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Nature manifesta preocupação com Aldo Rebello

 Por Ulisses Capozzoli

Nature, a principal revista científica internacional (grupo editorial de que Scientific American é parte) questiona em sua última edição a indicação de Aldo Rebello para o ministério da Ciência Tecnologia e Inovação (MCTI).

A preocupação transmitida pela Nature, e que reflete preocupações da comunidade científica internacional ligada ao aquecimento global com mudanças climáticas, é que o ministro seja tolerante com a liberação de gases de efeito estufa, em especial com o desmatamento e queima de florestas na Amazônia.

As preocupações da comunidade científica estampada na publicação da Nature justificam-se por declarações recentes de Rebello colocando em dúvida o aquecimento global com o argumento de que é um processo “incompatível com o conhecimento científico disponível.”

Que Aldo Rebello no MCTI é uma ave fora do ninho é um fato reconhecido por praticamente a totalidade da comunidade científica brasileira. Mas Rebello, que também foi um corpo estranho no Ministério do Esporte, ameniza a situação. Em nota dirigida à Nature, ele desvincula suas avaliações pessoais da linha de atuação que deve ter no ministério. Segundo Rebello, o debate sobre mudanças climáticas “existe independentemente de minhas opiniões.”

Interferência indevida

Os editores de Nature interpretaram a declaração do ministro como sinônimo de que ele se limitará a atuar no sentido de garantir condições e recursos para a comunidade científica, sem interferir na política científica ou no rumo das pesquisas.

Essa interpretação certamente se deve às considerações que fontes consultadas no Brasil, como Jean Ometto, coordenador do Centro de Pesquisa de Ciências da Terra, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) subordinado ao MCTI.

Ometto disse à Nature que, “em geral, os cientistas estão céticos e desapontados”, referindo-se à escolha de Rebello pela presidente Dilma Rousseff, político sem qualquer vinculação anterior com a pesquisa científica. Mas o pesquisador ponderou que os centros de pesquisa científicas são sólidos o bastante para não se deixarem influenciar pelo pensamento de um ministro sem afinidade com a área.

Também a presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) Helena Nader disse, em declarações à Nature, que a comunidade científica estaria disposta a dar um prazo de ambientação, antes de ser mais crítica quanto à atuação do ministro. Ela relatou ainda que a comunidade científica não espera por retrocessos na política ambiental.

Outra preocupação manifestada pela Nature e que também reflete preocupações internacionais está relacionada à escolha de Kátia Abreu, representante do agronegócio no Congresso Nacional, para o Ministério da Agricultura 

Floresta Amazônica

Na verdade, o temor quanto à escolha de Rebello se superpõe à indicação de Katia Abreu, mais especificamente em relação à preservação da Floresta Amazônica, com sensível queda de desmatamento em relação ao pico registrado em 2004, mas que pode voltar a crescer.

Nature acrescenta que a presidente Dilma Rousseff nunca teve boas relações com ambientalistas para quem obras como novas hidrelétricas, com inundação de terras indígenas entre outras, aumenta uma pressão ambiental sobre as florestas. 

Para acomodar gregos e troianos no poder, tática para enfrentar o jogo de pressões que caracteriza a administração pública no Brasil desde sempre, a presidente Dilma Rousseff faz contorcionismo e as indicações tanto de Rebello como de Kátia Abreu são peças movidas em um tabuleiro político-partidário.

Durante a maior parte do governo militar, entre 1964 e 1985, em particular sob a administração do general Ernesto Geisel, preocupações ambientais foram interpretadas como estratégias dos países desenvolvidos para evitar a modernização de países não socialmente desenvolvidos, ou “em desenvolvimento” conforme o eufemismo da época.

Compromisso recente

Mais recentemente, o Brasil demonstrou disposição de aumentar a proteção sobre suas florestas e colaborar ativamente no sentido de amenizar os impactos sobre o processo de aquecimento global com mudanças climáticas que também ameaça suas potencialidades naturais e impacta uma realidade social já complexa, em particular na área urbana.

A posição obscurantista da ditadura militar foi superada, ainda que não inteiramente, nas fronteiras agrícolas internas, mas já mostra o impacto negativo de sua prevalência. Climatologistas suspeitam, por exemplo, que a estiagem atual, com irregularidade de chuvas no Sudeste podem refletir a destruição da Floresta Amazônica.

Pesquisas mais recentes demonstraram o papel da floresta na formação de nuvens que, tocadas por ventos dominantes sob ação da muralha dos Andes, desvia essas formações para o Sudeste, onde elas se desfazem sob a forma de chuvas.

Enfrentar o desafio de uma situação como esta talvez vá exigir do ministro Rebello mais que disposição para não interferir em pesquisas científicas que não se harmonizem com as linhas teóricas ortodoxas do PCdoB, partido a que ele é filiado.



Escrito por blogdasciam às 16h34
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