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O futuro anunciado pela missão Rosetta

Por Ulisses Capozzoli

O pouso da sonda Philae, na superfície do cometa 67P, na quarta-feira passada, define um antes e um depois, na história da astronáutica e, por extensão, da exploração espacial robótica.

A Philae, como o noticiário da mídia repetiu à exaustão, desde o pouso, é uma sonda liberada pela nave espacial europeia Rosetta, que homenageia a pedra angular da decifração dos hieróglifos egípcios.

Essa elucidação revelou para a história a dimensão e profundidade de uma cultura que, por intermédio da Grécia, está na base de praticamente tudo o que se pensa no Ocidente.

Do relativamente pouco que se conhece do primeiro filósofo grego, Tales de Mileto (624-543 a.C.), por exemplo, sabe-se que ele despendeu um período da vida em contato com sábios egípcios.

Como primeira sonda a pousar para uma longa exploração na superfície de um cometa, uma montanha ambulante vagando pelo Sistema Solar, submetida às leis da gravitação universal, a Philae já tem uma dimensão histórica.

É verdade que ela pode ter problemas a curto prazo, pelo fato de estar presa ao que seria uma espécie de penhasco, no corpo irregular do 67P, e isso possa comprometer tanto sua estabilidade como o abastecimento de energia solar.

A energia solar, em missões que não se destinam ao espaço profundo, é fundamental para o abastecimento de naves e sondas de investigação científica.  As missões a mundos ou regiões distantes tem como usina de força reatores nucleares e não antenas de captação de energia solar.

É o caso da missão New Horizons que, no próximo ano, chega a Plutão, seu alvo cósmico e, em parceria com o trabalho da missão Rosetta, tem como desafio decifrar os enigmas de um anel de escombros que envolve o Sistema Solar, o Cinturão de Kuiper.

Escombros de formação

O Cinturão de Kuiper, batizado em homenagem ao astrônomo holandês Gerard Peter Kuiper (1905-1973) quem previu sua existência, é o responsável pelo destronamento de Plutão, identificado no céu em 1930 pelo astrônomo amador americano Clyde Tombaugh (1908- 1997).

Isso ocorreu porque observações mais recentes, com uso de técnicas embutidas em telescópios mais avançados, permitiram saber que Plutão é apenas um dos corpos além da órbita netuniana, de tamanhos variados, que caracterizam o Cinturão de Kuiper.

O cometa periódico de nome complicado para os padrões ocidentais, Churyumov-Gerasimenko, abreviado para 67P, é, originalmente, um objeto do Cinturão Kuiper que, por efeitos gravitacionais complexos, foi atirado para o interior do Sistema Solar.

O 67P tem período orbital de 6,5 anos, o que significa dizer que, nesse período de tempo, tem tanto uma aproximação máxima do Sol (periélio) quanto um maior afastamento (afélio) em uma rota elíptica, o que sugere a forma de um anel achatado.

O próximo periélio do 67P ocorrerá em 13 de agosto de 2015. Isso quer dizer que, neste exato momento, ele se desloca em direção ao Sol.

A análise detalhada feita pela sonda Philae ˗˗ do porte de uma geladeira doméstica, no corpo do cometa ˗˗ combinada com observações e dados que serão enviados pela missão New Horizons levarão a uma reescrita da história do Sistema Solar.

As possibilidades, neste caso, são muitas e, ainda que possa parecer ficção científica à primeira vista, incluem, por exemplo a possibilidade de um quinto planeta, além de Júpiter, Saturno, Urano e Netuno, ter existido no Sistema Solar e ejetado para o espaço profundo, num violento jogo de bilhar cósmico.

Por que a humanidade despende recursos preciosos e enorme esforço intelectual para tentar desvendar, por exemplo, a história do Sistema Solar?

A resposta para uma pergunta como essa é, de certa maneira, desconcertantemente simples: porque somos humanos e talvez o que caracterize mais profundamente uma criatura humana é a insistência de fazer perguntas e repeti-las, a cada resposta.

Visão à distância

Espíritos práticos ˗˗ classificação simpática para gente que, em geral, tem dificuldade em enxergar a meio metro de distância do nariz, e tenta camuflar essa incapacidade com raciocínios tortuosos e bem pouco interessantes ˗˗ podem se perguntar para que interessa conhecer, por exemplo, a história do Sistema Solar. 

Para essa miopia intelectual seguramente é interessante lembrar questionamentos da pré-história da descoberta da eletricidade, quando os ancestrais dos homens de espírito prático também se perguntaram, com os ares de ceticismo de sempre: “mas, afinal, para que serviria isso?”

Para mentes abertas, que cultivam a dúvida, em lugar das certezas imutáveis, também vale a pergunta sobre o significado do conhecimento da história do Sistema Solar.

Mas, neste caso, a resposta é outra, tão bela quanto promissora.

Talvez, num futuro não tão distante, quando, numa espécie de versão científica da Arca de Noé estivermos nos preparando para uma mudança de mundos, buscando outro planeta, na órbita de um outro Sol, esse conhecimento poderá ser fundamental para a sobrevivência da humanidade.

Não uma humanidade distante, algo elusiva e sem nenhuma relação com cada um de nós.

Mas a humanidade formada por nossos próprios descendentes, carregando os genes e a curiosidade que hoje constroem nossos corpos e estimulam nossa imaginação.

Mesmo num caso aparentemente tão remoto como esse ainda estaríamos, de certa maneira, sendo um tanto objetivos e pragmáticos.

Ao homem, desde sempre, são necessários os sonhos, os projetos e as viagens e nada indica que, no futuro, as coisas possam não ser mais assim. 

 



Escrito por blogdasciam às 17h24
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