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Ciência e divulgação

Por Ulisses Capozzoli

Se há uma questão central na divulgação científica, ela diz respeito ao que se pode chamar de transformação do substrato mental. E substrato mental pode ser entendido – de maneira algo sumária – como uma forma de compreender o mundo o que, de certa forma, inclui acessar um conceito de realidade.

Um observador mais apressado pode disparar, com a agilidade de um Durango Kid, que a compreensão do que seja o mundo é tão vasta quanto o universo observável. E que a mesma coisa vale para o entendimento de realidade. Ele tem razão. Mas, em nenhum momento, isso inviabiliza o conceito de substrato mental e este é o ponto que interessa neste caso.

O mundo, agora, transforma-se em velocidade inédita na história da civilização, em função de uma ampla e complexa estrutura técnico-científica. Uma descoberta de fronteira na ciência, em curto espaço de tempo, estará aplicada ao cotidiano da sociedade e disso resultam transformações rápidas e radicais.

Dois exemplos do considerado no parágrafo anterior: em 1928 o físico teórico britânico Paul Dirac (1902-1984) fez a proposição moderna da existência de antimatéria, neste caso pósitron, ou antielétron. Apenas quatro anos depois, o físico americano Carl D. Anderson (1905-1991) fez a detecção dessa partícula analisando rastros de radiação cósmica numa câmera de ionização.

E o que ocorreu em seguida?

Em 1973 dois físicos americanos, Edward Hoffman (1942-2004) e Michael E. Phelps (1939-75 anos), então da Washington University em St. Louis, desenvolveram a tomografia por emissão de pósitrons (PET) que revolucionou a produção de imagens em medicina não invasiva. O que parecia pura ficção, em curto espaço de tempo se transformou em realidade cotidiana.

Outra inovação, e esta veio literalmente da ficção científica, foram os “comunicadores”, utilizados pela tripulação de Star Trek (Jornada nas Estrelas), que tomaram forma na realidade sob a forma de cell phones, os prosaicos telefones celulares.

Neste momento, os celulares desempenham um amplo conjunto de funções, entre elas a de permitir a comunicação, o que faria inveja ao capitão Kirk e à tripulação da Enterprise.

Mas se essas foram histórias promissoras, que mudaram para melhor a qualidade de vida da sociedade humana, outras transformações se deram em sentido contrário.

Em 1896, por exemplo, o físico-químico e Prêmio Nobel sueco Svante Arrhenius (1859-1927) descreveu o efeito estufa e preveniu que a queima de combustíveis fósseis, entre outras fontes, um dia iria aquecer a atmosfera da Terra com efeitos imprevisíveis.

É o que ocorre neste momento. Desde os anos 90 a Organização das Nações Unidas (ONU) vem se empenhando em sensibilizar as administrações nacionais para o impacto do aquecimento global com mudanças climáticas – ao mesmo tempo em que mantém uma equipe de alguns milhares de climatologistas investigando o padrão, ritmo e intensidade dessas transformações.

Inicialmente, a previsões do IPCC – comitê das Nações Unidas para investigação do aquecimento global com mudanças climáticas – foi parcialmente desacreditado, mesmo entre parcelas do mundo acadêmico. As evidências, quanto a esse processo, no entanto, vêm se acentuando desde então e é o assunto de capa da edição deste mês de Scientific American Brasil, agora na Editora Segmento.

Que relação as mudanças climáticas têm com o substrato mental social?

 

Se a ciência e divulgação de ciência forem impotentes em transformar a visão do mundo, alertando as administrações nacionais nos seus diferentes níveis de ação para os desdobramentos desse processo, os efeitos dessas transformações têm tudo para ser os mais desastrosos de toda a história da civilização. 



Escrito por blogdasciam às 14h20
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