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Paradoxos da transgenia

Por Ulisses Capozzoli

A controvertida questão dos organismos geneticamente modificados, os transgênicos, voltaram ao noticiário no dia 5 passado, quando uma reunião da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNbio) foi invadida por manifestantes, ao mesmo tempo em que membros do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) destruíram canteiros de mudas experimentais da empresa FuturaGene, em Itapetininga, interior de São Paulo.

Na reunião do CTNbio, em Brasília, pesquisadores científicos analisavam processos em curso, incluindo uma nova variedade de eucalipto transgênico, a variedade H421 que, de acordo com pesquisadores envolvidos com o projeto, terá maior produtividade e uso amplo no segmento de madeiras.

Transgênicos são organismos, animais e vegetais que incorporam genes que antes não portavam e, assim, podem expressar um novo conjunto de características com um amplo espectro: de produção mais desejável e precoce a resistência contra determinadas doenças ou mesmo síntese de compostos com aplicação em variados setores da economia, e mesmo da saúde humana.

Com a invasão da reunião em Brasília e destruição das mudas no interior de São Paulo, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) liberou uma nota para a imprensa condenado as iniciativas, argumentando que elas “ferem o estado de direito e representam a expressão mais atrasada de posicionamento, baseadas em ideologias políticas ao arrepio do conhecimento científico”.

Por trás desses acontecimentos há uma longa história da ciência, com os paradoxos e contradições típicos de uma sociedade retardatária em produção científica, como é o caso do Brasil, onde a pesquisa começou apenas no século 19, mais especificamente a partir de 1808, com a chegada a corte portuguesa fugindo das invasões napoleônicas.

Neste sentido, o teor da nota da SBPC, embora compreensivelmente procedente, reflete impotência em sensibilizar para a perspectiva da ciência amplas camadas sociais, entre elas o exército formado de mil mulheres do MST que invadiu a sede da FuturaGene, em Itapetininga.

Referir-se a esses grupos como “expressão mais atrasada de posicionamentos baseados em ideologias políticas ao arrepio do conhecimento científico” de alguma maneira não deixa de ser um ato de discriminação indevido, ainda que isso não signifique, de forma alguma, concordância com atitudes e iniciativas assumidas por eles.

Impotência da ciência

O astrônomo e divulgador científico americano Carl Sagan (1934-1996) expressou como nenhum outro o sentimento de impotência da ciência em sensibilizar a sociedade para uma perspectiva mais promissora em seu livro O mundo assombrado pelos demônios - a ciência como uma vela na escuridão.

Neste seu livro mais amargurado (outros, como Pálido ponto azul, são repletos de esperança) Sagan escreveu que a impotência sensibilizadora de humanismo por parte da ciência abriu espaço para a exploração da humanidade pelo obscurantismo religioso, de que, neste momento, grupos, como o Estado Islâmico (EI) são a expressão mais acabada.

A criação da SPBC, uma espécie de circo ambulante para a divulgação da ciência, em 1948, inspirada em congêneres na Inglaterra e Estados Unidos, foi o passo seguinte à criação e consolidação da fundação da Universidade de São Paulo (USP), em 1934.

Figuras ativas na divulgação científica, como o professor José Reis, que por longo tempo escreveu uma coluna “Periscópio”, no jornal Folha de S. Paulo, foram membros de destaque na SBPC com o propósito de introduzir ciência no cotidiano da sociedade brasileira a partir da segunda metade do século passado.

Assim, a nota da SBPC, longe de surtir efeito prático, é quase uma confissão dessa impotência desalentadora quanto à perspectiva da ciência levar a um mundo como o idealizado pelo filósofo inglês Francis Bacon (1561-1626), em especial em Novum Organum, em que o conhecimento científico seria responsável por uma futura civilização mais igualitária e promissora.

O que fazer frente a uma situação como essa?

Justamente essa é a questão que deveria estar sendo considerada, em lugar de meras notas de protesto que, evidentemente se justificam, mas se enquadram numa situação crítica: necessárias mas insuficientes.

A transgenia adquiriu má fama por iniciativa de empresas multinacionais que, por exemplo, desenvolveram sementes com base nessa tecnologia e trataram de maximizar seus lucros em completo desacordo com uma produção tradicional, que comparativamente mudara pouco desde que foi inventada, há 12 mil anos, numa região do Oriente Médio conhecida como Crescente Fértil.

Pode-se argumentar que a mecanização agrícola, e em especial da chamada revolução verde de meados do século passado, revolucionaram a agricultura. O fato, no entanto, é que essa revolução depende de um contexto comparativo, mais especificamente das situações levadas em conta para se chegar a uma conclusão como esta.

A transgenia, ao manipular a expressão genética de uma planta ou animal, de certa maneira rompeu com a história de longa domesticação de plantas e animais desde que os primeiros agricultores começaram a lavrar a terra, com toscas ferramentas de ossos e madeira.

Enquanto prática, pode se dizer que a transgenia tem tanto méritos como pode representar certos riscos, em casos mais específicos. Mas não pode, de forma alguma, ser demonizada e uma visão como esta não é específica de parcelas sociais mais carentes do ponto de vista intelectual.

A transgenia é fundamental para a produção de alimentos, regeneração de áreas destruídas por atividades de brutalização ambiental e não deixa de ser a continuidade da longa história de domesticação de plantas e animais que nos leva aos primórdios da fundação da agricultura.

Assim, qualquer iniciativa (se uma delas manifestar-se a qualquer momento, para combater o que se considera barbárie de grupos postos à margem das belezas e promessas da ciência), deve merecer uma reflexão mais profunda, além da simples condenação. 

 

 

 

 

 



Escrito por blogdasciam às 18h03
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