O antecipador

Desde este 18 de março, quando a luminosidade de verão ainda rebatia pela tarde quente de Brasília (17h30 local), mas já era madrugada com céu coberto de estrelas e temperaturas amenas sobre o antigo Ceilão, agora conhecido como Sri Lanka (1h30), este e outros mundos não são mais o que foram durante muito tempo.

Arthur Charles Clarke está morto.

Esse poderia ser o começo de uma história de pura ficção.

Eventualmente uma brincadeira de gosto duvidoso de Isaac Asimov, um dos escritores com que Clarke partilhou não apenas uma era dourada da ficção científica, mas também generosas doses de humor.

Mas, na realidade, ninguém pode durar para sempre, mesmo que seja um homem capaz de viajar no tempo. Cada um tem seu limite e o de Arthur Clarke, ao menos para nós do Hemisfério Sul, chegou neste melancólico fim de verão.

Independente do que digam os economistas, ou da performance da crise cíclica que agora arma o bote de uma enorme serpente de destruição, o mundo foi subitamente empobrecido pela ausência de um gênio que, entre outras previsões, enxergou o fim do domínio do dinheiro e do trabalho ultrajante e alienado como recurso de sobrevivência.

Clarke, ao cabo de seus 90 anos, não agradou indistintamente e nem poderia. Ele mesmo, em uma de suas surpreendentes considerações, reconheceu essa impossibilidade: “ficção científica faz pensar e essa é a razão de não ser apreciada por muita gente”.

Por aqui, fiel a nossa herança senhorial, ainda temos apreço por certo romance social, sucesso de público nas repetitivas e odiosas novelas das 7, 8, ou 9 da noite.

Arthur Clarke combateu até quando teve forças uma debilitante síndrome pós-pólio desde a década de 60 o que, nos últimos anos, fez com que se confinasse a uma cadeira de rodas, afastado de mergulhos no mar, onde reconfigurou sua visão do Universo, estimulado pela alteração gravitacional.

Mergulhe com equipamentos numa região de águas transparentes – como Fernando de Noronha, em alto mar – e você mesmo irá experimentar a sensação que fascinou Arthur Clarke no início dos anos 1950.

O que se pode falar de Arthur Clarke que seus leitores já não conheçam?

Talvez que, fundamentalmente, teve a coragem de não temer o que aterrorizaria a maioria dos homens práticos, pragmáticos, calculistas e desprovidos de qualquer criação que não seja suas pequenas legislações para controlar o mundo à sua volta.

Arthur Charles Clarke há muito se comprometeu com o destino da humanidade e por isso muitas vezes aventurou-se para territórios além de Marte, como aconteceu em Encontro com Rama, ou junto a uma lua de Júpiter, no ainda enigmático 2001: Uma Odisséia no Espaço, o maior clássico da ficção científica no cinema de todos os tempos.

Partiu como todos faremos um dia, mas deixou um legado incomum.

Reafirmou ao longo da vida que o destino do homem está em suas mãos e exatamente por isso o futuro pode ser tão bem interpretado quanto o passado.

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