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O destino (enigmático) dos neandertais

Por Ulisses Capozzoli

Você se coloca frente ao espelho para se barbear e, numa experiência que pode durar frações de segundo, enxerga à sua frente um desconhecido, abrindo estreitas pistas de pele escanhoada em meio a uma camada de espuma, branca como a neve recém caída.

Um epifania que parece ter a duração do decaimento de uma partícula. Tão sumária que parece não ser real. Então, suspende por um par de segundos, o barbeador de cabo plástico, contrapartida das afiadas navalhas de aço do passado, e espera o tempo fluir.

Menos de uma colher de chá, na areia que escoaria de uma ampulheta. E tudo volta à normalidade.

Quem é o estranho que emergiu do fundo do espelho, como um recém-chegado de outra dimensão?

Quase sempre subestimamos experiências como essa, de pura epifania, termo que, numa acepção filosófica, refere-se a uma súbita sensação de entendimento da essência de alguma coisa que desconhecemos. Talvez o encaixe momentâneo de um quebra-cabeças, que se desfaz no tempo que uma partícula leva para viajar do fundo à superfície do espelho, supondo que um espelho tenha espessura, o que não é verdade.

Abordar, por exemplo, a porção neandertal que trazemos, talvez nem todos, de alguma maneira remete a experiências como o paradoxo de enxergarmos um outro no fundo do espelho quando, na realidade, quem está ali é aquele que, no cotidiano, reconhecemos como cada um de nós.       

Ainda assim, antropólogos e outros buscadores da história profunda dos humanos, percorrem antigos aldeamentos, aglomerações que remetem a proto-cidades e abrigos primitivos que reuniram grupos familiares em busca de um crânio esfacelado, o que sobrou de uma arcada, uma sequência de falanges, uma tíbia. Com alguma sorte, restos mais completos de um neandertal. E objetos tão úteis quanto uma faca, ou decorativos e artísticos como a beleza de um colar.

Objetos de sobrevivência e expressão artística, manifestações típicas de humanos, dão pistas vagas e fascinantes sobre esse desaparecimento.

A caverna de Gorham, no Estreito de Gibraltar, a lâmina d’água do Mediterrâneo que separa a Europa da África, no Sul da Espanha, é um sítio privilegiado para essas buscas.

Na caverna, nas proximidades dela e por toda a extensão de uma área mais ampla, um enorme grupo de neandertais viveu por milhares de anos, voltado para as exigências do cotidiano: caça, pesca, abrigo contra intempéries e confecções dos objetos práticos e de arte, como a decoração do piso da caverna.

Em essência, quando os antropólogos investigam locais como esse, o que procuram descobrir, é a razão do desaparecimento desses antigos moradores, como se tivessem sido engolidos pela boca do tempo.

E o mistério desse desaparecimento é mais profundo que o ocaso dos dinossauros, justificado pelo impacto de um bólido cósmico.

Durante muito tempo os neandertais foram concebidos como criaturas desajeitadas, extintas por sua própria capacidade de acompanhar o ritmo das mudanças, entre elas a presença dos “humanos modernos”.

Agora, no entanto, cada vez mais pesquisas sugerem que eles não sofreram dessas limitações, o que significa dizer que fatores não relacionados à inteligência puseram fim às suas vidas e permitiram o triunfo isolado do que elegemos como Homo sapiens.

Esta é, em essência, o conteúdo do artigo de capa da edição mensal de Scientific American Brasil que chega hoje às bancas de todo o país.

Entre outras abordagens, desta edição, apenas mais uma referência, para um relacionamento possível.

No momento em que se decidirem pela mineração de um buraco negro, a garganta profunda que devora toda matéria-energia que se aproxime dela, que imagem nossos descendentes remotos terão do que hoje somos nós?

À primeira vista, tudo sugere que seremos reconhecidos, como base em farta e ampla documentação.

Mas pode não ser assim.

Da mesma forma que não é, em relação aos neandertais.

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por blogdasciam às 15h33
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