Marte e a Lua Cheia

Imagine você que, da noite para o dia, o maciço do Pico do Jaraguá, o ponto mais alto da cidade de São Paulo (1.135 metros) amanheça na Praça da Sé, centro da cidade, a 30 km de distância de sua localização, a noroeste da metrópole.

Absurdo, não?

Pois o mesmo absurdo está por trás de uma versão que periodicamente circula online prevendo que em determinada data – desta vez o 27 de agosto – Marte estará no céu com o tamanho aparente da Lua Cheia.

As pessoas não só acreditam como chegam a combinar encontros para observar esse pretenso fenômeno.

De onde saiu tamanha tolice, por que essas versões ganham consistência e conquistam rapidamente a confiança das pessoas?

A origem disso tudo pode ser uma brincadeira de mau gosto ou um desses surtos que se propagam com a velocidade de um vírus.

De manifestação restrita, subitamente, pelas facilidades das comunicações, se transforma em realidade coletiva.

Marte, por sua órbita elíptica em torno do Sol – descoberta feita pelo astrônomo alemão Johannes Kepler (1572-1630), utilizando dados coletados pelo dinamarquês Tycho Brahe (1546-1601) – de fato tem aproximação máxima a cada dois anos com a Terra, que também tem órbita elíptica.

À época das aproximações a observação de Marte fica facilitada e isto foi válido especialmente no passado, levando-se em conta as limitações dos telescópios e a inexistência de naves espaciais, como as que sobrevoam ou estão investigando Marte de sua superfície.

Mas as aproximações não significam que Marte chegue ao tamanho de uma Lua Cheia. Para isso Marte deveria sair de sua órbita aproximar-se da Terra.

Aí está o disparate do pretenso fenômeno.

Que forças deslocariam Marte de sua órbita e qual o impacto disso no Sistema Solar interior?

Uma comparação possível é a do deslocamento do Pico do Jaraguá para o centro da cidade de São Paulo.

Mesmo quem não tem o menor conhecimento de astronomia, geologia ou o que quer que seja compreende que se trata de um completo absurdo.

Mensagens como esta quase sempre vêm acompanhada de uma advertência. A de que o pretenso fenômeno só voltará a ocorrer em milhares de anos.

Não se deixe impressionar por esta escala de tempo mesmo quando tratar-se de um fenômeno procedente. Ocorrências celestes podem repetir-se apenas em larga escala de tempo e não há nada de errado nisso.

Na verdade, rigorosamente, nada se repete. Quando algo como um eclipse total do Sol ocorre – e isto ocorre periodicamente – é preciso compreender que os contextos diferem entre si.

Isto também vale para o coditiano.

Lembram-se da frase atribuída ao filósofo grego Heráclito (540 a.C 480 a.C) (“ninguém sobe a mesma montanha duas vezes”)?

É isto que ele queria dizer. A segunda vez que você sobe a montanha ela já não é a mesma. Algum grão de areia, de sua primeira escalada, foi retirado pelos seus pés e transformou a montanha.

Planetas podem migrar possivelmente entre sistemas solares.

O astrônomo Rodney Gomes, do Observatório Nacional (ON) no Rio é co-autor de um trabalho interessantíssimo nesta área.

Mas isto, absolutamente, não tem qualquer relação com a idéia de que Marte chegará ao tamanho aparente da Lua Cheia nesta próxima ou em qualquer outra data.

Até porque, este ano, a máxima aproximação entre Terra e Marte será em 17 de dezembro – aproximadamente 88,3 milhões de quilômetros – e não agora, em 27 de agosto.

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