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A sobrevivência dos rios

Por Ulisses Capozzoli

Desde que a Organização das Nações Unidas (ONU) organizou uma conferência internacional pioneira sobre meio-ambiente ˗˗ em junho de 1972, em Estocolmo, na Suécia ˗˗ muita água passou sob as pontes que atravessam os rios da Terra.

Mas um volume enorme ainda deve fazer esse movimento antes que se tenha uma esperança mais palpável de que a proteção ambiental possa ter sensibilizado a sociedade humana para a necessidade de se preservar condições que, em essência, são indispensáveis à vida.

E isso, no único planeta conhecido, até agora, em toda a Galáxia, em que esse processo se manifesta com amplitude e diversidade impressionantes.

No encontro pioneiro em Estocolmo, os brasileiros ficaram constrangidos e envergonhados com a posição oficial exposta pelo então ministro do planejamento do governo militar, João Paulo dos Reis Velloso.

Em alto e bom som, o ministro trombeteou que o Brasil tinha rios à vontade para serem poluídos.

O que justificou uma posição que hoje entupiria as mídias sociais e eventualmente poderia colocar um ministro no olho da rua, por tamanho disparate?

Em 1972, a interpretação que os generais-presidentes tinham das preocupações ambientais derivava para a geopolítica de maneira estrábica.

Eles desconfiavam ˗˗ como desconfiavam de tudo e de todos ˗˗ que as preocupações ambientais eram uma estratégia maquiavélica de os países desenvolvidos para impedir o avanço das nações retardatárias.

O governo militar já havia se antecipado numa cruzada por iniciativas que hoje também seriam repelidas, como um programa de triste memória conhecido como Pro várzea.

Na versão original, essa iniciativa estimulou a retificação de inúmeros trechos de rios e ribeirões, sob o pretexto de impedir cheias periódicas e assim assegurar o uso de terras da calha fluvial para atividades econômicas ao longo de todo o ano.

Foi a ameaça de morte para inúmeros rios e ribeirões. Eles perderam suas curvas e com elas suas matas ciliares, suas belezas selvagens e seus remansos, onde cresciam as saborosas traíras (Hoplias malabaricus) e muitas outras espécies com preferência por águas calmas.

Retificados, com dragas mecânicas que expeliam fumaça como um animal raivoso, rios e ribeirões foram transformados, no curto período de meses, em regatões por onde as águas passaram a correr nervosas, apressadas em chegar das nascentes à foz, esvaziadas da geração da vida que cultivaram por séculos e milênios.

Com a redemocratização política, promessas apareceram e esperanças renasceram no horizonte em relação ao respeito sagrado às águas, reverência que recua à infância do homem e se estende aos fluxos que vertem por todos os rios do mundo.

E são particularmente pródigas no Brasil.

A mancha escura nas águas que apareceu na altura da cidade de Salto, no entanto, ˗˗ às margens do Rio Tietê, a 114 km de São Paulo, nesta semana ˗˗ traz de volta preocupações que nunca desapareceram, mas pareciam restritas a casos mais isolados.

No Tietê, porém, um dos rios mais importantes do Estado de São Paulo, entre outras razões porque é o fluxo que desliza pela capital, uma das megalópoles da Terra, ocorrências deste tipo não são incomuns. O que muda é a maneira como os desastres se anunciam.

Levantamentos feitos até agora não foram capazes de identificar a composição da mancha escura, ainda que ela tenha provocado uma mortandade de peixes, o bastante para demonstrar seu poder letal.

O envenenamento de um rio é o suicídio de uma sociedade.

Talvez nós, brasileiros, com território amplo e pródigo em água, ainda não tenhamos tido oportunidade de refletir sobre essa paradoxal obviedade.

Afinal, de onde se originam as lágrimas que vertem de nossos olhos, na alegria e na dor? Que origem tem o suor que brota de nossos corpos, numa tarde quente de verão? Com que o corpo de cada um de nós elabora o sangue que circula por nossas artérias e veias? De onde vem a água de nosso xixi?

Na maior parte dos casos vem das águas de um rio e isso é o bastante para dizer que a vida de cada um de nós depende da vida de um rio, ainda que isso possa parecer um discurso selvagem, remoto, como a dependência que tivemos dos cavalos para nos deslocarmos mais rapidamente que em uma caminhada a pé.

Talvez uma parcela das pessoas não esteja preocupada com isso, e, assim, dispostas a deixar “na mão de ecologistas”, responsabilidades que, aos olhos delas, parecem exageradas, talvez artificiais, ou ideologizadas.

Aos governos, em todas as instâncias ˗˗ municipal, estadual e federal ˗˗ cabe a responsabilidade de, não se arvorarem em serem os únicos responsáveis pela possível e necessária recuperação de rios, regatos, fontes e ribeirões.

Talvez a tarefa deles seja sensibilizar, com base em conteúdos de educação, o conjunto da sociedade para que possamos reaprender o respeito que nossos ancestrais cultivaram pelas águas puras que encontravam em uma infinidade de fluxos e eles vertiam dos mais diferentes pontos dos campos e das cidades.

Talvez, com a crise atual de abastecimento de água potável, tenhamos a oportunidade de um programa de educação pela vida, tomando por base o respeito e tributo sagrado às águas.

Cada garrafa plástica que for colocada num cesto de lixo e encaminhada para reaproveitamento será uma peça a menos entupindo as calhas de um curso d’água.

Claro, Pode parecer vergonhosamente simples. Mas isso não quer dizer que seja absolutamente dispensável.



Escrito por blogdasciam às 14h14
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