Ulisses Capozzoli
Duas semanas de férias, fora do Brasil, tem um poderoso efeito terapêutico.
A gente se esquece, momentaneamente, de ocorrências desagradáveis por aqui. Vivencia as dos outros.
Mas torce para que tudo se dê da melhor maneira, afinal, estamos no mesmo barco cósmico, derivando pelos braços da Galáxia, rumo à constelação do Hércules à velocidade 72 mil km/hora, embora pareça que tudo está fixo entre as estrelas.
Se seu destino for, por exemplo, a Itália, muitas coisas surpreendentes podem acontecer.
Encontros com familiares há muito separados, mas em quem você pode reconhecer traços inconfundíveis.
Pode se descobrir numa história que vai muito além do que julgava meramente pessoal. Enxergar, por um momento, o que parece ser uma fiação invisível do mundo, ligando fatos, pessoas, histórias e cenas.
De uma velha senhora, expressando-se em dialeto, pode ouvir relatos que não esperava sobre pessoas que nos antecederam, têm o mesmo nome que levamos no passaporte, mas terminaram suas vidas de maneira algo trágica.
Terminaram assim por desafiar ordens prepotentes, desumanas e ambições políticas que, ainda hoje, com frequencia, podem parecer eternas, quando são tão efêmeras quanto o vento que sopra sem ser anunciado.
Defensores da unificação, acabaram degolados por ordem da Espanha.
Junto ao Coliseu, um dos legados mais impressionantes do passado, onde homens e feras combateram pela sobrevivência, acessa-se o Monte Palatino.
Na colina onde vacas e cabras pastaram por séculos, antes que o conjunto todo fosse redescoberto e valorizado como a base da “cidade eterna” se assentam o Foro Romano e a casa de Augusto.
No pequeno vale, flanqueado pelos Montes Palatino e Capitolino o Foro é uma das marcas mais poderosas da Roma Antiga.
O Foro foi o núcleo do Império Romano, talvez o mais poderoso já construído na história da civilização.
Estende-se pela Via Sacra, com seu leito de pedras, e atravessa o Arco de Sétimo Severo e o que foi o Templo das Virgens Vestais, de Castor e Polux (na mitologia gêmeos de Leda e Júpiter que depois de mortos subiram aos céus) agora reconhecidos como a segunda e primeira estrelas mais brilhantes da constelação zodiacal de Gêmeos.
A casa de Augusto, o equivalente à Casa Branca ocupada por Barak Obama, é um edifício em ruínas. Só restos de cerâmicas, estátuas e colunas testemunham sua força roídas pelos dentes do tempo.
A Itália, segundo especialistas em muitas áreas, neste momento oscila entre o passado e o futuro.
A crise econômica manifesta-se, entre outros sinais, por faixas de protestos contra o desemprego e a falta de salário no final de cada mês.
O Sul, mais vulnerável ao fluxo de imigrantes recebe ondas crescentes de indesejados, principalmente africanos, asiáticos e indianos.
Os indianos se apossaram de lan house, ou o equivalente a isso, em salas subdivididas que lembram vielas só acessíveis às motonetas, o som dos motores à explosão que inunda a Itália.
Os chineses preferem as pequenas lojas e os minimercados que abrem suas portas mais cedo e não respeitam o descanso após o almoço regado a pastas saborosas e o vinho bom e barato que não encontramos no Brasil.
Ao menos por aqui não é barato, por decisão de burocratas que incluíram esse alimento sagrado no grupo das “bebidas alcoólicas”, sujeitas a impostos escorchantes.
Impressionante que, no Brasil, não sejamos capazes de protestar pelo vinho que literalmente nos é negado à mesa, sob uma estúpida e insensível justificativa fiscal.
Aos negros, como sempre, sobrou o pior.
Sobrevivem com as barracas de roupas baratas armadas com o nascer do Sol e só desativadas quando a noite chega.
Os mais expostos, entre os expostos, revendem cintos e uma série infinita de quinquilharias brilhantes que refletem exageradamente o Sol, como se essa estrela fosse muitas, e não uma única moeda rubra deslizando a cada dia pelo céu.
Napoli, a bela Napoli com suas canções românticas, edifícios suntuosos e ainda hoje arrebatadores de outras épocas, seu trânsito caótico (mas onde não se veem acidentes, nem brigas ou tiros entre motoristas) é um torre de Babel.
Do outro lado de Roma, ao norte, nas ondulações douradas da Toscana, reconhecida como uma das melhores gastronomia do mundo, também há preocupação crescente com o desemprego.
Mas a situação, com um turismo impressionante, é mais amena.
Grupos ruidosos de jovens alemães comemoram a vida como se fosse eterna. Garotas que sugerem deusas nórdicas dividem espaços com divindades japonesas.
Garotas japonesas perderam a antiga timidez e com suas roupas provocantes e belas desfilam como se compensassem o tempo perdido por suas mães e avós.
A Itália, ao menos sob a luz dourada da Toscana, é uma síntese do mundo.
Das partes do mundo de onde se pode viajar àquelas da imigração forçada.
Em Firenze, ainda na Toscana, o Museu de História da Ciência, com instrumentos científicos que vão de ferramentas de cirurgias a inúmeros e belíssimos telescópios de madeira maciça é uma alegoria de todo o patrimônio cultural da Itália , por extensão, desta terceira pedra do Sol que aprendemos a chamar de Terra.
Nenhum outro país é tão escandalosamente rico em diversidade de pequenas e encantadoras cidades, tesouros arqueológicos diversos, vinhos com o refinamento dos brunelo de Montalcino, pastas de uma infinidade de formas e sabores.
E a obviedade surpreendente: o Brasil é muitíssimo mais italiano que português.