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A natureza surpreendente de um cometa

 Por Ulisses Capozzoli

Os primeiros trabalhos científicos publicados na revista científica americana Science, com base em dados coletados na superfície do cometa 67P/Churymov-Gerasimenko pela missão Rosetta, dão uma ideia completamente distinta da que seria de se esperar de uma dessas montanhas voadoras do Sistema Solar.

Mas, seguramente, ainda é cedo para uma definição mais clara do que é exatamente um cometa, o que significa dizer que outros membros dessa controvertida família do zoológico cósmico podem apresentar natureza distinta.

E isso, longe de simplificar as coisas, revela toda uma complexidade, algo frequente em fenômenos e construções da Natureza.

Ainda assim, a baixa densidade do 67P/Churymov-Gerasimenko, por exemplo, não deixa de surpreender.

Cometas foram definidos pelo astrônomo americano Fred Whipple, no final dos anos 40, como “bolas de gelo sujas” por reunir poeira e gases em meio ao gelo formado por água e dióxido de carbono.

Mas no imaginário popular, e mesmo numa concepção científica mais geral, é como se fossem objetos mais densos, com coesão interna mais intensa, apesar do fraco campo gravitacional de que dispõem, resultado de suas massas comparativamente reduzidas.

O 67P/Churymov-Gerasimenko lembra uma rolha cósmica, o que equivale a dizer que flutuaria numa piscina olímpica cósmica, ainda que não seja necessariamente original quanto a essa característica.

Saturno, por exemplo, o senhor dos anéis no Sistema Solar, com densidade média inferior à da água (1g/cm³) também flutuaria na piscina em que o 67P/Churymov-Gerasimenko fosse atirado.

Mas e os asteróides, em alguns casos cometas supostamente despidos de seu envoltório volátil?

Asteróides também teriam as mesmas características sugeridas pelo 67P/Churymov-Gerasimenko?

O mais razoável, também para os asteróides, é esperar por uma variedade de composição e natureza.

Até porque as investigações in loco, como faz a missão Rosetta, está em seu alvorecer.

Reconhecer em detalhes mais apurados composição, densidade, estrutura e outros dados relativos a cometas e asteróides não é importante apenas na coleta de dados para uma narrativa envolvendo a formação e desenvolvimento do Sistema Solar.

Conhecer a natureza íntima desses corpos é de fundamental importância para a criação de um sistema de defesa para a repulsão desses astros que, em mais ou menos tempo, se revelarão em rota de colisão com a Terra. Como aconteceu tantas vezes no passado.

Ocorre que, mesmo depois da presença humana na Terra ‒  em datas como 25 mil a 50 mil anos, quando supostamente se chocou com o planeta o bólido que deu origem à Cratera Barringer, no Arizona ‒ a densidade demográfica era insignificante em comparação com a atual.

O impacto de um bólido neste momento, no caso de ocorrer em uma área densamente urbanizada, provocaria um desastre de dimensões inéditas, superando sismos, tsunamis e detonação de artefatos nucleares, dependendo da massa do corpo impactante.

A missão Rosetta já indicou também que a água detectada no corpo do 67P/Churymov-Gerasimenko é diferente da que existe na Terra em termos físico-químicos (a partir de isótopos de hidrogênio e oxigênio).

Mas como previnem especialistas como Enos Picazzio, do Instituto Astronômico Geofísico e de Ciências Atmosféricas (IAG-USP), a água dos cometas não é única, ou seja, a mesma para todos eles.

Outra constatação feita pela missão Rosetta e exposta nos trabalhos publicados pela Science mostra o 67P/Churymov-Gerasimenko coberto por material orgânico, ou seja, à base de carbono, o que não significa, necessariamente, formas de vidas, mesmo muito  primitivas.

Mas não deixa de ser tentador pensar que cometas possam ser vetores de formas de vida viajando pelas vastidões do espaço para pousar e se desenvolver como sementes em ambientes propícios à vida, como supôs no início do século 19 o físico-químico e Prêmio Nobel sueco Svante Arrhernius (1859-1927), pai da panspermia.

Conhecer a origem e evolução da vida na Terra é um dos grandes desafios da ciência.

E embora as respostas para essas questões possam estar ainda distante, o avanço da astronomia planetária sugere que muitos outros mundos, além da Terra, sejam abrigos para a vida, confirmando as hipóteses que custaram a vida, na fogueira da Inquisição, ao filósofo-astrônomo italiano Giordano Bruno.

Conhecer a natureza íntima de cometas e asteróides, ainda que eles possam parecer astros sem importância, comparados a quasares, buracos negros, estrelas de nêutrons e outras criaturas exóticas do zoológico cósmico, é de fundamental importância.

Eventualmente, o progressista papa Francisco, possa, a partir da detecção de vida fora da vida, pedir perdão a Bruno, da mesma forma que João Paulo II fez em relação a Galileu, pelas evidências da ciência que ele produziu.

Em particular em relação aos movimentos da Terra que o confinou à prisão doméstica em uma época de obscurantismo quase absoluto.



Escrito por blogdasciam às 16h35
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