma pitada de satisfação. O que de melhor se pode oferecer a alguém além de boa formação?

Aqui, damos o melhor de nós, com o desejo de ajudar num processo de conscientização que vai além da escolha da profissão. Participamos de uma caminhada capaz de sensibilizar para a dimensão cósmica da humanidade.

Esta é a única possibilidade de uma autocrítica capaz de nos conduzir a uma reconstrução.

De tudo aquilo que deve ser repensado e reconstruído.

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