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O caso da cachorrinha atirada ao rio

Por Ulisses Capozzoli

A cachorrinha atirada em um rio presa em um saco plástico na cidade de Santa Rita do Sapucaí, no sul de Minas Gerais (220 km de São Paulo), em 24 de fevereiro passado e salva pela intervenção de outra cachorrinha está longe de ser um fato isolado em relação aos padrões brutais de mau trato com animais.

A tentativa de matar o animalzinho com requintes de crueldade já seria o bastante para uma reflexão sobre a maneira como tratamos o cão “o melhor amigo do homem”.

A intervenção do segundo animal, no entanto, deixa o caso ainda mais dramático.

O caso da cachorrinha, batizada com o nome de “Regina”, depois de ser salva por uma operação que incluiu polícia, bombeiros e especialmente o presidente da Sociedade Protetora dos Animais de Santa Rita do Sapucaí, Rafael Ferrari começou de forma surpreendente.

Um casal de pescadores caminhava pela beira do rio quando uma cachorrinha, agora batizada de “Pretinha”, começou a latir desesperadamente. Ela se aproximava dos pescadores, latia, e corria em direção ao rio.

Intrigados, eles foram ver de que se tratava e tiveram dificuldade para localizar “Regina”, coberta de lama, incapaz de se livrar de sua prisão de plástico, forjada por um humano.

O casal chamou a polícia, que recorreu aos bombeiros e e eles pediram ajuda da sociedade local protetora dos animais.

Com certa dificuldade, “Regina” foi retirada do rio, levado a um abrigo onde tomou um banho e se revelou como uma cachorrinha malhada, de olhar meigo, ainda assustado, aparentemente sem compreender a aventura porque acabara de passar.

Enquanto era higienizada, não esboçou qualquer reação, não tentou morder, nem fez qualquer movimento brusco: estava prostrada, talvez pelo esforço de ter conseguido colocar a cabeça fora do saco plástico em que deveria ter sido sufocada.

A história da cachorrinha “Regina”, batizada com o nome da esposa do pescador responsável pelo pedido de socorro, sensibilizou a cidade e se espalhou pelas redes sociais. O que levou um humano a uma brutalidade injustificável?

Muitas respostas são possíveis numa situação como essa.

Ausência de compaixão

Uma delas está intimamente associada à ausência de um sentimento de compaixão, algo como uma solidariedade natural entre tudo o que vive: entre os humanos porque, por natureza intrínseca, somos criaturas sociais. Justamente por isso, falamos e partilhamos o espaço. Nenhum humano sobrevive (com características humanas) em completo isolamento.

Mas também por uma longa interação, entre humanos e animais, uma relação iniciada há milênios, em que os cães, ˗˗ então filhotes de lobos abandonados por adultos, ou abatidos por humanos ˗˗ devem ter sido os primeiros casos.

Cães e humanos partilharam de caçadas com benefícios comuns e certamente já tinham longa convivência quando passamos a domesticar animais como vacas, cavalos, ovelhas e mesmo gatos, além de uma diversidade de aves.

Tudo indica, no entanto, que os cães foram nossos primeiros amigos no enfrentamento das adversidades na Natureza. Daí terem desenvolvido a sofisticada comunicação que “Pretinha” exibiu, quando, desesperada, chamou o casal de pescadores, humanos sensíveis, para que liberassem “Regina” da armadilha mortal.

Uma pergunta que certamente faz sentido:

“Pretinha” encontrou “Regina” em dificuldades nas águas barrentas e ameaçadoras do rio, ou elas eram companheiras de perambulações pela cidade, buscando restos de alimentos aqui e ali, sobrevivendo com a solidariedade das antigas matilhas, sentimento que permaneceu enquanto a compaixão humana definha?

Independentemente de um primeiro contato, quando viu “Regina” nas águas barrentas, ou reconhecendo-a na armadilha de que não conseguia escapar, “Pretinha” exprimiu, com seu latido insistente e desesperado, um sentimento que parece faltar aos humanos nesse estágio da história. Quando nos distanciamos da Natureza, mas não encontramos segurança nem solidariedade entre os membros de nossa própria espécie.

No caso das cachorrinhas, desqualificadas talvez ainda mais por serem fêmeas e poderem procriar, a brutalidade foi amenizada pela adoção, de cada uma delas, feita por duas famílias: uma de Pouso Alegre e outro de Alfenas, vizinhas de Santa Rita de Sapucaí, no Sul de Minas.

A sumariedade do especismo

De alguma maneira, a história das duas cachorrinhas remete às considerações do filósofo australiano Peter Singer, sobre o sentimento de “especismo” que se apoderou do sentimento dos humanos.

Embrutecemos nossos sentimentos e nos consideramos a “espécie eleita”, aquela com direito a fazer o que desejar com as demais formas de vida, como se fôssemos os donos da Terra, ainda que, em termos de origem, sejamos apenas uns indesejáveis recém-chegados.

Há um embate, na sociedade humana contra o “machismo” e o “sexismo”. Mas quase nada é dito em relação ao “especismo”, o que resulta em brutalidades como as que atingiram a cachorrinha malhada no leito barrento do rio, mas também aflige animais torturados em festas de peão boiadeiro, caça-níqueis que nada têm de cultural, e que deveriam ser eliminados por ação do Ministério Público em todo o território nacional.

Na Espanha, as touradas, que Picasso interpretou como uma forma de arte, enfrentam resistência crescente e se um dia foram arte para Picasso não significa que, hoje, ele não pudesse voltar atrás e admitir que cometeu um erro enorme, justamente porque, talvez, ainda não tivesse se dado conta da devastação da brutalidade humana.

Algo que ele mesmo havia retratado em “Guernica” painel em que denunciou a brutalidade do bombardeio alemão sobre a cidade que dá nome à tela, com apoio do generalíssimo Francisco Franco.

O ditador conduziu a Espanha com mão de ferro por quase 40 anos e, em 1977, matou um anarquista com uso do garrote vil, instrumento legado pela inquisição, com nome que denota sua improcedência desumana.

Economistas terçam armas quanto aos rumos da economia, políticos tergiversam, numa atitude própria dessa espécie, analistas improvisados expõem suas conclusões sumárias em redes sociais e em cartas aos jornais (neste caso revelando comportamentos típicos de fermentações de sacristia).

Mas é possível que a base de todo o desarranjo esteja na falta de sensibilidade, ausência de humanidade, para ser sintético, de que a saga da cadelinha Regina é um exemplo perturbador.



Escrito por blogdasciam às 16h53
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