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Um Mundo Melhor que a Terra?

Por Ulisses Capozzoli

A ideia de buscar um mundo melhor que a Terra, entre as estimadas 200 bilhões de estrelas da Via Láctea ˗˗ como sugeriu o matemático alemão Gottfried Leibniz, em 1710 ˗˗ pode não ser improcedente, mas tem algo de insensato.

Esse assunto é tema de capa da edição mensal de Scientific American Brasil que está nas bancas.

À época de Leibniz não se pensava que uma civilização tecnológica como a nossa ˗˗ na verdade, no início do século 18 a tecnologia disponível ainda estava no futuro ˗˗ vivesse perto de 1 milhão de anos, como estimado agora.

Mas isso também, a idade de uma civilização tecnológica, são estimativas, um mero tateio em meio a possibilidades longe de inteiramente conhecidas.

Uma mudança climática mais radical como, por exemplo, a sugerida pelo criador da Teoria Gaia, o físico-químico inglês James Lovelock, colocaria as coisas de pernas para o ar. A ficção ocuparia o espaço da realidade e a realidade se projetaria como pura ficção.

Esse é um raciocínio que parece remoto e fora do contexto apenas pelo fato de não integrar, evidentemente, o cotidiano.

O dia a dia está repleto do que se pode chamar de “anomalias” ˗˗  palavra para representar um amplo conjunto de ocorrências exóticas e inexplicáveis de imediato. Para se dar conta disso é preciso olhos de um atento observador e, num mundo de homens apressados ˗˗ para tomar de empréstimo a expressão criada pelo geógrafo Milton Santos ˗˗ é quase uma impossibilidade.

Então, qual o sentido da busca por um mundo melhor que a Terra?

Astrônomos planetários, como o caso de René Heller, autor do artigo de capa da edição deste mês, têm, digamos, obrigação científica e mesmo cidadã de explorar as vastidões galácticas em busca de mundos iguais ou até melhores que o nosso.

Melhores, em certo sentido, e não em sentido amplo. Afinal, o que pode ser melhor que a Terra? Um mundo em órbita de uma estrela de menor massa que o Sol e que, assim, teria expectativa de vida mais alongada?

Mas, e se uma civilização tecnológica de fato não ultrapassar 1 milhão de anos, um piscar de olhos cósmicos, como considera o radioastrônomo também inglês, Martin Rees em Our Final Hour?

O fato sensível e verificável é que viajamos no corpo do que Lovelock chama de uma nave viva, executando, simultaneamente, centenas de movimentos ainda que para os sentidos convencionais pareça estarmos imóveis sob um teto fixo de estrelas.

Como tratamos a Terra, nossa casa cósmica?

Um levantamento de como os mais de 7 bilhões de moradores da Terra ˗˗ os humanos, com quem é possível alguma comunicação ˗˗ interpretam o planeta em que vivemos, seguramente revelaria uma imagem calamitosa.

Caso contrário, como justificar taxas de extinção animal e vegetal em escala sem precedentes motivadas por ações antrópicas?

Baleias e elefantes, sequoias e jequitibás ˗˗ moradores do planeta com quem não se pode partilhar, por exemplo, o lixo crescente que prolifera na mídia social e convencional ˗˗ estão entre as vítimas da devastação.

Da mesma forma que velhos, crianças e adultos, aturdidos por guerras sem fim, na Síria, Palestina e inúmeros pontos da Terra encharcados de sangue.

O Grande Depósito de Lixo do Pacífico, segundo os dados mais recentes, uma extensão do que já foi chamado de águas azuis, soma 680 mil km² de acúmulo de lixo, em particular de plástico flutuante ˗˗ área equivalente à dos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espirito Santo juntos ˗˗ e não para de crescer.

Assim, ainda que integre as preocupações de astrônomos planetários a identificação de um mundo potencialmente melhor que a Terra, essa é uma tarefa esvaziada de sentido se for levado em conta a maneira como tratamos a Terra, nosso belo e maltratado mundo de origem.



Escrito por blogdasciam às 15h10
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