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            Ciência e falsa ciência

 

                                                                                                                Ulisses Capozzoli

 

            Uma decisão do Tribunal Federal Regional da 1ª Região decidiu esta semana que apenas médicos terão direito de praticar a acupuntura.

            A decisão do Tribunal resultou de ação movida pelo Conselho Federal de Medicina já há dez anos e veta que outros profissionais ligados à área da saúde possam praticar a acupuntura, caso de fisioterapeutas, psicólogos, farmacêuticos e mesmo outras pessoas sem formação convencional nessas atividades.

            A pretensão de monopolizar essa prática por parte do Conselho Federal de Medicina não deixa de ser curiosa, levando em conta o que ocorreu em 1972, quando o então presidente americano Richard Nixon, numa visita à China, fez o que ficou conhecido como uma reabertura desse país para o Ocidente.

            Essa redescoberta ocidental da China fez com que técnicas ancestrais fossem consideradas, em especial a acupuntura.

            E qual foi a reação largamente majoritária dos médicos e seus órgãos representativos?

            A acupuntura foi considerada uma farsa, algo no mesmo nível de uma feitiçaria tosca e por isso mesmo tratada com repulsa e condenação.

            E o que acontece exatamente 40 anos depois?

            No Brasil, médicos praticam a acupuntura e seus órgãos de classe vão à Justiça para que seus associados sejam os únicos autorizados a fazer uso dela.

            Apenas para localizar melhor o percurso recente da acupuntura no Ocidente, certamente vale a pena rememorar que o destaque dado a essa prática foi, de certa maneira, acidental.

            Ocorreu que, em 1971, o jornalista James Reston, lendário editorialista do New York Times, beneficiou-se da acupuntura para tratar de dores pós-operatórias devido a uma cirurgia para tratar de apendicite, quando estava na China.

            Reston relatou os benefícios da experiência e com a credibilidade de que desfrutava fez com que a técnica fosse considerada no meio científico americano.

            A viagem de Nixon, que retirou a China de um longo isolamento, permitiu, em seguida, uma troca de informações inéditas entre cientistas chineses e americanos e a acupuntura, evidentemente, esteve incluída nessas considerações.

            Demorou algum tempo, como costuma ocorrer na adoção de práticas/medicamentos na área de saúde, mas em 1996, finalmente, a Food and Drug Administration, a famosa agência reguladora americana na área da saúde, aprovou a prática da acupuntura nos Estados Unidos.

            O reconhecimento formal dessa técnica terapêutica eficaz, a ponto de boa parte de seus detratores iniciais agora pretenderem ter exclusividade na sua prática, é apenas um capítulo mais recente da história da ciência.

            Fundamentalistas (tanto na comunidade acadêmica, como e principalmente fora dela), no entanto, costumam privilegiar a memória em prejuízo da inteligência.

            Com freqüência, discursos agressivos, baseado fundamentalmente em palavras de ordem e em evidências discutíveis, falam em “separar a verdadeira da falsa ciência”, como se essa fosse uma tarefa trivial.

Algo equivalente a fazer um risco de giz no chão e definir: “esta é verdadeira e aquela é falsa ciência”.

            Evidentemente que existem coisas que não passam de descarada falsa ciência.

            A ciência de Trofim Denisovič Lysenko, sob Stalin, na antiga União Soviética, foi um exemplo disso.

            Obscuro criador de plantas, Lysenko que chegou a ocupar a direção do Instituto de Genética da Academia Soviética nos anos 40, rejeitou a genética mendeliana com o argumento que se tratava de “ciência burguesa”.

            O trabalho de Lysenko, baseado em parte nas pesquisas do geneticista Ivan Vladimirorich Michurin, mas com desvios grosseiros, produzidos por limitações ideológicas, representou um grande retrocesso na genética e, de certa forma, em toda a ciência produzida na União Soviética.

            O pensamento dele só foi formalmente refutado em meados dos anos 60, o que permitiu uma renovação do pensamento científico no que então era uma das potências no sistema de poder bilateral que caracterizou a Guerra Fria.

            Se existe uma falsa ciência em paralelo, não a uma verdadeira ciência, mas o que se pode chamar de ciência com base, por exemplo, no método científico, isso não significa que seja tão fácil quanto parece fazer de imediato essa distinção.

            A não ser na base de palavras de ordem típicas da submissão ideológica, sem falar de possíveis e sugestivos problemas de natureza freudiana, entre outros.

            O grande Galileu, por exemplo, sorriu com desdém de intolerância quando Johannes Kepler, o “ultimo dos antigos e o primeiro dos modernos”, referiu-se à idéia de forças agindo à distância, ou seja: a gravitação universal.

            Numa passagem não muito conhecida da história da ciência, Galileu desacreditou, como parte do “pensamento mágico” as considerações de Kepler que, Newton, desenvolveria  nos Principia mathematica, publicado em 1687.

            Newton estabeleceu que a matéria se atrai na razão direta das massas e na razão inversa do quadrado da distância e isso foi e continua válido, ainda que alterado pelas equações da relatividade geral de Einstein onde o conceito de força é substituído pela idéia perturbadora da curvatura do espaço-tempo.

 A Lua, por exemplo, gira em torno da Terra porque está localizada num poço gravitacional criado pela massa da Terra. E a mesma coisa ocorre com a sistema Terra-Lua, em torno do Sol e também se replica em relação às galáxias do chamado Grupo Local, submetida à deformação do Superaglomerado de Virgem.

O Universo é um amplo salão, onde a gravidade define o estilo e o ritmo da dança.

            A comparação entre esses fatos sugere que a genialidade humana é infinita.

Mas a estupidez também é, quando se manifesta sob a forma de pensamento limitado e limitante. Comprometido mais com a camisa de força da memória que com a criatividade libertadora da inteligência, sequiosa por perscrutar os mistérios do mundo.



Escrito por blogdasciam às 14h31
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