Tributo a John Wheeler

Toda uma geração de homens brilhantes está indo embora deste mundo. Se considerarmos o dito popular de que “ninguém é insubstituível” a conclusão é que o planeta continuará girando como sempre.

O problema é que, de muitas maneiras, eles sempre farão falta.

Em meados de março passado Arthur Clarke foi embora. Neste último domingo foi a vez de John Wheeler.

Críticos mais radicais podem dizer que uma das colaborações que ele deu a este mundo foi o desenvolvimento da bomba de hidrogênio, arma de destruição em massa.

A verdade, no entanto, é que Wheeler construiu um pequeno Sol.

Talvez a maior parte das pessoas conheça John Archibald Wheeler como o homem que batizou os buracos negros com esse nome exótico.

 Atos banais podem catapultar uma pessoa às alturas, ainda que o movimento de queda costume ser tão rápido quanto o de ascensão.

A história de Wheeler, no entanto, nascido em 9 de julho de 1911 na Flórida, não tem nada de banal, bem ao contrário.

Ele ainda era um jovem professor, no ano em que se iniciou a Segunda Guerra Mundial, quando o grande Nils Bohr, seu mentor intelectual, desembarcou dos Estados Unidos com a notícia de que cientistas alemães haviam fissionado átomos de urânio.

Ao fim de poucas semanas de trabalho ele e Bohr decifraram o processo por trás dessa conquista que mudou o percurso da história, como evidenciaram as bombas atômicas que, apenas seis anos depois, caíram sobre Hiroshima e Nagasaki.

Wheeler foi mentor de gerações de físicos teóricos, gente do porte de Richard Feynman, combinando com a habilidade de um mágico, metáforas e equações.

Feynman, que entre outras realizações intelectuais anunciou o nano-universo, numa palestra memorável quando confundiu boa parte de seus ouvintes – é possível transcrever todo o conteúdo da enciclopédia britânica na cabeça de um alfinete – em algum momento disse que seu antigo professor, na opinião de alguns críticos, enlouqueceu com a idade.

Mas a verdade, assegurou Feynman, é que “Wheeler sempre foi um maluco”.

Com alguma freqüência, em programas de TV ou debates pretensamente consistentes, observadores falam de “falsa ciência” e de “falsos cientistas”, como se o diagnóstico em casos desse tipo pudesse ser feito de uma única espiada.

Wheeler, na precoce opinião de gente desse tipo, em mais de uma oportunidade pode ter corrido o risco de ser interpretado assim.

Claro que a densidade de seus trabalhos lhe deram reconhecimento merecido, tanto que foi referido como “o último dos titãs” num artigo escrito por Dennis Overbye – autor de Corações Solitários do Cosmo – que recolheu a expressão de Max Tegmark, cosmólogo do Massachusetts Institute of Technology (MIT).

Um brasileiro, Jayme Tiomno, conforme registrou a Folha de S. Paulo na edição de terça-feira (15/04) participou de um dos importantes trabalhos científicos de Wheeler, envolvendo o que os físicos chamam de decaimento beta, fenômeno envolvido com a radioatividade.

Aos 87 anos Tiomno manifestou tristeza pela partida de Wheeler.

Sentimento sem dúvida partilhado com todos aqueles que têm o privilégio e o prazer de se maravilhar com a genialidade humana.

Habilidade com que Wheeler fascinou muitas gerações. 

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