Ossos do ofício
Não é por acaso que interpretação de textos integra exames vestibulares. O pressuposto dos examinadores é que um candidato a entrar para a universidade tenha capacidade intelectual para acessar e reter criticamente o conteúdo de um texto.
Exames envolvendo interpretação de textos geralmente são de múltipla escolha, o que lamentavelmente nos priva de parte das pérolas recolhidas nos vestibulares.
Quem escreve – tanto textos que entram nos vestibulares quanto fora deles -- está sujeito a interpretações enviesadas.
São o que os cronistas chamam de “ossos do ofício”. Nada capaz de comprometer o humor, mas apenas inspirar a crônica seguinte, numa sina que lembra Sísifo. Aquele que levava uma pedra até o cume da montanha, de onde ela rolava e exigia que se fizesse tudo de novo.
Os gregos sabiam das coisas daí o fascínio que tiveram pela tragédia.
Essa introdução para dizer que na quinta-feira passada (21/02) pousou no terminal de fax da Duetto, que edita Scientific American Brasil, uma carta assinada por um médico mineiro – ao menos é o que ele sugere ao declinar CRM, acompanhado de endereço e telefone para eventuais averiguações.
Elisabeto Ribeiro Gonçalves – conferi o nome mais de uma vez na carta e é este mesmo – diz estranhar uma colocação que, na interpretação dele, eu teria feito em editorial (Ponto de Vista) que escrevi para a edição especial de relatividade que está nas bancas -- envolvendo ciência e religião (nas palavras dele eu teria “colocado ciência e religião num mesmo saco”).
Em seguida, com a velocidade de um daqueles discos de 78 RPM que girava na vitrola que meu bisavô Carmine trouxe das montanhas de Salerno -- o nome dele também era esquisito por aqui, mas ele nunca se importou com isso – Elisabeto dispara: “mas que valores religiosos são esses? O dogma? A mentira? A impostura? A imposição autoritária da verdade? A autoridade da revelação? O controle das sociedades por meio do medo, com a promessa de vida e de recompensas além-túmulo?”
Confesso que passei por uma experiência incomum de ler o que teria escrito, sem nunca escrever o que estava lendo.
Ainda mais que, e isto também herdei do velho Carmine, tenho raízes libertárias e em casa sempre escutei a velha ladainha – uma adaptação de Diderot feita por anarquistas: “o último padre enforcado nas tripas do último militar”.
Claro que nada tenho contra padres ou militares. Cada um ganha a vida como pode e nesses ou em quaisquer outros grupos profissionais encontramos tanto gente que “paga a pena” como outros que não valem “tostão furado”, como avaliava meu bisavô.
Para ir mais diretamente ao assunto, o que escrevi -- e isso pode ser comprovado por qualquer leitor disposto a conferir o editorial de relatividade – é outra coisa bem diferente do que o Elisabeto entendeu.
Reproduzo os dois primeiros parágrafos que inclui o trecho sob consideração:
“A ciência não é um luxo, é necessidade. Quando essa idéia estiver difundida o bastante para ser aceita pelas sociedades humanas como um legado tão legítimo e profundo quanto valores religiosos, haverá razões para confiança no futuro. Caso contrário estaremos sempre à mercê da sorte”.
Antes de destrinchar um pouco o texto devo reconhecer pelo menos uma característica pessoal: tendo a avaliar sempre positivamente a capacidade intelectual de meus interlocutores e não me arrependo disso. Mas eventualmente, tomando de empréstimo a liberdade dos cronistas, devo dizer que realmente “quebro a cara”, ou seja, me decepciono. Ossos do ofício.
De qualquer maneira “para ser aceita pelas sociedades humanas como um legado tão legítimo e profundo quanto valores religiosos” é uma idéia que remete a características de uma sociedade pré-científica, o que inclui boa parte do Planeta.
E sociedade pré-científica – para não gerar novos desencontros -- é aquela cujos membros vivenciam uma experiência de divindade enquanto razão profunda para justificar a manifestação do que chamamos realidade.
Claro que a partir desta idéia – nem um pouco simplista – é possível produzir uma edição inteira ou muito mais que isso. Mas o espaço de que dispomos num editorial é exíguo e por isso levamos em conta a capacidade de interpretação de um leitor.
Elizabeto se queixa de que “como assinante e leitor causou-me profundo mal-estar o Ponto de Vista no exemplar [na edição] nº 24, assinado pelo Sr. Capozzoli” e pergunta: “Há como reparar esse estrago?”
Deixo à apreciação de outros leitores a resposta pretendida pelo Elizabeto.
Quanto a mim e meu bisavô Carmine, que foi feliz com o nome que tinha, devo dizer que sim. Basta um curso introdutório de boa leitura.
Ou para terminar com Voltaire: “Uma única palavra fora do lugar estraga o pensamento mais bonito”.