Meu coração na curva do rio
Ulisses Capozzoli
Na falta, por morte, de uma pessoa querida, ao menos quem dispõe de alguma fortuna pode prestar uma homenagem até recentemente impossível.
Em Curitiba, uma funerária que representa uma empresa suíça, crema o corpo do morto, separa uma determinada porção das cinzas e transforma esse material, que um dia foi vivo, num reluzente diamante.
De brinde, o cliente pode ficar com parte das cinzas.
Quem quiser fazer homenagem ainda mais elevada pode contratar empresas lançadoras de satélites e colocar os restos em órbita da Terra.
Nada contra.
É uma forma de homenagear os que passaram para o andar de cima e, além disso, criar empregos para fazer coro ao lobby empresarial que pretende, com este argumento, conseguir novos e ilimitados privilégios à custa da sociedade inteira.
No caso das cinzas em órbita, além de lixo espacial, a homenagem demanda uma boa quantidade de energia (colocar objetos mesmo de pequena massa no espaço continua um processo caro).
E consumo de energia, neste caso, significa poluição adicional.
E a homenagem deve durar apenas algum tempo porque, em órbita baixa, a tendência é que essas exóticas urnas funerárias se precipitem para a superfície da Terra, por efeito de explosões solares (com espessamento da atmosfera que acaba derrubando esses objetos) ou forças não gravitacionais (pressão da luz do Sol especialmente).
Restos de cinzas retornando do espaço podem produzir meteoros luminosos por alguns segundos e este será o “segundo de glória” de quem nem está mais aqui.
No caso dos diamantes, que não precipitam do espaço e podem ser utilizados como jóia (um pouco exóticas, é verdade) ao menos o consumo de energia (o que faz com que o desaparecido continua gerando poluição, mesmo depois de morto) não pode ser evitado.
O tranqüilizante, nos dois casos, é que, aparentemente, poucos deverão aderir a essa modalidade de homenagem.
Não porque não queiram, mas porque não podem.
Boa parte dos moradores deste mundo enfrenta dificuldades para enterrar seus mortos mesmo da maneira milenar, desde que as primeiras sepulturas foram cavadas na terra e cobertas de flores e amuletos, em companhia de animais de estimação.
Quanto a mim, se me permitem antecipar, gostaria, como diz o título de um livro, que meu coração e o resto do que eventualmente sobrar de mim, seja enterrado na curva de um rio.
Um rio formoso dos muitos que existem no Brasil: o Xingu com suas praias de areia branca onde dormem preguiçosamente os jacarés, o esverdeado e misterioso Tapajós, que deságua no Amazonas na altura de Santarém, ou o ainda selvagem Javari, onde sobrevivem grupos indígenas isolados.
Mas para evitar desperdício de energia e com isto produzir mais poluição, talvez possa ser o pequeno rio onde aprendi a pescar, nadar e reconhecer a dimensão profunda da Natureza.
Isso se ainda tiver sobrado alguma coisa da pequena maravilha que ele já foi.