Lições numa loja da Nikon
Ulisses Capozzoli
Qualquer um ficaria irritado, e, em alguns casos a irritação pode ser ainda maior. Próxima de certo desespero. Quase aconteceu comigo.
Me explico.
Na semana passada, fui até uma assistência técnica da Nikon, levar uma câmara que, por alguma razão misteriosa, resolveu travar.
Desconfio historicamente de uma série de serviços e, justamente por isso, sou cauteloso.
Liguei antes, tirei as informações que julgava indispensáveis e, na hora do almoço, dei uma corrida até a Rua Martin Francisco, seguro de que, em cinco minutos, entregaria minha câmara, esperaria pelo prazo de avaliação dos reparos (de alguns dias) e, quem sabe, em duas semanas poderia voltar a fotografar.
Estava equivocadíssimo, embora ainda não soubesse disso.
Mas descobri rapidamente.
No atendimento havia três funcionárias imperturbáveis, manuseando, cada uma, um pequeno pacote de notas fiscais.
Faziam o trabalho com o robotismo de uma dessas máquinas de carimbar, dos Correios, enquanto alguns clientes, do lado de fora do balcão, aguardavam com a sensação de que tem menos importância que o lixo de uma das cenourinhas (como os varredores de rua foram batizados pela imprensa) varria no meio-fio.
Quando uma delas terminou o atendimento atrevi a me aproximar e balbuciar que minha câmara tinha um problema e gostaria de saber da possibilidade de reparos.
A atendente respondeu com um grosso calibre, o que me fez ter a sensação de que estar literalmente em campo minado, numa batalha qualquer das muitas guerras que são simultaneamente travadas no mundo, independentemente da diversidade de razões estupidas que esteja por trás de cada uma delas.
-Senhor fulano - me esqueci o nome que ela pronunciou ao telefone, talvez por uma razão freudiana qualquer relacionada à frustração - ainda temos peças para máquinas velhas?
O homem - suponho que tenha sido um homem - respondeu alguma coisa do outro lado da linha e isso fez com que a atendente se referisse vagamente a mim, embora continuasse sem me dirigir o olhar.
Hesitei um momento antes de compreender que ela havia terminado o atendimento e que eu deveria dar o fora.
Em nenhum momento ela apanhou a câmara para um exame mínimo, sequer perguntou por um detalhe qualquer.
Determinado a levar uma câmara numa viagem curta que estou programando, bestamente atrevi a perguntar se eles tinham um outro modelo, uma D 40 - vi essa versão num artigo especializado outro dia e achei que pudesse me resolver.
A atendente - e nisso as três tinham um padrão de impecável similaridade - meneou a cabeça e agora com um olhar que sugeria estar se referindo a um perfeito idiota, disse que sim e não.
Deduzi que a loja tinha a tal câmara, mas não ali, naquele número. Num outro qualquer da Martin Francisco, que não tive qualquer interesse em procurar.
Perguntei a mim mesmo o que faz com que as pessoas ajam assim e, mais que isso: o que faz com que empresas ajam dessa maneira com seus clientes, ou potenciais clientes, porque eu, assegurei a mim mesmo, “estou fora”.
Então me lembrei que nas repartições públicas - admito que a expressão está fora de moda, mas como a burocracia e má vontade não se alteraram ao longo do último século, creio que não há razão para qualquer atualização semântica - acontece a mesma coisa.
Você encontra pela frente um funcionário mal humorado, com má vontade de fazer o que é pago para fazer - não discuto se está feliz ou não com o que ganha, já que é um assunto que não me diz respeito - e, bem ao lado dele, está a advertência de que “maltratar” funcionário público pode ter punição legal.
Desconfio que o autor da lei agiu em benefício próprio. Quando teve oportunidade, criou uma lei para proteger seus pares, numa ordem que se reproduz como cogumelos.
O atendimento técnico na loja da Nikon já havia ficado para trás ainda que, para mim, estará sempre associada, negativamente, a uma marca que até então tinha outra conotação.
Vou procurar outra japonesa - tenho ótimas relações com a Suzuki, mas aí estamos falando de motocicletas, uma de minhas paixões nesta curta passagem por este mundo.
Quando retornei à redação, apanhei um texto que começava com o verbo “possuir”, em vez de “ter”.
Essa é uma mania que se alastra como praga bíblica, não sei se os leitores já se deram conta disso. As pessoas, agora, “possuem” um câncer, por exemplo, em vez de ser vítima de um câncer.
Ou estão “disponibilizando” o que quer que seja. Algumas dizem até que “vão estar disponibilizando...” o que quer que seja
Como se vê, nada que esteja ruim não pode ficar muito pior.
Mas o pior mesmo, e nisso a atendente da Nikon teria tido sucesso, seria eu somatizar essa frustração, ficar furioso e ser capaz, por exemplo, de brigar no trânsito com qualquer outro - com perdão da expressão, que também vem da juventude de minha avô - “espírito de porco”.
Não fiz nada disso, mas fiquei pensando o que leva as pessoas a agirem como a atendente da Nikon.
Na verdade, ainda estou pensando nisso...