Ironias da História
Ulisses Capozzoli
E quando D. Sebastião retornar, o que será de Portugal?
Após tanta resistência, que remonta à batalha de Aljubarrota, quando Portugal se unificou, em 1385, sob a dinastia Diniz, agora há uma verdadeira capitulação em relação à Espanha.
A batalha de Aljubarrota ocorreu no final da tarde de 14 de agosto de 1385, envolvendo tropas portuguesas comandadas por D. João I de Portugal e D. Nuno Álvares Pereira e o exército castelhano de D. Juan I de Castela.
O enfrentamento se deu no Campo de S. Jorge, nas proximidades da vila de Aljubarrota, no centro de Portugal, e resultou na derrota dos castelhanos, encerrando uma crise iniciada dois anos antes, ainda que a paz com Castela só tenha sido estabelecida em 1411.
De acordo com pesquisas divulgadas ontem pelo jornal espanhol “El Pais” nada menos que 39,9% dos portugueses são favoráveis à formação de uma federação com a Espanha, o inimigo histórico.
O curioso é que, entre os espanhóis, apenas 30,3%, ainda segundo os dados do jornal espanhol, produzidos pela Universidade de Salamanca, estão de acordo com a união ibérica.
Como se não bastasse, metade da população portuguesa defende a idéia de que o espanhol deva ser língua obrigatória em sala de aula.
Já entre os espanhóis, o ensino da língua portuguesa nas escolas é rejeitado por nada menos que 76,2%.
A pesquisa foi realizada entre abril e maio passados, envolvendo 876 pessoas.
Se Portugal e Espanha se unirem, serão o país com maior extensão territorial da União Européia e a quinta economia mundial.
Para defender a união com a Espanha em termos tão incondicionais, no entanto, os portugueses devem literalmente esquecer a história e isso por muitas razões.
Além da batalha de 1385, é preciso esquecer o período entre 1580 e 1640, quando, com a morte do rei português D. Sebastião (1578), na batalha de Alcacer-Quibir, no norte da África, as coroas portuguesa e espanhola estiveram unificadas.
Essa unificação produziu, em Portugal, o Sebastianismo, uma espécie de saudade de futuro, com a esperança de que o rei um dia retornasse (o corpo, a armadura e as armas dele nunca foram encontrados).
O Sebastianismo, de alguma maneira, pode ter sido incorporado pelo Brasil, representado pela idéia de que um dia seremos potência, com importância muito maior que a que temos no mundo, e eventualmente livres das trapaças mais torpes que nos atingem desde o congresso nacional.
Significa dizer que um dia acalentamos a idéia de sermos livres dos clãs mais retrógadas, como o clã Sarney, que espezinha vergonhosamente a dignidade de cada um de nós, como se vivêssemos dois séculos atrás.
Os portugueses devem esquecer ainda que, foi com a concordância espanhola que as tropas napoleônicas chegaram até Portugal, em fins de 1807, motivando a fuga da corte portuguesa que chegou ao Brasil em 1808.
Há quem se envergonhe da corte portuguesa, mas isso por puro desconhecimento do que ocorreu com outros reinos europeus, que literalmente se postaram de quatro, à espera das ordens e desejos de Napoleão.
Aqui, nós brasileiros, tivemos algum ganho.
A chegada da corte, com D. Maria I, “a louca” à frente, abriu entre nós a pesquisa científica, a produção de livros e jornais.
Foi assim que entramos na modernidade, com atraso de pelo menos 200 anos em relação aos países que haviam deflagrado a revolução científica do século 17, especialmente Inglaterra e Alemanha, no segundo caso, um país ainda longe da unificação.
Foi, ainda, ameaçado pela bocarra espanhola que Portugal se atirou aos mares, produzindo a ciência náutica do século 16, a mais avançada de todo o mundo e só comparável aos feitos da China imperial.
Portugal não teve, jamais, uma Escola de Sagres, voltada para a navegação, como certa lenda continua a propagar.
Mas redesenhou ─ com o entusiasmo de D. Henrique, conhecido como “O Navegador”, da dinastia Dinis ─ literalmente a fisionomia do planeta e preparou terreno para Inglaterra e França desenvolver a revolução científica sob Francis Bacon e Descartes.
Agora, para ser espanhol, Portugal deverá apagar sua própria história.
Como Fernando Pessoa não vive mais, talvez uma tarefa dessas possa ser resolvida sem maiores dificuldades, levando em conta o pragmatismo das condições atuais.